Lição 10

 

05 de março de 2006

 

O cristão deve sujeitar-se à vontade de Deus

 

Texto Áureo

 

"O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor". Pv 16.1

 

Verdade Aplicada

 

Devemos estar dispostos a viver aquilo que Deus planejou, confiantes de que Ele tem o melhor para nós.

 

Objetivos da Lição

 

Entender que fazer planos sem submetê-los a Deus é pura insensatez;

 

Alertar sobre os perigos e males de não priorizar Deus em nossas decisões;

 

Destacar que a nossa existência neste mundo é efêmera e passageira.

 

Textos de Referência

 

Tg 4.13 Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros;

Tg 4.14 Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa;

Tg 4.15 Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não viveremos, como também faremos isto ou aquilo;

Tg 4.16 Agora, entretanto, vos jactais das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna;

Tg 4.17 Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando.

 

Ajuda Versículos

 

Ajuda 1

 

Ajuda 2

 

* OBS toda palavra(verde entre parênteses tem significado do dicionário Aurélio)

 

Confiança na Providência (4:13-16).

 

Esta secção destaca-se isolada, sendo completa em si mesma, sem qualquer conexão com o que lhe vem antes ou depois. Alguns estudiosos têm pensado que consta de um exemplo dos pecados da língua, o tema da secção anterior. Em outras palavras, uma pessoa muito pode talar sobre o que fará, demonstrando, por suas palavras, a falta de confiança na providência divina, ou ignorando a mesma. Porém, essa espécie de conexão, apesar de possível, é bastante remota. Preferimos pensar que o tema foi completamente mudado, o que não é incomum nesse autor sagrado, porquanto ele passa rapidamente de um assunto para outro, sem conexões literárias que disso nos avisem, exceto que ocasionalmente, ele assinala tais transições dirigindo-se diretamente a seus leitores, como «irmãos». (Quanto a essa prática do autor sagrado, ver Tg 1:19; 2:1,14; 3:1; 4:11 e 5:7).

O autor sagrado passa agora a demonstrar sua crença em uma forma altamente desenvolvida de teísmo. O teísmo ensina que Deus existe e tem contacto com os homens, intervindo na história humana, a fim de galardoar ou punir. O deísmo, em contraste com isso, ensina que apesar de ser razoável a suposição de que existe algum poder Supremo, também é razoável supormos que ele abandonou a sua criação, conforme fica demonstrado pelo problema do mal. Em outras palavras, existe tanto o mal, de natureza moral, em que os homens se mostram desumanos para com os seus semelhantes, ou de natureza natural, como os dilúvios, os incêndios, os terremotos, as enfermidades e a morte, que alguns sentem dificuldade em crer que existe alguma Força boa e toda poderosa no universo, que está cuidando das coisas. O autor sagrado, juntamente com outros escritores do Antigo e do Novo Testamentos, cria que haverá uma resposta adequada para o problema do mal, vinculada à entrada do pecado no mundo, o que criou a confusão e o caos. que os homens participam alegremente do pecado, precisam pagar o preço. Contudo, esse pagamento do preço tem uma finalidade disciplinadora, e não meramente retributiva. O mal, portanto, treina os homens a buscarem o bem, por verem que o preço do mal é excessivamente elevado. (Ver Rm 11:32 quanto a um versículo que subentende que Deus usa o mal a fim de levar os homens à crença certa), Por conseguinte, os autores do N.T. demonstravam na proposição que Deus está conosco, a fim de dirigir-nos em tudo. E essa é exatamente a posição do teísmo. Visto que os escritores da Bíblia acreditavam nessa verdade, foi apenas natural que ensinassem que todas as ações da vida de um crente devem ser efetuadas sob o poder e a orientação de Deus. A secção que se segue demonstra claramente essa crença, e que, naturalmente, também era defendida no judaísmo.

