PARÁBOLA

 

Esboço:

 

I.          Caracterização Geral

II.        As Parábolas do Novo Testamento

III.       As Parábolas do Reino

IV.       As Parábolas do Antigo Testamento

V.        As Parábolas Rabínicas

VI.       Os Propósitos das Parábolas

 

Introdução

 

A palavra portuguesa parábola vem diretamente do grego, parabolé, «pôr ao lado de», com o sentido de «comparar», a fim de servir especificamente como ilustração de alguma verdade ou ensino. A compara­ção assim provida, pois,  torna-se um instrumento didático.

As parábolas podem ser símiles simples ou narrativas elaboradas, cujos detalhes envolvam alguma espécie de conotação moral ou espiritual. Na interpretação das parábolas não podemos esquecer a «lição principal», sem entrar em maiores detalhes, que servem somente para preencher uma história aceitá­vel, mas que não se revestem de qualquer sentido especial. Naturalmente, algumas das parábolas de Jesus foram esclarecidas por ele mesmo; e, nesses esclarecimentos, ele forneceu detalhes que vão além do ponto principal. Mas, quando esses pormenores não são explicados, devemos preocupar-nos apenas com o ímpeto principal da história, e os pontos secundários não deveriam ser exagerados em sua importância. Uma boa história com freqüência pode avivar um sermão ou uma lição, e uma parábola sempre pode ser um poderoso meio de fazer isso. Não é mister supormos que as parábolas sempre narram fatos acontecidos. Talvez algumas delas o façam; mas isso não sucede no caso de todas as parábolas. A ficção também tem seu lugar no ensino religioso. Em uma parábola, entretanto, não devemos estar atrás de alguma mera narrativa, pois o propósito delas é servir de ilustrações espirituais e morais. Até mesmo alguns mitos pagãos são muito instrutivos.

 

I. Caracterização Geral

 

A palavra «parábola» indica, literalmente, «compa­ração», e é comumente usada para indicar uma história breve, um exemplo esclarecedor, que ilustra uma verdade qualquer. A parábola não é uma fábula, porque a fábula é uma forma de história ilustrativa fictícia e que ensina através da fantasia, mediante a apresentação de animais que falam ou de objetos animados. A parábola nem sempre lança mão de histórias verídicas, mas admite a probabilidade, ensinando mediante ocorrências imaginárias, mas que jamais fogem à realidade das coisas. A parábola também não é mito, pois este narra uma história como se fosse verdadeira, mas não adiciona nem a probabilidade e nem a verdade. A parábola não tenta contar uma história que deve ser aceita como história real e, sim, um tipo de narrativa que nem sempre sucedeu realmente. A parábola, entretanto, não é idêntica ao provérbio, a despeito do fato de que a mes­ma palavra grega é usada para indicar ambas as coisas (ver Lc. 4:23; 5:36 e Mt. 15:14,15). A parábola pode ser, porém, um provérbio ampliado, e o provérbio pode ser uma parábola condensada ou resumida. A parábola também não é a mesma coisa que a alegoria. A alegoria interpreta a si mesma, tão somente substituindo as personagens reais por outras. Na alegoria, as personagens fictícias são dotadas das mesmas características das pessoas reais, sem qualquer tentativa para ocultar ou para ilustrar por meio de símbolos. A parábola ilustra por meio de símbolos, como por exemplo, «o campo é o mundo», «o inimigo é o diabo», «a boa semente são os filhos do reino», etc. A parábola é uma narrativa séria, colocada na esfera das probabilidades, isto é, a história narrada na parábola pode ter acontecido realmente, sendo ilustração das experiências comuns aos homens, e o conteúdo dessa história tem por fito ilustrar, ensinar ou enfatizar um ou mais princípios éticos, morais, doutrinários ou religiosos. Talvez a alegoria não seja muito diferente disso, excetuando o fato de que pode indicar uma história criada, dotada de mais símbolos comparativos. As definições não estipulam as diferenças entre essas formas de comparação, ou seja, a parábola, a fábula, o mito, o provérbio e a alegoria, conforme fizemos aqui, e pode ser que outras definições sejam acrescentadas a estas.

 

II. As Parábolas do Novo Testamento

 

1. As Parábolas de Jesus. O Senhor Jesus proferiu quarenta e uma parábolas, agora preservadas em nossos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas). Esse estudo nos mune de informações sobre alegadas fontes, títulos, locais. Quanto a completos propósitos ilustrativos, na terceira seção deste artigo, oferecemos uma descrição detalhada das parábolas do reino, contadas por Jesus. Muitas das parábolas de Jesus dizem respeito ao reino de Deus, em sua natureza, valor, desenvolvimento, etc. Porém, além desse assunto, muitas outras questões foram abordadas pelo Senhor Jesus, conforme a relação seguinte serve para demonstrar: a. os dois alicerces da vida, que trata da sabedoria na escolha espiritual (Mt. 7:24-27); b. a doutrina cristã tornou obsoleta a doutrina judaica, tal como o vinho novo em odres velhos se estraga (Mt. 9:17); c. o bom samaritano, que punha em prática a lei do amor para com o próximo, pois todos os homens são irmãos: contra o exclusivismo religioso (Lc. 10:25 ss); d. o poder da oração insistente, na história do amigo importuno (Mt. 13:36-43); e. a torre, que frisa a necessidade de sabedoria e planejamento espirituais quando levamos a sério o discipulado (Lc. 11:5 ss); f. os talentos, que mostra o uso apropriado das oportunidades (Mt. 25:14 ss).

