Lição 12

 

19 de Março de 2006

 

O cristão deve possuir a virtude da paciência

 

Texto Áureo

 

"Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio; melhor é o paciente do que o arrogante". Ec 7.8

 

Verdade Aplicada

 

Muitos erros seriam evitados, se nós aceitássemos a vontade de Deus e respeitássemos o seu tempo.

 

Objetivos da Lição

 

Saber que a paciência se submete às pressões do cotidiano sem queixas ou murmurações

 

Compreender que a paciência se desenvolve através das tributações;

 

Entender que a convicção de que Cristo vai voltar fortalece nossa fé diante das provações

 

Textos de Referência

 

Tg 5.7  Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas;

Tg 5.8  Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima;

Tg 5.9  Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas;

Tg 5.10 Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais falaram em nome do Senhor;

Tg 5.11 Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes.  Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo.

 

Ajuda Versículos

 

Ajuda 1

 

Ajuda 2

 

 

A «Parousia» e a Paciência Cristã (5.7-11) Obs: Já foi colocada a definição de Parousia no lugar apropriado.

 

A palavra «...pois...», que aparece no sétimo versículo, vincula esta secção com o parágrafo anterior. Os «irmãos» são oprimidos pelos ricos; mas podem ter a esperança firme de que Cristo aparecerá em breve como Juiz. Esse mesmo fato serve de advertência e de motivo de temor aos ricos, porquanto a altivez(arrogância, orgulho, amor-próprio) dos mesmos não demorará a ser cortada, visto que serão conduzidos ao julgamento, devido aos maus tratos que conferiram aos pobres. O autor sagrado, pois, faz da «paciência» sob todas as dificuldades (não apenas no caso da opressão pelos ricos) ,o seu tema central. Ele cria que a vinda de Cristo podia ocorrer a qualquer momento, pelo menos em sua própria vida terrena, o que era uma esperança comum na igreja cristã primitiva.

O autor sagrado, portanto, roga aos crentes que suportem tudo até ao fim, quando o próprio Cristo será a recompensa pela paciência deles. As perseguições e as dificuldades faziam com que muitos crentes primitivos se sentissem tentados a desistir do caminho. Esse é o tema central do livro aos Hebreus, mas que reaparece em vários outros lugares do N.T. Tiago, portanto, buscava fortalecer às «mãos fracas e aos joelhos trôpegos(Que não move os membros ou só os move com dificuldade, arrastadamente)». (Ver Is 35:3).

«Em um mundo como o nosso, a colheita da retidão não ocorre da noite para o dia. As forças do mal parecem cada vez mais poderosas do que os poderes do bem. Certas pessoas contam com a maior parte do dinheiro, e o maior prestigio e poder político e social, não têm escrúpulos em utilizar-se de meios para obter e conservar o poder, negando àqueles que servem à causa de Cristo. Por conseguinte, a causa de Cristo às vezes parece inteiramente perdida, como quando no tempo da crucificação, em que os próprios discípulos de Cristo, desanimados, o abandonaram e fugiram». (Easton, in loc).

 

5:7: Portanto, irmãos, sede pacientes ate a vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência, até que receba as primeiras e as últimas chuvas.

 

«...paciência...» No grego é «makrothumeo», «ser paciente», «ser constante». A raiz é makros, «longo», «longe», e «thumos», «vida», «hálito», «alma», «coração», «coragem». Os crentes devem ter uma «coragem duradoura». A idéia pode ser apenas a da paciência, mais ou menos como esse vocábulo é usado nas línguas modernas; mas freqüentemente, entretanto, a idéia, no N.T., é a de «constância», de «resistência» debaixo de certo tipo de circunstância. Por isso mesmo, tal palavra é freqüentemente usada como sinônimo de «upomone». O autor sagrado encoraja seus leitores a continuarem constantes e fiéis na convicção moral, opondo-se ao erro, praticando a santidade pessoal e o amor fraternal; em suma, fazer aquelas coisas que caracterizam um verdadeiro discípulo de Cristo. Os leitores originais da epístola poderiam ter de sofrer certas opressões e perseguições; mas a ordem parece ser dirigida diretamente à vida cristã diária, e não a alguma instância específica de dificuldade.

