Lição 11

13 de Dezembro de 2009

Jesus, os remendos e os odres

 

Texto Áureo

 

"Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o mesmo remendo novo rompe o ve­lho, e a rotura fica maior". Mc 2.21

 

Verdade Aplicada

 

As coisas novas de Deus não podem ser aplicadas a uma natureza velha, pois o resultado seria o desperdício e uma rotura ainda maior.

 

Objetivos da Lição

 

      Mostrar os transtornos causados pela organização religiosa da época de Jesus;

      Ensinar que se toma impossível al­guém receber as coisas de Deus a menos que mude seu modo antigo de viver,

      Assegurar que o cristianismo não é remendo. É mudança radical em todos os sentidos.

 

Textos de Referência

 

Mt 9.14      Então, chegaram ao pé dele os discípulos de João, dizendo: Por que jejuamos nós, e os fariseus, muitas ve­zes, e os teus discípulos não jejuam?

Mt 9.15      E disse-lhes Jesus: Podem, porventura, andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão.

Mt 9.16      Ninguém deita remendo de pano novo em veste velha, porque se­melhante remendo rompe a veste, e faz-se maior a rotura.

Mt 9.17      Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás, rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se con­servam.

 

Ajuda Versículos

 

Ajuda 1

 

Textos de Referência Mt 9.14-17

 

Parábola do médico e do noivo (Mt 9:10-15)

 

Há uma relação vital entre a pergunta dos fariseus —"Por que o vosso mestre come com os cobrado­res de impostos e pecadores?"— e a dos discípulos de João —"Por que nós e os fariseus jejuamos, mas os teus discípulos não jejuam?". Há uma convivência com pecadores que os confirma em seus pecados —e deve ser evitada. Há também a convivência com pecadores que os tira dos seus pecados —é esse o convívio aludido aqui que deve ser apreciado. Um íntimo caminhar com Deus resultaria em andar com os pecadores, a fim de ganhá-los para Deus.

 

O fracasso da multiplicação das regras farisaicas era que quanto mais aumentavam, mais crescia o número dos que as negligenciavam, e aumentava a separação entre eles e os seus mais íntimos irmãos. Uma regra rigorosa não era apenas a de deixar de comer com eles, mas nem mesmo comprar daqueles que desprezavam as tradições. Mas Jesus quebrou todas essas normas comen­do com os desprezados coletores de impostos e pecadores. A grande fes­ta de Mateus, da qual Jesus participava, sem dúvida era uma recep­ção de despedida dos velhos amigos e vizinhos, antes que ele assumisse o seu chamado como discípulo de Cristo. Como os publicanos eram tratados com desprezo e considera­dos pecadores, jamais os fariseus pensariam entrar na casa desses transgressores. Chocados, os fariseus perguntaram aos discípulos: "Por que come o vosso mestre com cobradores de impostos e peca­dores?". Jesus respondeu com uma jóia do gênero: "Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doen­tes". Lucas, por ser médico, dá um toque mais profissional à resposta do Mestre: "... os que estão com saúde..." (Lc 5:31).

 

Essa não foi a primeira vez que Jesus se referiu à sua obra redento­ra como o grande médico (Lc 4:23). Aqui repreende os polêmicos fariseus, lembrando-lhes que as exi­gências por "misericórdia" eram mais elevadas que as das leis ceri­moniais. Sarcasticamente, disse aos fariseus que não viera chamar os "justos" (como se achavam), mas os pecadores ao arrependimento. Os fariseus julgavam-se sãos; por isso, a missão de Cristo não era para eles. Como médico, seu lugar era junto aos necessitados. Porventura milhares de almas oprimidas e aflitas por cau­sa do pecado não acharam consolo nas inigualáveis palavras de Cristo? Os "justos", como aqueles miseráveis fariseus, satisfeitos com sua religio­sidade, foram "embora vazios".

 

Mas Jesus não foi censurado ape­nas pelos separatistas fariseus. Os discípulos de João também estavam perturbados com a associação dele com os pecadores. (João Batista, o austero apóstolo do deserto, evitava comer e beber em festas.) Os seus se­guidores, talvez influenciados pelos fariseus, perguntaram a Jesus: "Por que nós e os fariseus jejuamos, mas os teus discípulos não jejuam?". As­sim, o Mestre foi questionado por contrariar a maneira convencional de agir.

