Os Desafios éticos do apostolo Paulo

 

Dedicação verdadeira, base de toda á ação moral (Rm12-1,2)

 

Havendo terminado as grandes considerações doutrinárias da fé cristã, e tendo concluído as mesmas apresentando o seu ponto de vista sobre a filosofia da história, agora dá início à segunda grande divisão desta epístola, que versa sobre a «conduta cristã ideal», ou seja, a ética cristã, o cristianismo prático. Temos nesta seção aquilo que se espera da parte do crente em Cristo, quanto ao seu comportamento diário, o qual desfruta das bênçãos espirituais e privilégios celestiais mencionados na seção anterior de Romanos.

 

Deve-se observar que esse plano é seguido pelo apóstolo dos gentios também em outras de suas epístolas. Por exemplo, a epístola aos Efésios divide-se em uma seção doutrinária (caps. 1-3) e em uma seção ética e prática (caps. 4-6). A epístola aos Colossenses também está similarmente dividida: Seção doutrinária (caps. 1-2); seção prática (caps. 3-4). Isso não quer dizer, entretanto, que as seções práticas das epístolas paulinas não contenham matéria doutrinária, porque a verdade é que até ali o apóstolo expõe doutrinas; de modo geral, entretanto, essa divisão das epístolas paulinas serve de característica da apresentação cristã do apóstolo Paulo. Seja como for, a transição da seção «doutrinária» para a seção das «exortações práticas» é bem marcada, como algo perfeitamente natural para esse apóstolo. Não obstante, a transição é ainda mais abrupta e óbvia na epístola aos Romanos do que em qualquer dos outros escritos paulinos. (Ver também as divisões «práticas», que aplicam aos problemas individuais e locais os ensinamentos das respectivas seções doutrinárias anteriores, em I Ts 4:1; II Ts 3:6 e Gl 5:1,2).

 

A seção prática desta epístola aos Romanos, embora dirigida às necessidades particulares da igreja cristã de Roma, também é suficientemente geral para ter aplicação universal, aos crentes de todos os séculos. Nas epístolas aos Coríntios, por exemplo, essas exortações visam mais especificamente as necessidades dos discípulos cristãos de Corinto, sendo mais particulares do que no caso da epístola aos Romanos. É possível que a superioridade moral dos romanos sobre os coríntios, de modo geral, tenha levado Paulo a entrar menos decididamente nos problemas específicos, levando-o a apresentar um ponto de vista mais generalizado sobre a natureza da ética cristã, conforme o que seria de esperar em qualquer comunidade religiosa cristã. Assim sendo, a maioria das exortações de Paulo, na epístola aos Romanos, são de natureza geral, resultantes de suas reflexões sobre as grandes doutrinas que ele acabara de expor, mostrando como essas doutrinas deveriam ter um sentido pessoal profundo para os crentes em Cristo. Não pretendia o apostolo observar os problemas morais específicos da congregação cristã em Roma. (O décimo terceiro capítulo, mui provavelmente, faz exceção a isso, porquanto ali ele aborda qual deve ser a nossa atitude para com os governantes civis, o que, na cidade de Roma, certamente era um problema premente, onde os cristãos eram mártires em potencial por causa de sua fé, pois com freqüência a sua posição em favor de Cristo parecia ser uma afronta ao culto imperial, que cultuava a pessoa do próprio imperador, o que equivalia à traição contra o estado).

 

Há uma idéia central que parece atravessar toda a seção prática desta epístola, ou seja, paz e unidade na igreja cristã, em todas as relações, internas e externas, entre crente e crente e incrédulo, como indivíduos, como comunidades e como nações. O fato de que os homens são chamados aos pés de Cristo, a fim de serem modelados segundo a sua imagem, serve de razão suficiente para que se tornem capazes de viver harmoniosamente uns com os outros, desfrutando de tranqüilidade espiritual até mesmo neste mundo agitado. Tendo abordado essa questão da paz e da unidade, embora sem dúvida isso fosse uma exortação universalmente necessária, o apóstolo Paulo, no trecho de Rm 14:1-15:12, parece estar referindo-se a alguma perturbação específica da paz cristã, existente na igreja cristã de Roma. Porém, até mesmo nesse caso, as questões são abordadas de maneira geral, sem alusões específicas a indivíduo algum, em contraste com a maneira de Paulo abordar essas mesmas questões, em outras de suas epístolas.

 

«Os princípios éticos cristãos se relacionam à revelação cristã. As relações em que nos encontramos é que determinam os nossos deveres; e as novas relações nas quais fomos colocados, tanto no tocante a Deus como no tocante aos outros homens, mediante a fé em Jesus Cristo, têm uma nova moralidade que lhes é correspondente. Existe aquilo que se denomina ética cristã, com um alcance, uma delicadeza e um colorido todo seu. Não há aqui qualquer exposição formal sobre esse tema, embora talvez encontremos aqui a mais profunda exposição sobre a questão que ha em todo o N.T. Esta seção, pois, é uma ilustração compreensiva sobre essas relações, com boa variedade de particularidades. Paulo inicia, em Rm 12:1 e s., com uma exortação geral, que cobre a vida cristã inteira. Desse ponto ele parte para o espírito e a atitude que deveriam caracterizar os crentes como membros da sociedade a que pertencem, demorando-se especialmente na exposição das graças cristãs da humildade e do amor (ver Rm 12:3-21). No capítulo seguinte, o apóstolo discute os deveres do indivíduo para com os seus superiores civis legais (ver Rm 13:1-7); os deveres para com o próximo, enfeixados no amor que cumpre a lei (ver Rm 13:8-10); e também discute a urgente necessidade da santificação, em vista da «parousia (ver)» ou segundo advento de Cristo. Já no décimo quarto capítulo o apostolo entra em um assunto diferente, que aparentemente se revestia de interesse peculiar para os cristãos de Roma, naquela época. Trata-se de uma daquelas questões em que os direitos da liberdade cristã precisam acomodar-se às necessidades sociais criadas pelas fraquezas dos irmãos, numa exposição que se estende desde o primeiro versículo desse capítulo até ao décimo terceiro versículo do capítulo quinze, onde termina a seção 'prática' desta epístola». (James Denny, in loc).

