Lição 02

 

08 de Janeiro de 2006

 

O cristão deve manter-se firme nas provações

 

TEXTO ÁUREO

 

"Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão". I Co 15.58

 

VERDADE APLICADA

 

As provações moldam o caráter e nos torna mais fortes.

 

OBJETIVOS DA LIÇÃO

 

Saber que os fracos e indecisos nunca entraram como vencedores para a história;

 

Entender que a superação do sofrimento nos faz crescer emocionalmente como cristão;

 

Compreender que o evangelho é um chamado para a maturidade, para lutar, vencer e crescer.

TEXTO DE REFERÊNCIA

 

Tg 1.2 - Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações;
Tg 1.3 - Sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança;
Tg 1.4 - Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes;
Tg 1.5 - Se, porém, algum de vos necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida;
Tg 1.6 - Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento;
Tg 1.7 - Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa;
Tg 1.8 - Homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos;
Tg 1.9 - O irmão, porém, de condição humilde glorie-se na sua dignidade.

 

Ajuda Extra  

Ajuda 1

 

O teste da fé (1:2-4)

 

A saudação; Regozijai-vos! (no primeiro versículo), é agora aproveitada para que se faça a observação que as provações, na realidade, são causa de alegria, porquanto nos beneficiam na inquirição espiritual, fortalecendo nossa fé e purificando-nos da escória. «Saudai com toda alegria;...» quando tais provações sobrevierem. O autor sagrado, sem dúvida alguma, inclui as perseguições, que eram comuns naquela época; mas não limita sua declaração às mesmas.

 

1:2: Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias provações,

 

 

«...irmãos...» O autor queria identificá-los como crentes, sendo esse o mais comum de todos os títulos e de todas as saudações entre os cristãos, usado por cerca de trezentas vezes nas páginas do N.T. Consideremos os seguintes pontos: 1. Tal termo faz-nos lembrar a nossa responsabilidade para com a família de Deus, à qual pertencemos. 2. Faz-nos lembrar de Cristo, nosso irmão mais velho, que é o padrão de nossa conduta e o objeto de nossa esperança. 3. Faz-nos lembrar de Deus, que é o nosso Pai, perante quem somos responsáveis, e da parte de quem recebemos vida, forças e orientação em nossas vidas, através de seu Espírito. 4. Faz-nos lembrar que haveremos de participar da plena natureza e imagem de Cristo, que é o alvo mesmo de nossa vida e de nossos esforços. Desse modo, surge uma comunidade de natureza, a participação na vida da família divina, segundo encontramos em Hb 2:10 em diante.

 

Tal uso surgiu primeiramente entre os judeus, e daí, naturalmente, passou para a igreja cristã. Embora dispersos por muitos lugares, e vivendo sob as mais diferentes condições, todos os cristãos, juntos, perfazem a grande família de Deus.

 

«...tende por motivo...» No grego é usado o verbo «egeomai», que primariamente significa «guiar», «liderar», mas que com freqüência veio ater o sentido de pensar, considerar. É como se tivéssemos aqui: «Considerai vossas provações uma autêntica alegria, por causa dos benefícios que isso vos trará».

 

«...toda...» No grego, «pas», que talvez deva ser compreendido adverbialmente, como «inteiramente», ou seja, «completamente alegre», como se as provações produzissem circunstâncias totalmente jubilosas; não por causa daquilo que são, porém, devido aos resultados produzidos. Ou pode ter o sentido de um adjetivo: uma alegria perfeita e sem mistura. O mesmo sentido geral é expresso de um modo ou de outro.

 

«...alegria...» A alegria é produto do crescimento espiritual, e consiste de um senso de bem-estar e de regozijo, porque o indivíduo está em harmonia com Deus, desfrutando da comunhão com Deus que satisfaz à alma e a torna feliz.

 

Tiago, neste ponto, reflete o ponto de vista cristão comum acerca da «felicidade», pelo menos aquela felicidade refletida no N.T. A felicidade é uma qualidade espiritual, de bem-estar da alma, e não algo que satisfaz ao corpo, devido a boas circunstâncias físicas. Assim sendo, a alegria de alma é possível mesmo sob as circunstâncias mais adversas, que podem tomar a forma de «provações» e tribulações. Esse ideal cristão da alegria repousa sobre a convicção neotestamentária de que a verdadeira vida transcende ao que é físico, e, portanto, às tentativas de prejudicar ao crente, mediante circunstâncias desfavoráveis para seu corpo. Tentar abafar tal alegria é como jogar pedras no sol.

 

A justaposição de «alegria» e «Regozijai-vos!» (na saudação), no primeiro versículo, é uma paranomásia possível somente no grego; e isso demonstra as seguintes coisas": 1. A epístola de Tiago foi originalmente escrita em grego; e 2. seu autor possuía habilidades retóricas no grego. Isso nega a idéia de que o documento fosse originalmente de origem judaica (posterior­mente adaptado para uso cristão); pelo menos é assim se pensarmos que tal documento foi escrito em hebraico. Também lança dúvidas sobre a autoria do livro por parte de um judeu da Galiléia, como qualquer dos «Tiagos» do N.T.

 

«...várias provações...» No grego, o substantivo é «peirasmos», palavra geral que indica qualquer espécie de provação ou tribulação, não se limitando às tentações ao pecado, mas sem excluir tais. Portanto, a forma verbal significava «testar», «tentar ao pecado». O autor indicava toda a forma de acontecimento desagradável, como retrocessos, derrotas, desencorajamentos, perseguições por causa de Cristo e a oposição feita pelo reino das trevas, na tentativa de derrotar ao crente. (Comparar com Mt 6:13 e I Pd 1:6, quanto ao uso da palavra em questão). Esse vocábulo é usado por vinte e uma vezes no N.T., em boas e em más conexões, isto, vinculado ou não em conexão com o pecado.

 

As aflições são beneficentes: 1. Elas promovem a glória de Deus (ver Jo 9:1-13 e 11:3,4; 21:18,19). 2. Elas exibem o poder e a fidelidade de Deus (ver Sl 34:19,20; II Co 4:7-11). 3. Ensinam-nos a vontade de Deus (ver Dt 4:30,31; Ne 1:8,9; Sl 78:34; Is 10:20,21; Os 2:6,7). 4. Fazem-nos voltar para Deus para obter ajuda (ver Dt 4:30,31). 5. Fazem-nos buscar a Deus em oração (ver Jz 4:3; Jr 31:18; Jn 2:1). 6. Elas nos convencem do pecado (ver Jó 36:8,9; Sl 119:67 e Lc 15:16-18). 7. Elas nos levam a confessar e a abandonar os nossos pecados (ver Nm 21:7; Sl 32:5; 51:3,6). 8. Elas nos ensinam a obediência (ver Gn 22:1,2 com Hb 11:16; Êx 15:23-25; I Pd 1:7 e Ap 2:10).

 

«Há uma verdadeira alegria para o guerreiro quando ele enfrenta face a face o adversário que precisa subjugar, em uma guerra que treina mãos e vista e enrijece os nervos e tempera a vontade». (Parry, in loc).

 

Os crentes judeus sofriam a oposição da comunidade judaica ordinária, por quem eram tachados de traidores de Moisés e do estado judaico, e seguidores de uma heresia; também sofriam a oposição dos oficiais romanos, porquanto o cristianismo nunca foi aceito como «religião legal», e, portanto, era reputado como uma religião de traidores; tal como todos os homens, passavam pelas dificuldades da vida diária, com suas derrotas e tragédias; tinham a oposição do reino das trevas, o que os fazia evitar os céus.

