Lição 3

 

15 de Janeiro de 2006

 

O cristão deve permanecer fiel nas tentações

 

TEXTO ÁUREO

 

"Pois, naquilo que Ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados". Hb 2.18

 

VERDADE APLICADA

 

O cristão que suporta com firmeza a provação torna-se digno de vitórias e admiração.

 

OBJETIVOS DA LIÇÃO

 

Compreender que a provação visa o aperfeiçoamento de nosso caráter;

 

Saber que o Cristianismo não é só festa, mas cruz, renúncia e retidão;

 

Entender que a culpa da tentação não pode ser atribuída a Deus.

 

TEXTOS DE REFERENCIA

 

Tg 1.12 - Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam;

Tg 1.13 - Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta;

Tg 1.14 - Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça quando esta o atrai e seduz;

Tg 1.15 - Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte;

Tg 1.16 - Não vos enganeis, meus amados irmãos;

Tg 1.17 - Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.

 

Ajuda 1

Ajuda 2

Ajuda 3

Ajuda Estudo Tentação

 

1:12 Tiago inicia com uma bem-aventurança: Bem-aventurado o homem. A semelhança de Jesus em Mateus 5:3-12, pronuncia uma bem-aventurança sobre determinado grupo de pessoas (coisa que nos surpreende): todo aquele que suporta a provação. Não é meramente a pessoa que é provada e considerada feliz, ou abençoada, mas a pessoa que suporta a provação e permanece fiel. Em 1:2-4 diz Tiago que a provação produz perseverança; agora ele afirma que a perseverança produz a verdadeira bem-aventurança ou bênção. Entretanto, Tiago não é masoquista e, tampouco estóico, e não está ensinando que as pro­vações são engraçadas, ou que devemos sentir alegria na dor. Ao contrário, salienta que as provações servem a um propósito, a prova experimental da realidade da fé, e que isso deveria prover à pessoa uma perspectiva de alegria profunda. Por causa das reações perante as provações, sabemos se uma pessoa é verdadeiramente fiel, e depois de ter passado na prova receberá a recompensa. A pessoa que passa pela prova é como a prata que passa pelo cadinho: depois da prova pode receber a marca de pureza. Deus marca a pessoa "aprovada"; sua fé é comprovadamente sadia.

Tal pessoa receberá um galardão ou (como o expressa o termo grego) "a coroa da vida". Essa ilustração refere-se ao julgamento final como se fora uma decisão de juiz, após uma corrida esportiva (cf. 2 Timóteo 4:8). O vencedor da corrida aproxima-se e recebe um laurel, uma coroa sobre a cabeça. Essa coroa é a própria vida (cf. Apocalipse 2:10), a qual é concedida não a uma única pessoa, mas a todas quantas ter­minam a carreira (suportam a provação), visto que o Senhor prometeu aos que o amam tal recompensa eterna. O preço da salvação é único: o amor fiel e incessante ao Senhor. Tendo em mente tal perspectiva, os crentes podem considerar-se verdadeiramente felizes, afortunados, a despeito das circunstâncias externas, visto que já estão experimen­tando a recompensa.

 

1:13 Há outra reação possível diante da provação: a pessoa pode entrar em colapso e fracassar. É natural que o indivíduo prestes a "desistir" não queira assumir nenhuma responsabilidade pelo seu fracasso, visto que tal desistência é totalmente incoerente com a auto-imagem de um "bom cristão", pelo que a pessoa racionaliza assim: "A prova foi difícil demais; a culpa é de Deus, por enviar-me uma prova dificílima".

Tiago nos adverte contra esse tipo de reação: Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus. Essa conclusão exerceria forte impressão sobre os leitores de Tiago — uma congregação monoteísta. Porventura não é Deus soberano? Tiago recusa-se a responder a essa pergunta, visto que tal discussão obscureceria a verdadeira questão. Tal pessoa não quer uma compreensão maior, mas procura uma desculpa. Essa desculpa esfarrapada de que a tentação proveio de Deus não está no cerne da análise teológica, mas constitui um cabide em que se pendura a culpa; é, antes, uma acusação.

Tiago refuta essa acusação por dois motivos. Primeiro, "as pessoas más não deveriam colocar a Deus sob teste" (a frase assim traduzida: Deus não pode ser tentado pelo mal resulta de má compreensão do texto grego). Israel havia praticado isso muitas vezes (pelo menos dez vezes: Números 14:22); todas as vezes que o povo enfrentava o sofrimento, jogava a culpa sobre Deus, duvidando de sua vontade e de sua capacidade para ajudar seu povo. Todavia, assim respondia o Antigo Testamento: "Não tentarás o Senhor teu Deus, como o tentaste em Massa" (Deuteronômio 6:16). Os cristãos não devem cometer o mesmo erro que Israel cometera, ao testar o Senhor.