«.. .irmãos...» Há um duplo propósito no uso desta palavra, na epístola de Tiago. Em primeiro lugar, isso identifica os leitores com a família divina, obrigando-os a observarem as regras próprias dessa família, respeitando-se mutuamente, como também ao Pai e ao Irmão mais velho. Além disso, nesta epístola, o uso dessa palavra com freqüência assinala alguma nova divisão, sendo uma espécie de sinal de tal propósito. (Ver Tg 1:19; 2:1,14 e 3:1, além da presente referência).

«...vinda do Senhor...» Neste caso, o «...Senhor...» é Jesus Cristo (tal como em Tg 1:1 e 2:1; ver também esse título usado para indicar Jesus, e ver as notas expositivas sobre o seu «senhorio», em Rm 1:4). O autor sagrado esperava o retorno de Cristo para breve; e isso ele via como um elemento que faria grande diferença na vida e na conduta do indivíduo. Isso ajuda a pessoa a mostrar-se paciente no curso correto, porquanto conduz ao Senhor. A passagem de I João 3:2 alude à «parousia»(segundo advento de Cristo), como motivo para a pureza na vida do crente, porquanto a sua vinda inaugurará o juízo. E a segunda vinda de Cristo também é motivo a ações nobres, porquanto nos é assegurado que seremos transformados segundo a sua imagem, naquela oportunidade, e assim chegaremos a compartilhar de sua natureza essencial. Esse será o salto maior possível em um passo gigantesco, na direção das perfeições e plenitude de Deus Pai (Ef 3:19), que é uma operação do poder transformador do Espírito Santo (ver II Co 3:18). O termo «parousia», utilizado neste versículo, bem como na maioria dos outros mencionados, significa, primariamente, «vinda», e veio a ser usado como termo técnico para indicar a «segunda vinda» de Cristo.

«...Eis que o lavrador...» O lavrador é homem que nos dá um exemplo sobre o que o autor sagrado queria dizer. O lavrador precisa esperar; e tem de exercer paciência, porquanto nenhuma colheita surge imediata e automaticamente. Antes, é mister que prepare a sua colheita mediante um trabalho diligente, arando e semeando. Mas, mesmo depois de haver feito tudo quanto é possível, ainda assim tem de esperar. Outrossim, tem de depender da providência divina, pois, sem as chuvas, todo o seu trabalho será inútil.

«...precioso fruto...» A terra finalmente produz fruto, e sua produção é vital e preciosa. Recompensa a paciência do lavrador. E este pode dizer: «Valeu a pena todo o trabalho». Portanto, o crente não precisa ter dúvidas sobre a preciosidade da vida eterna, a qual será a recompensa de sua espera, porquanto Cristo voltará para dar vida, e isso com maior abundância do que agora.

«...as primeiras e as últimas chuvas...» No A.T. há dois períodos críticos de chuvas, mencionados em Dt 11:14; Jr 5:24; Jl 2:23; Zc 10:1. (Comparar também com Jr 3:3 e Os 6:3).

As primeiras chuvas. Essas ocorriam na estação chuvosa (outono e inverno) que, na Palestina, normalmente começava nos fins de outubro ou em começos de novembro, e que algumas vezes se prolongava até janeiro, quando se transformava em neve. Sua utilidade era a de prover umidade para a semente recém plantada, para que pudesse germinar. Portanto, era o sinal para a semeadura. Essas primeiras chuvas eram mais pesadas que as últimas. Chovia principalmente da direção oeste e sudoeste (ver Lc 12:54), à noite, continuando por dois ou três dias de cada vez.

