A carta a Tiatira (2:18-28)

 

18. Tiatira era das sete cidades da Ásia a menos importante; não era nenhum centro político ou religioso, e tinha somente alguma importân­cia comercial. Tinha poucos templos, não era um lugar onde o impera­dor fosse muito cultuado, nem tampouco o Estado. Também não tinha muitos judeus em Tiatira para perturbar a igreja. A cidade merece algum destaque por causa das suas corporações de comércio, das quais sabemos muita coisa por meio de inscrições. Uma destas corporações comerciava vestimentas de púrpura, e é provável que Lídia era uma representante desta corporação em Filipos (At 16:14). Estas corporações promoviam almoços que provavelmente eram dedicados a algum deus pagão, e é deste lado que os cristãos tiveram problemas em Tiatira. Seria quase impos­sível alguém trabalhar em comércio ou indústria nesta cidade sem estar filiado à corporação correspondente, e é claro que surgiu a pergunta se os cristãos podem participar destes almoços. Muitos cristãos talvez tenham dito que aqueles deuses na verdade nem existiam, de modo que participar de um almoço não comprometeria seu testemunho cristão. A questão se complicava porque muitas vezes estas festas terminavam em licenciosidade desenfreada. O problema é o mesmo de outras igrejas. Éfeso tinha-se declarado contra qualquer solução de compromisso com as práticas pagas; em Pérgamo um pequeno grupo dentro da igreja tinha defendido a participação total da vida social dos pagãos. Em Tiatira, como veremos, o problema assumiu uma forma nova e perigosa.

O Filho de Deus. Esta é a única vez que este título aparece no Apocalipse, mas Deus é chamado de Pai de Cristo em 1:6; 2:27; 3:5, 21 e 14:1. Somente em 21:7 Deus é chamado de Pai dos crentes. O título talvez anuncia o Salmo 2, que é citado no versículo 27.

Quem tem os olhos como chama de fogo, e os pés semelhantes ao bronze polido. Esta alusão a 1:14 mostra Cristo como aquele que tem olhos faiscantes de raiva e que esta pronto para pisar com os pés os inimigos da fé cristã. Este quadro severo nos prepara para as palavras igualmente severas dos versículos 26-27.

 

19. Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança. Provavelmente as quatro palavras de reconhecimento são explicativas das boas obras desta igreja. É possível que o serviço seja a manifestação do amor, a perseverança a da fé. Temos aqui uma igreja com muito a elogiar. Seu amor não esfriou como o dos efésios, e a vasta maioria dos membros da igreja deixou sua fé levá-los à perseverança diante dos problemas que a igreja enfrentava em um ambiente pagão.

As tuas últimas obras são mais numerosas que as primeiras. Esta igreja evidenciou crescimento admirável nas virtudes cristãs; seu amor e sua fé tinham aumentado com rapidez.

 

20. Tu toleras essa mulher, Jezabel. O problema desta igreja era que ela tolerava maus ensinos, apesar de a maioria estar crescendo no amor e na fé. Tinha surgido uma mulher na igreja que era como Jezabel. Da mes­ma forma como Jezabel, a rainha de Acabe, tinha apoiado a idolatria (1 Rs 16:31) esta mulher estava desviando alguns da fé com seus ensinos perniciosos.

Que a si mesma se declara profetisa. Os profetas gozavam de alto conceito na igreja primitiva, e são mencionados em relacionamento es­treito com os apóstolos (1 Co 12:28; Ef 4:11). Em Rm 12:6 a profecia é o primeiro da lista dos dons do Espírito. A função principal do profeta não era a de predizer acontecimentos futuros, apesar de isto fazer parte (At 11:27); ele era antes um mestre inspirado. Não nos esqueçamos que a igreja primitiva não possuía o Novo Testamento, como nós, com seu relato inspirado das palavras e dos atos de Cristo, o significado da sua morte e ressurreição. Para suprir em parte esta necessidade de ensino confiável o Espírito Santo iluminava profetas para comunicar a palavra de Deus. Paulo nos dá um relato extenso da função dos profetas em 1 Co 14. Junto com os apóstolos os profetas eram o veículo humano para a revelação da verdade divina (Ef 3:5). Esta Jezabel dizia ser profetisa, com revelações especiais da parte de Deus que a qualificavam como mestre com autoridade. É óbvio que ela era membro da igreja e que procurava seguidores entre os cristãos de Tiatira.

