Lição 12

 

18 de Dezembro 2005

 

A parábola do juiz iníquo

 

TEXTO ÁUREO

 

"Responde-me quando clamo, ó Deus da minha justiça: na angústia, me tens aliviado: tem misericórdia de mim e ouve a minha oração". SI 4.1

 

VERDADE APLICADA

 

O covarde nunca tenta, o fracassado nunca termina e o vencedor nunca desiste.

 

OBJETIVOS DA LIÇÃO

 

• Enfatizar que a prática da oração é uma das evi­dências da conversão;

 

• Alertar que a negligên­cia à oração nos torna vulneráveis à tentação;

 

• Compreender que o cris­tianismo autêntico flores­ce na prática da oração.

Ajuda 1

Ajuda 2

 

 

O JUIZ E A VIÚVA (Lucas 18:1-8)

 

Como em muitas das parábolas, aqui também uma historieta enganosamente simples esconde uma série complexa de temas teológicos e problemas de interpretação. No entanto, esperamos que uma observação minuciosa dos ante­cedentes literários, da forma retórica, e da cultura, nos ajudem a desvendar pe­lo menos alguns dos segredos desta estória que se assemelha a um tesouro transbordante.

 

Aqui na parábola do Juiz e a Viúva, encontramos antecedentes literários claramente identificáveis. Como observamos na parábola da Figueira Estéril, uma comparação cuidadosa entre a parábola na boca de Jesus, e o seu protótipo, é uma precaução importantíssima a ser tomada. Fazendo-o, somos capazes de verificar o que ele tomou emprestado, o que ele transformou, e, o que é de igual importância, o que ele deixou de lado. Neste caso, o nosso protótipo é Ben Sirach. O texto em questão é o seguinte:

 

Não desprezará os rogos do órfão,

nem a viúva que lhe fala com os seus gemidos.

Nao correm as lágrimas à viúva pelas suas faces,

e não clama ela contra aquele que lhas faz derramar?

Porque elas das faces (da viúva) sobem até o céu,

e o Senhor, que a ouve, não gostará de a ver chorar.

Aquele que adora a Deus com alegria, será por ele amparado,

e a sua prece chegará até às nuvens.

A oração do que se humilha penetrará as nuvens,

e não se consolará enquanto ela se não aproximar (de Deus)

e não se retirará até que o Altíssimo ponha nele os olhos.

 

E o Senhor não diferirá por muito tempo,

mas tomará a defesa dos justos, e lhes fará justiça;

E o Fortíssimo não usará mais de paciência (com os opressores),

mas quebrantará o seu espinhaço; e vingar-se-á das nações.

 

(Eclesiástico 35:17-23a)

(Bíblia versão Matos Soares)

 

Os pontos de semelhança e diferença são muitos e importantes. Eles pre­cisam ser examinados em três categorias: pontos de semelhança completa, pon­tos de semelhança (mas com uma diferença) e pontos de completa diferença.

 

PONTOS DE COMPLETA SEMELHANÇA

 

1.         Em cada um dos textos, inicia-se com o tópico de oração em geral. Em seguida, depois de uma ilustração, cada texto passa a discutir o tópico específico da justiça para os retos, em face da opressão.

 

2.         Ambos os textos usam o princípio rabínico de "do mais leve para o mais pesado" (de uma ilustração "leve" da vida diária para uma apli­cação "pesada.")

 

 

PONTOS DE SEMELHANÇA (MAS COM UMA DIFERENÇA)

 

1.         A figura básica de uma viúva clamando por ajuda é semelhante em ambas as ilustrações. (No entanto, a natureza repetitiva dos atos da viúva na parábola de Jesus é mais proeminente. Diferentemente de Jesus, Ben Sirach passa a falar do homem humilde persistente que não será consolado enquanto não obtiver resposta. Isto é, Jesus enfa­tiza mais a persistência, e Ben Sirach passa a falar de uma figura mas­culina.)

 

2.         A paciência de Deus é mencionada em ambos os textos. (Contudo Ben Sirach diz que Deus não é paciente para com os opressores, Como veremos, Jesus afirma que Deus e paciente para com os piedosos.)

 

3.         Ambos os sexos discutem a justificação dos justos. (No entanto, em Sirach, Deus age de duas maneiras. Ele executa justiça para os retos, e vingança contra os ímpios. Na parábola de Jesus o segundo aspecto é omitido.)

 

4.         Cada um dos textos tem uma ilustração concreta: uma viúva. (Todavia, Jesus usa essa ilustração mais profundamente, ampliando-a, até ser uma parábola completa.)

 

PONTOS DE TOTAL DIFERENÇA

 

1.         Em Sirach, a forma de serem ouvidas as orações é prestar serviço que seja "agradável ao Senhor." Tal pessoa é aceita e as suas orações alcan­çam as nuvens. Nada dessa teologia de "Deus te ouve se O serves" se expressa na parábola de Jesus.

 

2.         A figura do juiz injusto é uma característica nova e dramática da pa­rábola de Jesus. Ela é ousada e arriscada. Uma personagem negativa simbolicamente representa Deus. Portanto, este fato empresta um gume mais afiado ao princípio de interpretação "do mais leve para o mais pesado."

 

Desta forma, é óbvio que foi usada parte do material de Ben Sirach, par­te foi transformada, e parte foi omitida. As semelhanças são tão numerosas que subentendemos, com Montefiore, que foi feito um empréstimo consciente. Estes pontos de semelhança e diferença serão examinados minuciosamente, à medida que prosseguirmos.

 

O tópico da parábola do Juiz e a Viúva e da parábola que se segue, obvia­mente está relacionado com oração. Os paralelos íntimos com Lucas 11:5-8 têm sido notados freqüentemente. A seção central de Lucas tem um esboço que coloca Lucas 11:1-13 em posição paralela a 18:1-14. No primeiro caso há três unidades de tradição acerca do assunto de oração; no segundo, há duas. Ao mesmo tempo as passagens se relacionam com a ques­tão da vinda do Filho do homem, e desta forma, à passagem anterior, 17:22-37. Esta última relação é reforçada pela introdução de Lucas em 18:1 e pela conclusão feita por ele em 8b. Assim, dois temas são interligados na passagem: o tópico da oração e o da iminência/demora da parusia. De fato, como obser­varemos, cada uma dessas duas passagens (18:1-8, 9-14) tem uma maneira espe­cial de abordar o assunto da oração.

