O Mordomo Infiel (16: 1-9)

 

Jesus agora volta-se para os discípulos, mas os fariseus, para quem as parábo­las do capítulo 15 haviam sido dirigidas, ainda estão em foco, servindo como real­ce para alguns dos ensinamentos do capí­tulo 16. O tema unificador deste capí­tulo é a atitude correta para com a rique­za e o seu uso acertado.

 

O principal personagem da parábola do mordomo infiel é uma pessoa de cará­ter repulsivo, completamente desprovida de escrúpulos morais e inteiramente de­votada ao seu próprio bem-estar. Conseqüentemente, não devemos pensar que Jesus o está considerando como pessoa que deva ser admirada e imitada, como no caso de uma história que serve de exemplo, como a parábola do bom samaritano. Pelo contrário, é uma parábo­la, no seu sentido mais estrito. Há uma lição que pode ser aprendida até com um velhaco como este. Portanto, a nossa ta­refa é descobrir o ponto específico que Jesus queria que essa história incomum expressasse. J. Jeremias (p. 127) sub­entende que essa história não fora produ­to da imaginação criativa de Jesus, mas uma ocorrência verídica, conhecida do povo a quem ele estava falando. Se este é o caso, Jesus simplesmente escolheu um assunto corrente de conversação e usou-o para ensinar uma lição importante.

 

O mordomo ou administrador de uma casa era geralmente um escravo capaz e de confiança. Neste caso, o mordomo ou "gerente de negócios" é um homem livre. Ele tinha responsabilidades excepcional­mente grandes, que se estendiam à ge­rência dos negócios do seu patrão. Por­que ele estava encarregado de proprie­dade que não lhe pertencia, a situação do mordomo era paralela a de qualquer pessoa que tenha possessões materiais. Seja o que for que possuamos, isso nos foi confiado por Deus, que criou essas coisas, e a quem precisamos dar contas pelo seu uso.

 

Visto que não havia algo semelhante a uma auditoria anual de livros, naquela época, o conhecimento da má adminis­tração geralmente chegava ao proprietá­rio na forma de acusações de desonesti­dade feitas por terceiros. Parece que não havia dúvidas quanto à culpa desse ho­mem. O proprietário a considera prova­da, e as ações subseqüentes do mordomo são as de um homem sem defesa diante das acusações. Presta contas é. provavel­mente, uma ordem para que ele prestasse contas dos registros dos negócios e tran­sações feitas, como prelúdio do término do seu trabalho.

 

Defrontando-se com as perspectivas negras de desemprego, o administrador incompetente prevê uma verdadeira cri­se, em futuro imediato. Ele não tinha condições para trabalhar, e vergonha de mendigar. Se ele não pudesse tomar algumas providências que prometessem certa medida de segurança financeira, ele morreria de fome. Estando a se esgo­tar o tempo que lhe restava, ele decide aproveitar-se dos poderes que ainda exer­cia, para executar atos que colocassem os devedores de seu patrão de forma que eles lhe ficassem devendo favores. De­pois, na hora que precisasse, ele poderia recorrer a eles. Pode ser que os deve­dores fossem meeiros ou colonos, cujo débito era a parte do produto da terra que eles deviam ao proprietário. Mais provavelmente, eles eram mercadores que haviam recebido mercadoria dele, quanto às quais ainda não haviam acer­tado as contas.

 

Os débitos eram grandes. Uma me­dida de azeite perfazia cerca de quarenta litros. O débito do primeiro homem foi reduzido, dessa forma, de, aproximada­mente, dois mil litros. Um coro de trigo media cerca de oitenta litros, o que sig­nifica que a dívida do segundo homem foi reduzida de cerca de quatrocentos litros (ou quilogramas).

 

Na maneira com está, o verso 8 é es­tranho. A observação de que o senhor louvou o mordomo parece estranha, pelo menos em vista do fato de que ele acaba de ser ludibriado em considerável soma pelo trapaceiro.  A segunda parte (8b) precisa ser entendida como o comentário de Jesus a respeito da única característica notável desse indivíduo. Esta conclusão está baseada, contudo, no sentido, e não na construção da sentença. Pelo contrário, a conjunção "por­que nos prepara para ficarmos sabendo a razão para a surpreendente recomendação do mordomo desonesto, feita pelo seu ex-patrão.