Em suas parábolas, Jesus lançava mão de ilustrações tiradas da natureza (a parábola do semeador, Mc 4:1-9); dos costumes domésticos e da vida diária (a parábola do fermento, Mt. 13:33, e a parábola da lâmpada, Mc. 4:21); de acontecimentos adversos que redundam em bem (parábolas da ovelha e da moeda perdidas, Lc. 15:3-10); eventos da história recente (Lc. 19:14); jogos infantis (Lc. 7:31 ss); lições da vida doméstica (o filho pródigo, Lc. 15:11-32). Aparentemente, Jesus contou a maioria de suas parábolas sem elaborações, deixando aos seus ouvintes a percepção do que ele procurava ensinar e ilustrar (Mc 12:12). Em algumas ocasiões, porém, Jesus explicou suas parábolas, como no caso das parábolas do reino (Mt. 13:1-58; ver também Mt. 15:15).

2. No Evangelho de João. Um dos difíceis problemas do estudo do Novo Testamento é o fato de que, no evangelho de João, as parábolas são substituídas pêlos discursos. De fato, esse evangelho praticamente não tem parábolas, embora tenha declarações enigmáticas. Ver Jo 16:25. O vocábulo grego usado por João foi paroimía, «símile», e não parabolé.

Muitos intérpretes pensam que os discursos do evangelho de João foram criações do autor sagrado, com base nas idéias de Jesus, e que as parábolas eram a maneira real de Jesus ensinar. Talvez possamos considerar seções como João 15, acerca da vinha e seus ramos, como uma espécie de parábola. Outro tanto pode ser dito acerca do décimo capítulo de João, que fala sobre o Bom Pastor. Na verdade, esses são mais ensaios do que parábolas. Quiçá seja superficial e exageradamente harmonístico tentar forçar sobre o evangelho de João o método de ensino por parábolas. Por isso, alguns estudiosos supõem que Jesus proferiu tanto discursos quanto parábolas, e que João preferiu registrar os discursos de Jesus, ao passo que os evangelhos sinópticos preferiram as parábolas; mas essa explicação também parece estar baseada no impulso harmonizador. Naturalmente, há algumas sementes de parábolas no evangelho de João, como o caso do grão de trigo (Jo 12:24), o viajante (Jo11:9 ss), o escravo e o filho (Jo 8:25), o noivo e o amigo do noivo (Jo 3:29). Mas, afora esses casos, é admirável quão poucas parábolas estão contidas no quarto evangelho.

3. Nos Escritos Paulinos. Nos trechos de Rm. 11:17 ss e Gl. 4:24, há aquilo que poderíamos designar mais apropriadamente de «alegorias». Paulo usou alguns exemplos expressivos, que poderiam ser considerados sementes de parábolas, como o ladrão à noite e a mulher prestes a dar à luz (I Ts. 5:2 ss), o grão de trigo (I Co. 15:37-38, 42-44); ilustrações agrícolas (I Co. 3:6 ss; Gl. 5:22 ss)', os crentes como membros do corpo de Cristo (I Co. 12:12 ss; Rm. 12:4 ss). Mas, na verdade, essas não são parábolas autênticas.

4. Na Epístola aos Hebreus. O termo parábola é usado em Hb. 9:9 e 11:19. Ali fala-se sobre o arranjo do tabernáculo de Moisés e sobre como Abraão recebeu simbolicamente o seu filho, de volta dentre os mortos. Mas temos aí mais ensinamentos simbólicos do que verdadeiras parábolas.

 

III. As Parábolas do Reino

 

Esta seção enfoca o terceiro dos grandes discursos de Jesus (compêndios postos em ordem pelo autor sagrado). Ver Mt. 13:1-58. Talvez tenhamos aí as mais sugestivas parábolas de Cristo, onde, incidentalmente, ele dá a razão pela qual ensinava por meio de parábolas: «Por isso lhes falo por parábolas; porque, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem entendem» (Mt. 13:13).

Terceiro Grande Discurso: dirigido às multidões (Mt. 13:1-58) — O Reino dos Céus e seus Mistérios

Neste capítulo encontramos o terceiro grande grupo de discursos deste evangelho. O evangelho de Mateus foi erigido em torno de cinco grandes discursos de Jesus, os quais são: 1. Capítulos 5-7, o «Sermão da Montanha». 2. Capítulo 11, trabalho e conduta dos discípulos especiais do Mestre. 3. Capítulo 13, os mistérios do reino dos céus. 4. Capítulo 18, o texto infantil e os problemas comunitários. 5. Capítulos 21:1-26:2, o fim da atual dispensação. Em torno dessas seções de ensino é que esse evangelho foi construído. Não representam apenas cinco discursos de Jesus, feitos em apenas cinco ocasiões diferentes, mas antes são passagens que —sumariam em blocos — os ensinos de Jesus sobre diversos grandes assuntos, os quais, considerados em seu conjunto, constituem a porção principal dos logoi que temos de Jesus. Jesus apresentou muitas parábolas, abrangendo muitas questões diferentes. Algumas delas foram «verdadeiras parábolas», que consistem de uma narrativa breve que ilustra uma verdade central (por exemplo, Mt. 20:1-16 e Lc. 16:1-8). Outras foram histórias ilustrativas, como vemos em Lc. 10:29-37. E ainda outras foram declarações metafóricas ou símiles (Mt. 7:16), e outras foram até mesmo tipos de alegorias, como em Mc. 12:1-12. As fontes das parábolas deste décimo terceiro capítulo de Mateus são diversas. Algumas se encontram em Marcos, pelo que a sua origem é o protomarcos. Outras figuram somente no evangelho de Mateus, e «M» talvez seja a fonte. O vs. 33 tem um paralelo em Lucas, mas não em Marcos, e por isso Q é sua fonte mais provável.