As últimas chuvas: Essas ocorriam em abril e maio (na primavera), chuvas necessárias para que a semente amadurecesse. Não fossem essas chuvas, a despeito das mais pesadas chuvas do outono e do inverno, e a umidade não seria suficiente, e a colheita falharia. Assim, pois, os lavradores da Palestina esperavam ansiosamente pela bênção dá providência divina, para que pudessem semear e para que a safra pudesse amadurecer e fosse abundante. Assim como os lavradores dependiam do Senhor para isso, assim também o crente depende do Senhor em sua inquirição espiritual. Somos informados que, na Palestina, essas chuvas de modo algum eram garantidas, e em alguns anos elas não vinham, em contraste com outros lugares, onde as chuvas próprias da estação eram quase certas. Portanto, a dependência dos lavradores da Palestina é ilustrada melhor ainda.

Mui provavelmente, o autor sagrado sabia a respeito dessas chuvas, baseado em sua experiência pessoal; mas isso não provaria necessariamente que ele escreveu na Palestina, e nem mesmo que tenha escrito para crentes que ali habitavam, embora seja possível que a maioria dos leitores originais desta epístola vivesse naquela porção do mundo.

«Os seguidores de Jesus constituíam uma pequena e insignificante maioria no poderosíssimo império romano, e as forças lançadas contra eles pareciam avassaladoras. Porém, se ao menos agüentassem firme um pouco, mais, quando o Senhor aparecesse, a sua verdade seria vindicada». (Easton, in loc).

«Por conseguinte, por causa de vossa profunda e constante miséria, certificai-vos que Deus está próximo.

 

5:8: Sede vos também pacientes; fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima.

 

«...pacientes...» Temos aqui o mesmo vocábulo que foi utilizado no sétimo versículo, onde o mesmo é comentado.

«...fortalecei...». No grego é «steridzo», «estabelecer», «confirmar». Deriva-se de uma palavra que significa «apoiar», «permanecer», um elemento ou instrumento de apoio ou estabilização para algo. Fazemos isso espiritualmente mediante o cultivo dos meios espirituais de desenvolvimento e crescimento. A coragem aumenta e os propósitos espirituais são firmados e se tornam frutíferos. (Comparar com I Ts 3:12; Sl 112:8; Jz 19:5,8). O verbo aqui empregado é comum nas páginas do N.T. (Ver I Pe 5:10; II Ts 2:17; Lc 22:32; At 18:23 e Rm 1:11).

«...corações...» O homem interior, a alma, o homem essencial está aqui em foco. Essa palavra, no N.T., quase sempre tem esse sentido, embora ocasionalmente indique a expressão emocional ou intelectual da pessoa, porém, sempre apontando para o ser essencial.

«...vinda do Senhor...» Trata-se da mesma «parousia» aludida no sétimo-versículo. Saiba mais sobre PAROUSIA.

«...está próximo...» Os cristãos primitivos esperavam a segunda vinda de Cristo para seu próprio período de vida. Todos os elementos deste oitavo versículo estão contidos no versículo anterior, ilustram igualmente o intuito do presente versículo, o qual foi escrito em confirmação das idéias do versículo prévio.

É estranha ao texto a interpretação que diz que o autor sagrado tencionava indicar a «vinda providencial de Cristo» (na vida diária), a fim de aliviar os sofrimentos, e não queria indicar o evento escatológico, embora ele também tivesse feito isso. Antes, cada geração de crentes deve crer que Cristo pode vir em seu próprio tempo, porquanto isso serve de base de consolo e santificação.

 

5:9: Não vos queixeis irmãos, uns dos outros, para que não sejais julgados. Eis que o juiz esta à porta.

 

«...Irmãos...» Uma chamada ao interesse mútuo, fraternal, em face do fato que aqueles que prejudicam a outros membros da família cristã em breve serão julgados por causa de tais ações.