 

«...o veterano que já experimentou bem a sua armadura, que aprendeu a enfrentar o perigo habitual como um dever, é mais digno de confiança que um recruta, por grandalhão que seja e por corajoso que seja; assim também sucede ao soldado cristão. Este precisa aprender a 'suportar as dificuldades' (ver II Tm 2:3), tolerando o mundo alegremente e todas as tribulações que haverão de fortalecê-lo para a guerra santa. A inocência é realmente uma graça; todavia, há um estágio superior dessa virtude, a saber, a pureza conquistada mediante longo e muitas vezes amargo conflito com as milhares de sugestões para o mal, vindos de fora, que despertam a impureza natural, no íntimo. Tentação não é pecado. Conforme diz o piedoso germânico: «Não se pode impedir que os passarinhos voem por cima de nossas cabeças, mas pode-se impedir que façam ninhos em nossos cabelos». (Punchard, in loc).

 

1:3: sabendo que a aprovação da vossa fé produz a perseverança;

 

Os versículos terceiro e quarto demonstram, uma vez mais, as habilidades retóricas do autor sagrado, com o pleonasmo que diz «perfeitos e completos, em nada faltosos». Trata-se do uso de palavras similares ou sinônimas, para expressar mais enfaticamente a idéia desejada, o que, em suas formas negativas, ou usadas sem maestria, degeneram em mera redundância.

 

«...provação...» (Ver notas expositivas completas sobre essa questão, no segundo versículo). A palavra traduzida aqui também por «provação», entretanto, é diferente no grego. «Dokimion» significa «testar», «aquilatar». A mesma palavra é empregada para indicar o ato de aquilatar a autenticidade das moedas. Portanto, as provações testam a validade de nossa sinceridade, nossa vitalidade e santidade. Elas mostram se nosso metal é puro, ou se há nele elementos de corrupção, refugos. (Comparar com I Pd 1:6). Os versículos desta passagem são distintamente contrários àquele subproduto da «crença fácil» que medra na moderna igreja evangélica, e que diz que basta alguém fazer profissão de aceitação de Cristo, como seu Salvador, para que fiquem solucionados todos os problemas e se assegure a prosperidade. Pelo contrário, os problemas, os testes e as provações podem aumentar notavelmente. O próprio Senhor Jesus é prova disso: nada lhe foi poupado no que respeita a tribulações e sofrimentos.

 

«...da vossa fé...» O termo «fé», é usado de três maneiras, nas páginas do N.T.,a saber: 1. Há a fé objetiva, aquilo em que se crê, um credo, ou o cristianismo. Ver I Tm 1:2 quanto a esse tipo de fé. Fora das «epístolas pastorais» tal uso é raro, se é que é encontrado algures. 2. Há a fé como uma virtude, como uma qualidade espiritual, produzida pela influência do Espírito Santo (ver Gl 5:22). Essa forma de fé é apenas a expressão diária da «fé subjetiva», que aparece em seguida. 3. A fé subjetiva é o nosso próprio exercício pessoal de confiança em Cristo, na forma de outorga de alma aos seus cuidados, a base de toda a vida espiritual. O trecho de Hb 11:1 tem as notas expositivas a respeito desse aspecto, onde são examinadas todas as suas facetas, e com poemas ilustrativos. Esse é o aspecto da fé que se torna melhor e mais puro devido às provações porquanto assim aprendemos a reconhecer que a vida nesta terra é temporal, e que o objetivo de nossos desejos e de nossa fé deve ser eterno (ver II Co 3:18). No presente versículo, o resultado particular de tal provação é a «constância», a permanência na fidelidade. (Ver as notas expositivas abaixo).

 

«...uma vez confirmada...» Essas palavras foram supridas pelos tradutores, mas não se acham no original grego. Talvez eles tivessem visto essa idéia, a da confirmação da fé, sua perfeição sob o teste, contida no verbo traduzido como «produz». Trata-se da filha conformada e amadurecida, que nos ajuda a suportar a tudo com fidelidade.

 

«...produz...» No grego é «katergadzomai»; «realizar», «produzir completamente», «criar», são seus sentidos possíveis. Um subproduto da fé testada e comprovada é a necessidade do crente resistir, sem escorregar, sem desviar-se, sem negar o princípio espiritual.

 

«...perseverança...» Essa é melhor tradução do que «paciência», que é outro significado possível do vocábulo grego. Antes, está em foco a «resistência fiel e constante», debaixo dos testes, mediante o que o caráter cristão é fortalecido. (Comparar com II Pd. 1:6 e Tg 5:7). «Upomone», o termo grego aqui usado, raramente ou mesmo nunca é usado no N.T. com o sentido de «paciência», conforme tal palavra é usualmente empregada nos idiomas modernos. Não há qualquer idéia de meramente aprender e suportar tudo com paciência, sem queixumes, embora isso também seja uma virtude. E não há a idéia de «sorrir e suportar tudo». Antes, estão em foco as idéias de «constância», de «fortaleza cristã», de «lealdade constante», conforme tal termo era usado na literatura antiga. Trata-se de uma «fortaleza cristã», e de que muito precisamos, conforme o autor sagrado salienta.

 

Filo chamava a «upomone» de «rainha das virtudes», por tratar-se daquela força de caráter que nos ajuda a realizar nossos propósitos espirituais e a tornar bem-sucedida a nossa inquirição espiritual. (Comparar isso com Rm 5:3, que diz: «...sabendo que a tribulação produz perseverança...»). Por causa das muitas provações por que passou o povo de Israel, a «constância», a «perseverança», não eram consideradas uma virtude de pouco valor. Muitos eram convocados a suportar provações incríveis, por amor à sua fé. O autor sagrado, tal como o N.T. de modo geral, antecipa o fato que tal história continuaria na igreja cristã; e até mesmo naqueles dias a história já estava se repetindo.

 

O termo grego «dokimion», que significa «meio de teste» ou «instrumento de testar», aparece em quase todos os testemunhos textuais, mas «dokmon» (aquilo que é aprovado, que é genuíno), figura nos mss P(74), 110, 431 e 1241. Essa leve variante provavelmente foi intencionalmente feita, não tendo direitos à originalidade. No grego «koiné», essas duas palavras provavelmente eram intercambiáveis.

 

1:4: e a perseverança tenha o sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma.

 

A constância na fidelidade, a despeito das dificuldades, tem uma obra a realizar—a do «aperfeiçoamento». Todas as experiências da vida, o recebimento e uso dos dons espirituais, tudo faz parte da obtenção desse alvo em geral. Talvez a perfeição aludida por Tiago seja «moral», e não espiritual e metafísica; porém, ainda que isso seja verdade, não nos devemos olvidar que se trata da transformação moral, que provoca a transformação metafísica. Isso equivale á dizer que, quando assumimos a natureza moral de Cristo, através das operações íntimas do Espírito (ver Gl 5:22,23), é provocada a transformação metafísica, de modo a assumirmos também a sua natureza. Em outras palavras, somos transformados em seres muito superiores aos anjos, na medida em que Cristo é superior a eles; e assim chegamos a participar das perfeições e dos atributos do próprio Deus, com base na participação na natureza divina. Esses conceitos são claros em versículos como Cl 2:10; Ef 3:19; II Pd. 1:4; Rm 8:20 e II Co 3:18.

 

O Alvo De Nossa Perfeição

 

1. A perfeição do homem, agora ou na eternidade, será sempre relativa, pois somente Deus é perfeito, embora a sua perfeição se concretize em seu Filho. A perfeição do Filho é que se torna nosso modelo de desenvolvimento espiritual; e as coisas nunca mudarão em relação a isso, pois salvação é equivalente a filiação, e filiação é algo que se desenvolve tendo o Filho como seu arquétipo. (Ver Hb 2:40 e Jo 1:12).

2. As perfeições morais de Deus devem ser infundidas e cultivadas em nós; e isso importa em que a própria natureza divina está sendo implantada em nós. Porém, participamos dessa natureza divina em sentido finito. Entretanto, essa participação irá perenemente aumentando, por toda a eternidade, porquanto jamais poderá haver estagnação ou realização final em nossa glorificação.