O homem que realmente crê que Deus está conosco, observando tudo quanto fazemos, e que nos ajuda ou castiga ativamente, conforme nossas ações sejam boas ou más, naturalmente orientará a sua vida na direção dos princípios divinos e espirituais. Se crê, porém, que nãoDeus, ou que Deus abandonou o seu mundo (posições respectivas do ateísmo(Doutrina dos ateus. Falta de crença em Deus. Filosofia. Atitude ou doutrina que dispensa a idéia ou a intuição da divindade, quer do ângulo teórico (não recorrendo à divindade para se justificar ou fundamentar), quer do ângulo prático (negando que a existência divina tenha qualquer influência na conduta humana).) e do deísmo(Filosofia. Sistema ou atitude dos que, rejeitando toda espécie de revelação divina e, portanto, a autoridade de qualquer Igreja, aceitam, todavia, a existência de um Deus, destituído de atributos morais e intelectuais, e que poderá ou não haver influído na criação do Universo.)), ou que nãoprovas sólidas para a existência de Deus, e a questão deve permanecer na dúvida (posição do agnosticismo(Filosofia. Segundo Thomas Henry Huxley (1825-1895), naturalista inglês, posição metodológica que admite os conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada. Atitude que considera inúteis as discussões sobre questões metafísicas, que estas tratam de realidades incognoscíveis. Doutrina, ou atitude, que admite uma ordem de realidade que é incognoscível(Que não pode ser conhecido).)), ou que é impossível investigar o assunto positiva ou negativamente (positivismo(Filosofia. Doutrina de Auguste Comte (v. comtiano), caracterizada, sobretudo, pela orientação antimetafísica e antiteológica que pretendia imprimir à filosofia, e por preconizar como válida unicamente a admissão de conhecimentos baseados em fatos e dados da experiência; comtismo. Por extensão Caráter das doutrinas inspiradas em A. Comte que fundamentam o conhecimento em dados empíricos cujo teor subjetivo geralmente acaba por ser privilegiado (sensacionismo, intuicionismo, simbolismo, etc.), muitas vezes, levando ao agnosticismo, ao relativismo ou ao misticismo.  )), então ele bem pouco se preocupará em orientar a sua vida segundo o mundo eterno. O teísta teórico, que afirma verbalmente que Deus existe, mas que não lhe permite guiá-lo na sua vida, na realidade é um ateu prático. Há muitas dessas pessoas no mundo atual, e não poucos que estão no seio da própria igreja. O texto, à nossa frente fala acerca dos ateus práticos, os quais conduziam sua vida como se Deus não existisse. O autor sagrado chama-nos a uma crença e a uma prática teístas ativas. Ignorar esse chamamento é tomar a atitude mundana e carnal, coisas essas que não podem caracterizar aos crentes.

 

4:13: Ele agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, la passaremos um ano, negociaremos e ganharemos.

«...Atendei, agora... » O grego diz, literalmente, «vinde agora», com a força de «vede agora». Assim também se em Tg 5:1. Isso representa um convite insistente, uma chamada incisiva para que se atenção. Na Septuaginta temos tal expressão nos trechos de Jz 19:6; II Rs 4:24 e Is 43:6.

«...vós que dizeis...» Em seus corações e em suas atitudes, e que às vezes se manifestava abertamente em suas palavras. Tanto no intimo como nas palavras proferidas, Deus era deixado do lado de fora. Que se poderia aproveitar disso? Tais motivos são uma forma de mundanismo, de amor às vantagens terrenas.

«...hoje ou amanhã...» Tais pessoas dizem: «O tempo está em nossas mãos», em contradição com o que ensinam as Escrituras. E continuam: «Quer hoje, quer amanhã, a decisão depende de nossos próprios desejos, de nossos caprichos, e não de Deus».