«...queixeis...» No grego é «stenadzo», que significa «queixar-se», «suspirar», «queixar-se contra», envolvendo criticas prejudiciais. Esse verbo é freqüentemente usado na forma «steno», «suspirar»,.«queixar-se», e que tem um certo tom reforçado, em relação ao outro, ou seja, «queixar-se muito». A raiz básica é «stenos», «estreito», «tribulação». Portanto, não devemos pôr nossos irmãos em Cristo em «posição difícil», «oprimindo-o» com queixas e críticas. Alguns estudiosos vêem aqui a idéia de «culpar a outrem pela aflição da era presente, que em breve terminará», mas tal interpretação não parece própria ao contexto. Como poderia um crente culpar a outro por causa disso? Antes, o descontentamento geral e a maledicência é que estão em foco. Isso envolve ativamente, pelo menos, a «maledicência» contra outros, em meio ao «juízo» contra eles, conforme se vê no décimo primeiro versículo. O autor sagrado combate, em ambos os lugares, a atitude e as expressões de «censura». Só existe realmente um que está qualificado a ser Juiz dos motivos dos homens, chamando-os à prestação de contas por isso. Se censurarmos aos outros,,isso deve ser feito com paciência e com a idéia de restaurar, e não meramente de criticar.

«...para não serdes julgados...» A pessoa censuradora é um elemento deletério(Que destrói ou danifica; prejudicial, danoso: Que corrompe ou desmoraliza:), e não construtivo. E torna-se culpado por esse motivo; e, visto que destrói, ao invés de edificar, está sujeito a severo juízo de Deus. Encontramos a mesma idéia em Tg 2:12 e ss.; 5:12 e Mt 7:1.

Sempre será verdade que obtemos aquilo que tivermos dado; colhemos aquilo que tivermos semeado—encontramo-nos conosco mesmos. Se tivermos prejudicado a outros, mediante o juízo e as criticas duras, nós mesmos haveremos de sofrer dano e perda, na exata proporção dos males cometidos. Assim nos ensina a passagem de II Co 5:10, acerca do tribunal de Cristo; e assim nos ensina a passagem de Gl 6:7,8, que ensina a lei da colheita segundo a semeadura. Nem mesmo o perdão dos pecados pode fazer isso parar; o pecado perdoado, e a alma salva do dano maior, não significa que escapamos dos «resultados» de nossos pecados. Seremos julgados de acordo com o que tivermos praticado, de bem ou de mal, sem importar o perdão dos pecados. O presente versículo não contempla o juízo no hades; mas focaliza a prestação de contas, até mesmo no caso dos crentes. Nós, os crentes, nos encontraremos conosco mesmos.

«O juiz está às portas...» Mui provavelmente, o «...juiz...», neste caso, é Cristo, porquanto o «Senhor», referido no sétimo versículo, certamente é ele. (Ver At 17:31 quanto a Cristo como «Juiz»). Entretanto, alguns estudiosos preferem pensar que ambas as referências são a Deus Pai, porquanto, normalmente, ele é aludido nesta epístola como Juiz e Senhor. (Ver Tg 4:12 quanto a Deus como Juiz). Outros ainda acreditam que Cristo está em foco no sétimo versículo, mas que, no nono versículo, é Deus Pai (através da segunda vinda de Cristo) que figura como juiz. Não há maneira absolutamente segura de resolver a questão, e nem ela se reveste de grande importância. (Ver Deus como Senhor, no quarto versículo do presente capítulo na lição 11). O autor sagrado pode ter usado os termos, por todo este capítulo, querendo indicar a pessoa de Deus Pai. Ou então, devido à menção da «parousia», nos versículos sétimo e oitavo, que é obviamente de Cristo, e não de Deus Pai, Cristo pode ser o Senhor e o juiz em ambos os casos, sem que o autor sagrado nos dê qualquer explicação específica de que agora usava os termos para ó Filho, e não para indicar a Deus Pai.