3. Nessa glorificação sempre crescente, o espírito humano será transformado em um tipo de ser que ultrapassará em muito ao poder e à glória, mesmo do mais exaltado arcanjo. Esses seres tornar-se-ão a expressão de Cristo nos mundos eternos, os mestres e líderes de outros, que terão também de descobrir todo o seu propósito e alvo de existência em Cristo.

4. Tiago lança mão de três termos ou expressões ao referir-se a nosso progresso espiritual: perfeitos, completos e em nada faltosos. Comparar isso com Ef 4:13.

 

Notemos que a estrada para a perfeição é pavimentada com tribulações e provações. Não há modo de polir as rochas, a menos que se use um abrasivo. Apesar de que tal processo pode ser encarado como infinitamente fantástico, impossível e impraticável, é possível em graus sempre crescentes, devido ao poder do Espírito de Cristo, pois é ele quem nos transforma. O processo inteiro é uma «operação divina»; naturalmente, exige nossa anuência, nossa busca, nossa aceitação, e esse é o lado humano da questão. Na salvação, o ser humano sempre entra em contacto com o ser divino; e os dois se combinam. Ê esse o alvo transcendental que impede o crente de fixar-se no mundo e ficar satisfeito com o mesmo. È esse o pensamento que nos impede de concordar com os sentimentos expressos por um bom poeta.

 

Naturalmente, assim é que as coisas são agora, mas o Espírito está conosco a fim de mudar tudo, não havendo limite para a possibilidade de realizações na inquirição espiritual, o que traz o divino ao humano, o infinito ao finito.

 

«...íntegros...» No grego é «olokeros», que se deriva de tolos», «inteiro», e «kleros», «sorte», «partilha». Portanto, buscamos uma «partilha inteira» da perfeição, a duplicação das perfeições de Cristo, o Irmão mais velho da família de Deus. Essa perfeição deve ser completa em todas as suas partes, sem quaisquer defeitos.

 

«...em nada deficientes...» Sem imperfeições nas qualidades morais; sem qualquer defeito moral. Não há que duvidar que essa é a idéia central nesta epístola, mas lembremos-nos, uma vez mais, que a transformação moral produz a transformação metafísica.

 

A experiência abrasiva da vida é necessária para produzir-se a perfeição; esse é o pensamento central do autor sagrado, nestes versículos. Somente assim podemos «ater plenamente» nossa chamada divina para a perfeição. A vida é uma disciplina e uma escola, e não uma viagem agradável. Essa é uma lição severa, mas é necessária. Aqueles que não se submetem a essa abrasão, são «deixados para trás», em estados de imaturidade, não se fazendo completos. Esses são os «deficientes». A constância é algo excelente, mas não é o bastante. A constância consiste em ganharmos consistentemente a vitória; mas algum dia teremos de triunfar de modo absoluto. A perfeição, pois, é esse triunfo absoluto, que buscamos.

 

Conforme diz Ropes (in  loc). «...'teleios' significa 'completo', no sentido de 'perfeito', de 'terminado'. Portanto, 'olokleros' significa 'completo em todas as porções', em que nenhuma porção é deixada em estado de inadequação».

 

Neste versículo, o autor soa mui claramente a sua trombeta. Ele haverá de mostrar-nos no que consiste a verdadeira fé; agora nos mostrou onde ela nos leva e o que ela pode fazer. Ele exibe poderoso discernimento contra a «crença fácil», e esse é o grande proveito que derivamos de seu livro.

 

Aqueles que crêem que a porção central da epístola de Tiago era um documento judaico e pré-cristão, pensam ver neste versículo algumas indicações dessa idéia. Vêem alusões às tribos israelitas (tal como em Gênesis, em seu quadragésimo nono capítulo; ou tal como nos Testamentos dos Doze Patriarcas, do princípio ao fim). Assim é que Filo identificava Isaque com a «alegria»; Rebeca com a «constância»; e Jacó com a «perfeição» em meio aos testes, precisamente as idéias que encontramos aqui, embora sem que se façam quaisquer referências pessoais.

 

Deus Responde à Oração e Dá Sabedoria (1:5-8).

 

Continuando a empregar suas habilidades retóricas, o autor sagrado (tal como no segundo versículo, em vinculação com o primeiro), toma a expressão «em nada deficientes», no quarto versículo, e sobre essa idéia edifica o quinto versículo, que fala sobre a necessidade de sabedoria. Também há certa conexão de idéias: suportar as provações e progredir na busca espiritual pela perfeição é algo que exige uma altíssima sabedoria, e, de fato, uma sabedoria divina. As orações, feitas com razões egoístas, serão ignoradas (ver Tg 4:3); mas a oração pela sabedoria é agradável diante do Senhor, tal como no caso de Salomão, provocando alguma espécie de resposta. Isso é dito para dar ao leitor uma disposição diligente na busca pela sabedoria.

 

1:5: Ora, se algum de vós tem falta de sabedoria, peca-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não censura, e ser-lhe-á dada.

 

O autor sagrado faz uma proposição como se fosse incerta, embora sabendo que todos os crentes precisam de sabedoria, porquanto todos estão distantes da realização da «perfeição», do «estado completo», que não é deficiente em coisa alguma acerca do que ele falara, no versículo anterior.

 

«...sabedoria...» Conforme Cícero, essa era a «princesa das virtudes». É a fonte do conhecimento bem aplicado. A sabedoria espiritual consiste em compartilhar da sabedoria divina; e essa é misticamente transmitida, isto é, mediante o poder e a comunhão do Espírito. Por sua vez, isso significa que, segundo o N.T., a sabedoria não consiste em mera astúcia humana, em aplicação habilidosa do conhecimento, e mesmo de um vastíssimo conhecimento.

 

A sabedoria de Deus: Consideremos os pontos seguintes: 1. Essa é uma das suas qualidades (ver I Sm 2:3 e Jó 9:4). 2. Ela é perfeita (Jó 37:16), poderosa (Jó 37:16), universal (Dn 2:22), infinita (Sl 146:5 e Rm 11:33), insondável (Is 40:28 e Rm 11:33). maravilhosa (Sl 139:6), além do entendimento humano (Sl 139:6). 3. Incomparável (Is 44:7), contida em Cristo e no evangelho (Cl 1:3; I Co 2:7). 4. Além disso toda a verdadeira sabedoria humana se deriva dela (Ez 7:25 e Ef 1:17). 5. É exibida nas obras de Deus (Sl 104:24), em seus planos (Is 28:29), na predição dos acontecimentos (Is 42:9), na redenção (I Co 1:24 e Ef 1:8), no juízo (Mt 24:36), na resposta às orações (Tg 1:5). 6. Da sabedoria de Deus nada se oculta (Sl 139:12). 7. A sabedoria de Deus deve ser magnificada (Rm 16:27 e Jd 25). Nesta epístola de Tiago é forte a ênfase sobre a sabedoria. (Ver ainda Tg 3:13,15,17; e, em sua forma adjetivada, ver Tg3:13).

 

A sabedoria tem sua base no perfeito conhecimento de Deus; e como seu objeto, a inquirição pela perfeição moral e metafísica visa o que é exemplificado em Cristo. A sabedoria pode ser transmitida à alma sem que sejam alteradas nossas proposições doutrinárias, sem que sejam aumentadas ou «racionalmente» compreendidas.

 

«A sabedoria a que Tiago se refere não é o conhecimento de fatos a que denominamos de ciência, mas é aquela qualidade do entendimento que aguça a percepção das obrigações morais e a apreensão das realidades eternas. Essa é a sabedoria pela qual Salomão orou (ver II Cr 1:8-12). Ela se compõe daqueles sãos princípios que, conforme diz o livro de Provérbios, se originam da reverência para com Deus (ver Pv 1:7). O fenomenal progresso que tem feito a humanidade, no acúmulo do conhecimento científico, infelizmente não tem sido acompanhado pelo crescimento na sabedoria, a que Tiago se refere. Conforme escreveu Arnold Tonybee, o grande historiador norte-americano: 'A evidência técnica não é, por si mesma, uma garantia de sabedoria ou de sobrevivência'».

