Lição 04

 

22 de Outubro de 2006

 

Filipos, uma igreja repleta de alegria

 

Texto Áureo

 

"Regozijai-vos sempre, no Senhor: outra vez digo: regozijai-vos". Fp 4.4

 

Verdade Aplicada

 

Seja qual for a situação, podemos sempre nos alegrar no Senhor, pois Ele dirige a história e tudo que faz é para o nosso bem.

 

Objetivos da Lição

 

Compreender que as lutas não podem roubar a nossa alegria;

Capacitar o cristão para o discernimento espiritual frente às heresias;

Estimular o cristão a viver uma vida cristã vitoriosa.

 

Texto de Referência

 

Fp 1.3             Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós;

Fp 1.4             Fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações;

Fp 1.5             Pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora;

Fp 1.6             Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus;

Fp 1.7             Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos são participantes da graça comigo;

Fp 1.8             Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus;

Fp 1.9             E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção;

Fp 1.10           Para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo;

Fp 1.11           Cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.

 

Ajuda Versículos

 

Ajuda 1

 

Ajuda 2

Ajuda 3

 

 

Ações de Graças e Oração em favor dos Filipenses (1.3-11)

 

Ações de Graças Introdutórias (1.3-6)

 

O preâmbulo das cartas de Paulo freqüentemente é seguido por uma expressão introdutória de agradecimento. Gálatas constitui exceção, pois quase não havia motivos que suscitassem agradecimentos em relação à situação em que se encontravam as igrejas gálatas.

A prioridade que Paulo atribuía à ação de graças, em geral, esta explícita em Romanos 1:8: "Primeiramente dou graças ao meu Deus, por meio de Jesus Cristo, no tocante a todos vós." O agradecimento aqui em Filipenses reflete "o senso de íntima comunhão de Paulo com seus amigos filipenses"; a expressão dele é "incomumente fervorosa? (O'Brien, p. 19). Como em outras passagens, a ação de graças de Paulo está interligada a uma oração.

 

1:3 A forma verbal no indicativo dou graças também é usada no agradecimento introdutório de Romanos 1:8; 1 Coríntios 1:4; 2 Timóteo 1:3 e Filemom 4. No plural: "graças damos", em Colossenses 1:3 e 1 Tessalonicenses 1:2. Temos :"sempre devemos, irmãos, dar graças" em 2 Tessalonicenses 1:3. Em 2 Coríntios 1:3, em Efésios 1:3, como também em 1 Pedro 1:3 encontramos a forma mais litúrgica "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo." Basta pensar em seus amigos cristãos em Filipos e outras cidades, e Paulo já encontra motivo para dar graças a Deus.

 

1:4 O preâmbulo gratulatório de Paulo está repetidamente ligado à certeza de suas constantes orações pelos amigos a quem escreve (cf. Rm 1:9; Ef 1:16; 1 Ts 1:2; 2 Tm 1:3; Fl 4). Têm-se a impressão de que o apóstolo não conseguia pensar nos amigos sem orar por eles, contudo ele intercedia principalmente como indivíduos e também como igreja, com regularidade e dentro de um programa estabelecido.

Não podemos ter certeza quanto às palavras em todas as minhas orações, súplicas por todos vós, se elas estão intimamente ligadas ao período seguinte (como acontece na NIV) ou se com o período prece­dente: Dou graças ao meu Deus, sendo que neste caso estariam em conexão paralela com todas as vezes que me lembro de vós.

A repetição de todas, todos, todas as vezes (são da mesma é única raiz, no grego) é digna de nota, pois trata-se de uma característica do estilo de Paulo, em toda sua correspondência e de modo especial nesta carta. Há três ocorrências nos versículos 3 e 4, que poderiam ser salien­tadas na seguinte tradução: "Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós, fazendo sempre, em todas as minhas orações, súplicas por todos vós com alegria."