«...às portas...» Cristo está próximo do ato de entrar; e, por assim dizer, já pode ser divisado. Esse é um símbolo dado para ilustrar a «proximidade» da «parousia», conforme fica implícito nos versículos sétimo e oitavo. Ele está tão próximo que nos segue com olhar atento, percebendo tudo quanto fazemos, e nos considera responsáveis pelo que praticamos. Isso pode ser comparado com a linguagem figurada de Ap 3:20, onde Cristo é visto a bater na porta a fim de obter admissão a uma igreja local fria e formal.

Visto que a vinda do Juiz está tão próxima, podemos deixar, com segurança, nas mãos dele, todas as questões pertinentes ao juízo. (Ver Tg 4:11,12, onde há um severo aviso contra aqueles que presumem tomar o lugar de Deus, fazendo-se juizes de outros, quando, na realidade, só há um Juiz qualificado, que é igualmente o único legislador.

«A íntima aproximação do Juiz é motivo para suspendermos os nossos próprios juízos, e isso impede de cairmos naquele pronto julgamento que nos sobrevirá se não suspendermos tal hábito». (Alford, in loc).

«Nada serve de freio mais eficaz, para nos entravar as nossas precipitações, do que considerar que nossas imprecações não se desvanecem no ar, porquanto o juízo de Deus está próximo». (Calvino, in loc, o da predestinação).

 

 

5:10: Irmãos, tomai como exemplo de sofrimento e paciência os profetas que falaram em nome do Senhor.

 

«...Irmãos...» Outra chamada aos crentes, para que tomem consciência da conexão com a família divina, o que envolve sérias responsabilidades.

«...sofrimento...» No grego é usado o termo «kakopatheia», «infortúnio», «miséria», «sofrimento» por causa de qualquer forma de mal. As perseguições, provavelmente, devem ser incluídas nessa explicação. Tal palavra pode significar «constância», nesse caso, a constância e a paciência nos são recomendadas, sem qualquer alusão aos sofrimentos, ao infortúnio e às perseguições; mas a maioria dos intérpretes prefere a idéia anterior. (Comparar com Hb 11:36-38, quanto aos muitos tipos de sofrimentos e dificuldades que tiveram de experimentar os santos da Antigüidade, os quais, desse modo, se tornaram exemplos de como o crente deve suportar essas coisas, mediante o que se pode obter bom testemunho, e através do que se pode entrar no mundo eterno e obter elevado grau de glória).

«...paciência...» Melhor tradução seria «constância», «resistência». Essa palavra também é usada nos versículos sétimo e oitavo deste capítulo.

«.. .profetas...» Estão em foco os profetas do A.T., os antigos heróis da fé, os quais deixaram o exemplo apropriado de piedade, debaixo das pressões exercidas por este mundo hostil. (Ver Mt 5:12; 23:34,37; At 7:52; Hb 11:33; I Ts 2:15; Lc 11:49; II Cr 36:16 quanto a esse tipo de invocação ao exemplo dos profetas, a fim de ensinar-nos uma lição moral ou espiritual). É digno de atenção que o exemplo dos sofrimentos de Cristo não é mencionado, conforme se poderia esperar. Contraste-se isso com o que diz o escritor da epístola aos Hebreus, o qual, após fazer muitas ilustrações com os profetas do passado, ilustrou com o exemplo dado por Cristo (ver os capítulos onze e doze da epístola aos Hebreus). Pedro, por semelhante modo, apresentou Cristo como exemplo de como sé deve suportar os sofrimentos, em defesa do direito (ver I Pe 2:21 e ss.).