 

A questão da autenticidade da passagem que estamos estudando é impor­tante demais para ser ignorada. Esta passagem se divide em três seções. Primei­ro vem a introdução do evangelista (v. 1); segundo, a parábola propriamente dita (vv. 2-5), e finalmente, a aplicação dominical da parábola (vv. 6-8). É cla­ro que a introdução é obra de Lucas ou de sua fonte, e não faz parte da parábo­la. Significativamente, a parábola seguinte (18:9-14) também começa com a in­trodução do evangelista que, como veremos, também é de que estas introdu­ções precisam ser consideradas seriamente, como indicações importantes do significado original das parábolas respectivas. Bultmann colocou esta parábo­la em uma relação de parábolas para as quais o significado original está irre­mediavelmente perdido (Bultmann, History, 199). No entanto, se levamos a sério os antecedentes literários constituídos pelo texto de Ben Sirach e a intro­dução do evangelista, temos evidências da intenção original desta parábola.

 

Com relação à parábola e, em particular, à aplicação dominical que se en­contra no fim dela, as opiniões estão francamente divididas. Linnemann argu­menta que ambas são secundárias (Linnemann, 187s.). Jeremias apresenta ponderosos argumentos lingüísticos em favor da autenticidade de ambas (Je­remias, Parables, 154-56; cf. Marshall, 669-771). Kümmel encontra caracterís­ticas específicas que marcam a aplicação dominical como original, e argumenta que ela é "de forma alguma uma re-interpretação, visto que a parábola, como metáfora, pode ter uma aplicação particular, tanto quanto genérica" (Kümmel, 59). O argumento principal de Kümmel é que o texto fala da salvação de Deus vindo rapidamente, e que esta ênfase era forte dentre os ensinamentos de Jesus (Ibid., 54).

 

No protótipo desta parábola (encontrado em Eclesiástico) notamos uma aplicação da figura da viúva que chora, à oração em geral, que então, no fim da parábola, deu lugar a uma discussão específica a respeito da intervenção de Deus em favor da comunidade dos fiéis. O mesmo movimento ocorre aqui. Marshall observa um paralelo histórico mais íntimo:

 

De fato, temos uma estrutura semelhante a essa na parábola do filho pródigo, onde uma estória, cuja personagem principal parece ser o pai, e cujo interesse central é retratar o caráter de Deus, acaba tendo um "fer­rão na cauda," ao apresentar o quadro do irmão mais velho, e pergunta ao auditório se vai agir como ele. Assim também aqui, depois de retratar o caráter de Deus, a parábola volta-se para uma aplicação em relação aos discípulos, e pergunta se eles demonstrarão uma fé tão persistente como a importunação da viúva (Marshall, 670s.).

 

Assim, dos pontos de vista lingüístico, teológico e literário, há importan­tes razões para afirmarmos que tanto a parábola como a aplicação dominical são autenticamente provenientes de Jesus.

 

INTRODUÇÃO

 

E ele lhes estava contando uma parábola sobre o dever de sempre orar e não desanimar/ter medo.

 

Subentende-se, mediante o texto, que o auditório era composto de discí­pulos (17:22). A parábola seguinte (18:9-14) é dirigida aos que têm um espíri­to de justiça própria, como alguns fariseus. No material didático paralelo a res­peito de oração (Lc 11:1-13) podemos observar mudança idêntica. Ali, o ma­terial inicial é pronunciado para os discípulos (11:1-8), e a parábola/poema acerca dos Dons do Pai (vv. 9-13) é mais provavelmente dirigida aos fariseus.

 

A introdução reforça o tema genérico de persistência em oração. Ao mes­mo tempo, a aplicação específica no fim da parábola já é aludida nesta introdu­ção. Os fiéis devem ser persistentes na oração não apenas em relação à interven­ção decisiva de Deus na história, mas eles devem buscá-lo sempre que Ele pare­cer distante e a confiança dos crentes vacilar. A solução para o medo é a oração. Em Macbeth, famosa peça de Shakespeare, Macbeth tem medo de que os seus planos falhem. A sua esposa tenta fortalecer o seu ânimo, com a recomendação: "Mas prenda a sua coragem no lugar certo, e assim não falharemos!" (ato 1, ce­na 7). Macbeth segue essa recomendação, mas assim mesmo os seus planos gran­diosos se desintegram, ocasionando tragédia para si mesmo e para todos os que estão ao seu redor. Aqui, uma piedade simples expressa em uma oração con­fiante é recomendada como solução para o medo que rouba ao crente a sua tran­qüilidade, e assim ele suportará tudo. Jesus e o seu pequeno grupo de seguido­res enfrentaram rejeição e hostilidade intensificadas de todos os lados. Certa­mente esta introdução/interpretação generalizada da parábola pode ser conside­rada como autêntica em relação à situação que Jesus enfrentava, bem como uma introdução apropriada à parábola em estágio posterior da vida da igreja primitiva.

 

A PARÁBOLA

 

A primeira estrofe fala do juiz, e a segunda da viúva. A terceira volta ao juiz (com os mesmos temas), e a quarta em seguida volta à viúva. Os três temas JUIZ-DEUS-HOMEM da estrofe número um são repetidos na mesma ordem na terceira estrofe. As estrofes números dois e quatro, a respeito da viúva, apre­sentam os mesmos temas, mas na última estrofe a ordem é invertida. Não tem sentido cometer mais um ato precipitado metri causa e sugerir que a última estrofe pode ter tido o mesmo tema de justificação/vindicação no fim (como a estrofe número três). Este pode ser o caso; se assim não fosse, originalmente a linguagem não deveria estar tão precisamente alinhada (como em muitos casos de paralelismo nos Salmos). Não obstante, as estrofes estão intactas, sem quais­quer detalhes extra interpretativos. Cada tema tem uma linha correspondente, e o efeito geral é simétrica e artisticamente satisfatório.