«Este capítulo ilustra a tentativa de Mateus em combinar os métodos cronológicos e tópicos. Segue o arcabouço de Marcos até onde pode; mas Marcos e suas demais fontes não tinham sido arranjados segundo um plano coerente. Neste ponto, Marcos expõe importante coleção de parábolas, que Mateus adota e expande, usando-a como um discurso geral sobre o reino dos céus, sobre sua aceitação e rejeição. Os dois capítulos anteriores levam a isso. Apesar do caráter variegado do material, o resultado é admiravelmente apropriado. O evangelista concebe a maior parte deste discurso como se fosse dirigido às multidões, mas teria havido explicações laterais para os discípulos». (Sherman Johnson, in toe.).

Este décimo terceiro capítulo de Mateus contém oito parábolas que são denominadas, em seu conjunto, «os mistérios do reino dos céus». A palavra «parábola» indica, literalmente, «comparação», e é comumente usada para indicar uma história breve, um exemplo esclarecedor, que ilustra uma verdade qualquer. A parábola não é uma fábula, porque a fábula é uma forma de história ilustrativa fictícia e que ensina através da fantasia, mediante a apresenta­ção de animais que falam ou de objetos animados. A parábola nem sempre lança mão de histórias verídicas, mas admite a probabilidade, ensinando mediante ocorrências imaginárias, mas que jamais fogem à realidade das coisas. A parábola também não é mito, pois este narra uma história como se fosse verdadeira, mas não adiciona nem a probabilidade e nem a verdade. A parábola não tenta contar uma história que deve ser aceita como história real, e, sim, um tipo de narrativa que nem sempre sucedeu realmente. A parábola, entretanto, não é idêntica ao provérbio, a despeito do fato de que a mesma palavra grega é usada para indicar ambas as coisas (ver Lc. 4:23; 5:36 e Mt. 15:14,15). A parábola pode ser, porém, um provérbio ampliado, e o provérbio pode ser uma parábola condensada ou resumida. A parábola também não é a mesma coisa que a alegoria. A alegoria interpreta a si mesma, tão somente substituindo as personagens reais por outras. Na alegoria, as personagens fictícias são dotadas das mesmas características das pessoas reais, sem qualquer tentativa para ocultar ou para ilustrar por meio de símbolos. A parábola ilustra por meio de símbolos, como por exemplo, «o campo é o mundo», «o inimigo é o diabo», «a boa semente são os filhos do reino», etc.

 

Explicação Geral das Parábolas:

 

1. Nota-se que alguns comentaristas exageram o suposto fato de que há sete parábolas neste capítulo, como se Jesus tivesse proferido somente sete parábolas sobre os mistérios do reino dos céus, como se esse número tivesse alguma significação mística. Não podemos negar que, às vezes, as Escrituras empregam certos números com sentidos determinados; por exemplo, as sete igrejas do Apocalipse, onde esse número evidentemente indica a perfeição. Teríamos, então, uma ilustração do caráter geral da igreja, e talvez um pequeno esboço do caráter geral da história eclesiástica. Quem pode negar que o número 666, número do anticristo, tem grande significação? Dificilmente alguém mostrou a sua exata significação, até hoje, mas provavelmente a explicação se tornará patente quando surgir esse personagem. O próprio livro de Apocalipse parece ser um estudo sobre o sentido dos números, mas aqui notamos que, em realidade, o autor do evangelho de Mateus registrou oito parábolas, e não sete, a saber: a do semeador, a do joio, a do grão de mostarda, a do fermento, a do tesouro escondido, a da pérola de grande valor, a da rede de pescar e a do pai de família.

Usualmente os intérpretes, pretendendo limitar o número dessas parábolas a sete, não consideram a história do pai de família como se fosse uma parábola, mas isso não passa de preconceito de número. Nota-se também que, nos trechos paralelos em Marcos e em Lucas, são apresentadas ainda outras parábolas: a da lâmpada (Mc. 4:21 e Lc. 8:16) e a da semente que cresce por si mesma (Mc. 4:26-29), o que perfaz um total de dez parábolas conhecidas. Também não é impossível que a parábola de Lc. 13:6,9, que fala sobre a figueira estéril, faça parte dos ensinos de Jesus acerca do reino dos céus. Talvez tenha sido apresentada ao mesmo tempo que as parábolas que se encontram no décimo terceiro capítulo de Mateus. Assim sendo, vê-se que o número de parábolas apresentadas por Jesus não é uma cifra exata, pelo que também é duvidoso formar qualquer teoria sobre exegese ou sobre dispensações à base do número das parábolas do reino.