A declaração de Paulo de que ele ora por todos eles com alegria introduz uma nota repetitiva nesta carta conforme vemos em: 1:18; 2:2, 17, 18, 28, 29; 3:1; 4:1, 4, 10. Em contraste com muitas outras de suas igrejas, a igreja filipense dava a Paulo alegria pura quando pensava nela. E evidente que essa igreja não abrigava ensinos subversivos que haviam encontrado guarida noutras igrejas da Galácia, e tampouco a libertinagem à margem da ética, que era defendido por alguns membros da igreja de Corinto.

 

1:5 O que desperta alegria da ação de graças em Paulo, de modo particular aqui, é a enérgica disposição com que os crentes filipenses haviam cooperado com o apóstolo no evangelho, desde que ele visitara a cidade pela primeira vez. Enquanto Paulo estivera ali vários irmãos "trabalharam comigo no evangelho" (4:3) e, após sua partida, prossegui­ram no testemunho ativo. Oravam por ele com regularidade (v.19); mantinham contato com ele através de mensageiros como Epafrodito (2:25-30); enviavam-lhe ofertas, sempre que havia oportunidade — na verdade, uma das razões para o envio dessa carta era agradecer-lhes a remessa de uma oferta, pela mão de Epafrodito; aqui, Paulo antecipa de modo breve seu agradecimento mais elaborado de 4:10-20.

Eles haviam participado com generosidade na arrecadação de fundos para socorro dos famintos de Jerusalém, campanha que o apóstolo organizara em sua missão evangelística entre os gentios, nos anos finais de seu ministério na costa do Egeu. Em 2 Coríntios 8:1-5 faz um caloroso elogio da liberal doação feita pelas igrejas macedônicas (dentre as quais figura a igreja filipense).

O fato de que a cooperação dessa igreja, no evangelho, havia prosseguido sem interrupção até agora, sugere que nada havia acontecido no seio da comunidade filipense que causasse preocupação séria a Paulo.

 

1:6 A ardente participação deles no ministério evangélico de Paulo era um sinal seguro da obra da graça, que começava a operar em suas vidas quando, de início, creram na mensagem salvadora. Paulo externa sua convicção de que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará (cf. 2:13) até chegar à consumação, na vinda de Cristo. De modo semelhante, em 1 Tessalonicenses 5:24, depois de orar para que seus leitores sejam "conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo", Paulo e seus companheiros afirmam: "Fiel é o que vos chama, o qual também o fará." A salvação é obra de Deus do princípio ao fim; portanto, onde ela começou, certamente se completará.

O dia de Cristo Jesus, chamado "o dia de Cristo" no v. 10, e em 2:16, é o dia da vinda de Cristo em glória, que aguardamos (cf. 3:20). A expressão foi tirada do AT: "dia do Senhor" — o dia em que Iavé, o Deus de Israel, reivindicaria sua justiça, eliminando toda injustiça, onde quer que fosse encontrada, em primeiro lugar e principalmente entre seu povo (cf. Am 5:18-20). Agora, todavia, por ordenação divina, "Jesus Cristo é Senhor" no sentido mais augusto dessa palavra (2:11); o dia do Senhor é, portanto, o dia de Cristo Jesus. Num contexto cristão é o dia em que a vida e obra do povo de Cristo serão avaliadas. "A obra de cada um se manifestará, porque o dia a demonstrará" (1 Co 3:13); portanto, o Julgamento final deverá esperar o Senhor, "até que venha", e não deve ser antecipado por aqueles cujo conhecimento dos motivos e circunstân­cias pessoais dos outros é, pelo menos, imperfeito (1 Co 4:5).

Acima de tudo, o dia de Cristo Jesus é o dia em que a salvação dos crentes, já principiada, será consumada. De maneira semelhante a seus irmãos e irmãs de Tessalônica; os crentes de Filipos haviam aprendido algo:"... e aguardardes dos céus a seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos" (1 Ts 1:10), e a regozijar-se na "esperança da salvação", porque haviam sido escolhidos não para receber a retribuição divina, que recairá sobre os iníquos, no final dos tempos, mas para "alcançar a salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Ts 5:8,9). Portanto, para os crentes esse será um dia de luz e não de escuridão (em contraste com a advertência de Amos 5:20, de que para alguns esse dia trará "trevas, e não luz").