 

1.         Certo juiz havia em certa cidade       JUIZ

A Deus ele não temias       DEUS

e a homem ele não respeitava           HOMEM

 

2.             E uma viúva havia naquela cidade   VIÚVA

e ela vinha a ele   VINHA

dizendo: "Vinga-me do meu adversário."       VINGAR

 

3.             Ele não quis fazê-lo por (certo) tempo.           JUIZ

Depois disse para si mesmo: "Embora eu não tema a Deus        DEUS

e não respeite a homem,     HOMEM,

 

4.             no entanto, porque ela me importuna, esta viúva,        VIÚVA

vou vingá-la         VINGAR

para que mediante a sua vinda constante      VINDA

ela me moleste."

 

ESTROFE UM - O JUIZ PAGÃO

 

Certo juiz havia em certa cidade JUIZ

A Deus ele não temia DEUS

e a homem ele não respeitava. HOMEM

 

Em II Crônicas 19:4-6 Josafá escolhe juizes para a terra e lhes diz:

 

... Vede o que fazeis, porque não julgais da parte do homem, e sim, da par­te do Senhor, e no julgardes ele está convosco. Agora, pois, seja o temor do Senhor convosco; tomai cuidado, e fazei-o; porque não há no Senhor nosso Deus injustiça, nem parcialidade, nem aceita ele suborno.

 

Estas admoestações são sempre necessárias em qualquer sociedade, e o An­tigo Testamento continua procurando estabelecer justiça às portas. Amos, em particular, ficou irado com a corrupção dos juizes (Am 2:6-7; 5:10-13). Na época neo-testamentária o mesmo problema veio à tona. Edersheim (Life, II, 287) descreve os juizes da cidade de Jerusalém, costumeiramente tão corruptos, que eram chamados de Dayyaney Gezeloth (Ladrões-Juízes) e não Dayyaney Gezeroth (Juizes de Proibições), que era o seu verdadeiro titulo. O talmude fa­la de juizes de aldeia que estavam dispostos a perverter a justiça por um prato de comida (B. T. Baba Kamma 114a). Numa perversão das diretrizes estabele­cidas por Josafá o juiz da nossa parábola não se importa nem com o homem nem com Deus. Plummer indica que a palavra freqüentemente traduzida como "respeitava" (entripõ) também pode significar "inferiorizar-se, ter um senti­mento de reverência" (Plummer, 412). A forma ativa deste verbo é "envergo­nhar" e a ativa é "ser envergonhado" ou "ter respeito por" (Bauer, 269). Porém, começando com a versão Siríaca Antiga, passando por todas as outras versões sírias e árabes durante mais mil anos, a única tradução que temos aqui no Oriente Médio é: "Ele não é envergonhado diante das pessoas." Um impor­tantíssimo aspecto da descrição do juiz é, desta forma, menos prezado, quando lemos as nossas traduções ocidentais com sua tradição de "respeitar." A idéia é que a cultura tradicional do Oriente Médio é uma cultura de orgulho e vergo­nha em um grau significativo. Ou seja, um padrão especial de comportamento social é encorajado mediante apelos à vergonha do sujeito envolvido. Os pais não dizem aos filhos: "Isto é errado, Carlinhos" (com um apelo a um padrão abstrato do que é certo e errado) mas "Isto é vergonhoso, Carlinhos" (um ape­lo ao que estimula sentimentos de vergonha ou sentimentos de orgulho). Numa sociedade assim o vocabulário que cerca o conceito de vergonha é muito impor­tante. Uma das críticas mais agudas que se pode fazer a um adulto numa aldeia do Oriente Médio, hoje em dia, é jikhtashi ("ele não tem vergo­nha"). A idéia é que tal pessoa faz uma coisa vergonhosa; você lhe diz: "Que vergonha," mas ela não se sente envergonhada. O seu senso interior do que constitui um bom ato e do que é vergonhoso inexiste. Ela não consegue enver­gonhar-se.

 

A este respeito estamos tratando de outro caso em que atitudes muito an­tigas têm expressão. Jeremias, o profeta, teve o mesmo problema. Ele diz que "os sábios serão envergonhados" (Jr 8:9), mas com relação aos profetas e sa­cerdotes ele escreve:

 

Serão envergonhados porque cometem abominação, sem sentir por isso vergonha;

 

O texto hebraico usa duas palavras fortes que são traduzidas como "ver­gonha" (bwsh, klm) e fala precisamente do problema enfrentado com o juiz. Nada o envergonha. Não há nenhuma fagulha de honra em sua alma, para a qual se possa apelar.

 

O problema desse juiz não é que ele não "respeita" outras pessoas no sen­tido de respeitar alguém de cultura ou de posição elevada. Ao contrário, é um caso de incapacidade de sentir a maldade de suas ações na presença de alguém que possa fazê-lo ficar envergonhado. Neste caso ele está ferindo uma viúva de­samparada. Ele devia sentir-se envergonhado. Mas o mundo inteiro pode gritar: "Que vergonha!" mas isto não causará nenhuma impressão sobre ele. Ele não sente vergonha diante dos homens. Temos exatamente o mesmo conceito e a mesma palavra na parábola dos Lavradores Rebeldes em Lucas 20:13. Os meieiros se recusam a pagar ao dono da vinha a renda da mesma, na forma de alguns frutos dela. Eles tratam vergonhosamente os servos do proprietário. Finalmente o senhor diz: "Mandarei meu filho amado; pode ser que eles sintam vergonha diante (entrapésontai) dele (assim é de que eles o tratem amavelmente, mas de que na presença dele eles se sintam envergonhados do que haviam feito, e de­sistam de seus atos rebeldes. Mas ali também os meieiros envolvidos não conseguiram sentir-se envergonhados. Em ambos os textos a palavra grega tem este significado. A cultura do Oriente Médio requer este significado, e os pais da igreja no Oriente Médio nos dão este significado para ela, em suas traduções. Assim, temos em Lucas 18 um quadro claro de um homem muito difícil. Ele não tem o temor de Deus; o grito de "pelo amor de Deus" não adiantará nada. Ele também não tem um senso interior do que é reto e do que é vergonhoso pa­ra o qual alguém possa apelar. Desta forma, o clamor: "Por amor desta viúva desamparada!" semelhantemente será inútil. Obviamente a única maneira de in­fluenciar um homem desses é mediante propinas. A um homem desses é que a viúva se dirige.