 

Ellicott observa que os seguido­res de João Batista continuaram, durante o ministério de Cristo, a for­mar um corpo separado (Mt 11:2; 14:12). Obedeciam às regras ditadas por João, mais ou menos nos padrões dos fariseus. Mas não eram tão hi­pócritas quanto os fariseus; e não obtiveram, portanto, de Jesus as ca­racterísticas respostas ásperas que ele dava aos fariseus.

 

A ilustração da Parábola do noi­vo torna-se mais significativa quan­do relacionada ao testemunho de João Batista sobre Jesus como "noi­vo" (Jo 3:29). Ele disse ao povo que a chegada do Noivo seria a complementação de sua alegria. Não há re­preensões aos discípulos de João, como aos fariseus, mas somente uma amorosa explicação. O teor das palavras de Jesus faz supor que ele considerava a recepção na casa de Mateus uma festa nupcial em senti­do espiritual, visto que celebrava a "união" de Mateus com Jesus. E não era mesmo o transformado coletor de impostos outro "casado com Cristo"? (Rm 7:3,4). A consumação dessas bodas dar-se-á quando se ouvir o grito: "Aí vem o noivo" (Mt 25:6; Ap 19:17). A presença de Cristo na fes­ta e suas parábolas ilustrativas a esse respeito demonstram a ausên­cia total das práticas ascéticas que os fariseus julgavam a essência da religião. O seu primeiro milagre con­tribuiu para a alegria da festa, no casamento em Cana (Jo 2). Ele usa aqui a figura de um casamento ori­ental, com cerimônias, regozijo e fes­tividade, durante sete dias, para ilustrar a sua rejeição ao rigor farisaico do seu tempo. O insulto a seu respeito era que ele comia e bebia com pecadores (Lc 15:1).

 

Por filhos do aposento da Noiva devemos entender os convidados da festa. Mas os discípulos de Cristo eram ao mesmo tempo individualmente convidados para a festa e co­letivamente formavam a ecclesia que se iniciava, ou a sua Noiva, a quem ele virá para tomar por esposa (Mt 22:2; Ef 5:25-27; Ap 19:7; 21:2). Ao aplicar a ilustração do Noivo a si, Cristo disse que a razão pela qual os seus discípulos não jejuavam era que ele estava com eles. Com Jesus no meio deles, de que outro modo esta­riam, senão muito felizes?

 

Jesus, porém, lembrou aos seus que seria tomado deles, ou tirado e erguido, quando se referiu à morte, ressurreição e ascensão iminentes. Durante todo o tempo que os discí­pulos tinham a presença física do Mestre, todo medo e dúvida foram afugentados. Mas, depois do Calvário, ficaram tristes, como pro­va o episódio no caminho de Emaús (Lc 24:21). Deixado sozinho, nesse mundo hostil, aquele primeiro gru­po considerou o jejum natural e con­veniente. Contudo, que triunfo teri­am! Mais tarde Jesus falou-lhes: "Vós agora, na verdade tendes tris­teza, mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar". É verdade que não temos a presença corpórea do nosso Noivo celestial conosco, para completar a nossa ale­gria, mas nem por isso está ausente, e isso não quer dizer que não venceu a morte. Não temos, afinal, a sua pro­messa real: "Não te deixarei, nem te desampararei" (Hb 13:5)? Não são necessárias práticas ascéticas para demonstrarmos a nossa lealdade a ele. Unidos a Cristo e amando-o, devemos procurar viver para ele, aguardando aquele bendito momento em que ve­remos o seu rosto como o nosso Noivo, e sentaremos com ele em suas bodas.