«...os quais falaram em nome do Senhor...» O «...Senhor...», agora, é Deus Pai, porquanto estamos pisando em contexto vetotestamentário. O sofrimento dos profetas foi ocasionado pela proclamação fiel da mensagem divina. «Aborreceis na porta ao que vos repreende, e abominais o que fala sinceramente» (Am 5:10). Ficamos sabendo que os melhores servos de Deus são os mais expostos aos abusos de homens ímpios e desvairados. Se isso acontecer convosco, então deveis saber que estais em boa companhia e participais da mesma esperança da glória eterna que eles tiverem. . (Comparar com Dn 9:6; 20:9; 44:16 quanto à questão do «homem falando por Deus»).

«...nome...» O «nome» representa a autoridade e o poder da pessoa; é expressivo de seu caráter distinto; o nome «identifica» a pessoa. Assim também o «nome divino» significa a identificação do Deus dos céus; e isso subentende o seu poder e a sua autoridade sobre os homens. Alguns homens têm o privilégio de representar «o Nome», ou seja, de falarem por Deus. Parece que a idéia envolve mais do que o fato que a existência do A.T. lhes deu o impulso de falarem. Antes, receberam revelações e a inspiração direta, a fim de se tornarem porta-vozes autorizados de Deus.

Os sofrimentos dos profetas: «...a vossa espada devorou os vossos profetas, como leão destruidor» (Jr 2:30). «...viraram as costas à tua lei e mataram os teus profetas, que protestavam contra eles, para os fazerem voltar a ti...» (Ne 9:26). «...os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida» (I Rs 19:10). «Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!» (Mt 23:37). «Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos» (At 7.52).

 

5:11: Eis que chamamos bem-aventurados os que suportaram afliçães. Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu, porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão.

 

«...felizes...» Tradução do termo grego «makarios», «feliz», «bem-aventurado»; mas, no N.T., tal termo se reveste da idéia de bem-estar espiritual e Recompensa, e não meramente de uma forma de felicidade que depende das circunstâncias. O bem-estar espiritual aparece aqui em primeiro plano, porque Deus abençoa aqueles que se mostram sérios em sua inquirição espiritual, até mesmo em face de séria oposição. Porém, está particularmente em vista a recompensa dos céus, a vida eterna. Esse é o vocábulo usado no quinto capítulo do evangelho de Mateus, onde Jesus apresenta várias «bem-aventuranças». E esse vocábulo é comentado no trecho de Mt 5:3, onde são dadas a sua história e o seu uso. Essas notas são úteis como ilustrações do presente texto.

«...perseveram...» No grego é «upomeno», «permanecer», «tolerar»; algumas vezes tem o sentido de «ser paciente»; e quase sempre tem a idéia de «resistência paciente».

«...paciência de Jó...» A palavra aqui traduzida por «paciência» é «upomone», forma nominal do verbo anterior. Significa «permanência», «constância», «perseverança». Ocasionalmente, porém, tem o sentido de «paciência», conforme essa palavra é atualmente compreendida—isso é, uma espécie de atitude que tudo suporta, esperando tranqüilamente por algo, sem qualquer queixa. Mas dificilmente essa é a maneira pela qual a palavra é usada nas páginas do N.T. Antes, está aqui em foco a idéia de «permanência paciente». Jó dificilmente poderia ser chamado de «paciente», no sentido normal dessa palavra. Ele se queixou amargamente e muito; não «esperou com paciência» que se modificassem as suas circunstâncias; antes, ele agonizou continuamente debaixo das suas circunstâncias. No entanto, Jó «perseverou»; e mostrou-se «constante» em sua fé, a despeito de seu grande sofrimento físico, das zombarias de seus «amigos», e até das blasfêmias de sua esposa, que lhe recomendou amaldiçoar a seu Deus e morrer. Foi esse o tipo de «constância» que Jó demonstrou supremamente, ,, debaixo das mais adversas circunstâncias, mediante o que reteve sua fé em Deus. «Eis que me matará, já não tenho esperança; contudo, defenderei o meu procedimento» (Jó 13:15). Sob circunstancia alguma ele quis renunciar a Deus. (Ver Jó 1:21 ess.; 2:9 ess.; 13:15; 16:19 e 19:25 ess.).