 

ESTROFE DOIS - A VIÚVA DESAMPARADA

 

E uma viúva havia naquela cidade        VIÚVA

e ela vinha a ele            VINHA

dizendo: "Vinga-me do meu adversário."          VINGAR

 

No Antigo Testamento a viúva é um símbolo típico dos inocentes, impo­tentes e oprimidos (cf. Êx 22:22-23; Dt 10:18; 24:17; 27:19; 22:9; 24:3, 21; SI 68:5; Is 10:2; também Judite 9:4). Isaías 1:17 conclama os governantes e o povo a "interceder pelas viúvas." Depois, no versículo 23, lemos: "cada um deles ama o suborno... e não chega perante eles a causa das viúvas." A tradição legislativa judaica requer que isto seja feito, com base em Isaías 1:17: "a causa de um órfão deve ser sempre ouvida em primeiro lugar; depois, a da viúva..." (Dembitz, 204). Assim sendo, essa mulher tinha direitos legais que estavam sen­do violados. A respeito dela, escreve Bruce: "fraca demais para exigir, pobre de­mais para comprar a justiça" (Bruce, Parabolic, 159). Plummer observa: "ela não tinha um protetor para coagir, nem dinheiro para corromper" (Plummer, 412; cf. Marshall, 669). Ibn al-Tayyib comenta acerca da situação da viúva na sociedade do Oriente Médio.

 

Em todas as épocas e lugares os ambiciosos têm verificado que as viúvas são vulneráveis à opressão e à injustiça, pois elas não têm alguém para pro­tegê-las. Por isto Deus ordena que os juizes lhes dêem especial considera­ção, Jer. 22:3 (Ibn al-Tayyib, edição Manqariyús, II, 312).

 

Jeremias sugere que "uma dívida, uma promessa, ou uma porção de herança está sendo negada a ela" (Jeremias, Parables, 153); e, como observa Bruce, "Com toda a certeza uma viúva tinha muitos adversários, se tivesse algo que pudesse ser devorado" (Bruce, Parabolic, 159). O problema é certamente mo­netário porque, de acordo com o Talmude, um erudito qualificado podia deci­dir acerca de causas monetárias, individualmente" (B. T.Sanhedrim 4b, Sonc, 15).

 

O clamor dela é um grito pedindo justiça e proteção, e não vingança. Smith traduz da seguinte maneira: "Faze-me justiça em relação ao meu oponen­te" (Ç. W. E. Smith, 186).

 

A guisa de sumário, até aqui a parábola apresenta três pressupostos:

 

1.         A viúva está do lado do direito (e a justiça lhe está sendo negada).

2.         Por alguma razão, o juiz não deseja servi-la (ela não pagou o suborno?).

3.         O juiz prefere favorecer o adversário dela. (O adversário tem influên­cia, ou pagou suborno.).

 

Smith comenta:

 

Pode ser que ele presumisse que ela era incapaz de recompensá-lo, e pode­mos presumir ainda mais que era-lhe vantajoso deixar que o opressor dela ganhasse a causa (9G.W.F. Smith, 186s.).

 

No século passado, um viajante ocidental testemunhou no Iraque uma ce­na que nos apresenta o quadro mais amplo que está por detrás desta parábola; Ele escreve:

 

Foi na antiga cidade de Nisibis, na Mesopotâmia. Logo na entrada da cida­de, a um lado da porta ficava a prisão, com grades nas janelas, através das quais os prisioneiros estendiam os braços e pediam esmolas. Do lado opos­to ficava um edifício grande: a corte de justiça do lugar. Em um estrado um pouco mais alto ao fundo do salão assentava-se o Kadi, ou juiz, semi-enterrado em almofadas. Ao redor dele estavam assentados ou acocorados vários secretários e outros notáveis da cidade. A população se aglomerava no resto do saguão, uma dezena de vozes clamando ao mesmo tempo, cada uma dizendo que a sua causa devia ser ouvida em primeiro lugar. Os liti­gantes mais prudentes não participavam daquela desordem, mas faziam co­municações sussurradas com os secretários, passando propinas, eufemisticamente chamadas de honorários, às mãos de um ou de outro... Quando a cobiça dos subalternos estava satisfeita, um deles sussurrava ao ouvido do Kadi que imediatamente chamava esta ou aquela causa. Parecia ser costumeiramente considerado normal que o julgamento seria feito em favor do litigante que pagasse a propina mais elevada. Nesse ínterim, uma mulher pobre, na extremidade da multidão, interrompia incessantemente as audiências com gritos sonoros pedindo justiça. Recomendavam-lhe severa­mente que ficasse em silêncio, e mencionaram repreensivamente que ela vinha ao fórum todos os dias. "E assim continuarei fazendo," gritou ela, "até que o Kadi me ouça." Por fim, no fim de uma causa, o juiz impacientemente perguntou: "O que deseja aquela mulher?" Depressa conta­ram-lhe a história dela. O seu único filho fora convocado pelo exército, e ela estava sozinha, e não conseguia cultivar o seu sítio; não obstante, o coletor de impostos a havia forçado a pagar os impostos, dos quais, como viúva solitária, ela podia ser isenta. O juiz fez umas poucas perguntas, e disse: "Que ela seja isenta." Desta forma, a perseverança dela foi recom­pensada. Se ela tivesse dinheiro para corromper um contínuo, ela poderia ter sido isenta muito tempo antes (Tristam, 228s.).