Tanto Marcos como o autor do evangelho de Mateus indica a existência de outras parábolas (Mc. 4:33 e Mt. 13:34). Também é erro imaginar que Jesus proferiu todas essas parábolas em uma só ocasião; tal interpretação exagera as palavras exatas da história, olvidando que o principal intuito do autor do evangelho de Mateus foi o de reunir os ensinos de determinada qualidade em um lugar só, a fim de, ao redor deles, construir as histórias e incidentes do evangelho. A comparação com os outros evangelhos sempre ilustra que, por causa disso, o autor deste evangelho não relata os fatos pela sua ordem cronológica. Por exemplo, nessa mesma seção, a parábola do semeador, no evangelho de Marcos, aparece depois da visita da mãe e dos irmãos de Jesus, tal como sucede em Mateus, mas em Lucas a ordem é justamente a oposta (Lc. 8:4-15, 19-21).

Alguns intérpretes opinam que é provável que todas, senão a maior parte destas parábolas, tenham sido proferidas antes do Sermão do Monte, o que pode ser verdade ou não, mas que ilustra o fato de que alguns intérpretes estabelecem uma ordem artificial de acontecimentos, que nega muitos fatos já observados neste evangelho, confirmando que o autor não tinha o propósito de relatar todos os ensinos conforme foram apresentados, em sua ordem cronológica, na vida de Jesus. Realmente, o propósito do autor do evangelho de Mateus foi o de reunir os ensinos para formar um núcleo em torno do qual se baseia cada seção de acontecimentos.

Neste terceiro grande trecho dos ensinos de Jesus, portanto, encontramos os principais ensinos acerca do reino dos céus, e dificilmente podemos aceitar a idéia de que Jesus, de uma vez só, tenha proferido todas essas parábolas. Provavelmente apresentou uma de cada vez, quiçá com aplicações diferentes, fato esse que já foi observado outras vezes no tocante aos seus ensinos — a do semeador e a do grão de mostarda, enquanto Lucas apresenta apenas a parábola do semeador. No evangelho de Lucas, as outras parábolas aparecem em outros trechos. Por exemplo, em Lucas, a ordem de apresentação das parábolas é a seguinte: do semeador, Lc. 8:4-15; do fermento, Lc. 13:20,21. Porém, em seu oitavo capítulo, Lucas tem uma parábola não contida no evangelho de Mateus, a saber, a da lâmpada (Lc. 8:16), e talvez também uma outra parábola, a da figueira estéril, em Lc. 13:8,9. Marcos apresenta a parábola do semeador em Mc. 4:1-20, e a do grão de mostarda em Mc. 4:30-32. Tal como Lucas, Marcos acrescenta a parábola da lâmpada (em Mc. 4:21), e também apresenta uma parábola que não foi exposta nem por Mateus e nem por Lucas — a da semente que cresce por si mesma, em Mc. 4:26-29. A análise dessas informações prova que Jesus proferiu mais do que sete parábolas (seu número total talvez tenha sido onze) sobre o reino dos céus; e certamente não o fez de uma vez só, nem na mesma oportunidade. Bruce, do Expositor's Greek Testament, in toe., acha que, segundo a ordem da seqüência e da semelhança de propósitos, é provável que as parábolas do semeador, do joio e da rede de pesca tivessem sido proferidas na mesma ocasião. Precisamos concordar com ele em que é impossível dizer quantas parábolas foram proferidas naquela ocasião em que Jesus saiu de casa e assentou-se à beira-mar (Mt. 13:1). Também é impossível dizer quantas parábolas, em sua totalida­de, foram proferidas acerca dessa questão, ou qual o momento exato em que foram proferidas; mas certamente podemos confirmar e confiar que aquelas que temos nos evangelhos representam fielmente os ensinos de Jesus sobre o reino dos céus.

 

2. Como representação da história da igreja: Não há certeza se essas parábolas foram proferidas por Jesus como um esboço do reino dos céus, ou seja, a influência de Deus, através do Espírito Santo, durante o período da igreja, a época da graça; mas, por respeito aos bons comentaristas que assim ensinam, apresentamos aqui, em poucas palavras, a seguinte idéia: Alford, admitindo que a parábola tem por escopo principal ensinar, e não predizer, expõe com cautela este esboço geral do elemento profético das parábolas: a. o período áureo da semeadura da semente do reino, no tempo dos apóstolos — parábola do semeador, b. Intromissão de diversas heresias na igreja primitiva — parábola do joio. c. Apesar disso, o progresso do reino teve prosseguimento e o reino se desenvolveu — parábola do grão de mostarda, d. Durante tempos difíceis, como na Idade Média, o reino continuou se propagando, penetrando na sociedade inteira — parábola do fermento, e. Nos dias que correm surgiram as denominações evangélicas, mas, apesar disso, o tesouro ainda pode ser encontrado — parábola do tesouro escondido, f. Durante os períodos de desenvolvimento intelectual e da cultura secular em geral (Renascença), o homem ainda podia encontrar esse tesouro de excepcional valor — parábola da pérola de grande valor. Finalmente, após o passar dos séculos, haverá o julgamento, com a separação entre o bom e o mau — parábola da rede de pesca.