 

Por que a oração é necessária para a obtenção dessa sabedoria? Por que segundo o entendimento cristão sobre a sabedoria, a oração envolve a confissão de insuficiência moral, de inadequação e de aspiração pela perfeição divina. À parte de tal atitude, é impossível adquirir-se a sabedoria, a oração cristã não é uma tentativa de modificar a mente de Deus, mas consiste na abertura do coração para a influência transformadora do Espírito de Deus» (Easton, in loc.).

 

A sabedoria consiste no discernimento da alma quanto às realidades espirituais; e é através dessa entrega da alma, ao processo transformador, que Cristo a produz em nós. (Ver Ef 1:17,18 quanto à oração de Paulo, pedindo sabedoria e conhecimento). Isso vem através da «iluminação» conferida pelo Espírito Santo). A sabedoria, por conseguinte, é uma qualidade mística, e não uma qualidade racional ou empírica. (Ver também Cl 1:9 sobre esse tipo de «sabedoria»).

 

A sabedoria é personificada em Cristo (ver I Co 1:30); e isso tem precedente na passagem messiânica do oitavo capítulo do livro de Provérbio. A Torah, comentário dos rabinos sobre as Escrituras do A.T., era chamada de «sabedoria». Em um sentido mais estreito, a Torah era idêntica ao Pentateuco; mas assumiu o sentido lato de toda a revelação divina. Aquela era uma revelação menor da sabedoria de Deus; Cristo é a revelação superior; e ele está em nós, por meio do seu Santo Espírito, transformando-nos. Nisso consiste a sabedoria de Deus em nós.

 

A oração é um ato de criação: Ela modifica tanto as circunstâncias como as pessoas que fazem as circunstâncias. Acima de tudo, a oração modifica a alma daquele que ora, espiritualizando-lhe a alma, dando-lhe contacto com o ser divino

 

«...a todos...» Essas palavras indicam «todos os crentes sinceros e inquiridores», embora não seja errado supor-se que um incrédulo sincero possa obter respostas às suas orações, mormente quando busca, de todo o coração, a Deus e à verdade divina.

 

«...liberalmente...» Quando se trata de benefícios espirituais que possam ser dados à alma, não há limite para o que Deus pode e quer fazer. Suas doações liberais continuarão até participarmos plenamente da natureza, dos atributos e dos poderes de Cristo; pois é esse o alvo cristão, um alvo elevadíssimo. A fim de que esses alvos sejam conseguidos, juntamente com outros alvos dignos da vida diária, que fazem parte desse grande plano geral, é mister que Deus no-los dê, literalmente. O termo grego «aplos», que significa, literalmente, «simplesmente», isto é, sem a mistura da malícia, da reserva ou da relutância, significa, portanto, «liberalmente», isto é, de modo livre e pleno, que não conhece limitações, senão aquelas impostas pela incredulidade e pela carnalidade de quem pede. Deus nos dá de maneira simples, franca, sem limites, sem reservas ou motivos ulteriores; mas, bem pelo contrário, dá-nos de uma maneira diferente daquela que os homens estão acostumados a dar. Portanto, ninguém pode «pedir demasiadamente a Deus». Isso é verdade, naturalmente, enquanto lhe pedimos bênçãos relativas ao progresso espiritual e ao bem-estar da alma. Porém, quando começamos a pedir, motivados pelo egoísmo, Deus se recusa a atender-nos, a fim de não sermos prejudicados pela nossa própria ganância. (Ver Tg 4.3).

 

«...e nada lhes impropera...» No grego é «oneididzo», que significa «repreender», «insultar». Ele não mostrará para nós quão estúpidos formos antes de nos mostrarmos suficientemente sábios para buscar os seus caminhos; ele não nos insultará pelo que tivermos sido. Deus anseia por ver-nos transformados naquilo que está reservado para nós em Cristo. Deus lança no olvido os erros passados, e faz o melhor possível quanto à nossa presente inquirição espiritual. Há certa declaração no livro de Eclesiástico (41:22), que diz: «Depois que deste, não increpas». Aqueles que necessitam daquilo que podemos dar, precisam antes de nosso encorajamento, e não de nossos insultos ou censuras. Assim também Deus não age diferentemente para conosco, não ultrapassando aquilo que é justo que os homens façam.

 

O autor sagrado diz isso para tirar todos os escrúpulos e temores que os seus leitores poderiam ter, a fim de que pudessem achegar-se ousadamente ao trono da graça. (Ver Hb 4:16).

 

«...e ser-lhe-á concedida...» «Ele (Deus) nunca envergonhará aqueles que o buscam, com uma recusa». (Oosterzee, in loc). (Comparar isso com afirmações similares, de que as orações corretas serão respondidas, em Mt 7:7-11; Lc 11:13 e I Rs 3:9-12). Alguns eruditos supõem que o autor sagrado tinha em mente o Sermão da Montanha. O trecho de Tg 5:12 é uma instância muito mais clara disso. Pelo menos percebe-se que o autor conhecia a tradição de onde Mateus também se aproveitou, se é que ele não copiou o próprio evangelho de Mateus. O mais provável, porém, é que as declarações de Jesus, naquela oportunidade, se tenham espalhado oralmente pelas igrejas, e o autor não dependera e nem copiara qualquer documento escrito. Se porventura ele tivesse tais documentos, provavelmen­te teria usado maior número de citações do que ele fez.

 

«...um homem mortal, por mais liberal que seja, sente-se envergonhado por pedir por demasiadas vezes. Mas Tiago lembra-nos que diante de Deus não precisamos ter esse pejo; porquanto ele está sempre pronto para adicionar novas bênçãos às anteriores, sem qualquer fim ou limitação». (Calvino, in loc).

 

«O insensato dá pouco e increpa muito... ele é odiado por Deus e pelos homens» (Eclesiástico xx.15).

 

«A coisa mais importante em qualquer relação não é o que se obtém, mas o que se dá... Seja como for, a dádiva do amor é uma educação por si mesma». (Eleanor Roosevelt).

 

«Mais bem-aventurado é dar do que receber» (Atos 20:35).

 

«Ou, qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra?... Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas cousas aos que lhe pedirem?» (Mt 7:9,11).

 

1:6: Peça-a, porém, com fé, não duvidando; pois aquele que duvida é semelhante à onda do mar, que, é sublevada e agitada pelo vento.

 

Existem condições acerca da oração eficaz. O autor sagrado apressa-se por afirmar isso. A fé é necessária (isso é aqui declarado), e não podemos fazer orações egoístas em sua natureza. (Ver Tg 4:3). Algumas pessoas não possuem porque não pedem; e essa preguiça serve de empecilho para muitos. (Ver Tg 4:2). As orações mais eficazes são aquelas que buscam de Deus o avanço na inquirição espiritual, conforme o presente texto o demonstra, o que também se evidencia nas orações que há nos trechos de Ef 1:15 e ss. e Cl 1:9 e ss. Quão freqüentemente negligenciamos os verdadeiros objetos que as nossas orações deveriam buscar, tornando-nos obcecados com meros progressos terrenos, com seus confortos e vantagens. A oração do homem espiritual será eficaz porque ele ora por aquelas coisas que condizem com o crescimento espiritual. (Ver Tg 5:16). É seguro dizermos que tal pessoa é espiritual porque aprendeu o verdadeiro uso da oração. Algumas vezes nos esquecemos que a vida é uma escola disciplinadora, para dirigir-nos na direção da idéia divina e da pesquisa divina. Não se trata de mero meio de satisfazer os apetites e as ambições carnais.