«...cidade tal...» Literalmente, «...esta cidade...», alguma cidade específica em mente, que oferece boas oportunidades de lucro. É possível, entretanto, que essa palavra seja aqui usada como uma designação indefinida, e não porque aqueles que fazem tais planos não sabem para onde vão; antes, porque o autor sagrado, ao criar uma situação hipotética, lembre-se do Pr Urias, não tinha um lugar definido em mente. Alguns intérpretes preferem este último sentido.

«...passaremos um ano.. .» Um tempo regularmente longo, mas ainda sem levar Deus em consideração. Seria um ano vivido inteiramente para o próprio «eu».

«...negociaremos e teremos lucros...» O autor sagrado não condena o desejo de obter lucro ou de alguém ocupar-se de atividades comerciais legítimas. Mas o que é condenado é a atitude totalmente egoísta de certas pessoas. Ele se sentia chocado que certos homens podem fazer esses planos, deixando Deus inteiramente de fora. Eles viajam buscando lucro, o que é uma prática comum, na Antigüidade e nos dias hodiernos(Relativo aos dias de hoje; atual). Mas fazem tudo sem Deus, até onde diz respeito a suas vontades.

«Não te incomodes com o amanhã, pois não sabes o que o dia te trará. Talvez ele não esteja vivo ao amanhecer, e assim ter-se-ia preocupado por um mundo que não mais existe para ele». (Sanhedrin 100b, extraído do Talmude(Doutrina e jurisprudência da lei mosaica, com explicações dos textos jurídicos do Pentateuco, e a Michná, i. e., a jurisprudência elaborada pelos comentadores entre o III e o VI séculos.)). Há grande semelhança entre essa declaração talmúdica e o que declarou o Senhor Jesus (em Mt 6:25 e ss., especialmente o versículo 34), em reverberação ao que ele dissera: «Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus...» (versículo 33).

 

4:14: No entanto, não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece.

 

«...o que sucederá amanhã...» Há uma história, contada pelos rabinos, que ilustra a questão: «Os nossos rabinos contam-nos uma história que aconteceu nos dias do rabino Simeão, filho de Quelpata. Ele estava presente à circuncisão de uma criança, e ficou com o pai da mesma, na celebração que se seguiu. O pai trouxe vinho de sete anos de idade para seus convidados, dizendo: Com este vinho continuarei a celebrar por longo tempo o nascimento de meu filho recém-nascido. Eles continuaram a ceia até à meia-noite. Então o rabino Simeão se despediu para retornar à cidade onde morava. No caminho de volta, viu o anjo da morte, que andava para e para . E ele lhe perguntou: 'Quem és tu?' E ele respondeu: 'Tiro a vida daqueles que dizem, Faremos isto ou aquilo, e não pensam de quão breve a morte se apossa deles. Aquele homem, com quem tomaste a ceia, e que disse a seus convidados: Com este vinho continuarei celebrando por muito tempo o nascimento de meu filho recém-nascido, eis que o fim de sua vida se aproxima, porquanto ele morrerá dentro de trinta dias'». (Debarim Rabba, secção 9, foi. 261:1). Que história impressionante! Quem disse que o Talmude é sensaborão(sensabor; sem-sal)?

«Que a incerteza da vida nos relembre de quanto dependemos de Deus». (Ropes, in toe).

«...neblina...» No grego temos o termo «atmis», «vapor» ou «fumo», segundo também se em Ed 7:61 e Apocalipse de Baruque 82:6, sendo palavra usada para indicar a natureza fugidia e tênue desta vida mortal. O termo grego pode significar uma ou outra dessas coisas. Indicava o «vapor» que escapa da água fervente, ou indicava a «fumaça» produzida pela combustão de algo. Parece não haver qualquer apoio léxico para a tradução «neblina», que ordinariamente era «amichle» ou «aer», no original grego. Porém, a alusão pode ser à «neblina» que se levanta de um rio ou lago, cedo pela manhã, e que logo se dissipa, assim que aparece o sol.