 

Uma longa lista de comentaristas, deste Plummer até Jeremias, notou que este relato ajuda muito em preencher os detalhes culturais que consistem o pa­no de fundo da parábola. Não obstante, há um elemento importantíssimo tanto na parábola quanto no relato de Tristam, que passou despercebido. Ordinaria­mente no Oriente Médio as mulheres não vão ao fórum. O Oriente Médio era e é um mundo dos homens, e não se espera que as mulheres participem com os homens do mundo de empurra-empurra e gritos descrito acima. Além do mais, temos evidência dos tempos antigos, de origem judaica, no Talmude, confir­mando o que dizemos. O trabalho Shebuoth diz:

 

Então, os homens vão ao fórum, e as mulheres nunca vão ao fórum?... — Você pode dizer: Não é costume as mulheres fazerem isto, porque "a filha do Rei é toda gloriosa no interior," (nota: Sl XLV, 14; a filha do rei, isto é, a mulher judia, é modesta, e fica dentro de sua casa tanto quanto possível) (B. T. Shebuoth 30a, Sonc, 167).

 

A luz desta resistência em permitir que as mulheres apareçam no tribunal, pode-se entender a sua presença ali como demonstração de que ela está inteira­mente só, sem nenhum homem na família que fale por ela. Este pode ser o pres­suposto da estória. Neste caso, estaria sendo enfatizado o seu total desamparo.

 

No entanto, há outro elemento ainda mais importante. Durante a guerra civil libanesa de 1975-76, uma camponesa palestina, minha (do autor) conhecida, foi en­volvida em uma tragédia. O seu primo desapareceu. Pensou-se que ele tivesse si­do raptado por um dos muitos grupos armados que lutavam na cidade de Beiru­te. Toda a família passou a procurá-lo ou a seu corpo. Ele era o filho único de mãe viúva, e não fazia parte de nenhum dos grupos paramilitares. Desesperada, a família mandou uma delegação de três mulheres camponesas a avistar-se com o líder político/militar das forças esquerdistas da região em que ele havia desaparecido. O homem que elas foram ver era uma figura internacionalmente co­nhecida, militar e politicamente poderosa. Essas três mulheres abriram caminho aos gritos até conseguirem uma audiência com ele, e uma vez lá, lançaram uma torrente de palavras ásperas à sua face. Toda a cena me foi vivamente descrita por meu amigo camponês, no dia seguinte. Eu perguntei especificamente: "O que teria acontecido se os homens da sua família tivessem dito aquelas palavras àquele líder?" De olhos arregalados e com um aceno de cabeça, ele disse: "Oh, eles teriam sido mortos imediatamente." Tristam ouviu “uma dúzia de vozes gritando ao mesmo tempo, cada uma dizendo que a sua causa devia ser a pri­meira a ser ouvida." Assim sendo, muitas pessoas estavam gritando. Como foi que a viúva conseguiu chamar a atenção? Obviamente os seus gritos eram dife­rentes dos outros. Na sociedade tradicional do Oriente Médio, as mulheres são geralmente impotentes em nosso mundo de homens. Mas ao mesmo tempo, elas são respeitadas e honradas. Os homens podem ser maltratados em públi­co, mas nunca as mulheres. No caso do meu amigo palestino, a família havia enviado deliberadamente uma delegação de mulheres, porque elas podiam expressar abertamente os seus sentimentos de dor e traição em linguagem que indubitavelmente desencadearia uma reação. Os homens não teriam podido di­zer as mesmas coisas e continuar vivos. Estes mesmos antecedentes são expres­sos no resto da parábola.

 

ESTROFE TRÊS - O JUIZ RELUTANTE

 

Ele não quis fazê-lo por (certo) tempo. JUIZ

Depois disse para si mesmo: "Embora eu não tema a Deus DEUS

e não respeite a homem HOMEM

 

ESTROFE QUATRO - A VIÚVA VINGADA

 

 

"no entanto, porque ela me importuna, esta viúva, VIÚVA

                vou vingá-la VINGA 

para que mediante a sua vinda constante ela me moleste.”  VINDA

 

Aceitamos cautelosamente no texto a palavra "certa." Ela ocorre no Codex Bezae e algumas das versões Siríacas, latinas e cópticas. Ela reforça o parale­lismo entre as estrofes números um e três, mas pode não ser original. De qual­quer forma o juiz confessa a exatidão do julgamento feito a respeito do seu caráter. Ele sabe que não teme a Deus e que ninguém pode exigir que ele pres­te contas, levando-o a ficar envergonhado. Se alguém lançar contra ele acusa­ções como estas, elas não terão nenhum efeito.

 

Na frase "disse para si mesmo" temos o que Black chamou de "conheci­do semitismo... 'falar à mente,' 'pensar' " (Black, 302). Esta espécie de solilóquio é comum nas parábolas (cf. o Rico Insensato, o Filho Pródigo, o Mordo­mo Injusto, o Senhor da Vinha) e com a expressão idiomática semita mencio­nada acima, marca a autenticidade da parábola.

 

A palavra aqui traduzida como "ela me moleste" é uma expressão que sig­nifica "atingir debaixo do olho" (I Co 9:27) e tem levado muitos comentaris­tas a sugerir que o juiz tinha medo de que a mulher se tornasse violenta (Linnemann, 185). Mas a linguagem não requer esta interpretação, e o ambiente cul­tural do Oriente Médio a exclui. A viúva pode dizer aos berros toda sorte de in­sultos contra ele, mas se tentar tornar-se violenta, será removida à força, e não terá permissão para retornar. Basta! Derrett argumenta que esta palavra signi­fica "enegrecer a face" (Derrett, Judge, 189-191). Ele observa corretamente que esta frase é comum em todo o Oriente. Contudo, ela significa "destruir a reputação" e descreve um homem com um senso de honra pessoal, que ele está ansioso por preservar. O nosso juiz não tem essa honra pessoal. Derrett percebe a objeção, e tenta defender a sua interpretação, sugerindo que a frase é impar­cial. Contra Derrett, podemos argumentar que "A Deus ele não temia e a ho­mem ele não respeitava" dá a entender claramente que é uma declaração nega­tiva de gume duplo, e não cumprimento e insulto em parte. Assim, de fato o juiz é realmente desavergonhado, e ninguém consegue "enegrecer a sua face." Mais uma vez, preferimos a tradição longa e rica da tradução árabe, que apre­senta variações de "para que ela não me dê dor de cabeça!" Ibn al-Tayyib é par­ticularmente elucidador. Ele nota que esta linguagem pode referir-se a um golpe na cabeça, e diz: "Este exagero da parte do juiz deve indicar a extensão a que a persistência dela o irritou" (Ibn al-Tayyib, edição Manqariyüs, II, 312).