 

«...fé...» Consiste da confiança em Deus, de mistura com a outorga da alma aos cuidados de Cristo, que serve de base para tal confiança. A própria fé é um dos aspectos do fruto do Espírito, um produto do desenvolvimento.

 

A fé, neste caso, consiste na confiança indivisível no poder e na bondade de Deus, o que, realmente, consiste de uma reação da alma a Deus, a quem o ser inteiro foi entregue. Não abarca meramente alguns fatos sobre Deus, ou a aceitação de um credo ortodoxo. Antes, é um atributo e uma expressão do próprio espírito, do homem interior, do homem real. É a reação da alma para com as realidades celestiais, tal como o autor da epístola aos Hebreus afirma em 11:1.

 

«A fé, nesta epístola, se refere ao estado mental em que um homem não somente crê na existência de Deus, mas em que seu caráter ético é apreendido e a evidência de sua boa vontade para com o homem é reconhecida; é a crença na atividade beneficente, bem como na personalidade de Deus; inclui a dependência a Deus e a expectação daquilo que é solicitado, pois isso será concedido pelo Senhor. A palavra aqui utilizada não indica a fé no sentido de um corpo de doutrinas. Essa idéia de fé não é especificamente cristã; era e continua sendo, precisamente, a idéia judaica». (Oesterley, in loc).

 

«A fé é uma atitude religiosa fundamental, e não uma graça incidental de caráter; e essas palavras indicam mais do que na confiança de que Deus acolherá nossa petição». (Ropes, in loc).

 

«...em nada duvidando...» Assim como a fé é fundamental à atitude religiosa, assim também a dúvida revela defeito na vida espiritual, falta de outorga da alma a Cristo, carnalidade e debilidade espiritual. Tal pessoa fez pouquíssimo progresso espiritual; seus conceitos são apenas palavras estéreis, e não experiências do homem interior. Suas orações são egoístas e ineficazes. Ele ainda não ouviu o som dos santos sobre terreno mais alto, e nem está pressionando em direção ao caminho mais elevado. Ele não tem realmente certeza que vive acima do mundo, porquanto se sente perfeitamente à vontade do mesmo; por conseguinte, vive no local do mundo onde os dardos de Satanás são lançados.

 

 

Esse homem «...expressa a hesitação que se equilibra entre a fé e a incredulidade, que se inclina para esta última. Essa idéia é destacada na próxima sentença». (Vincent, in loc).

 

Há uma afirmação não-canônica de Jesus, que diz: «Não duvideis, para que não afundeis no mundo, como Simão, que começou afundar no mar quando duvidou». «Na hora do pensamento atribulador da incredulidade, o escudo da fé apagará todos os dardos inflamados do iníquo». (Punchard, in loc, citando algo de Ef 6:16).

 

«Ninguém pode acreditar demasiadamente em Deus». (Adam Clarke, in loc).

 

«...é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento...» Conforme comenta Matthew Henry, in loc, «Ser alguém algumas vezes enlevado pela fé, para então ser lançado abaixo, pelo desânimo, é muito apropriada e elegantemente comparado com as ondas do mar, que se alçam e baixam, que incham e se desfazem, segundo o vento as lança para o alto ou para cima, para baixo, para cá ou para lá». O autor sagrado salienta os seguintes pensamentos: 1. A instabilidade; 2. a mudança súbita; e 3. a falta de solidariedade e de propósito.

 

Pode-se observar aqui o pleonasmo que o autor usa como artifício literário: 1. Uma onda (que relembra algo que muda de lugar e se modifica). 2. O ser «tangido» pelo vento, que faz a onda ser lançada numa direção, com determinada finalidade, para então, abruptamente, mudar noutra direção. 3. O ser «agitada» a onda para a frente e para trás, pelo mesmo vento, sem a menor evidência de propósito, facilmente influenciável pelo mal, sem vontade própria. (Esse artifício retórico pode ser comparado com o que diz o quarto versículo deste capítulo, onde ocorre o mesmo fenômeno literário. O autor sagrado demonstra grande habilidade retórica no grego, sabendo usar os seus adornos.

 

Foi Jesus quem acalmou o mar agitado. Ele pode fazer a mesma coisa pelas mentes atribuladas e em dúvida. A fé é o elemento que estabiliza; e isso é um produto do desenvolvimento espiritual.

 

«Em um momento lançado na praia da fé e da esperança, e no instante seguinte, empurrado de volta à incredulidade; em um momento elevado ao cume do orgulho humano, e no instante seguinte projetado nas areias do desespero». (Weisinger, in loc). (Quanto ao ensinamento judaico em geral de que a fé é necessária para a oração bem-sucedida, ver Tg 5:18;. Há muitas alusões e citações parciais dos livros apócrifos dos judeus nesta epístola. Plummer, in loc., oferece numerosos paralelos entre esta epístola e os livros de Eclesiástico e Sabedoria, deplorando o fato que esses livros não são usados pelos protestantes. Pois ainda que não são reputados como «canônicos», possuem muitas coisas valiosas, que merecem nossa atenção. Quando se tem pontos de vista extremistas, sempre se perde coisas de valor.

 

1:7: Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa,

 

«Visto que a oração é, essencialmente, um pedido, nenhuma resposta poderá ser esperada se o pedido não é feito com total sinceridade. A aspiração verbalmente expressa é motivada por um desejo genuíno? Ou, à semelhança de Agostinho, oramos: 'Ó Deus, faz-me puro, mas não agora?' Nossos fracassos na oração se devem mais freqüentemente ao fato que nossas aspirações são divididas; ainda não decidimos 'desejar os mesmos desejos de Deus'. 'Salva-me, ó Deus, das conseqüências do mal, mas não dos prazeres da indulgência'. Como é que uma pessoa de ânimo tão dividido poderia esperar 'receber qualquer coisa da parte do Senhor?' Ao invés de orar 'em nome de Jesus', dentro do círculo de seu temperamento ('Não seja feita a minha vontade, e, sim, a tua'), tais pessoas oram 'fora do nome de Jesus'. 'A oração é o desejo sincero da alma.' Somente os 'puros de coração' podem ver a Deus, isto é, aqueles que estão isentos de toda a duplicidade». (Easton, in loc.).

 

«...esse homem...» Enfático. Tal tipo de homem, que duvida e não tem propósitos espirituais firmes. Não será um homem de oração; e, quando orar, ficará desapontado ante os resultados. Notemos, neste versículo, um «anel de desprezo» pelo indivíduo que pensa que pode obter alguma coisa, mesmo que duvide, porquanto não possui fé firme, é carnal e vive hesitando. Esse é o tipo de indivíduo que aparece em Tg 4:3, que ora somente por interesse próprio e carnal, por motivos egoístas, ao invés de fazê-lo para benefício próprio e de outros, bem como para a glória de Deus.

 

«...do Senhor...» Normalmente, nas páginas do N.T., o título «Senhor», isoladamente, indica o Senhor Jesus Cristo. Mas, neste ponto, mui provavelmente Deus é quem está em foco, o que concorda tanto com o contexto como com o caráter judaico da epístola. Deus é o Senhor de todos. Ele pode dar-nos ou recusar-se a dar-nos. E ele não se mostra arbitrário nesse particular, porquanto tudo é governado por estritas leis espirituais. Aquele que não conhece a Deus como Senhor, mas para quem Deus é apenas uma proposição teológica de sentido duvidoso, dificilmente pode obter grande coisa em suas orações: não tem Senhor que se disponha a conceder-lhe suas petições.

 

«Um homem indeciso de caráter nunca pode dizer que pertence a si mesmo... Pertence àquilo que o cativa». (John Foster, Decision of Charater, pág. 71). É óbvio que o indivíduo que não pertence nem a si mesmo dificilmente pode pertencer a Deus; portanto, Deus não é seu Senhor. Só pode ser escravo de caprichos e influências mundanas.