 

Devido a essas dificuldades, alguns intérpretes tomam senhor como referência a Jesus. Mas a súbita mudança para a primeira pessoa, no verso 9. é argumento contra esta interpretação. Tem sido conjecturado que o verso 9 é uma interpolação que resolveria o problema.  Não obstante. parece melhor considerar a história como ela está, a despeito das dificul­dades. O proprietário pode ser aquele tipo de pessoa astuta que aprecia tanto um bom estratagema, mesmo como aquele inventado pelo seu mordomo, em­bora seja às suas custas.

 

Pelo uso do adjetivo injusto (desones­to), Jesus indica a sua desaprovação ge­nérica dos baixos padrões pelos quais esse homem agira. O comentário feito em 8 b contém a lição da parábola, a única coisa que pode ser aprendida de uma pessoa que em outros respeitos é comple­tamente repreensível. À luz dos seus va­lores, necessidades e possibilidades, ele agiu com sagacidade. O homem sagaz é aquele cujas ações hoje são baseadas nas possibilidades do futuro. Naturalmente, o conceito que esse homem fazia do futuro era muito limitado. Ele era um filho deste mundo, que agia mediante os conceitos distorcidos e superficiais desta era. Mas ele previu o futuro, tomando as medidas que podia para se preparar para a crise inevitável que se delineava em seu futuro.

 

Os filhos da luz pertencem à nova era da redenção e governo de Deus. No seu futuro há um período de crise quando, como mordomos, lhes será requerido que prestem contas de sua mordomia. Jesus os conclama a agirem tão sagazmente à luz deste conhecimento, como agiu o mordomo desonesto, dentro de sua limi­tada compreensão do futuro.

 

Riquezas da injustiça são as possessões materiais. Em si mesma a riqueza é amo­ral, capaz de ser usada para grande bem ou grande mal. Devido ao desejo de obter grandes lucros, um proprietário pode forçar um inquilino a criar os seus filhos em um ambiente de cortiço, que os marca para o resto da vida. Outro ho­mem pode investir o seu dinheiro em escolas, que ajudem a libertar as mesmas crianças da ignorância. No entanto, o dinheiro é mais freqüentemente usado de maneira egoística; e é por isso que ele tem um estigma tão mau.

 

De acordo com a sua decisão de seguir a Jesus, o discípulo deve usar o seu di­nheiro para ajudar as pessoas que o seu Senhor veio libertar. O uso do nosso dinheiro deve ser condicionado pelo fato de que sabemos que ele é limitado e temporário, em sua utilidade. O exem­plo do fazendeiro rico (12:16 e ss.) mos­tra exatamente quando estas vos falta­rem: é quando um homem morre. Usan­do o dinheiro para fazer amigos, damos a ele um significado perene, pois ele é investido em relacionamentos que transcen­dem a morte. Portanto, verificamos que "o dinheiro pode servir para unir as pessoas, embora normalmente ele as di­vida".  Eles provavelmente é um circunlóquio para o nome de Deus (Strack-Billerbeck, II, p. 221). Deus, que tem interesse especial pelos pobres, recebe o seu mordomo fiel, que tem sido um canal do amor divino para os pobres, nos tabernáculos eternos.

 

O Correto Uso da Riqueza (16:10-13)

 

Entre as duas parábolas com que se inicia e termina o capítulo 16, há uma coleção de adágios de Jesus, reunidos sob o tema do uso da riqueza (v. 10-18). Devido à circulação originalmente em forma isolada, a conexão entre esses adá­gios é difícil de se perceber. Especial­mente, isto é verdade em relação aos versículos 16-18, onde não se pode ter certeza nenhuma quanto ao exato signifi­cado dos mesmos, no contexto de Lucas.

 

Antes de tudo, o caráter do mordomo de Deus é agudamente diferenciado do homem da parábola anterior. Ele precisa ser fiel no uso dos bens que lhe foram confiados, de acordo com a vontade de Deus, que é o proprietário deles.

 

Nos versículos 10-13, há um jogo de imagens entre a riqueza mundana e o te­souro celestial. O pouco consiste nos bens materiais pelos quais a pessoa é responsável, no uso dos quais ela precisa provar que lhe pode ser confiado muito, isto é, as riquezas eternas, que Deus vai lhe dar. Ás riquezas injustas são as ri­quezas falsas e ilusórias do mundo, em contraste com as verdadeiras, que Deus dá, aos servos fiéis, após esta vida. Pen­sa-se, desta forma, na existência terrena de um indivíduo como o campo de provas em que o seu caráter é revelado. Um teste básico é a sua atitude em relação às possessões materiais.