 

Parábola do vestido velho e dos odres velhos (Mt 9:16,17)

 

Falando com as mesmas pessoas, referindo-se aos mesmos religiosos, com cuja política não simpatizava, Jesus usou as figuras do vestido e dos odres remendados para realçar seu ensino sobre a natureza do reino. "Aos contrários à alegria dos seus discípulos, Jesus respondeu que a verdadeira alegria era inevitável enquanto estivesse com eles; e que todo o sistema que ele estava crian­do não era algo saturado de coisas velhas, mas totalmente novo." Ellicott acredita que há íntima rela­ção entre essa parábola ilustrativa e a anterior: "A festa nupcial sugere a idéia das vestes nupciais e do vi­nho, que pertenciam ao seu regozi­jo. Podemos ainda ir um passo além e acreditar que mesmo os vestidos dos que se sentaram para comer na casa de Mateus, originários das clas­ses humildes e menos favorecidas, tornam a ilustração mais palpável e vivida. Como poderiam aquelas ves­tes desgastadas ser adequadas aos convidados do casamento? Seria suficiente costurar pedaços de tecido novo onde o velho vestido estava ras­gado? Não é assim, ele responde; não é assim, ele responde de novo, quan­do implicitamente representa o rei que deu a festa e forneceu a roupa adequada" (Mt 22:2).

 

Os odres de que Jesus falou eram de pele ou couro de animais, feitos em diversos moldes e utilizados como garrafas. Ninguém pensaria em pôr vinho novo num odre velho que já perdeu a elasticidade. "Esse vinho certamente se fermentaria e arre­bentaria qualquer odre, quer novo, quer velho. O vinho não fermentado deve ser posto em odres novos.' Quando se completa a fermentação, o vinho pode ser colocado em qual­quer odre, novo ou velho, sem dani­ficar o odre ou o conteúdo." Resseca­dos pelo tempo e propensos a ruptu­ras, os odres velhos não suportari­am a pressão da fermentação do vi­nho. Desse modo, exigia odres novos.

 

Não é difícil buscar a interpreta­ção dessa parte da parábola. Cristo praticamente anula a antiga lei levítica e oferece o decreto da nova liberdade. Forçar os seus novos en­sinos sobre fórmulas antigas traria decomposição e ruína. Tomar as suas verdades e procurar colocá-las em qualquer outro formato diferente dos seus, seria como estragá-las como um vinho não fermentado. A nova energia e dons do Espírito, dados no dia de Pentecostes, são comparados ao vinho novo (At 2:13). Os antigos fariseus, contudo, persistiam, pois achavam que o velho vinho da lei era melhor (Lc 5:39).

 

O mesmo princípio se aplica ao costurar tecido novo em vestidos ve­lhos e desgastados. Remendar é algo comum, como toda mãe sabe. Mas aqui não se aplica ao modo normal de consertar uma vestimenta. A ve­lha roupa da nossa vida, pecadora e egoísta, não pode ser remendada. Cristo exclui qualquer obra reparadora. Precisa haver regeneração, ou a produção de uma nova roupa ou criatura. Por "pano novo" devemos entender um pedaço de tecido não encolhido, que não passou por inúme­ras lavagens. Refere-se a uma roupa nova, limpa e não amarrotada. Esse pedaço de pano não serve de remen­do ao vestido usado, pois, no primei­ro esforço, rasgaria o tecido ao redor e resultaria em ruptura ainda pior.

 

Cristo não ensina que a vida ja­mais pode ser uma mistura, resul­tante do seguir a dois princípios opostos? Não ilustrou a singeleza de princípios e motivos que Paulo enfatizou mais tarde quando disse: "Para mim o viver é Cristo"? Deve­mos ser simples e singelos em todos os nossos motivos. Não podemos ser­vir a dois senhores (ter duas cordas em nosso arco; confiar [para a sal­vação] em Jesus e em nossas própri­as obras; misturar lei e graça; seguir ao mundo e a Cristo ao mesmo tempo). Se o "vinho novo" representa o aspecto interno da vida cristã, então o "pano novo" ilustra a sua vida externa e as conversações. A fé se evidencia pelo comportamento. O vestido velho é a vida comum dos pecadores —o vestido novo é a vida de santidade, usada pelo novo homem em Cristo. Nessa narrativa, o jejum, que os fariseus tanto pratica­vam, era um vestido velho, para o qual seria inútil um pedaço de pano novo. Todo o sistema que Jesus veio criar não era algo impregnado numa velha ordem, mas algo novo. Ele não poderia, então, colocar numa fórmu­la desgastada as novas verdades que veio ensinar. Não é uma bênção sa­ber que seu ministério transformador continuará até que passem as coisas velhas, e que tudo se faça novo?

 

Bibliografia H. Lockyer