 

«Ele recebe muitas coisas de Deus, como alimento, vestes, etc, mas esses são dons gerais da providência divina. Das coisas especialmente outorgadas, em resposta à oração, os duvidosos não receberão qualquer coisa, e muito menos a sabedoria» (Faucett, in loc., aludindo ao quinto versículo deste capítulo, onde a sabedoria é vista como a principal bênção de que precisamos, e sobre o que devemos fazer pedidos sem duvidar).

 

1:8: homem vacilante que é, e inconstante em todos os seus caminhos.

 

Aristóteles chamava os verdadeiros amigos de «dois corpos com uma só mente». O indivíduo instável, cheio de dúvidas, é o contrário disso: tem apenas um corpo, mas duas mentes; e, em sentido espiritual, isso resulta em aleijão e deformação, tornando-o um moleirão espiritual. O trecho de Tg 4:8 usa a expressão «ânimo dobre» novamente, com a idéia de que tal pessoa está corrompida pelo pecado, não possuindo «singeleza» no tocante às questões morais. Sua vida moral é dúplice, pois tem duas personalidades em uma; há nele certa inquirição espiritual, mas isso é debilitado e mesmo destruído pelo poder do homem de carne, que normalmente o domina. Trata-se do «Sr. Duas Caras», no dizer de Ropes, in loc. É atraído pela mensagem celestial, e crê «em parte» na herança celestial; mas na realidade, vive no mundo, e mui freqüentemente satisfaz à carne, e não ao espírito. Sua linguagem pode ser espiritual, e talvez até sinta fortemente o que diz, mas, no momento seguinte, no outro dia, não é melhor que qualquer pessoa mundana, agindo da mesma maneira que faria uma pessoa sem qualquer discernimento espiritual.

 

«...ânimo dobre...» Essa palavra é usada como título de uma das obras de Filo, preservada em um fragmento (Fgm. 11.663), mas não é da lavra do próprio Filo. A palavra não figura nem na Septuaginta e nem no A.T., mas se tornou comum nos escritos cristãos, provavelmente tomada por empréstimo de Tiago. Assim também, em Sal. 12:2, temos «coração duplo».

 

«...inconstante...» No grego é «akatastotos», isto é, «instável». O termo visa ser uma descrição menoscabadora do «duvidoso». Por causa de tal expressão espiritual, o indivíduo se tornou «volúvel». Ninguém pode depender dele; e ele mesmo já aprendeu a não confiar nem em si próprio. Sua fibra moral foi prejudicada ao ponto de não produzir qualquer fruto espiritual, sendo sempre sujeito a tentações contra as quais não sabe oferecer resistência.

 

«...em todos os seus caminhos...» Sua volubilidade e sua vida dúplice se tornaram um câncer em sua vida diária, afetando tudo quanto ele é e faz. A palavra aqui traduzida por «caminhos» é um hebraísmo que indica «conduta habitual». (Ver Sl 91:11; 145:17; Pv 3:6;).

 

Alguns intérpretes pensam que essa expressão indica uma predição sobre o futuro; não tem tal indivíduo um futuro certo, podendo até mesmo cair em juízo severo. Naturalmente, isso é verdade, mas a ênfase do versículo recai sobre o que tal indivíduo é no momento. Embora não se considere um hipócrita, e ainda que seja distinguido dos hipócritas, com freqüência desempenha um papel fingido, a fim de ocultar suas ações dúbias daqueles que o conhecem como pessoa espiritual. Sua duplicidade se baseia sobre sua tendência de hesitar entre a fé e a incredulidade. E toda a sua hesitação resulta disso.

 

«No versículo que temos à frente, a palavra que significa 'ânimo dobre' parece indicar alguém indigno de confiança, o homem que não confia em Deus não merece a confiança dos homens; mui provavelmente é isso que está na mente do escritor sagrado». (Oesterley, in loc).

 

«Quem duvida é delineado primeiramente quanto ao modo que enfrenta o mundo (uma onda); e então quanto a como parece perante Deus (homem presunçoso), e, em último lugar, quanto a como enfrenta a si mesmo (dúplice)... por assim dizer, tem não somente duas almas, em conflito uma com a outra, mas também o seu entusiasmo se volta psiquicamente ora para Deus ora para o mundo, em duas formas mutantes de sua vida psíquica... possui duas almas, uma tocada por Deus e a outra ocupada com o mundo. E mostra-se falso em ambas essas direções: falso para com Deus e falso para com o mundo, devido à sua dupla reserva de egoísmo, em contraposição à sua piedade, e vice-versa». (Oosterzee, in loc).

 

Hipócrates usava essa palavra, «instável», para indicar as febres intermitentes, sem razão aparente. Assim também esse homem não precisa de «razões suficientes» para agir como faz; é escravo das circunstâncias e dos caprichos, que vive namorando com os vícios, mas que nunca falta à igreja no domingo.

 

«È inútil alguém ter, por assim dizer, dois corações, um elevado para Deus e outro voltado para fora. 'Não venhas a ele (Deus) com. um coração dúplice'    (Eclesiástico 1:28; Mt 6:24)». (Punchard, in loc).

 

«Ele é confuso em sua mente; desassossegado em seus pensamentos, perturbado em seus desígnios e intenções; inconstante em suas petições; incerto em suas noções e opiniões sobre as coisas; extremamente mutável em suas ações, e, sobretudo, sobre matéria religiosa...» (John Gill, in loc).

 

A Futilidade das Riquezas (1:9-11).

 

Os humildes da igreja, que possuem pouco dinheiro, tendem também por exercer pouca autoridade e por receber pouco respeito, quando a congregação em que estão porventura é rica. O autor sagrado mostra que tal padrão está distante de qualquer validade cristã. Os ricos deveriam lembrar-se que o dinheiro não somente não representa um valor permanente; como, na realidade, não tem qualquer valor, quando olhamos espiritualmente para as coisas. Até mesmo neste mundo temporal, a confiança na posição social e nas riquezas é um alicerce muito frouxo, que fatalmente haverá de sucumbir sob a pressão do tempo. Com freqüência os ricos não têm senso muito agudo de sua necessidade de Deus; e, assim, a vida centralizada em torno dessas coisas, não se reveste de especial importância. (Comparar isso com os trechos de Dn 4:30; Lc 12:16-21; Jr 9:23,24 e I Cr 1:26-29). Naturalmente, a denúncia contra a busca pelas coisas materiais não significa que tais coisas não devem fazer parte de nossa vida diária. Todo homem deveria obter a melhor educação possível, desenvolvendo-a ao máximo de sua habilidade; mas tais coisas deveriam ser subordinadas aos mais elevados propósitos espirituais. Um homem de haveres poderá usar seu tempo, dinheiro e prestígio para finalidades dignas, encarando suas posses, posição e vantagem com essa meta em mira. LeTourneau, o inventor de muitas máquinas de remoção de terra, e que assim se tornou imensamente rico, foi exemplo de um homem de tremendo impulso e ambição; mas nunca fez dessa ambição o seu Deus. Antes, usava o seu dinheiro para benefício do cristianismo, e, em seus últimos anos, tornou-se um tão grande pregador como era um grande industrial. O autor sagrado certamente não entraria em choque com um homem assim.

 

É verdadeira aquela declaração que diz «Estar em boa situação não é ser bom». Mas é esse começar a ser melhor, isto é, ser «perfeito», que deve ser o alvo de nossa vida. (Ver o quarto versículo deste capítulo).

 

1:9: Mas o irmão de condição humilde glorie-se na sua exaltação,

 

«...O irmão...» Um irmão na fé, título mais freqüentemente usado no N.T. para indicar um crente. (Ver as notas expositivas a respeito, no segundo versículo). O décimo versículo deste capítulo, que usa a expressão «...o rico...», mui provavelmente alude ao «irmão que é rico», porquanto parece que o autor sagrado descreve uma situação própria da igreja, em que os ricos dominavam e degradavam aos pobres. O quinto capítulo desta epístola, em contraste com isso, parece falar diretamente aos ricos ímpios, sem Deus.