 

O Ponto De Vista Do Cínico

 

1. Satanás subestimou a Jó. Levou-o a queixar-se amargamente, mas pensou que poderia destruí-lo, removendo dele as vantagens e os prazeres mundanos.

2. Tal como Satanás, os cínicos modernos duvidam das pessoas espirituais, pondo em dúvida os seus motivos e a sinceridade de suas ações. Acima de tudo, duvidam da realidade do mundo celestial que buscam.

3. Jó provou que a verdadeira espiritualidade pode resistir a qualquer teste, e essa lição é desesperadamente necessária hoje em dia, em um mundo que está às vésperas do período da tribulação final. Verdadeira­mente, Cristo tem feito diferença em algumas vidas! Aprendamos algo dessas vidas, e imitemo-las. (Ver I Co 11:1 quanto à «importância do exemplo»).

4. O livro de Jó, acima de qualquer outra coisa, é um protesto contra o ponto de vista cínico acerca da vida. É um tratado contra aqueles que supõem que os valores da vida devem estar todos vinculados às vantagens pessoais.

5. Muitos intérpretes ficam desapontados ante o final da narrativa, pois, como galardão, Jó recebeu vantagens materiais, prosperidade, etc. As coisas usualmente não terminam desse modo. Porém, aceitemos esse fato alegoricamente. Há um grande galardão à espera dos fiéis. Suas obras «os seguem», determinando sua glorificação e felicidade. (Ver Ap 14:13).

 

Alguns vivem para um propósito superior àquilo que é normal para os homens ordinários. «Podeis queimar meu corpo e espalhar-lhe as cinzas aos ventos dos céus; podeis lançar minha alma às regiões das trevas, mas não podereis forçar-me a apoiar aquilo que creio ser errado». (Abraão Lincoln). Assim também disseram os huguenotes(Designação depreciativa que os católicos franceses deram aos protestantes, especialmente aos calvinistas, e que estes adotaram.) franceses, debaixo da perseguição: «Estamos dispostos a sacrificar nossas vidas e nossas propriedades ao rei, mas não podemos desistir de nossa consciência diante de Deus».

"...que fim o Senhor lhe deu...» Isso está registrado no quadragésimo segundo capítulo do livro de Jó. Ele recebeu em dobro tudo quanto perdera; e terminou a sua vida terrena em meio ao conforto e ao luxo. Alguns intérpretes ficam desapontados com essa conclusão; e supõem que o fim do livro de Jó é apócrifo, porquanto dificilmente a vida termina desse modo. Contudo, a mensagem do livro é assim salientada: Deus não se olvidou de Jó, o qual triunfou, finalmente; e isso durante seu próprio período de vida terrena. Na maioria dos casos, todavia, não é assim que termina esta existência terrena. O décimo primeiro capítulo da epístola aos Hebreus mostra-nos que o real consolo é a esperança da vida eterna. De fato, a fé consiste em confiarmos nas realidades daquele mundo celestial, em que o crente se contenta em ser, neste mundo, apenas um peregrino. A bênção dos justos dificilmente será terrena, e certamente a recompensa deles é eterna, pertencente à dimensão celeste, e jamais temporal em sua natureza.

«...que fim o Senhor lhe deu...» Certamente está em foco a conclusão providenciada pelo Senhor, que pôs ponto final aos sofrimentos de Jó. O «propósito» do Senhor, é o de tirar o bem do mal. Curiosamente, alguns eruditos têm imaginado que aqui há uma alusão à morte de Cristo, pelo que «fim» teria o sentido de «morrer»; mas isso está muito longe da realidade dó contexto, ainda que consideremos que a ressurreição faz parte desse «fim». Outros intérpretes crêem que, com esse termo, o autor sagrado acrescentou o exemplo deixado por Cristo ao exemplo de Jó; porém se o autor sagrado assim tivesse querido fazer, é muito difícil que tivesse ocultado seu pensamento em uma alusão tão obscura e duvidosa. Não obstante, tal pensamento serve de excelente ilustração para o texto. A recuperação de Jó, após seus sofrimentos, quando entrou no bem-estar, foi um tipo de ressurreição, sem dúvida.