Toleras. O problema em Tiatira era uma tolerância que não era sadia. Eles reconheciam a existência de uma profetisa falsa; reconheciam também o caráter maléfico de seu ensino, mas em sua tolerância se negavam a lidar com ela. A situação é oposta à de Éfeso. Os efésios ti­nham provado os que se diziam apóstolos e rejeitado os pseudo-apóstolos, mas este conflito os fez rudes e críticos. Aqui temos uma igreja com muito e crescente amor e fé, que tolera falsos profetas em seu próprio prejuízo.

Toleras que ela não somente ensine, mas ainda seduza os meus ser­vos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos. O erro desta Jezabel é o mesmo dos nicolaítas em Pérgamo: adap­tação completa aos costumes pagãos. O problema em Tiatira era tão grave porque a filiação às corporações de comércio envolvia a partici­pação em refeições no estilo dos pagãos, que muitas vezes levavam a imoralidade.

 

21. Dei-lhe tempo para que se arrependesse. Não há dúvida que estas palavras se referem a algum incidente no passado desconhecido para nós, quando Deus usou alguma situação para repreender a falsa profetisa e levá-la ao arrependimento. Talvez o próprio João serviu na igreja de Tiatira e repreendeu esta mulher, sem resultados.

 

22.  Eis que a prostro de cama. No grego diz somente "cama" mas a tradução correta deve incluir a idéia do Antigo Testamento que implica em doença (Ex 21:18). A intenção de João talvez seja de fazer um con­traste entre leito de enfermidade e leito de prostituição. Deus promete punir Jezabel afligindo-a com alguma doença física.

Em grande tribulação. Encontramos aqui paralelismo poético hebraico prometendo as mesmas dificuldades aos que aceitaram os en­sinos da mulher e tentaram ajustar seu modo de vida de cristãos às práticas que deles se esperava como membros das corporações de comércio.

 

23. Matarei os seus filhos. O texto faz distinção entre os que praticam adultério com a profetisa e os que são chamados de seus filhos. A punição para estes é muito mais severa que para os outros: a morte. Parece que João quer que nós façamos distinção entre os que ainda estão lutando com o problema de como ser leal a Cristo adaptando-se ao mesmo tempo completamente aos costumes sociais e comerciais ao seu redor, e aqueles que se entregaram sem reservas ao ensino da falsa profetisa. Alguns comentadores acham que, "seus filhos" significa literalmente sua descendência física, mas isto não parece provável.

Todas as igrejas conhecerão. Temos de concluir que esta Jezabel fal­sa era amplamente conhecida nas igrejas da Ásia; Deus promete um jul­gamento que será um testemunho óbvio do fato de que eu sou aquele que sonda mente e corações.

 

24.  João prossegue com uma promessa de segurança à maioria da igreja, aos que não tem esta doutrina da falsa profetisa, apesar de tê-la tolerado. Seu ensino é chamado de as coisas profundas de Satanás. Alguns intérpretes acham que a falsa Jezabel alegava que seu ensino levaria seus discípulos a conhecerem os mistérios de Satanás. Parece antes que João es­creveu com ironia; como profetisa ela alegava que levaria seus seguidores a conhecerem os mistérios de Deus (1 Co 2:10, Rm 11:33, Ef 3:18), mas na realidade não conseguia isto; as coisas profundas eram de Satanás, não de Deus.