Alguns intérpretes apresentam uma comparação dessas parábolas com as sete cartas do Apocalipse, pensando que esses trechos apresentam um esboço da história eclesiástica. Inclusas nessa idéia, às vezes, também encontramos as bem-aventuranças:

 

Outras aplicações dessa matéria (incluindo as parábolas) ao caráter geral da igreja na atualidade, ou ao esboço da história eclesiástica, são quase sem número, e naturalmente há muitas interpretações exageradas ou mesmo falsas. Dificilmente acharíamos um texto que tenha sido mais abusado que o décimo terceiro capítulo de Mateus. Apesar disso, é certo que temos muitas aplicações às condições da igreja, além de muitas lições práticas, aplicadas à vida espiritual, quer da igreja, quer do indivíduo. Assim sendo, muito podemos aprender desses ensinos. Devemos ter o cuidado de não procurar ensinar mais do que Jesus quis ensinar e, especialmente, evitar as lições e os ensinos absurdos como aplicações dessas parábolas. 3. Interpretação geral das parábolas: em primeiro lugar, observamos que este trecho constitui o terceiro grande bloco de ensinos de Jesus (dentre os cinco existentes em Mateus), ao redor dos quais este evangelho foi formado. As seções do livro, cada uma tendo como centro um bloco de ensinos, são as seguintes:

1. Caps. 3 — 7

2. Caps. 8 — 10

3. Caps. 11 — 13

4. Caps. 14 — 18

5. Caps. 19 — 25

A conclusão é formada pêlos caps. 26 — 28. Os principais capítulos que apresentam os ensinos são:

1. Caps. 5 — 7

2. Cap. 10

3. Cap. 13

4. Cap. 18

5. Cap. 25

Após cada um desses ensinos aparece o cumpri­mento dos mesmos em palavras do autor, como, por exemplo: «Quando Jesus acabou de proferir estas palavras...»(Mt. 7:28); ou: «Tendo Jesus acabado de dar estas instruções...» (Mt. 11:1). Ou ainda: «Tendo Jesus proferido estas parábolas...» (Mt. 13:53). Ou então: «Concluindo Jesus estas parábolas» (Mt. 19:1). Ou, finalmente: «Tendo Jesus acabado todos estes ensinamentos...» (Mt. 26:1), que marcam o esboço do livro.

 

1. PARÁBOLA DO SEMEADOR (Mc. 4:1—9 e Lc. 8:4-8)

O próprio Jesus interpretou essa parábola (Mt. 13:18-23). A semente é a palavra, isto é, a pregação do reino. O semeador é Jesus, mas também pode ser aplicado a qualquer discípulo que prega o reino. O maligno é Satanás (interpretação primária) ou qualquer agência satânica, como a atração exercida pelo mundo, a falta de fé, o fascínio das riquezas, etc. Os diversos lugares onde pode cair a semente significam as personalidades ou características da­queles que recebem a semente, bem como o uso que fazem dela, ou então, como a semente germina ou não nas vidas desses indivíduos. De modo geral, com estas palavras, Jesus ilustra o que se pode esperar da pregação da palavra, isto é, pequena porcentagem dos ouvintes acolherá a mensagem, mas, entre esses ouvintes, haverá o desenvolvimento de muitos frutos. Jesus implica aqui a rejeição geral ao reino. Provavelmente, segundo alguns intérpretes insistem, as parábolas se aplicam tanto à igreja como aos indivíduos, e ilustram, de modo geral — a rejeição — ao evangelho; mas também indicam o sucesso parcial do ministério da «palavra». Tais explicações dão idéia de que haverá um intervalo entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, fato esse que os judeus jamais compreenderam claramente. Esse intervalo seria ocupado pela revelação dos mistérios do reino. As parábolas explicam, em termos gerais, o caráter desse tempo. Talvez o autor deste evangelho tivesse tido o propósito de revelar esses mistérios com estas parábolas, pois dificilmente poderíamos aceitar a idéia de que elas tivessem aplicação exclusiva aos tempos de Jesus. Porém, também não se pode aceitar que essas parábolas não tivessem tido aplicação às condições reinantes nos dias de Jesus. Ele falou ao povo para benefício de todos, e não há que duvidar que ele quis ilustrar a rejeição à parábola naquele tempo (ou sua aceitação, por parte de alguns), como também a rejeição ao reino dos céus, e, de maneira geral, rejeição à pregação de Jesus e aos seus conceitos doutrinários e morais. É certo que Jesus indicou a expansão do ministério da palavra de Deus no mundo, isto é, ensinou a universalidade da aplicação de sua mensagem e o seu objetivo, porquanto a «vinha de Deus», que é a nação de Israel (Is. 5:1-7) e a semeadura da semente no campo (o mundo), são coisas diferentes. Jesus, portanto, sugeriu aqui o desenvolvimento do movimento religioso que recebeu o nome de cristianismo, religião verdadeiramente universal.