«...O Senhor é cheio de terna misericórdia...» Uma única palavra grega é assim traduzida, e ela significa «pleno de misericórdia», «mui gentil». A raiz desse vocábulo, «splagchnos», significa «órgãos vitais», como o «coração»; mas algumas vezes estão incluídos os órgãos da cavidade inferior do tronco do corpo humano, como os «intestinos». Os antigos associavam esses órgãos às emoções, provavelmente devido à observação que as emoções afetam suas funções. Usamos a palavra «coração» desse modo, em nossos próprios dias. O «Senhor é cheio de coração»—e seu equivalente moderno seria «O Senhor tem um coração terno». (Comparar com Ef 4:32, onde se lêem as palavras «...sede... compassivos...», e onde é empregada a mesma raiz utilizada aqui). A palavra exata, na literatura sagrada, se acha somente em Hermas Sim. v. 7:4; Mand. vi.3. A forma nominal da mesma se encontra em Hermas Vis. i.3:3; ii,2:8; iv.2:3; Mand. ix.2; Justino Mártir, Dial. 55 . Porém, palavras derivadas da mesma raiz, e com a mesma idéia, são de uso freqüente no N.T. Em sua forma verbal, ela ocorre por doze vezes nas páginas do N.T.; e, em sua forma nominal, ocorre por onze vezes, embora alguns de seus usos sejam literais, e não simbólicos. Em Mt 9:36, onde é dito que Jesus teve profunda compaixão das multidões, é empregado esse vocábulo.

«...compassivo...» No grego é «oiktirmon», isto é, «misericordioso». Deriva-se de uma palavra que significa «dó». Deus tem dó daqueles que o temem, tal como um pai tem dó de seus filhos pequenos. (Ver Sl 103:13).

Compaixão: Há vários pontos que devemos considerar a respeito;

1. Era qualidade necessária aos sacerdotes (ver Hb 5:2).

2. Manifesta-se em favor dos sobrecarregados (ver Mt 11:28-30); em favor dos que são fracos na fé (ver Is 40:11 e Mt 12:20); em favor dos que são tentados (ver Hb 2:18); em favor dos aflitos (ver Lc 7:13 e Jo 11:33,35); em favor dos que perecem (ver Mt 9:36 e Jo 3:16); em favor dos pobres (ver Mc 8:2); em favor dos enfermos (ver Mt 14:14 e Mc 1:41).

3. É um dos atributos de Cristo (ver Mt 9:36), devendo ser duplicado nos crentes (ver Gl  5:22,23).

 

Visto que Deus é quem possui supremamente essa qualidade, não admira que ele abençoe, finalmente, àqueles que sofrem dor e tribulação, contanto que nele confiem. Neste texto, também aprendemos que Deus tem um propósito nos sofrimentos, e que nem sempre eles são um sinal de castigo contra o pecado.

Jó ocupa elevado lugar de estima na literatura judaica; e um livro apócrifo foi escrito em seu nome, «O Testamento de Jó». O autor sagrado concorda com essa avaliação, e agora se utiliza de seu exemplo para ensinar uma lição espiritual.

«Despido de todas as possessões terrenas, privado de todos os seus filhos, com um único golpe, torturado no corpo por chagas, tentado pelo diabo, assediado por sua esposa, caluniado pelos seus amigos, ele (Jó), entretanto, manteve firme a sua integridade, resignando-se às dispensações divinas e nunca acusando totalmente a Deus». (Adam Clarke, in loc).

 

            Bibliografia Champlin