A mentalidade da segurança e do planejamento carnais se esboroa(Reduzir a ; desfazer) ante o fato brutal da mortalidade e da fragilidade do homem. Pouco tempo depois dessas palavras de Tiago terem sido escritas, o desastre e a morte caíram sobre Jerusalém com tremenda força. É bem possível que alguns dos leitores originais desta epístola tenham morrido debaixo do açoite de Roma.

«Não fixes teu coração em teus bens, e não digas, Tenho bastante para a minha vida. Não sigas tua própria mente e tuas forças, para andares segundo os caminhos de teu coração; e não digas, Quem me controlará? Pois o Senhor certamente se vingará do teu orgulho». (Eclesiástico 5:1-3).

 

4:15: Em lugar disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo.

Não faz muito, quando pessoas piedosas escreviam cartas, acrescentavam «D.V.» a quaisquer planos ali mencionados. Isso significa «Deo volente», isto é, se Deus quiser. Seguiam literalmente—e esperamos que também seguiam no espírito—a exigência do presente texto. O «D.V.» deveria ser escrito na alma, servindo-nos de guia na vida, porquanto certamente Deus sabe melhor o que convém para nós.

«Pois o segredo do ser do homem não consiste apenas em viver; mas em ter algo pelo que viver. Sem um conceito estável do objetivo da vida, o homem não deveria consentir em continuar vivendo, preferindo destruir-se do que permanecer na face da terra, embora tenha pão em abundância». (Dostoievski, Os Irmãos Karamazov, ao comentar sobre a afirmativa do Senhor Jesus, «O homem não vive de pão apenas»).

O indivíduo seriamente Interessado em fazer a vontade de Deus, em lançar a sua alma nessa direção, não demora a perceber quão inadequado é o ponto de vista dos materialistas, sobre a vida e sobre os ideais da vida. Em nossos próprios dias, a ciência se tem tornado o novo deus, porque serve tão bem à prosperidade material do homem. Mas é verdade o que disse Charles P. Steinmetz (um gênio científico): «Algum dia, as pessoas aprenderão que as coisas físicas não trazem felicidade, sendo de pouco uso para tornar homens e mulheres criativos e poderosos. Então os cientistas do mundo transformarão seus laboratórios, adaptando-os para o estudo de Deus, da oração e das forças espirituais».

A expressão «...Se o Senhor quiser... » Não era comumente usada pelos judeus quando expressavam seus planos e intuitos; mas era algo extremamente comum na cultura pagã. Nos escritos de Platão tal expressão é comum. Essa expressão também era de uso comum nos escritos árabes. Seus autores, evidentemente, copiavam os sírios, e os sírios copiavam os gregos, nesse costume sadio.

Parece, pois, que Tiago recomendava aos judeus uma prática helenista, e que ele considerava digna de ser adotada, pois nãoqualquer evidência de que os judeus estavam acostumados a falar assim. «Faz a vontade dele (de Deus) como se fosse a tua própria vontade, para que ele faça a tua vontade, como se fosse a tua. Anula a tua vontade diante da vontade dele, para que ele anule a vontade de outros perante a tua vontade». (Pirke Gamaliel, palavras do rabino Gamaliel).

«Com o termo vontade ele indica não aquilo que é expresso na lei, mas o conselho de Deus, mediante o qual ele governa todas as coisas». (Calvino, in toe).

 

4:16: Mas agora vos jactais das vossas presunções; toda jactância tal como está é maligna.

 

No décimo terceiro versículo vemos a condenação das assertivas ditadas pela confiança própria. Jactar-se da «certeza mundana» é algo ainda mais agravado; alegrar-se nessas coisas ainda é mais condenável. A mente religiosa sabe que Deus deve ser a alegria de nossa existência, e isso é expresso nas palavras do hino, «Jesus, alegria da vida dos homens». A alegria é um dos aspectos do fruto do Espírito Santo (segundo se aprende em Gl 5:22), e com base nisso ficamos sabendo que a alegria verdadeira é uma qualidade espiritual que se origina do desenvolvimento espiritual.