 

2. PARÁBOLA DO JOIO (vss 24-30, e explicação dada por Jesus nos vss 36-43)

Nota-se aqui pequena variação no emprego dos símbolos: a «boa semente» (a palavra; a pregação, segundo a parábola do semeador) agora indica aquilo que a palavra tem produzido, isto é, os filhos do reino. Satanás também semeia a sua semente, que são os «filhos do maligno». O local onde isso se verifica é o mundo (o campo); alguns insistem em fazer disso a igreja. O resultado é o fato de que, por muitas vezes — é impossível distinguir as obras de Deus das obras do diabo, e os filhos de Deus dos filhos do diabo. Devemos notar que o campo não é a igreja, porquanto tal condição mista jamais foi a intenção de Deus, a despeito do fato de que, na realidade, tal mistura persiste. A igreja conta com mandamentos para observar, a fim de ser mantida a ordem e a disciplina, especialmente visando preservar a pureza doutrinária e pessoal, e esta passagem não foi dada para eliminar essa necessidade, supondo que tal obra seja atuação dos anjos no final desta dispensação. Esta parábola também não indica simplesmente as condições do mundo em geral e, sim, as condições irregulares daqueles que afirmam ser «filhos do reino», isto é, de Deus, cristãos. Assim sendo, esta parábola indica as condições da cristandade. O fato de ter sido feita uma mudança no simbolismo desta parábola, em compa­ração com o simbolismo da parábola do semeador, ilustra a verdade que os símbolos usados nem sempre significam a mesma coisa. Por exemplo, usualmente o símbolo da serpente, nas Escrituras e na literatura judaica, representa algo maléfico; no entanto, de certa feita Jesus se utilizou desse símbolo em bom sentido (ver Mt. 10:16). Não devemos ficar surpreendidos, portanto, ao acharmos que Jesus também usou o fermento como símbolo não de uma coisa má (ver Mt. 13:33).

 

3. PARÁBOLA DO GRÃO DE MOSTARDA, vss. 31,32 (ver Mc 4:30-32 e Lc 13:18,19)

"A menor de todas as sementes». Não se trata de uma verdade absoluta, e, sim, são palavras que representam um provérbio comumente usado com referência ao grão de mostarda. «Maior do que as hortaliças». Novamente não representa uma verdade absoluta, mas é uma comparação da minúscula semente que produz a hortaliça. Esta parábola ilustra o rápido desenvolvimento do reino, desde seu ínfimo começo, que era tão insignificante para as autorida­des do mundo, tanto políticas como religiosas, até o grande e notável lugar que veio a ocupar no mundo. A figura das aves do céu, a habitarem nessa árvore, talvez seja tomada de empréstimo de Dn. 4:20-22, que dá a idéia da falta de segurança da árvore; mas muitos bons intérpretes indicam com isso que está em vista um lugar de refúgio, repouso e bênção, como resultado da existência do reino, e que essa é a intenção das palavras de Jesus.

 

4. PARÁBOLA DO FERMENTO, vs 33 (ver Lc 13:20,21)

 

Esta parábola ilustra o poder de penetração do reino dos céus. Embora seja verdade que as Escrituras apresentam o fermento como símbolo da corrupção, e que os rabinos tenham usado o termo nesse mesmo sentido, não há razão para crer-se que Jesus não tenha tido coragem suficiente para mudar o símbolo, neste caso, a fim de que passasse a simbolizar outra coisa. Segundo alguns intérpretes, a intenção desta parábola é ilustrar como o reino haveria de receber elementos pervertidos e assim se estragaria com o aparecimento de heresias, etc. Parece que muitos não admitem as palavras simples (e sem a interpretação de Jesus) que ele proferiu. Os símbolos nem sempre são coerentes, como já observamos em diversos casos: 1. A semente, na parábola do semeador, significa a palavra. Porém, na parábola do joio, significa os resultados da palavra, que são os «filhos do reino dos céus». 2. Nas Escrituras e nos escritos rabínicos, a serpente sempre tem um sentido mau, usualmente indicando Satanás ou o mau-caráter de sua pessoa; porém, em Mt. 10:16 descobrimos que Jesus empregou esse símbolo com bom sentido. O símbolo do leão é usado tanto para indicar a Satanás (I Pe. 5:8) como para indicar o próprio Cristo (Ap. 5:5). Esta parábola ilustra a mesma coisa que a do grão de mostarda (desenvolvimento), mas a parábola da mostarda implica em crescimento observado de fora, ao passo que esta do fermento implica no desenvolvimento que, partindo de dentro para fora, finalmente, se propaga a toda a parte, isto é, a influência e o poder do mundo. Naturalmente que esta parábola não tem a intenção de ensinar que o mundo inteiro se converterá, conforme alguns têm dito ser o ensino deste texto, especialmente nos estudos feitos pêlos pós-milenistas. Devemos procurar evitar o extremismo na interpreta­ção, que busca o sentido de cada palavra, ainda que pequena, interpretação essa que transforma parábo­las simples como a que temos aqui em questões complicadas e complexas de teologia.

 

5. PARÁBOLA DO TESOURO ESCONDIDO, vs. 44 (somente em Mateus)

 

No sentido estritamente teológico, o homem nada tem para dar em troca de Cristo e do reino, além do fato de que Cristo não pode ser comprado e que a igreja separada do mundo não o compra; mas a prática desse tipo de prestidigitação exegética nos obriga a perder de vista o ensino desta parábola tão simples. A verdade ilustrada parece indicar que o homem é conduzido, pelas circunstâncias de sua vida, à verdade que se acha em Cristo e em sua mensagem, e então reconhece a maravilha dessa descoberta. Reconhecendo imediatamente que todos os demais «tesouros» de sua vida, quer riquezas, quer prazeres, quer fama, etc., não se podem comparar a este tesouro imenso, então, por todos os meios possíveis, assegura para si esse grande tesouro. Essa foi exatamente a experiência dos apóstolos, os quais «deixaram tudo», para seguirem a Cristo. Essa experiência também tem sido a de milhares de outras pessoas, entre os discípulos do reino. O espírito dessa parábola não difere muito do daquele que achamos em Mt. 11:12. «Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele». Apesar da intensa oposição interna e externa, alguns, com atitude resoluta, asseguram seus respectivos lugares no reino de Cristo.

