2 Co 4:17 Porque o nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de gloria;

 

«...Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação...» A passagem de Rm 8:19,20 encerra uma mensagem essencialmente igual a esta. Uma vez mais a aflição é vista transmutada em glória eterna, tal como no versículo anterior. A aflição pode ser grande e pesada, de conformidade com os padrões terrenos; mas, na realidade, é leve, quando comparada com o seu verdadeiro e eterno peso de glória. Quando as duas coisas são postas na balança (método de Paulo de fazer a comparação aqui), então a glória pesa muitíssimo, ao passo que a aflição se transforma em quase nada. As aflições têm a sua própria utilidade, e isso é comentado de modo completo em At 14:22, sob o título de «resultados benéficos da perseguição e do sofrimento». De fato, de acordo com as implicações do décimo sexto versículo, as próprias aflições do corpo em decadência produzem ou provocam a renovação do espírito. As aflições, quando espiritualmente consideradas, e do ponto de vista do crente maduro, são leves e momentâneas, ao passo que a glória que se seguirá será maciça e imorredoura. Desastres e calamidades, considerados fora do contexto espiritual, podem ser expandidos para nós quanto à impressão causada, de modo a ocultarem da consideração a tudo o mais, tal como a fotografia de um objeto à pequena distância pode ocupar todo o tamanho do quadro. Todavia, uma perspectiva melhor pode reduzir as dimensões do objeto fotografado. Quando os acontecimentos são encarados do ponto de vista da eternidade, até mesmo os desastres mais aflitivos serão vistos como as linhas e pequenos golpes deixados pelo cinzel na estátua, que em nada diminuem de sua beleza. As perdas, sentidas tão incisivamente por nós, serão vistas somente como fragmentos de rocha desnecessários, cuja própria ausência dará à obra de arte a sua beleza.

 

Acima de tudo, finalmente perceberemos desígnio em todas as dores e vicissitudes da vida, conforme Robert Louis Stevenson relata sobre a sua própria vida passada: «Os gemidos e pensamentos de minha juventude me perseguem; e vejo, tal como uma visão, a juventude de meu pai, bem como de meu avô, e a corrente inteira da vida, fluindo lá bem longe, pelo norte, com o som do riso e das lágrimas, lançando-me no fim, como que por uma súbita força, sobre essas ilhas finais. E quedo-me admirado e inclino a cabeça perante o romance do destino».

 

Paulo foi capaz de perceber ainda com maior profundidade que esse autor, porquanto pode ver o drama inteiro da providência de Deus. E ali ele pode ver as dores, os desastres e as tragédias dos homens, considerados segundo a sua correta perspectiva, com relação ao plano eterno. No segundo plano podia ele ver trono de Deus, bem como seus propósitos graciosos em Cristo. Ele via a autoridade e o poder de Deus, operando por intermédio de Cristo, e ele viu que a vitória emergia dentre a labuta e as lágrimas da vida. Ele via «...a riqueza da glória da sua herança nos santos...» (Ef 1:18), bem como as riquezas da herança dos santos em Cristo (ver Rm 8:17). Até mesmo Jesus, pleno de fé e coragem, suportou o que suportou porque olhou para diante, para a glória, segundo se vê em Hb 12:2.

 

Disse Péricles em um de seus famosos discursos: «O esplendor imediato de grandes ações e sua glória subseqüente, permanecem de um modo que ninguém pode esquecer». Há certa verdade nessas palavras, se as aplicarmos à vida que temos em Cristo. Existe uma «glória subseqüente» para aquele que serve a Cristo com sinceridade, ainda que as suas ações não possam ser classificadas como «grandes». Pode-se igualmente comparar o Apocalipse de Baruque 15:7,8, que diz: «No tocante ao que disseste relativamente aos justos, que por causa deles este mundo veio a existir; mais ainda, por causa deles é que existirá o mundo vindouro. Pois este mundo é para eles uma perturbação e exaustão, com muito labor; e aquele mundo vindouro será uma coroa com grande glória». (Os trechos de Apocalipse de Baruque 21:24; 48:50; 51:14 expressam sentimentos similares).