 

Interlúdio (1.7-8)

 

Estas palavras pessoais com que Paulo se dirige aos filipenses de modo direto afirmam sua profunda afeição por eles, e representam também uma transição entre a ação de graças dos versículos 3-6 e a intercessão dos versículos 9-11.

 

1:7 Os filipenses demonstraram tão grande comunhão com Paulo que se tornou "muito natural" (Moffatt) que o apóstolo sentisse por eles o que sentia. A graça do ministério apostólico havia sido concedida por Deus a Paulo (cf. Rm 1:5), mas ele se regozija quando seus convertidos tornam-se participantes a seu lado. A "cooperação" deles no testemunho do evangelho significava muito para Paulo, quando o apóstolo estava livre para ir aonde bem entendia; e significava muito mais para ele, agora nas minhas prisões. Não se deve inferir, da tradução da ECA, que as oportunidades de Paulo na defesa e confirmação do evangelho eram maiores quando ele estava em liberdade do que agora, em situação restritiva. Paulo havia entendido que os interesses do evan­gelho exigiam que ele estivesse exatamente onde estava no momentos em prisão domiciliar. Sabia que estava no posto de serviço determinado por Deus "para defesa do evangelho" (v. 16), e aguardava a rara oportu­nidade de defesa e confirmação do evangelho diante das altas autori­dades e magistrados civis, quando seu caso viesse a julgamento, em breve. Enquanto ele estivesse no lugar que Deus lhe determinara, o ministério que recebera haveria de prosperar. Esta certeza foi fortalecida em Paulo pela firmeza com que seus amigos filipenses demonstraram ser seus cooperadores em sua prisão e em seu contínuo testemunho evangé­lico.

 

1:8 Em momentos de emoção intensa, Paulo tendia a invocar a Deus como sua testemunha (Deus me é testemunha; cf. Rm 1:9; 2 Co 11:11, 31; 1 Ts 2:5). Aqui, a emoção é uma profunda afeição. Chamar a Deus como testemunha não é indicação de que alguns filipenses precisavam ter bastante certeza da afeição paulina; Paulo nunca se mostra reticente ao falar de seu amor pelos seus conver­tidos (cf. 2 Co 12:15; Gl 4:19; 1 Ts 2:8). Entretanto, os termos que Paulo usa ao dirigir-se aos filipenses "demonstram uma profundidade sem precedentes" (O'Brien, p. 29). Paulo anseia pelos filipenses na terna misericórdia de Cristo Jesus — eis um amor totalmente desinteressado. "Não é Paulo, mas Jesus Cristo, quem vive em Paulo, de modo que não é mediante o coração de Paulo, mas pelo de Jesus Cristo, que Paulo age" (Bengel, ad loc.).

Fica enfatizada a união da igreja filipense em seu relacionamento com Paulo; todos cooperavam no ministério paulino e todos participavam da afeição cordial do apóstolo.

 

Oração Intercessora (1.9-1l)

 

A ação de graças introdutória, que inclui em si um elemento de oração, é seguida agora por uma oração intercessória (falando-se de modo exato, é uma oração com "jeito" de relatório). O assunto abran­gente desta oração é idêntico ao da carta, como um todo; na oração concentram-se os principais interesses que Paulo explica de forma mais minuciosa ao longo da carta.

 

1:9 E esta é a minha oração: que se encaixa com "fazendo... súplicas" no versículo 4 (embora aqui o apóstolo use uma palavra diferente), pode significar "estou orando neste momento" (o que sem dúvida era expressão da verdade, em qualquer caso) ou opção mais provável "eu oro por vós com regularidade, e é por isto que estou orando: que o vosso amor aumente mais e mais. Para Paulo, "o fruto do Espírito é o amor", acima de tudo, na vida das pessoas de quem o Santo Espírito toma posse (Gl 5:22); "o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo" (Rm 5:5). Se esse amor aumentar entre os filipenses, lhes removerá as ameaças contra a unidade de coração e propósito, que surgem por ocasião de eventuais choques de personalidade e temperamento. Paulo retorna ao assunto em 2:2, onde o apóstolo incita seus leitores: "completai o meu gozo... tendo o mesmo amor".