 

6. PARÁBOLA DA PÉROLA DE GRANDE PREÇO, vss 45,46 (encontra-se somente em

Mateus).

 

Alguns interpretam a pérola como se fosse a igreja ou Israel, e que Cristo é aquele que a compra. Todavia, parece mais certo interpretar esta parábola como se interpreta a parábola do tesouro. No tempo de Jesus, as pérolas tinham grande valor, muito mais do que agora, comparativamente, porquanto eram mais valiosas do que as esmeraldas, safiras e outras pedras preciosas. Eram usadas para enfeitar as vestes dos ricaços. Por causa da associação das pérolas com o mar, os pescadores e aqueles que moravam à beira-mar, certamente, devem ter sentido o impacto desta parábola. Aqui temos o quadro de um homem que sempre achava pérolas pequenas de valor relativamente pequeno, e que vivia à cata de uma pérola de grande valor, sem igual. Finalmente a sua busca o guia até aquela raríssima pérola. Imediata­mente vende tudo quanto tem, todas as outras pérolas e seus outros bens, vendo nisso um sacrifício pequeno, contanto que assim possa adquirir aquela pérola extraordinária — essa pérola é Cristo e seu reino. Ã semelhança de Paulo, tal homem diria: «Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por amor do qual perdi todas as cousas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo...» (Fp. 3:8). Questões pesadas, como aquela que afirma que «nenhum homem busca a Deus», considerando assim que o homem aludido nesta parábola não poderia ser um pecador, são considerações impróprias que apenas obscurecem o sentido que Jesus quis dar a entender. Na experiência humana, o pecador sempre é comparado com aquele que busca e, de fato, algumas passagens bíblicas indicam exatamente isso. O impulso do Espírito está presente em toda a parte e leva os homens a procurarem o caminho de Deus. Contudo, não são todos os que buscam a pérola de grande preço, porquanto nem todos estão dispostos a pagar o necessário para obtê-la.

 

7. PARÁBOLA DA REDE DE PESCA, vss. 47-50 (encontra-se somente em Mateus)

 

Os vss. 49 e 50 fornecem a explicação, que é dura. Esta parábola expressa a intensa busca do reino dos céus que deve acompanhar a vida humana, porquanto os resultados de negligência, nessa busca, são simplesmente horríveis. A palavra «rede», neste caso, segundo o grego, não era a rede pequena que um homem, sozinho, poderia manusear e, sim, a rede grande, que só poderia ser manejada por muitos homens. Por causa de suas dimensões, essa rede de pesca apanhava muitos tipos de peixes, alguns apropriados ao consumo e outros inúteis para serem comidos. Assim se dá com aqueles que professam o cristianismo, neste mundo. Algumas pessoas possuem fé verdadeira, e sua religião cristã é autêntica; outras, não. Para os propósitos de Deus, algumas pessoas servem, e outras não.

 

8. PARÁBOLA DO PAI DE FAMÍLIA, vs. 52 (encontra-se somente em Mateus)

 

Alguns não incluem esta parábola juntamente com as outras, evidentemente porque acham que não se trata de uma parábola, o que não passa de um preconceito originado no desejo de preservar o número de sete parábolas. Porém, é perfeitamente óbvio que essas palavras formam outra parábola. Jesus usou a palavra «escriba», neste caso, para indicar os que ensinam a palavra de Deus, os intérpretes do reino, os apóstolos e outros, e não se refere aos escribas dos judeus. Jesus aludia aos seus discípulos que têm a responsabilidade de ensinar. Esses discípulos haveriam de ensinar o evangelho do reino e da graça de Deus, utilizando-se dos meios disponíveis. Alguns interpretam que as «cousas novas e velhas» são a lei (as Escrituras do V.T., as coisas velhas) e o evangelho do reino (as coisas novas). Ou, segundo outros interpretam, significam as coisas antigas da velha dispensação, e as coisas novas do cristianismo: e que essas coisas novas são usadas para esclarecer e ilustrar as antigas. Provavelmente a idéia também inclui a experiência pessoal do «escriba», não indicando apenas os livros usados por ele mas também a expressão de sua própria pessoa, ao exercitar os dons do Espírito Santo.