Alegria:

1. É dada por Deus (Ec 2:23 e Sl 4:7).

2. Vem por meio de Cristo (Is 61:3 e Rm 5:11).

3. É um dos aspectos do fruto do Espírito (Gl 5:22).

4. O evangelho traz a alegria (I Ts 1:6).

5. É uma promessa especial, feita aos santos (Sl 132:16 e Is 55:12).

6. A plenitude da alegria se verifica na presença de Deus (Sl 16:11).

7. É inútil buscar alegria nas coisas terrenas (Ec 2;10,11 e 11:8).

8. Nos crentes, a alegria deve ser abundante (ver II Co 8:1). E isso na esperança (Rm 12:12); na tristeza (II Co 6:10); nas tribulações (Tg 1:2 e I Pe 1:6); nas perseguições (Mt 5:11,12); na em Cristo (Rm 15:13); na comunhão com outros (II Tm 1:4; I Jo 1:3,4 e II Jo 12).

9. Deus deve ser servido com alegria (Sl 100:2).

10. A alegria dos ímpios se deriva dos prazeres terrenos (Ec 11:19); da insensatez (Pv 15:21); é ilusória (Pv 14:13); e não perdura (Mt 13:44).

«...arrogantes pretensões...» As palavras de arrogância se originam do espírito altivo, demonstrando-se em ações arrogantes. A raiz da palavra aqui usada significa «vagabundo», e envolve a idéia de ludibrio; aquele que é pretensioso (ver Pv 27:1) está aqui em foco.

«...maligna...» No grego é «poneros», que significa «errado», «prejudicial», por ser mal. (Comparar isso com Tg 2:4; Mt 5:19; Jo 3:19; 7:7; I Jo 3:12; Cl 1:21 e At 25:18).

O presente versículo fala especificamente sobre o «orgulho da vida» (ver I Jo 2:16). Trata-se da confiança equivocada dos ímpios, em sua habilidade de levarem uma vida baseada na arrogância, sem sofrerem perturbação ou perda. Trata-se do indivíduo que pensa que não precisa da providência divina em sua vida. Ele é o seu próprio bem; ele adora a si mesmo.

 

O Pecado da Omissão (4:17).

 

Este pequeno versículo se destaca como uma secção separada, e é um dos mais bem conhecidos versículos desta epístola. Trata-se de um aforismo(Sentença moral breve e conceituosa; apotegma, máxima) isolado, exatamente como se no trecho de Tg 1:12. Alguns estudiosos acreditam que este versículo sumaria a idéia da brevidade da vida (ver o décimo quarto versículo). A idéia é que, sabendo nós quão breve é a vida, devemos fazer todo o bem que pudermos; e, se assim não fizermos, teremos falhado em nossa missão, e, por conseguinte, teremos caído em pecado. Naturalmente, isso é uma idéia verdadeira e importante; mas qualquer conexão com os versículos catorze e dezessete é remota. Daí a força da palavra portanto, a qual, embora universalmente confirmada nos manuscritos antigos, não deve ser exagerada, pois não há nenhuma maneira boa de vincular essa declaração isolada com o que lhe vem antes. O autor conhecia a assertiva, ou criou-a ele mesmo, sentindo que a mesma poderia ser incluída em sua epístola; e aqui temos um lugar tão bom como qualquer outro de colocá-la. O contrário de viver na vangloria, do viver para si mesmo, é o fazer o bem aos outros; e se assim não fizermos, isso será um pecado que teremos cometido. E assim podemos forçar certa conexão entre este versículo e o anterior; mas, repetimos, tal conexão dificilmente é o que o autor sagrado tencionou.

 

4:17: Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.