 

Mais do que isto: as coisas do mundo são mencionadas como alheias. Um ho­mem pode ter uma responsabilidade tem­porária, transitória, por uma fração mais ou menos pequena do mundo de Deus. Mas Deus não deu o mundo ao homem para que seja sua possessão privada. Ele retém a propriedade dela. Aquilo que Deus dá ao homem depois da morte, contudo, realmente lhe pertence, visto que não haverá limitações temporais quanto ao seu uso.

 

O conceito de uma pessoa a respeito dos valores da vida é determinado pelo senhor a quem ela serve. O verbo tradu­zido como servir (v. 13) é literalmente "ser escravo". O princípio é de que ne­nhum homem pode ser escravizado por dois senhores simultaneamente, ou seja, ele não pode prestar a sua lealdade final a duas pessoas ao mesmo tempo. O ho­mem não tem o privilégio de decidir se vai ser servo (palavra de Lucas; cf. Mt 6:24). Inerente ao fato de ele ser cria­tura, está o de que ele não é dono completo de sua própria vida. Ele é livre apenas para decidir que o senhor recebe­rá a sua lealdade.

 

A vida pode dirigir-se em uma de duas direções, mas não em ambas. Encontra­mos os nossos valores e alvos dentro dos limites estreitos do nascimento e da mor­te, e nas coisas que são susceptíveis à visão, gosto e toque. Por outro lado, podemos dedicar-nos a alvos que trans­cendem as exigências do corpo e do ego. Se fizermos das coisas materiais o nosso deus, gastaremos a vida e as energias adquirindo, guardando e usando egoisticamente essas coisas. Mas, se fizermos do Criador de todas as coisas o nosso Deus, seremos libertados, para devotar-nos a valores mais elevados e mais signi­ficativos.

 

Bibliografia Broadman

 

0 Mordomo Infiel (Lucas 16:1-13)

 

Essa seção inclui a parábola do mordomo infiel (vv. l-8a), e vários enunciados de Jesus relacionados à parábola, ou ao tema de dinheiro em geral (vv. 8b-13). Esse texto na maior parte é singular em Lucas (embora Lucas 16:13 = Mateus 6:24) e contribui para expressar a preocupação de Lucas quanto ao uso adequado das riquezas.

 

16:l-8a / Poucas parábolas de Jesus têm constituído enigma para os leitores dos evangelhos mais que a parábola do mordomo infiel. A principal questão relaciona-se com o homem rico que louvou... o injusto adminis­trador. Uma segunda questão relaciona-se com a razão por que Jesus menciona os atos desse empregado desonesto com palavras de aprovação, usando-o como exemplo perante seus discípulos. A primeira pergunta só se pode entender e responder quando a pessoa entende totalmente o ato cometido pelo mordomo infiel. Uma antiga interpretação dessa parábola dizia que o homem rico ficou impressionado com a esperteza do mordomo que, ao receber a notificação de demissão, desonestamente reduziu as contas que terceiros deviam a seu senhor, de tal modo que ele se colocou em situação favorável com esses devedores, clientes de seu patrão. Embora o homem rico tenha sido roubado de novo pelo delinqüente, fica, todavia, muito impressionado com a malícia desse mau empregado (v. Tiede, p. 282-3). Existe uma idéia que se relaciona a essa interpretação, segundo a qual o mordomo infiel eliminou os juros das contas devidas, de conformidade com as leis do Antigo Testamento contra a usura (v. Deuteronômio 15:7,8; 23:2-21). Assim, a idéia é que o empregado desonesto acabou realizando uma obra apropriada, justa e bíblica. Essa interpretação da parábola, no entanto, não é satisfatória. Por que o senhor deveria louvar o injusto administra­dor? Teria ele algo bom a dizer a respeito de alguém que não só lhe espoliou os bens (v. 1), mas ainda, depois de ter sido demitido (v. 2), piorou a situação ao roubar-lhe mais um pouco? Essa conclusão nos parece inadmissível. Mais plausível é a hipótese aventada por J. Duncan M. Derrett ("Fresh Light on St Luke xvi:I. The Parable of theUnjust Steward" [Nova Luz Sobre Lucas 16: A Parábola do Mordomo Infiel], NTS 7 [1961], p. 198-219), seguido de Fitzmyer (p. 1097-98), segundo a qual o que o empregado desonesto fez foi cancelar suas comissões, que o senhor lhe devia, ou suas participações nos lucros. Ao cancelar suas comissões, os débitos dos devedores de seu senhor diminuíram. Essa ação, sem dúvida, resultaria em bondade no futuro, da parte desses credores para com o mordomo infiel. Nesse caso, o homem rico não foi enganado mais uma vez, por essas ações finais daquele que fora demitido. Os credores continuam devendo o que deviam ao senhor; o ex-mordomo, abrindo mão de suas comissões que lhe eram devidas, contempla agora um futuro menos trevoso, mais promissor. Se entendermos a parábola dessa maneira, tornar-se-á muito mais fácil entender a razão por que Jesus viu na ação do mordomo infiel um exemplo a ser imitado por seus discípulos. Esses, à semelhança do mordomo infiel, deveriam reconhecer a vantagem de abrir mão de um pouco agora, para que um dia, no futuro, se possa ganhar muito mais.