 

IV. As Parábolas do Antigo Testamento

 

Como é óbvio, Jesus não foi o criador das parábolas. Elas já existiam no Antigo Testamento. E os rabinos também usavam esse método de ensino. Ver a seção V, abaixo. Os eruditos alistam onze parábolas no Antigo Testamento:

1. Os moabitas e os israelitas. O narrador foi Balaão, no monte Fisga (Nm. 23:24).

2. As árvores que escolheram um rei. Foi contada por Jotão, no monte Gerizim (Jz. 9:7-15).

3. A ovelha e o pobre. Foi narrada pelo profeta Natã, em Jerusalém (II Sm. 12:1-5).

4. O conflito entre irmãos. Uma mulher de Tecoa contou-a em Jerusalém (II Sm. 14:9).

5. O prisioneiro que escapou. Um jovem profeta, perto de Samaria, apresentou essa parábola (I Rs 20:25-49).

6. O espinheiro e o cedro. O rei Joás a contou, em Jerusalém (II Rs 14:9).

7. A videira que deu uvas bravas. Isaías contou essa parábola, em Jerusalém (Is. 5:1-7).

As outras quatro parábolas são de autoria do profeta Ezequiel, que as escreveu na Babilônia, como segue:

8. As águias e a vinha (Ez. 17:3-10).

9. Os filhotes de leão (Ez. 19:2-9).

10. O caldeirão fervente (Ez. 24:3-5).

11.  Israel como  o vinha perto  da  água (Ez. 24:10-14).

 

V. As Parábolas Rabínicas

 

Os hebreus eram grandes contadores de histórias, conforme se vê no próprio Antigo Testamento. Foi apenas natural que parábolas viessem a fazer parte dos escritos sagrados e comentários daquele povo. Os escritos rabínicos contêm algumas excelentes parábo­las. Uma delas conta como um rei convidou pessoas a um banquete e instruiu-as a que trouxessem algo sobre o que sentarem. Isso eles fizeram; mas então começaram a queixar-se da falta de bons lugares para sentar. Alguns tinham trazido tábuas de madeira, outros pedras, e outros alguma coisa desconfortável. É que tinham estado com pressa, não tendo trazido assentos decentes. Talvez pensassem que o rei providenciaria algo, apesar da negligência deles. O rei, aborrecido diante do descuido deles, mostrou-lhes que eles mesmos se tinham munido de assentos inadequados. Essa parábola tem por intuito ilustrar como, no após-túmulo, as almas dos homens encontrarão, na Geena, exatamente aquilo que proveram para si mesmos. Em outras palavras, a lei da colheita segundo a semeadura, ilustrada por meio de um relato interessante, mas comum. (Eclesiastes Rabba, 3:9,1).

Outra parábola rabínica informa-nos a razão pela qual Abraão é chamado de «a rocha de que fostes cortados» (Is. 51:1; Yalgut sobre Nm. 7:66).

Certo rei queria construir um edifício. Mas, conforme cavava, encontrava apenas lama. Somente quando cavou muito fundo chegou a uma rocha que serviria de fundação. Por igual modo, no trato espiritual de Deus com os homens, não foi fácil encontrar uma provisão adequada para o seu templo espiritual. Mas Deus encontrou Abraão, que servia a esse propósito. É óbvio o paralelo com Mt. 16:18. Abraão foi o alicerce da comunidade judaica. Pedro e os demais apóstolos foram a fundação da Igreja neotestamentária (ver Ef. 2:20). Todavia, no sentido absoluto, Cristo é o grande alicerce da Igreja (ver I Co. 3:11). Mas, em um sentido secundário (em que a salvação não está envolvida), os líderes principais da Igreja são fundamentais. Em I Enoque encontramos ensinos parabólicos nos caps. 40-71, pelo que esse método didático penetrou nos livros do período intermediário entre o Antigo e o Novo Testamentos.

 

VI. Os Propósitos das Parábolas

 

Os hipercalvinistas têm explorado muito o texto de Mc. 4:10-12, que indica que Jesus usava parábolas com a finalidade de ocultar a verdade, em vez de revelá-la. Porém, esse versículo deve ser considerado no contexto do «julgamento judicial». Os ouvintes de Jesus com freqüência mostraram-se hostis às suas palavras. Por aquela altura de seu ministério, ele fora rejeitado, embora ainda não tivesse sido crucificado. Isso posto, a verdade foi escondida daqueles que se recusavam a ouvir e ver. Quando algum ensino espiritual é rejeitado, o rejeitador torna-se mais calejado do que antes, embora com menos desculpas pela sua atitude. Deixar de compreender a Cristo é deixar de compreender as suas verdades; mas ele veio buscar e salvar (Lc. 19:10), o que significa que ele deve ter vindo para ensinar claramente aos homens o caminho da salvação. Não é concebível que ele tenha vindo para enganar àqueles por quem morreu (I Jo 2:2). Isso posto, quando os homens mal entendiam a Cristo, isso era conseqüência das atitudes negativas deles, um aspecto da lei da colheita segundo a semeadura.

A mente humana compreende facilmente uma história. Muitos conceitos são complexos e parcial­mente ambíguos, ou mesmo duvidosos. Sempre será mais difícil apreender o intuito de um conceito do que uma história ilustrativa. De fato, as ilustrações ajudam-nos a aclarar e fixar conceitos em nosso entendimento. Ao interpretarmos as parábolas de Jesus, devemos evitar dois extremos; supercomplicação e supersimplificação. Em toda parábola há uma lição central; mas, algumas vezes, detalhes secundá­rios também envolvem sentidos especiais. Contamos histórias aos nossos filhos pequenos, e eles as entendem com facilidade. Mas ensinamos conceitos aos estudantes universitários.

 

 Bibliografia. AM E LA(2) LINN ND NTI TI WA(2)