 

Aparecem com freqüência as oportunidades de fazermos bem aos outros, especialmente no suprimento de suas necessidades físicas (ver Tg 2:14 e ss.; 1:27, como parte da definição do autor do que é a religiosa), simplesmente porque tal necessidade é universal. Na história intitulada a Bela Lenda, vê-se um crente ocupado na contemplação de uma visão de Cristo; então surge a oportunidade de distribuir pão aos famintos, que interromperia o seu êxtase. Aquele crente todavia, tinha uma idéia bem esclarecida de seus deveres religiosos; e assim, de pronto deixou de lado sua visão mística a fim de alimentar aos famintos. Ao retornar, encontrou Cristo no mesmo lugar, que aprovou o que ele fez, dizendo-lhe: se tivesses ficado, eu me teria ido embora.

O autor sagrado claramente essa lição. Nossa religiosa não pode ser guardada dentro de nós. Trata-se de uma experiência mística e deve continuar como tal, pois temos contacto com o Espírito Santo no nível da almamas deve ser algo prático, generoso, altruísta. Em outras palavras, deve ser uma expressão de amor, tal como Deus é amor e «deu» seu Filho a um mundo necessitado. O trecho de Mt 25:35 e ss. ensina a importante lição que amamos a Deus amando a outros, dando o necessário para eles, ajudando-os em suas necessidades físicas. Poucos homens podem amar a Deus diretamente, mediante a contemplação da alma, mas todos podem amá-lo indiretamente, amando ao próximo. É nesse ponto que deve começar o amor de Deus.

O autor sagrado, pois, como que dizia: «Aquele que sabe que deve amar, porém, não ama, está pecando». Consideremos, ainda, os seguintes pontos a respeito:

1. Tal indivíduo talvez seja um bom teólogo teórico; mas não é um bom discípulo de Cristo, pois ele é o padrão de como todos nós devemos amar, e ele «foi por toda a parte, fazendo o bem» (ver At 10:38). Se falharmos nesse ponto, ainda não teremos avançado muito em nossa transformação moral segundo a sua imagem, que resulta do desenvolvimento espiritual. À devemos acrescentar a «gentileza fraternal» (ver II Pe 1:6,7).

2. Para o autor sagrado, as boas obras são realizações dos exercícios religiosos apropriados, bem como o cuidado com a santidade pessoal (obras feitas no tocante a Deus) e práticas de bondade em favor de outros (ver Tia. 2:14). Portanto, neste lugar, o autor sagrado pode ter querido incluir a idéia que um homem deve ter cuidado com a natureza e a qualidade de suas práticas religiosas, e certamente incluiríamos a santificação. Porém, sua preocupação principal é a expressão do amor fraternal. Não fazer isso, é pecar.

3. Fica subentendido, embora não seja uma interpretação direta, que ele quis ensinar que cada crente tem uma missão sem-par a cumprir, sendo um instrumento ímpar nas mãos de Deus. Tudo quanto faz parte de sua existência diária, como seja, a sua expressão religiosa, etc, deveria ter por alvo o cumprimento dessa missão. Ele deveria ocupar-se em cumprir sua missão com grande intensidade de propósitos, realizando seu trabalho específico, levando-o à perfeição; e isso para seu próprio benefício e para benefício de seus semelhantes. Mas, se vier a falhar nesse particular, estará pecando contra Deus, que lhe conferiu vida e lhe dá muitas oportunidades para cumprir a sua missão.

4. Jesus falou de coisas «deixadas por fazer», mas que são mais urgentes e eticamente vitais do que outras (ver Mt 25:41-45). Assim é que com freqüência nos ocupamos de atividades que são legítimas, embora secundárias, esquecendo-nos das questões primárias. Isso também é pecado, embora não estejam sendo cometidos atos abertos de pecado. Masum desperdício das energias da vida, que são desviadas para coisas de valor secundário, quando nossas vidas deveriam ser dedicadas à realização de coisas primárias.