 

«...condição humilde... » Isso alude à sua condição financeira fraca, à sua pobreza; e isso, naturalmente, obriga-o a ajustar-se a um nível inferior da escala social, devido ao tipo de sociedade em que vivemos, tornando-se menos benquisto como pessoa. A palavra «tapeinos», aqui traduzida por «humilde», não é aqui empregada em sentido espiritual e recomendável, como acontece com a maioria de suas ocorrências no N.T. Significa, simplesmente, pobre e afligido, em contraste com o rico, que é exaltado e poderoso.

 

Tal como sucede hoje em muitos países, os pobres compõem a camada maior da sociedade; e na igreja isso sempre reflete a realidade dos fatos, porquanto poucos são os ricos e poderosos que têm o tempo e a disposição para prestarem lealdade à humilde e desprezada «nova religião», com seu crucificado Cristo. Assim sendo, Tiago aludia às condições externas dos humildes, e não a uma atitude de alma, conforme também o demonstra o resto do versículo.

 

«...glorie-se na sua dignidade...» O crente pobre tem sua «exaltação», apesar de sua «humildade» em recursos financeiros e em posição social. Consideremos os dois pontos seguintes: 1. A dignidade de tal crente consiste nas riquezas morais de sua presente experiência espiritual. É a «obra perfeita» que está sendo produzida na sua alma, mediante a qual ele começa, desde agora, a compartilhar da imagem e da natureza de Cristo (ver o quarto versículo). 2. Essa dignidade é aquele «galardão» que ele busca receber no mundo eterno, quando então ele receberá a «perfeição»; e assim, consiste em todas as riquezas do ser de Cristo, pois compartilha de sua herança (ver Rm 8:17).

 

«...glorie-se...», ou seja, que a sua exaltação consista de sua dignidade. (Ver I Co 1:29 quanto ao ensinamento que ninguém pode gloriar-se de si mesmo, ao invés de gloriar-se de Deus. O trecho de I Co 1:31 mostra que há uma atitude correta de ufania—a exultação espiritual da alma em Cristo, o Senhor).

 

A exaltação foi o tema de várias profecias. (Ver Is 54:11 ess.; Pv 3:34; Sl 18:27; 138:6 e Lc 14:11). O quinto capítulo do evangelho de Mateus, no Sermão da Montanha, enfatiza a mesma coisa. Há uma «bem-aventurança» para os pobres que confiam em Cristo, e aprendem o valor do mundo eterno, vivendo segundo as dimensões da eternidade.

 

O autor sagrado queria que compreendêssemos que tesouro é o sermos aceitos por Deus. Se um crente pobre, devido à sua lealdade a Cristo, reconhece isso, então não haverá riquezas sobre a terra que precisem atrair atenção. Tendo abraçado o cristianismo, automaticamente vão ficando mais humilhados, conforme o mundo considera as coisas; porém, humilhação adicional se torna uma vasta fonte de riquezas para eles cercados por opressores e atraem a crueldade dos homens do mundo; mas também obtêm grande consolação e esperança

 

1:10: e o rico no seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.

 

Este versículo tem sido compreendido de duas maneiras radicalmente diversas, a saber:

1. Alguns pensam que fala para o rico incrédulo, como o faz o trecho de Tg 5:1 e ss. Nesse caso, a única coisa que o rico miserável possui é o gloriar-se em seu «futuro castigo», aqui referido como «humilhação», quando a prestação de contas tiver lugar e ele receber o que merece. Se é assim que devemos compreender as coisas, então os versículos décimo e décimo primeiro envolvem uma amarga ironia.

2. Se tivermos de adicionar a palavra irmão, que vem do nono versículo, assim aplicando o versículo ao crente rico, então os versículos décimo e décimo primeiro se tornam advertências afetuosas e severas. Que o crente rico se glorie em sua «humilhação», o que significa que deve tomar posição idêntica à dos pobres da igreja; pois não é meramente porque tem dinheiro que teria o direito de exaltar-se acima das pessoas mais humildes e pobres. Assim é que o crente pobre é exaltado e o crente rico é humilhado na igreja, porquanto a igreja eleva a mentalidade inteira e os propósitos da vida do homem simples, ao passo que o rico é levado a reconhecer o valor e os direitos dos outros, aos quais anteriormente talvez desprezasse, como se fossem seus inferiores.

 

Contra a primeira dessas interpretações, podemos alinhar os seguintes argumentos: 1. E mais natural entender-se «irmão» conforme a palavra é entendida, e que o autor sagrado procurava regulamentar a conduta na igreja, onde a perfeição era buscada por todos. 2. Fazer essa declaração aplicar-se ao rico incrédulo e a sua ufania significar o «seu julgamento» (humilhação), é algo excessivamente irônico e duro. Por outro lado, essa aguda repreensão contra o rico, meramente porque o crente «pobre» sugere seu extremo oposto, o «rico incrédulo» concorda em tom com o trecho de Tg 5:1 e ss., adaptando-se melhor aos versículos décimo primeiro em diante, o que parece ter um incrédulo em mente. Não há modo de precisar o que está realmente em foco. Ambas as idéias expressam verdades.

 

O autor sagrado encarava as riquezas como um impedimento, e não como uma vantagem; não tenhamos dúvidas disso. (Ver os trechos de I Tm 6:10,17; Mt 19:23,24 quanto à mesma atitude negativa; e a segunda dessas referências envolve uma declaração de Jesus).

 

Tolstoy conta a história de um pobre aldeão a quem o diabo ofereceu toda a terra que ele pudesse percorrer correndo, do nascer do sol até ao ocaso do mesmo dia. O aldeão, tomado de ambição, querendo adquirir toda a terra que podia, começou a correr tanto que a exaustão provocada o matou. Conta-se história similar de um homem que estava de viagem, levando consigo larga soma em dinheiro, em ouro e prata. Sucedeu que o navio naufragou no mar. O homem reuniu todo o dinheiro que lhe foi possível, e o amarrou à volta da cintura. E mergulhou na água sobrecarregado com mais de cinqüenta quilos em excesso. Até onde poderia nadar, com tanto peso? Aquele homem era dono de suas riquezas, ou elas é que o dominavam?

 

«...passará como a flor da erva...»

 

O autor sagrado mostra quão transitórias são as riquezas materiais (um tema religioso comum, no cristianismo ou não), a fim de alertar os seus leitores para a necessidade de buscar as verdadeiras riquezas, a saber, as espirituais.

 

Este versículo também ensina a estupidez dos homens que se gloriam de si mesmos, porquanto aquilo que era deles mesmos não poderia perdurar. Somente a dimensão eterna, trazida à vida diária, mediante a inquirição espiritual séria, dá sentido duradouro à vida. (Ver I Co 1:29,31; II Co 4:18). A «sorte típica» do rico é melancólica, conclui o autor sagrado, que concorda com o que Jesus disse em Mt 19:23,24. A passagem (versículos dez e onze) evidentemente depende do trecho de Is 40:6 e ss., também citado em I Pd 1:24. A citação original no livro de Isaías diz respeito à vida em geral, em que o espetáculo da grama e das flores subitamente se ressecam pelo calor e pela seca (como no oriente), o que era um símbolo apropriado. O autor sagrado aplica a citação somente aos ricos, o que está de acordo com o propósito que ele tem em mente. Tal como uma flor ressecada que perdeu sua beleza, glória e a própria vida, assim os ricos deixarão de ser ricos. Se algo lhe sobrar, se algo permanecer realmente, será no terreno espiritual. Não há outra área em que se possa fazer um ganho permanente. Esse «passar» do rico deve incluir, necessariamente, o julgamento, e as conseqüências de sua morte. Em toda a sua exaltação, o rico não pode escapar da morte, pois Deus não usa de respeito humano. Deus não se deixa comprar por suborno. Ele julgará segundo os méritos das obras espirituais de cada um, das qualidades de alma, sem importar se alguém é rico ou pobre. É nisso que residem as verdadeiras riquezas.