Este amor, assim espera Paulo, se fará acompanhar de pleno conhe­cimento e toda percepção. Paulo não estava cego aos perigos das emoções não controladas pela razão. Estava resolvido, por sua própria conta, a orar e cantar "com o espírito, mas também... com o entendi­mento" (1 Co 14:15); o apóstolo estava preocupado, desejando que ele e seus convertidos pudessem amar tanto no espírito quanto no entendimento.

É o amor que proporciona o crescimento do verdadeiro conhecimento e toda percepção, ou discernimento espiritual. O "conhecimento" divorciado do amor "incha" (provoca orgulho), enquanto "o amor edifica" (1 Co 8:1). Entretanto, se o amor é indispensável, o pleno conhecimento e toda percepção são necessários. A verdade do evangelho pode ser subvertida, quando a ignorância e o julgamento deficiente provêm apoio para o ensino prejudicial contra o qual os filipenses são alertados no capítulo 3.

 

1:10 Quando tantas formas competitivas de doutrinas e de modos de viver se apresentam à escolha dos crentes (como com certeza seria o caso no mundo mediterrâneo oriental, no primeiro século), o pleno conhecimen­to e toda percepção capacitarão os crentes a discernir as coisas excelentes (quanto a esta expressão, cf. Rm 2:18). Pode significar "saber o que é bom ou excelente" contrastando com "sutilezas e especulações vazias" (Calvino, ad loc.) ou como sugere a tradução de ECA discernir as coisas excelentes, "as melhores dentre as boas" (Bengel, ad loc.). Ambos os tipos de discriminação são necessários. Esse discernimento advém mediante experiência amadurecida. Um texto clássico sobre o assunto no NT é Hebreus 5:14, que faz referência às pessoas espiritualmente amadureci­das que "pela prática, têm as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal." Sem esta faculdade discriminatória a pessoa não consegue desenvolver "o senso daquilo que é vital" (Moffatt). É o efeito, não de um processo lógico de filosofia moral, mas de percepção crescente do caráter e da vontade de Deus.

É importante, diante do dia de Cristo, o dia da avaliação e recompensa de seu povo (cf. v. 6), que os crentes sejam sinceros e inculpáveis. Os cristãos não poderão ser sinceros e inculpáveis se não viverem aqui e agora vidas sinceras e inculpáveis. Portanto, a escolha das coisas exce­lentes, das melhores coisas, inclui a escolha importantíssima daquilo que é eticamente o melhor. De modo semelhante, a oração de 1 Ts 5:23 para que Deus possa guardar seus filhos "plenamente con­servados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo" exige que o Senhor os "santifique completamente" hoje.

 

1:11 O fruto da justiça que Paulo deseja ver reproduzido na vida dos filipenses é, essencialmente, idêntico àquelas graças que, de acordo com Gálatas 5:22, 23, compõem o "fruto (ou 'colheita') do Espírito." Tais qualidades são o produto espontâneo da nova vida implantada dentro dos crentes, vida baseada na "justiça que vem de Deus pela fé" (3:9). É por causa da união dos crentes com Deus, pela fé, que eles mostrarão o fruto da justiça, o qual vem por meio de Jesus Cristo; este fruto se manifestou com perfeição em seu próprio caráter e obra. Não existe lugar para autocongratulações, aqui.

É em vidas assim que Deus é glorificado. As palavras para glória e louvor de Deus fazem parte da sentença, mas ao mesmo tempo servem ao propósito de uma doxologia, concluindo o trecho de ações de graças e oração.

 

Bibliografia F. Bruce