 

A expressão grega eis telos, traduzimos como "constante." Ibn al-'Assál dá a ela uma ênfase adicional com a redação "para que ela não continue a vir e a me molestar para sempre." A frase grega é forte e dá a entender um desejo de continuar para sempre. O juiz está convencido de que a mulher jamais de­sistirá. T. W. Manson chama isto de "guerra de atrito" entre os dois (Sayings, 306).

 

Como já observamos, esta parábola é um caso claro do princípio rabínico de "do mais leve para o mais pesado" (qal wahomer). Esta mulher está apa­rentemente em uma situação desesperadora. Ela é uma mulher num mundo de homens, uma viúva sem dinheiro nem amigos poderosos. Não se pode apelar ao juiz mediante um senso de dever para com Deus, e nenhum ser humano po­de fazê-lo ficar envergonhado de qualquer ato mau que ele venha a perpetrar contra os inocentes. Não obstante, essa mulher não apenas consegue uma au­diência, mas também consegue que a causa seja decidida em seu favor. Consi­derada com esta introdução, a idéia principal da parábola é sem dúvida persistência na oração. Se as necessidades dessa mulher são supridas, quanto mais as necessidades dos piedosos que oram não a um juiz iníquo, mas a um Pai amoroso. Embora a sua situação pareça ser desencorajadora e desesperada, não será tão má quanto a dessa viúva. Eles podem ficar certos de que as suas petições são ouvidas e atendidas. Quando o medo se apossa do coração do crente, ele é desafiado a orar, e a orar continuamente em face de todos os desânimos, com plena consciência de que Deus agirá tendo em vista os seus melhores in­teresses.

 

Os versículos 6-8 há muito têm sido chamados de crux intepretum. Nos­sa intenção não é recapitular todas as soluções tradicionais e debater cada uma por sua vez (Marshall, 674-77); pelo contrário, vamos expor a nossa maneira de entendê-los, com a esperança de que isto possa ajudar a contribuir para uma solução dos problemas existentes aí. Uma tradução literal do texto com os seus paralelismos, apareceria desta forma:

 

1          Não executará Deus vindicações dos seus eleitos        (futuro)

2          aqueles que clamam a ele dia e noite?  (presente)

3          Também ele é tardio em irar-se com eles.        (presente)

4          Eu vos digo que ele executará vindicação em favor deles         (futuro)

apressadamente.

5          Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?

 

A terceira linha é tradicionalmente lida como interrogação, e a palavra chave makrothumeo, traduzida como "paciência" ou "demorado" (cf. ARA: "embora pareça demorado em defendê-lo?"). A quinta linha é problemática, e muitos pensam que ela é uma conclusão final do evangelista ou da Igreja, ou uma frase separada de Jesus, acrescentada a este ponto pelo evangelista ou sua fonte. Considerando quaisquer destas hipóteses como possibilidades, a frase final claramente indica um sentimento de temor com respeito à quali­dade da fé da comunidade dos crentes. Alguém está nervoso (Jesus, ou a Igre­ja, ou a fonte de Lucas, ou Lucas) por causa dos exemplos menos do que per­feitos de fé existentes ao seu redor, que não exibem a disposição de suportar tudo que a mulher da parábola havia exibido (acerda de pistis com o artigo, cf. Marshall, 676). O autor desta linha aparentemente está com medo de que os crentes desanimem de orar, e por isto desanimem, e no processo, percam a fé. Mas por que esse nervosismo é expresso aqui? Sugerimos que a resposta a esta pergunta esteja nas quatro linhas imediatamente anteriores. A linha três contém o âmago da discussão.

 

Ao considerar a linha número três, enfrentamos dois problemas: Qual é o significado da palavra que a ARA traduz como "demorado"? E ele é uma declaração ou uma interrogação? Portanto, em primeiro lugar, a tradução des­ta palavra chave. A palavra propriamente dita (Makrothumeo) é uma das grandes palavras que no Novo Testamento é traduzida como "paciência." Mas a tradução acima de "demorado" não lhe faz justiça. O Novo Testamento tem três palavras que são traduzidas como "paciência", e todas elas são aplicadas a Deus. A primeira é anochè e aparece em Romanos 2:4 e novamente em 3:26. Deus tem uma clemência divina ao deixar passar os pecados anteriores. O segundo tipo de paciência é hipomoné, que é a paciência do sofredor, e é ilustra­da mais claramente por Cristo na cruz. Depois, em Romanos 2:4 anochè ê li­gada com a palavra que estamos estudando (makrotumia) e é usada no contex­to de julgamento e misericórdia. Literalmente makrothumia aplica-se à pessoa que pode e deve "afastar a sua ira." E a paciência do vencedor que se recusa a exercer vingança. T. W. Manson a traduz como "remove a sua ira para bem dis­tante" (Sayings, 307). Um exemplo clássico desta virtude pode ser o de Davi, com uma espada na mão, ao lado de Saul, que dormia. Saul havia chegado ali para matar Davi, mas este penetrara no acampamento daquele, e poderia fa­cilmente tê-lo matado. Os companheiros de Davi querem que ele se vingue, mas ele mostra grande makrothumia; ele afasta a sua ira, e recusa-se a atender os apelos deles (I Sm 26:6-25). Obviamente esta é uma qualidade que Deus de­ve exercer ao relacionar-Se com os pecadores. Em Êxodo 34:14 Deus diz a Moisés que Ele é tanto "tardio em irar-se" e ao mesmo tempo "gracioso." Horst, em seu artigo acerca de makrothumia descreve esta qualidade de Deus da maneira como ela se manifesta em Sua maneira de tratar o Seu povo. Horst escreve que Ele é o "Deus que restringirá esta ira e fará com que a Sua graça e longanimidade dominem. A ira e a graça de Deus são os dois pólos que cons­tituem a amplidão da sua longanimidade" (Horst, TDNT, IV, 376). A mesma disposição de Deus de restringir a Sua ira e desta forma ser misericordioso, apa­rece no Livro da Sabedoria (ci. 50 A.C.). Este texto descreve Deus como "tardi em irar-se" e ao mesmo tempo "misericordioso" (15:1). A este respeito, o autor escreve: "Se pecarmos, não deixamos de ser teus, conhecendo a tua grandeza" (v. 2). Desta forma, Deus coloca de lado a Sua ira, e mostra misericórdia para com o crente, embora este tenha pecado. Mais uma vez Horst nos ajuda, ao descrever esta maneira de entender esta palavra: "juntamente com esta ira há uma restrição divina que adia a sua operação até que algo aconteça no ho­mem, que justifique esse adiamento" (Horst, TDNT, IV, 376). Uma ilustração maravilhosa deste fato (observada por T. W. Manson) é dada pelos rabis. Eles fa­lam de um rei que estava pensando onde acampar as suas tropas. Ele decidiu localizá-las a certa distância da capital, de forma que no caso de desobediência civil, levaria algum tempo para que elas chegassem. Nesse ínterim os rebeldes teriam oportunidade de cair em si e "Assim, argumenta-se. Deus conserva a Sua ira a certa distância, a fim de dar a Israel tempo para se arrepender" (T. W. Manson, Sayings, 308; cf. P. T. Taanith, 11.65b).Ao mesmo tempo, de acordo com Ben Sirach (Eclesiástico 35:19-20), Deus não tem makrothumia para com os gentios. Como notamos acima, ele escreve:

 

E o Fortíssimo não usará mais de paciência (makrothumia)        (com os opressores), mas quebrantará o seu espinhaço e vingar-se-á das nações.

 

Aqui, mais uma vez Encontramos a palavra makrothumia, que faz parte da linguagem da salvação, onde é usada para descrever os atos do Senhor para com o Seu povo, e não para com as nações. Para com os gentios/nações Ele não tem makrothumia.

 

No Novo Testamento verificamos que este mesmo pensamento é expres­so na parábola do Servo Não Perdoador (Mt 18:23-35). O servo deve a seu senhor dez mil talentos, e não é capaz de pagar (v. 25f) O senhor (obviamen­te irado) ordena que toda a família seja vendida como escrava. O servo cai aos seus pés implorando-lhe: "Senhor, tem paciência comigo (makrothuméson ep'emoi) que eu lhe pagarei tudo." Isto é, ele pede a seu senhor que coloque a sua ira de lado, que tenha paciência. E o senhor o faz.

 

Recorrendo ao resto do Novo Testamento, o mesmo significado de "co­locar a ira de lado" é evidenciado em cada caso em que esta palavra é aplica­da a Deus. Em Romanos 2:4 ela é um atributo de Deus, e está ligada ao arre­pendimento. Em Romanos 9:22 ela está ligada a ira. Em I Timóteo 1:16 Je­sus coloca de lado a sua ira contra Paulo. Em I Pedro 3:20 Deus exerceu a sua makrothumia, "não querendo que nenhum pereça, senão que todos che­guem ao arrependimento". Finalmente, em 3:15, que é paralelo ao versículo 9, o leitor é instado a "ter por salvação a makrothumia de nosso Senhor" (ob­viamente este afastamento da ira é parte necessária da salvação). Esta acep­ção imutável de makrothumia deve agora ser aplicada ao presente texto.

 

Em seu artigo acerca da makrothumia, Horst discute a nossa parábola. Ele liga a questão da longanimidade da linha três com o tema da vingança na linha quatro. Ele afirma que ekdikasis ("vindicação") em nossa passagem significa

 

não apenas o juízo final para os adversários, mas também um sério auto-exame dos eleitos. Quando vier o Filho do Homem, encontrará Ele fé na terra? (v. 8b). Somente por fé eles podem entrar na ekdikasis (vindica­ção) do juízo final, e orar pela sua vinda. Assim, a makrothumein (demo­ra em irar-se) de Deus é para eles um intervalo necessário de graça, que de­ve acender a fé e a oração que move montanhas (17:6 par.). Na makro­thumein de Deus há agora a possibilidade da existência de crentes diante de Deus... na confiança de que eles possam suplicar-lhe a Sua justiça e graça (Horst, TDNT, IV, 381).

 

Sobretudo, Horst argumenta que a frase em questão é uma afirmação, e não interrogação, que ela se aplica aos eleitos, e que ela não pode significar "demora" (Ibid.; cf. também Bruce, Parables, 164). Concordamos em que a interpretação de Horst é correta, e que ela é essencial para que se tenha uma compreensão adequada desta parábola. A frase em questão deve ser lida como afirmativa, e makrothumia não significa "demora," mas relaciona-se com a disposição de Deus de afastar a Sua ira para bem longe, por causa dos pecados dos eleitos. De fato Deus vingará os Seus eleitos, que clamam a Ele dia e noite. Mas esses mesmos eleitos também são pecadores, e não santos sem pecado. Se Ele não estiver disposto a colocar a Sua ira de lado, eles não podem aproxi­mar-se dEle em oração, e não podem ousar clamar por vingança, a não ser que, como diz Amos, o Dia do Senhor seja de trevas, e não de luz (Am 5:18-20). O ato de pedir vingança ou vindicação não os torna justos. Como no ca­so dos entusiastas políticos encontrados em Lucas 13:1-5, uma causa justa não produz um povo justo. Da mesma forma aqui, um clamor sincero pedindo a intervenção de Deus para vindicar os eleitos não os torna, por si mesmo, san­tos em Sua presença. Só na medida em que Deus estiver disposto a "colocar a Sua ira de lado" é possível que eles O invoquem dia e noite e "orem e não esmoreçam." Só com o exercício liberal da Sua makrothumia para com eles Deus pode vindicá-los a todos.