 

16:8b-13 / Várias lições podem ser tiradas da parábola do mordomo infiel (16: l-8a). A implicação é que esse mordomo esperto, mas desonesto, é digno de elogios por causa das providências astuciosas que tomou a fim de garantir seu futuro. Os discípulos de Jesus deveriam aprender uma lição da inteligência demonstrada pelo mordomo. O v. 8b sugere que muitas pessoas, os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. Portanto, "os cristãos podem aprender alguma coisa da prudência dessas pessoas do mundo" (Fitzmyer, p. 1106). Uma lição que tiramos dessa parábola está no v. 9. Os discípulos de Jesus recebem a ordem de granjear amigos com as riquezas da injustiça (lit, "fazei amigos com as riquezas da injustiça"). Jesus (ou Lucas) não está propondo a seus discípulos que adquiram riquezas desonestamente, mas está exortando-os a que não desprezem oportunidades e recursos que sustentarão o povo de Deus e farão progredir a missão cristã. Ao usar os recursos deste mundo de forma sábia, os cristãos podem ter certeza de que, quando estas [as riquezas] vos faltarem (assim diz a Vulgata: "quando você faltar" [i.e., "morrer"), vos recebam eles nos tabernáculos eternos. Enquanto os seguidores de Jesus estiverem na terra, deverão fazer uso dos recursos deste mundo, para que se mantenham a si mesmos e à obra da igreja. Todavia, quando estes recursos se exaurirem e a obra daquela vida terminar, os seguidores de Cristo podem esperar ser recebidos num lar eterno, não temporário, um lar cujos recursos são infinitos.

 

Nos vv. 10-12 tiramos uma segunda lição da parábola do mordomo infiel. O princípio do v. 10 é que pela forma de a pessoa conduzir-se no mínimo, isto é, com "poucas coisas", evidencia-se a forma pela qual ela vai conduzir-se no muito, isto é, quando dispuser de "muitas coisas". No v. 11 chegamos àquilo que, para Lucas, é talvez o cerne da questão. Se os seguidores de Jesus não conseguem manejar adequadamente as riquezas mundanas, não podem esperar que lhes sejam confiadas as celestiais, as verdadeiras. Em outras palavras, se os cristãos não conseguem gerir adequadamente seu dinheiro, suas propriedades e outros bens materiais (no socorro aos pobres e sustento do ministério), não devem esperar que se lhes confiem as recompensas e as riquezas de duração eterna (cf. Mateus 6:25-34). Fica implícito que a mordomia do crente nesta vida forma a base da recompensa e responsabili­dade futuras, no céu (v. Mateus 25:14-30). O v. 12 acrescenta um novo pensamento a essa segunda lição: se os discípulos de Jesus no alheio não foram fiéis, quem lhes dará o que é deles? Ou seja: se não cuidarem bem da propriedade de Deus (o alheio), será que Deus lhes dará a bênção que lhes foi prometida (o que é deles)?

 

O v. 13 prove a terceira lição extraída da parábola do mordomo infiel. Em Mateus esse versículo ocorre num contexto muito mais amplo (6:24), concernente à necessidade de a pessoa ser leal a Deus em relação às coisas do mundo. Aqui em Lucas o enunciado ressalta mais uma verdade com respeito às riquezas, algo que todo seguidor de Jesus deve saber, uma verdade que já fora proposta nos vv. 9-12. Os cristãos devem toda lealdade a Deus e não às riquezas (lit., "mammon"; v. a nota abaixo). Esse enunciado impede, assim, que alguém entenda mal os vv. 8b e 9 acima. É verdade que os cristãos devem aplicar suas riquezas em bons propósitos, mas não devem escravizar-se a elas. Aqui está um grave perigo para muitos cristãos. O que com freqüência é tido como "boa mordomia", isto é, "boa administração de bens", ou "bênçãos vindas de Deus", na verdade nada mais é que usura, avareza e materialismo.