Em segundo lugar, Deus... a ninguém tenta. Deus não deseja o mal a ninguém; ele não é causador do mal; ele não tenta a ninguém no sentido que não procura prender ninguém numa armadilha. Tiago não dá prosseguimento à sua explicação, nem esclarece a questão da teodicéia (Filosofia, Termo cunhado por Leibniz (v. leibniziano) para designar a doutrina que procura conciliar a bondade e onipotência divinas com a existência do mal no mundo), já que disse o que lhe bastava para seus propósitos: você pode confiar em Deus. A causa do fracasso de alguém não se encontra em Deus.

 

1:14 Alguém poderia esperar que Tiago continuasse seu raciocínio e lançasse a culpa sobre o diabo, mas ele não faz isso, embora acredite que Satanás desempenha um papel em nosso fracasso (veja Tiago 4:7). Em vez disso, assim escreve Tiago: mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. A essência real da tentação não está no exterior, isto é, "foi o diabo que me obrigou a fazer isso", mas no interior. "Eu pequei... por minha própria culpa, por minha exclusiva culpa", seria nossa única "desculpa". Sejam quais forem as forças malignas que estabelecerem as circunstâncias externas, é a reação interna que as transforma em provação.

Tiago concorda plenamente com Paulo. Usando ilustrações de caça e pesca, segundo os termos do original grego (tentado e atraído e engodado), Tiago mostra a natureza sedutora da "isca", aparentemente tão inofensiva, e demonstra os resultados desastrosos, revelando o sedutor no íntimo, a própria concupiscência. O termo que Paulo emprega para descrever isso é "pecado" ou "carne", isto é, a natureza humana decaída. "Sou carnal, vendido como escravo ao pecado." "Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado" (Romanos 7:14, 25). Os desejos do ser humano são bons pela criação, porque conduzem a pessoa a usufruir a criação, a comer, a procriar etc, mas tais desejos se corromperam, de modo que agora induzem à concupiscência, ao roubo e à fornicação. A situação externa de modo algum poderia influir nas pessoas, a menos que uma tendência interna, a de sua própria natureza, não estivesse seduzindo: "vá em frente, vamos, você merece; vai ser muito bom".

 

1:15 O desejo da pessoa que cede aos atrativos é retratado aqui como uma prostituta ou adúltera, e não como armadilha ou anzol. A concupiscência usou com muita malícia suas artimanhas, acabou engravidando e agora carrega no ventre um feto ilegítimo, o fruto de suas maquinações. Entretanto, "ninguém precisa ficar sabendo", murmura a concupiscência a seu amante, ao companheiro ilegítimo. A defecção (Falta, desaparecimento.) íntima da vida de fé e de confiança jamais precisaria ser vista pelos outros. Todavia, o útero do coração não consegue reter o feto inde­finidamente; a criatura concebida precisa vir à luz, e seu nome é pecado. Tiago conseguiu visualizar a doutrina que Jesus proclamou em Marcos 7:20-23: "do interior do coração dos homens saem os maus pensa­mentos, os adultérios, as prostituições... a blasfêmia, a soberba, e a loucura".

Essa cadeia formada de provação — concupiscência — pecado não termina ali; possui mais um elo, que se chama morte. Paulo conhecia essa verdade (Romanos 6:23), como também João a conhecia (1 João 1:16-17; 3:14), mas é Tiago que a descreve de modo mais vivido. A criatura adulterina não vai embora; em vez de partir, essa criatura bastarda atinge a maioridade e gera um filhote, um ser monstruoso, patogênico (Capaz de produzir doenças), indesejável — a morte. Aqui está o resultado de fracassar na prova. A pessoa está a meio caminho entre a concupiscência e o pecado, passa pela maturidade do pecado e chega à morte. A cadeia de elos mencionada por Paulo em Romanos 7:7-12 se reproduz aqui. Tiago não permite o engano íntimo. A morte é o fim da carreira do pecado. Há uma única forma de escapar, a qual o autor da carta nos descreve como sendo cadeia contrastante, nos versículos que se seguem (1:16-18).

 

1:16 Não vos enganeis, meus amados irmãos. Não vos enganeis a respeito do quê? Seria o parágrafo anterior encerrado por este versículo, e teria relação com alguma crença segundo a qual a pessoa poderia lançar a culpa sobre Deus, ou abrigar a concupiscência, ou o pecado, sem que sobreviessem as más conseqüências? Ou será que esse versículo se refere ao engano sobre de onde vêm as provações (1:13)? Ou será que esse versículo é cabeçalho do parágrafo seguinte, referindo-se à falha em perceber que Deus nos dá o bem e nos traz salvação? Estrutural­mente, a terceira opção é a preferível, porquanto o termo que designa os destinatários da carta, meus amados irmãos normalmente introduz um novo parágrafo. Todavia, aqui funciona como versículo-dobradiça: ser enganado quanto a um daqueles itens é o mesmo que ser enganado em todos, visto que o parágrafo seguinte é apenas a negação do parágrafo anterior. Se alguém lançar a culpa em Deus quanto a uma provação, essa pessoa está imergindo no pecado e negando a bondade de Deus. Tiago acredita que seus leitores são crentes verdadeiros (irmãos), mas teme que se desviem da fé, o que fica implícito na exortação não vos enganeis; ele tem medo de que esses crentes possam cair no erro da dúvida quanto à bondade de Deus, o que poderia ser fatal à fé.