5. Assim também a passagem de I Sm 12:23 mostra que o deixar de orar por alguém, que também está em grande necessidade, é um pecado de omissão. Esse princípio geral tem muitas aplicações possíveis. Um professor, preguiçoso na realização de seus deveres, comete pecado contra aqueles a quem deveria estar ajudando mais conscienciosamente. O pastor que negligencia seus deveres e se contenta em apenas pregar no domingo, também está pecando. Outro tanto faz o pastor ou mestre evangélico que se recusa a aprimorar-se, mas antes, se torna espiritual e intelectualmente preguiçoso, prejudicando seu povo; esses estarão pecando porque seu povo fica estagnado em sua vida espiritual, por falta da instrução e do encorajamento apropriados.

6. O homem que pode melhorar a vida espiritual de outros, impedindo que caiam em pecado, se não o fizer, será culpado em parte desses pecados. «Todo aquele que estiver em posição de impedir que sejam cometidos pecados por parte de membros de sua casa, mas se refreia em fazê-lo, torna-se culpado dos pecados daqueles» (Shabbath 54b).

7. Alguns estudiosos pensam que o pecado aqui focalizado não é o pecado de omissão, mas antes, que é o pecado de alguém que sabe obviamente as coisas boas que devem ser feitas, em qualquer dada situação, mas, ao invés disso, praticam as coisas erradas. Porém, a maioria dos intérpretes prefere continuar com a idéia do «pecado de omissão», como aquela falha aqui em foco.

8. O pecado contra a luz (não corresponder à mesma) deve ser incluído na aplicação deste versículo.

9. O pecado de não se aproximar de Deus, por motivo de orgulho e de egocentrismo, é um pecado básico de omissão.

10. Este versículo não é passagem estritamente legalista, que repreende aos judeus cristãos por não estarem cumprindo as leis cerimoniais. Mas trata-se de passagem elevadamente ética em sua natureza, e mui ampla em sua aplicação.

«Embora a asserção possa parecer descabida entre nós, provocando comentários contraditórios, não me cansarei de asseverar que cada um de nós deveria fazer mais bem do que faz: e, portanto, nos devemos humilhar ao extremo, por termos praticado tão pouco bem no mundo» (Woods, in loc).

«Aqueles que se dedicam a bons planos, e que observam devidamente suas oportunidades de praticar o bem, usualmente percebem que suas 'oportunidades para tanto crescem de modo admirável. E quando uma pedra é lançada em uma poça, um círculo segue-se a outro, estendendo-se quem sabe até onde!» (Cotton Mather).

«Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites» (Lc 12:47).

Quanto melhor instruídos ficamos, como crentes, tanto maior será a nossa responsabilidade. «Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me» (Mt 16:24). Geralmente aceitamos essa responsabilidade mui superficialmente. De fato, dificilmente a aquilatamos conforme devemos fazê-lo. Na moderna igreja evangélica, temos visto pouquíssimo interesse pelas qualidades espirituais dos membros, mas muito interesse pelo número deles; e, por causa dessa atitude, a instrução dos crentes tem ocupado um pobre segundo lugar, em favor do evangelismo.

«Por longo tempo, as táticas têm visado induzir o maior número possível, todos quantos for possível, para que entrem no cristianismo. Não sejamos por demais curiosos em saber se aqueles que entram entendem realmente o cristianismo. Mas a minha tática, com a ajuda de Deus, será deixar claro o que é a exigência cristã, ainda que ninguém entre». (Kierkegaard, citado por P.T.  Forsyth, Positive Preaching and Modem Mind,   introdução).

O trecho de Rm 1:21 mostra-nos que a grande rebelião dos pagãos contra Deus começou pelo pecado de omissão. Eles conheciam a Deus, mas não o glorificaram como tal. Não demoraram a fazer do «eu» o seu deus, tornando-se vãos em suas imaginações. E não passou muito tempo para fazerem imagens de feras, de pássaros, etc, a fim de adorá-las.

 

            Bibliografia Champlin