 

Por todo o seu evangelho, Lucas revela preocupação quanto à atitude correta no uso das riquezas. Lucas 16 provavelmente representa o ponto

mais alto desse tema. A lição básica com que essa passagem se encerra é que os cristãos devem estar preocupados com a utilização adequada das riquezas, impedindo que se tornem ídolos.

 

Notas Adicionais

 

16:1 /Disse Jesus aos discípulos: É outro o auditório agora. Os "fariseus e doutores da lei" que murmuravam, em 15:2, cederam lugar aos discípulos de Jesus. Em Lucas 15 os fariseus aprenderam a respeito da atitude de Deus para com os perdidos; em Lucas 16, os discípulos aprendem a atitude de Deus para com as riquezas.

mordomo: Fitzmyer (p. 1099) observa que a palavra grega traduzida por mordomo com freqüência se aplica ao escravo nascido na casa do senhor. A palavra hebraica equivalente significa literalmente "um filho da casa" (v. Gênesis 15:3). Não está claro na parábola que o mordomo era escravo; fosse escravo, fosse livre, o fato de ele haver dilapidado a propriedade de seu senhor teria sido visto como uma quebra séria da lealdade. A luz da demissão do empregado, as oportunidades desse mordomo infiel para assegurar um novo emprego seriam reduzidas (como fica implícito no v. 3). Evans (p. 48) vê um possível paralelismo com Deuteronômio 23:15,16, em que se dão instruções sobre escravos domésticos.

dissipar os seus bens: Lit., "dilapidando a propriedade de seu senhor". O filho pródigo também "desperdiçou os seus bens" (15:13).

16:2 / Dá contas da tua administração: o homem rico vai ficar sabendo, pelo relatório, a extensão do desperdício e do roubo; com esse inventário físico, o novo mordomo poderá com maior facilidade assumir a tarefa de administrar os bens.

16:3,4 /Se o empregado desonesto não pode continuar sendo empregado, só lhe restam duas opções: o trabalho braçal ou a mendicância. Nenhuma dessas duas atividades é aceitável; por isso, o esperto empregado idealiza um plano que lhe permitirá prosseguir na função de mordomo — de outro senhor. É o que se depreende da expressão: Para que... me recebam em suas casas. O mordomo espera ganhar a confiança de alguns dos devedores de seu senhor que, por gratidão, o contratarão.

16:6 / Cem batos de azeite: Os tradutores da NVI entenderam que cem "batos" é equivalente a 3 600 litros. Fitzmyer (p. 1100) entende que o "bato" aproximava-se de nove galões. Cem "batos" seriam equivalentes a 3 400 litros.

16:7 / Cem coros de trigo: Não se tem certeza de quantos quilos (ou litros) haveria num "coro". A NVI traz 435 toneladas, talvez um número aproximado.

16:8 / os filhos da luz: V. expressões semelhantes em João 12:36; 1 Tessalonicenses 5:5; Efésios 5:8. Os membros da comunidade do deserto de Qumran se referiam a si próprios como filhos da luz (1QS 1.9; 2.16; 3.13; 1QM 1.3,9,11,13).

16:9,11,13 / riquezas da injustiça: Lit., "mammon". É palavra que, ou veio do hebraico, mamon, ou do aramaico, mamona (Fitzmyer, p. 1109). Embora não se encontre no Antigo Testamento, é palavra que ocorre em alguns dos rolos do mar Morto e na paráfrase do Antigo Testamento em aramaico, conhecida como Targum. Fitzmyer (p. 1109) acredita que a melhor explicação para o sentido dessa palavra é que ela deriva de uma raiz que significa "firme" ou "certo" (de onde se origina a palavra "amém"). Portanto, "mammon" é "aquilo em que a pessoa confia". Poderia, então, ser dinheiro, propriedades e riquezas (v. também Marshall, p. 621).

16:10 / Quem é fiel no mínimo: Essa lição não se enquadra bem no contexto da parábola do mordomo infiel, visto que a esse empregado, como se haveria de verificar, não podia confiar absolutamente nada. Esse enunciado, portanto, teria origem num contexto separado (Leaney, p. 223).

 

Bibliografia Evans