 

1:17 Em contraste com o ponto de vista de Deus como emissário de provações e tentações, está a perspectiva de que Deus nos dá boas coisas: Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto. Trata-se de frase poética, e pode ser citação de algum provérbio bem conhecido, alterado por Tiago a fim de enfatizar a expressão lá do alto. Dizer que Deus dá essas boas dádivas naturalmente significa negar que dá coisas más, uma vez que são incompatíveis.

No entanto, Tiago pretende passar uma verdade mais profunda que "Deus é bom". Já afirmou que Deus dá liberalmente a todos que lhe pedirem (1:5). O bem maior a ser pedido, dentro daquele contexto, é a sabedoria, que voltará a ser mencionada em 3:15, dessa vez em­pregando a mesma expressão que ocorre aqui (do alto). Assim é que a melhor dádiva de todas, a que Tiago reiteradamente faz referência, é a sabedoria, que ajuda o crente na provação. Portanto, aqui está a mensagem mais importante: não é Deus quem envia a provação; ele envia o maravilhoso dom da sabedoria que nos capacita a resistir durante a provação. Deus nos dá o antídoto, não o veneno.

Além do mais, o caráter de Deus não está sujeito a mudanças. Ele é o Pai das luzes. Trata-se de uma referência à criação, e indica a extensão da bondade de Deus (enquanto o versículo seguinte refere-se à nova criação). Os luminares de Gênesis 1:18, a saber, o sol e a lua, foram colocados ali para o bem da humanidade. Todavia, esse fato por sua vez sugere um contraste. O sol e a luz são notórios pela mudança, mas Tiago refere-se a Deus dizendo que nele não há mudança nem sombra de variação. O texto, embora a linguagem de Tiago seja um tanto obscura, trata-se de uma declaração de natureza astronômica, em referência à falta de constância dos "luminares" celestes. Deus, todavia, em contraposição a essas luminárias celestes, não tem eclipse, não se ergue para logo sumir no horizonte, não tem fases e nenhuma obscuridade devida a nuvens. O caráter de Deus é absolu­tamente constante, digno de confiança, em quem se pode depositar toda a fé.

 

1:18 Como prova da boa vontade de Deus — como se a criação não fosse suficiente — assim diz Tiago: Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas. Em primeiro lugar, o que Deus fez, ele o fez por sua decisão. A ação de Deus não foi acidental, nem resposta a uma necessidade. Ele fez tudo segundo sua vontade, sua decisão, pelo que sua ação demonstra a essência de seu caráter.

Em segundo lugar, ele nos gerou. Por um lado, esta ação é criadora. O Pai das luzes também é o Pai da Humanidade, e foi seu desejo que toda a vida humana existisse. Por outro lado, Deus não só pro­videnciou a criação, mas a nova criação também: foi ele quem trouxe o novo nascimento ou a redenção a todos os crentes (João 3:3-8; Romanos 12:2; Efésios 1:5; Tito 3:5; 1 Pedro 1:3, 23; 1 João 3:9). Essa declaração produz um contraste espantoso: a concupiscência conduz ao nascimento, mas traz consigo o pecado e a morte; Deus conduz ao nascimento e traz consigo redenção e vida.

Em terceiro lugar, Deus realiza esse novo ato criador pela palavra da verdade. A primeira vista, alguém poderia pensar que esta ex­pressão seja uma referência à palavra criativa de Deus (Gênesis 1), ou à veracidade de tudo quanto o Senhor diz (e.g., Salmo 119:43), mas é certo que nesta passagem essa expressão significa algo mais. Que palavra na era do Novo Testamento é mais "palavra da verdade" do que o evangelho? Esta expressão é semi-técnica e designa a proclamação da ação de Deus em Cristo (2 Coríntios 6:7; Efésios 1:18; Colossenses 1:5; 2 Timóteo 2:15; 1 Pedro 1:25). Deus, de propósito, pôs em ação sua segunda criação, ou sua nova criação, ao enviar ao mundo a palavra do evangelho.

O resultado desse ato criador também é beneficente, para que fôs­semos como que primícias das suas criaturas. "Nós somos uma colheita," diz Tiago, "somos os primeiros frutos maduros da nova criação de Deus, uma promessa da grande colheita que virá." A semelhança de Paulo, Tiago acredita que Deus vai redimir toda a criação, não apenas a humanidade (Romanos 8:18-25). O presente renascimento de crentes promete mais bênçãos vindouras. Todavia, os primeiros são os melhores, pois constituem a porção santificada de modo especial. E assim é que Tiago sublinha a boa dádiva e intenção de Deus nas vidas dos crentes.

 

Bibliografia Davids