 

«...produz para nós...» O grego poderia ser traduzido aqui como «Opera para nós mais e mais, além das medidas». Podemos compreender a agonia dos sofrimentos; mas a glória vindoura, quando houvermos de compartilhar da imagem de Cristo, em sua natureza moral e metafísica, bem como em sua divindade (ver II Pe 1:4), é algo revestido de tanta glória que suas operações ultrapassam qualquer medida que lhe queiramos aplicar.

 

«...eterno peso...» A Balança Divina: Como é que ela pesa? Essa glória é pesada e eterna; em contraste, as aflições são superficiais e temporárias, embora tenham um propósito. E esse propósito consiste em atingirmos o eterno peso de glória. Esse é «um» dos fatores dessa realização. Paulo fala em termos absolutos; mas sabemos, por meio de outras passagens bíblicas, que existem muitos fatores que contribuem para tal realização. A «escala» de avaliação verdadeira mostra-nos as relações comparativas entre as aflições e a glória. A glória é pesada, a aflição é leve, segundo uma autêntica avaliação das coisas. E verdade que é extremamente difícil percebermos isso quando as aflições são profundas e amargas contra nós. Porém, nessa própria gravidade e amargura, podemos contemplar a imensa grandiosida­de e doçura da glória, porquanto esta deverá exceder em muitíssimo àquelas, no tocante à sua intensidade e permanência.

 

«...glória...» Está em foco a participação na glória de Cristo, conforme lemos em II Co 3:18 e 4:4. A beleza de sua natureza moral e metafísica, bem como a substância da mesma, nos pertencem. Ser tudo quanto Cristo é, e participar em tudo quanto ele possui é o que está aqui em foco. Essa glória é a mesma glória possuída por Deus, conforme vemos em II Co 4:15, e que foi conferida a Cristo na qualidade de cabeça federal da raça redimida, e, em seguida, está sendo conferida aos demais filhos de Deus.

 

«Esta é uma das declarações mais enfáticas, em todos os escritos do apóstolo Paulo, na qual ele fala quase tanto como orador quanto o faz como apóstolo. A superficialidade das provas é expressa por 'a nossa leve e momentânea tribulação', como se ele tivesse dito que tudo é leve, em tal confronto. Por outro lado... (as palavras) 'acima de toda comparação' são infinitamente enfáticas, não podendo ser perfeitamente expressas na tradução. Significa que todas as hipérboles ficam aquém da descrição daquele peso eterno de glória, tão sólido e duradouro, que se pode passar de hipérbole para hipérbole que, ao chegarmos à última, ainda estaremos infinitamente aquém. Por toda parte é visível a influência hebraica sobre o grego do apóstolo Paulo: '...cabad' significa tanto 'ser pesado' como 'ser glorioso'. No grego que usa, Paulo une esses dois significados e diz 'peso de glória'». (Blackwall, in loc).

 

«O apóstolo faz oposição de coisas presentes a coisas futuras; um momento à eternidade; a leveza ao peso; a aflição à glória. E não fica satisfeito com isso, mas acrescenta ainda uma outra palavra, e a duplica dizendo 'acima de toda comparação' (no original grego, a tradução literal seria 'de excesso a excesso', de 'sem medida a sem medida'). Trata-se de uma magnitude excessivamente profunda, (Crisóstomo, in loc).

 

«...acima de toda comparação...» Literalmente traduzida essa frase, teríamos «de excesso a excesso», «de sem medida para sem medida», de «excessivamente para excessivamente». O vocábulo grego aqui usado é «uperbole», da qual palavra se deriva nosso vocábulo gramatical «hipérbole». Transliterada essa frase, teríamos «de hipérbole para hipérbole». A glória ultrapassa às aflições acima de qualquer coisa que possamos aquilatar ou comparar.

 

Bibliografia R. N. Champlin