 

O paralelismo invertido das quatro linhas ajuda a reforçar a interpretação do texto mencionada acima. As duas primeiras linhas constituem na interroga­ção, e as outras duas propiciam a resposta. Os tempos dos verbos reforçam o paralelismo com uma seqüência segundo o padrão ABBA. A primeira linha per­gunta: "Deus vingará (futuro) os Seus eleitos?" Isto é respondido na quarta linha, que lhe é correspondente: "Ele os vingará (futuro) depressa!" Na segun­da linha encontramos que eles clamam (presente) a Ele dia e noite. Este clamor é respondido na terceira linha, em que Deus é (presente) demorado em irar-se com eles.

 

A divergência teológica com Ben Sirach é importantíssima. Como já ob­servamos, Ben Sirach também usa a parábola da viúva. A sua parábola também passa da oração em geral para uma discussão acerca da vindicação do povo de Deus. Ele também menciona a demora de Deus em irarse. Mas em Sirach essa idéia suscita um ataque quase vingativo contra os gentios. Deus não será demorado em irar-se com os gentios, mas esmagará os seus órgãos genitais. Em agudo contraste com isso, o texto de Lucas não tem palavras de julgamento contra os adversários dos fiéis. Pelo contrário, o relato se encerra com uma pergunta desafiadora, uma esperança ansiosa de que o Filho do homem colo­que a Sua ira de lado, para que pelo menos eles possam clamar a Ele. Assim sendo, este texto não é uma simples questão de Deus estar retardando a salva­ção, mas da disposição de Deus em afastar o julgamento.

 

Finalmente, a questão da natureza da vindicação de Deus requer uma breve reflexão. Para Ben Sirach a forma desta vindicação é expressa. Os ím­pios serão esmagados, eliminados, quebrados, e receberão a paga de seus fei­tos. O Seu povo se regozijará na Sua misericórdia (35:23). Em nossa aplica­ção parabólica, não há detalhes. A vingança dos gentios, de maneira significa­tiva, está (como já notamos) ausente. Mas, em relação aos fiéis, como é que Deus os vinga? Isto é só uma promessa para o fim dos tempos (por próximos que possam estar esses tempos) ou o texto sugere uma dinâmica para o pre­sente? Os tempos dos verbos que se referem a essa vindicação são futuros. Mas significam eles, necessariamente, um futuro distante? Esta passagem está em Lucas 18. O começo da história da paixão está apenas a poucos versículos desta passagem. Os inimigos de Jesus estão reunindo as suas forças para o ato final da sua oposição. Deus o vingará? Uma resposta clara é dada ao leitor, mas que resposta! Sim, Deus vingará o Seu Filho, que também ora a Ele dia e noite, mas essa vingança será vista na ressurreição, e virá por meio de uma cruz. Durante séculos a casa do Islão tem tropeçado na ofensa da cruz. Para eles Jesus é um grande profeta. Nos Salmos Deus diz: "Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas" (105:15). Se isto é verdade, pergun­ta o Islão, onde está a vingança de Deus em favor do Seu profeta, na narrati­va da paixão? Como pode ser verdadeira a história da cruz? Em uma tentativa de permitir a vingança de Jesus por parte de Deus, a história da cruz é refor­mulada na tradição islâmica, para permitir uma operação divina de resgate antes do Calvário, e a crucificação de um substituto. Mas não é válida a questão is­lâmica? Onde está a vindicação de Deus? E, certamente, a resposta correta é de que vindicação deste profeta por parte de Deus excede em muito os sonhos mais extraordinários dos seus seguidores. Ele foi vindicado em um túmulo vazio, e o caminho para o túmulo vazio passava pelo Gólgota. Se esta foi a vin­gança de Jesus, como será a dos seus discípulos?

 

Os versículos finais desta passagem (18:6-8) têm sido lidos por séculos a fio no contexto da expectativa da parusia. Pode até ser que este seja o con­texto em que o próprio Lucas os entendia, e talvez o fizesse de maneira apro­priada. Mas não é possível ver uma aplicação inicial destes textos no ministé­rio do próprio Jesus? Deus vai vindicá-lo e ao pequeno grupo de seguidores amedrontados que lançaram a sua sorte com ele? T. W. Manson revela que a eleição era de serviço, e não de privilégio.

 

Eles não são prediletos mimados da Providência, mas o corps d'élite do exército do Deus vivo. Por serem o que são, eles estão predestinados a sofrer às mãos dos ímpios; e em muitos casos, o selo da eleição é o mar­tírio (Sayinas, 307).

 

À medida que o medo aumenta durante a aproximação final de Jerusa­lém, ele é aludido nesta parábola. A promessa clara é de que Deus de fato os vingará, e o fará depressa!

Por fim, a que interpretação foram os discípulos levados, e que conglo­merado de temas teológicos compõe o tecido do significado desta parábola? Para os discípulos, a resposta esperada certamente era algo como esta:

 

Quando se ajuntarem as nuvens negras de oposição intensificada, não precisamos temer. Deus afastou para bem longe a Sua ira, e nos ouve. Precisamos confiar e ser firmes na oração. Não estamos apelando para um juiz enfadado, mas para um Pai amoroso que vindicará os Seus eleitos e o fará bem depressa.

 

O conglomerado de temas teológicos é o seguinte:

 

1.         A oração vence o medo.

2.         A persistência na oração é parte integrante da piedade.

3.         Em oração o crente se dirige a um Pai amoroso (e não a um juiz ca­ prichoso).

4.         Deus precisa, e de fato o faz, colocar de lado a Sua ira para poder ouvir as orações dos fiéis, pois o seu clamor de vindicação não os torna santos.

5.         Deus está operando na história, e realizará os Seus objetivos e vin­gará os Seus eleitos.

6.         Uma mulher é usada como exemplo para os fiéis emularem, Ben Sirah começa com uma mulher, e depois passa para uma figura mascu­lina. Jesus começa com uma mulher e depois faz aplicação para os eleitos em geral. Está ausente aqui a tendência machista de Ben Sirach. Assim, a condição das mulheres na comunidade dos fiéis é me­lhorada pela forma pela qual esta parábola é contada.

7.         O clamor pedindo vindicação requer auto-exame, para que os pró­prios fiéis não fracassem em conservar a fé.

 

Mais uma vez, uma série de temas teológicos de peso nos fala a partir de uma estória enganosamente simples.

 

Bibliografia Kenneth Bailey