 

«Os filósofos ensinam a mesma coisa; mas o cântico é entoado a ouvidos surdos até que estes sejam abertos pelo Senhor, para que ouçam a verdade concernente à eternidade do reino celeste». (Calvino, in loc).

 

Por que o crente rico deve gloriar-se em sua humilhação? A resposta é dupla: 1. Porque a sua humilhação, ao tornar-se apenas um outro irmão na comunidade cristã, na realidade o exalta potencialmente em imensas proporções; a «humilhação» do rico é a mesma coisa que a «exaltação» do pobre, quanto a seu potencial; e as diferentes palavras meramente falam da presente posição social em que nossas riquezas espirituais, que temos em Cristo, nos colocam. 2. Um rico pode emancipar-se de seu orgulho prejudicial e de suas ambições destrutivas, apropriando-se humildemente da posição humilde que lhe é dada, tal como sucede a qualquer outro discípulo de Cristo. Fica igual aos demais.

 

Notemos, nesta epístola de Tiago, os vários usos metafóricos, típicos da «diatribe». Ele prefere tirar suas ilustrações da natureza. Assim é que, no primeiro capítulo, temos a «onda do mar» (sexto versículo) e a «flor da erva» (décimo versículo). No terceiro capítulo temos os «rijos ventos», a madeira incendiada por «uma fagulha», «toda espécie de feras, de aves, de répteis e de seres marinhos». (Ver os versículos quarto a sétimo). No quarto capítulo, temos a vida humana, comparada a um «vapor» (décimo quarto versículo). No quinto capítulo temos menção à «traça», à «ferrugem» e ao «fruto da terra», como também às «primeiras e últimas chuvas» (versículos dois, três, sete e dezoito).

 

1:11: Pois o sol se levanto em seu ardor e faz secar a erva; a sua flor cai e a beleza do seu aspecto perece; assim murchara também o rico em seus caminhos.

 

Continua o simbolismo existente em Is 40:6,7. O sol escaldante vence a beleza do campo e da flor, matando a esta com seu poder. Assim também se dará com a formosura do rico, tão luxuoso em sua época, mas que, de fato, é tão insignificante. Se porventura há aqui a alusão a alguma tribo (pois supostamente o livro seria um documento judaico, adaptado para uso cristão;), então Aser está em foco, a quem Filo descreve como tipo do «homem rico e mundano».

 

Alguns estudiosos pensam que a linguagem, neste ponto, é apocalíptica: o juízo escaldante não demorará; e isso nivelará todos os homens à mesma posição. A morte introduz o homem ao juízo; não respeita a qualquer pompa da exaltação humana. O vento que soprava na Palestina, vindo da direção sulestesiroco»), conforme somos informados, pode modificar um campo verdejante em um campo ressequido e cinzento em um único dia. Assim também quando a vida passa, e o homem olha para trás, quão breve parece a existência terrena, como se fosse um único dia, que logo se escoa. Convém que nos certifiquemos que aquele dia não é passado em insensatez e egoísmo. Essa é a lição que o autor sagrado queria que aprendêssemos.

As glórias de nosso sangue e posição São sombras, e não coisas substanciais; Não há armadura contra a Sorte; A morte põe as mãos geladas em reis; Cetro e coroa Têm de cair, E no pó se tornam iguais Como o pobre enterrado a pá. (James Shirley, «Death, the Leveler»)

 

Quanto ao vento ocidental ressecador, ver os trechos de Jó 1:19; Ez 17:10. A vida da vegetação não suporta tal vento. Assim também o juízo divino, ao sobrevir, tem o poder de ressecar a mais pomposa figura humana.

 

«...seca...» No grego é usado o verbo dzeraino, «secar», «ressecar», e que tem também a idéia de reduzir a nada. A grama verde, que fenece e se resseca, simboliza a «queda» e a redução a nada da pompa e das riquezas dos homens orgulhosos.

 

«...sua flor cai...» No grego é usado o verbo «ekpipto», «cair fora». A vida fenece e a flor cai de sua haste, morta e irrecuperável. Assim também o homem sem Deus, quando chega a sua morte espiritual.

 

«...desaparece a formosura...» Somente os necrófilos vêem beleza na morte. Uma flor morta, a menos que seja tratada de modo especial, logo perde a sua beleza; e outro tanto se dá com todos os objetos vivos. De fato, a morte faz com que objetos, belos até então, se revistam da mais gritante feiúra. O dinheiro de um homem rico pode circundá-lo de todas as coisas desejáveis e finas, embora tudo desta vida presente. Mas não pode conferir-lhe, nem mesmo nesta vida, a beleza de alma; e é indiscutível que o tipo de beleza que as riquezas materiais podem comparar é algo extremamente temporário. Dizem as Escrituras: «Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio» (Sl 90:12). E a sabedoria é aquela graça espiritual que busca o mundo eterno.

 

De acordo com o quarto capítulo do livro de Malaquias, o dia do Senhor virá como um forno escaldante contra todos os orgulhosos; mas o Sol da Justiça se levantará com cura em suas asas, para todos quantos temem a Deus. E o princípio da sabedoria consiste no temor de Deus. O sol que se levanta chama o vento ardente; mas também poderá trazer cura e vida. E o que ele significará para cada um de nós depende somente de nossas atitudes espirituais.

 

«...assim também se murchará o rico em seus caminhos...» Os ricos perderão suas riquezas, ou, pelo menos, sua formosura, até mesmo nesta vida, conforme nos ensina o presente versículo. Assim, a natureza precária das possessões materiais é destacada. E é evidente que, no futuro, quando levantar-se aquele Sol ardente, com seu vento tórrido (no juízo), os ricos serão reduzidos a nada, e a prestação de contas será em seu detrimento. Quando da morte física e do julgamento, os ricos subitamente fenecerão em «meio às suas atividades». Seus planos, atrás de maiores riquezas e de fama, de maiores luxos e prazeres, repentinamente serão cortados pela morte, se não mesmo antes.

 

«...caminhos...» Que significa essa palavra? Consideremos os pontos seguintes: 1. Alguns dizem que isso significa «meios de obter riquezas». Provavelmente isso tem por escopo ser entendido como se não fosse algo diretamente focalizado. 2. Em sua busca geral pela vida. 3. Em seus «projetos» ou «atividades», de que ele se ocupa, procurando melhorar fisicamente: repentinamente será cortado, em meio a tais atividades. Isso nos faz lembrar da história do rico, segundo o registro de Lc 12:16 e ss. Esse rico era um magnificente insensato. Tais são todos aqueles que seguem o seu exemplo. 4. Alguns manuscritos dizem aqui «poria», em lugar de «poreia», que pode significar (se usada essa palavra em lugar de «euporia»), «em sua fortuna», «em sua boa sorte». Bem no meio de sua prosperidade, será cortado. Porém, essa variante (que aparece nos mss Aleph, A e alguns poucos manuscritos minúsculos), provavelmente consiste apenas de um itacismo (uma variante quanto à soletração), dando a impressão de ser outra palavra; e isso significaria que nenhuma diferença de sentido está em foco. Não obstante, é verdade que os ricos, a despeito do poder que o dinheiro lhes confere, são reduzidos a nada em meio mesmo à sua «abundância».

 

O sentido tencionado, mui provavelmente, é o descrito na terceira dessas possibilidades. Tal como uma flor que desabrocha em todo o seu resplendor, subitamente é ressecada pelo vento oriental, assim também o rico, em meio à sua prosperidade material, subitamente é reduzido a nada.

 

 

Bibliografia Champlin