As palavras outra carga nos deixam num beco sem saída, porque o contexto não esclarece que carga João está pondo sobre seus leitores. Muitos intérpretes vêem aqui uma alusão ao decreto do concilio de Je­rusalém em Atos 15, que inclui proibições quanto a comer carne ofe­recida a ídolos e a imoralidade. Esta interpretação é provável, quer João tenha tido o decreto de Atos em mente ou não.

 

25.  Tão somente conservai o que tendes. Em vez de acrescentar uma nova lista de exigências aos crentes de Tiatira, Cristo somente os exorta a continuar em sua fidelidade na vida cristã e a evitar as festas pagas com sua imoralidade.

 

26.  Ao vencedor, e ao que guardar as minhas obras. O cristão vito­rioso que não aceita o ensino da profetisa falsa deve guardar as obras do próprio Cristo, isto é, os seus mandamentos.

Autoridade sobre as nações. A idéia que apareceu primeiro em 1:6 fica mais explícita nesta passagem: os santos governarão as nações junto com Cristo. Os santos são um reino porque participarão do reino que tem Cristo por rei. Cristo prometeu a seus discípulos que eles herdariam a terra (Mt 5:5). Ele prometeu aos doze que no novo mundo eles estariam sentados em doze tronos julgando as doze tribos de Israel (Mt 19:28); a mesma promessa é repetida em Lc 22:30. Na afirmação de Paulo de que os santos julgarão o mundo (1 Co 6:2) encontramos a mesma idéia básica. A interpretação pré-milenista de 20:4 vê o cumprimento desta promessa no reino messiânico temporal que haverá entre a parousia (segunda vinda, 19:11-16) e a nova época quando o novo céu e a nova terra substituirão o velho sistema (21:lss).

 

27.  Com cetro de ferro as regerá. Estas palavras explicam detalhada­mente o poder que o vencedor terá sobre as nações. O vencedor recebe a promessa de que participará das funções do próprio Messias: "Com vara de ferro as regerás, e as despedaçarás como um vaso de oleiro" (Sl 2:9). Esta frase é repetida ainda na visão da vinda de Cristo: "Ele mesmo as regerá com cetro de ferro" (19:15; veja também 12:5). No texto grego surge um problema, porque na Septuaginta a palavra que traduz o hebraico "quebrar", "despedaçar", "reger", basicamente significa "apascentar um rebanho", e tem muitas vezes o sentido de governar com a idéia de proteção e preservação (veja Mt 2:6; Jo 21:16; Ap 7:17). Mas no presente contexto não pode haver dúvidas quanto ao significado desta palavra, porque a frase seguinte a explica: as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro. O estabelecimento efetivo do Reino de Deus não pode ocorrer sem a destruição de todos os poderes hostis e recalcitrantes. A nova época não pode ser apresentada sem que a velha época ceda o lugar, a época caída e pecadora com seus exércitos rebeldes. De algum modo que a Escritura não esclarece, os seguidores do Messias deverão participar do seu triunfo sobre as nações hostis.

 

28. Assim como também eu recebi (autoridade) de meu pai. O gover­no vitorioso do Messias é um presente que ele recebe de seu Pai em virtude de seus sofrimentos, morte e ressurreição (Fp 2:9-11).

Dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Esta expressão é obscura. É possível que se refira a passagens como Dn 12:3, onde é prometido aos "que a muitos conduzirem à justiça" que brilharão "como as estrelas sem­pre e eternamente". Se este é o caso, então esta é uma promessa da glória que será conferida ao vencedor. O fato de que a estrela é da manhã pode se referir ao seu destaque no céu (Jó 38:7). Olhando para o fato de que: 22:16 fala que Cristo é a brilhante estrela da manhã, muitos comentadores acham que isto é uma promessa de que o próprio Cristo será dado ao ven­cedor; mas esta idéia é difícil.

 

Bibliografia G. Ladd