 

«Novamente podemos conjeturar a existência de uma pausa, de uma longa pausa, a fim de deliberar sobre o trabalho de Paulo e Tércio. Geralmente falando, temos chegado ao fim do conteúdo dogmático e por assim dizer oracular desta epístola. Temos ouvido os grandes argumentos da retidão, da santificação e da redenção final. Temos acompanhado a exposição da misteriosa incredulidade e da restauração determinada para a nação escolhida, um tema que podemos ver, ao olharmos de volta, em perspectiva, essa epístola inteira, como alvo que tem uma profunda e sugestiva conexão com aquilo que foi dito antes; porquanto a experiência de Israel, em relação à vontade soberana e à graça de Deus, está plena de luz, lançada sobre a experiência da alma. Em seguida, na ordem da apresentação, aparece a brilhante seqüência desse poderoso antecedente, dessa complexa mas harmoniosa massa de fatos espirituais e de ilustrações históricas sobre a vontade e os caminhos do Centro eterno. A voz do apóstolo Paulo é ouvida novamente; e ele chega a falar solidamente sobre a mensagem divina do dever, da conduta e do caráter».

 

«Como que de alguma fenda, na face de colinas rochosas, flui o pleno e puro riacho nascido nas profundezas, que corre sob o sol e os céus, através de grandes prados e paralelamente aos lares sedentos dos homens. Assim também aqui, dos mistérios mais profundos da graça, flui a mensagem de todo o dever santo. O crente, cheio do conhecimento de um amor eterno, é ensinado não a sonhar, e, sim, a servir, tendo todas as misericórdias de Deus como seu grande motivo ».

 

«Nos dias presentes, em muitas seções da nossa cristandade, tem aparecido um notável reavivamento do desejo de aplicar a verdade salvadora à vida diária, conservando os crentes sempre relembrados que não somente esperam pelos céus, mas que devem viajar em direção ao mesmo, passo a passo, na vereda da santidade prática e vigilante...»

 

«Nesse ínterim, que Deus proíba que esses 'ensinamentos sobre a maneira de viver' sejam jamais transmitidos, pelos pais, pelos pastores, pelos mestres-escolas, pelos amigos, se antes de tudo não tenham sido experimentados pela própria alma desses instrutores, em sua própria vida diária. Ai de nós se mostrarmos, de maneira convincente e conquistadora, qual a ligação entre a salvação e a santidade, ao mesmo tempo que não andamos prudentemente (ver Ef 5:15) nós mesmos, nos detalhes de nossa conduta diária.

 

«O fruto é mais do que á flor e a folha; é a própria coisa por causa da qual a árvore existe. Nós, os que cremos, fomos 'escolhidos' e 'determinados' para produzir muito fruto (ver Jo 15:26), fruto abundante e duradouro. O Mestre eterno passeia pelo seu jardim com o propósito específico de verificar se essas árvores produzem fruto. E o fruto que ele espera encontrar não é nenhuma coisa visionaria; é a vida de serviço santo, prestado a ele e aos nossos semelhantes, em seu nome». (Moule, in loc).

 

12:1:   Rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

 

É bem provável que nenhum outro versículo bíblico tenha sido mais freqüentemente utilizado, na igreja cristã, no que tange às questões de santidade e de dedicação pessoal, do que este, usualmente em vinculação com o versículo seguinte. O trecho de Rm 12:1,2, é como o de «Jo 3:16» da ética cristã.

 

«...Rogo-vos...» Visto que o apóstolo Paulo mostrava-se intensamente interessado sobre essa questão, e visto que o «viver para Cristo» era a razão consumidora de sua própria vida, ele «roga» aqui, aos outros crentes, que levem tão a sério como ele a questão da doutrina cristã vinculada à conduta cristã diária. Essa mesma fórmula, incluindo a palavra «pois», nos trechos de Ef 4:1; I Tm 2:1 e I Co 4:16. O vocábulo aqui usado, «rogo», em sua forma verbal, significa «encorajar», «exortar», «pleitear insistentemente», o que tem o sentido de fazer um apelo sério e ardoroso. Em sua forma substantivada, é usado para indicar uma «exortação», um «encorajamento», um apelo, uma «solicitação», embora algumas vezes também signifique «consolo» ou «conforto». Neste texto, porém, o primeiro sentido é o que está em foco.

 

Paulo, na sua posição de apóstolo dos gentios e de revelador da fé cristã, tinha o direito e o dever de chamar a nossa atenção para as exigências da vida cristã, de lembrar-nos que nenhum indivíduo realmente possui a Jesus como seu Salvador se também não conta com ele como seu «Senhor», tal como ele já havia declarado dogmaticamente em Rm 10:9,10. Essas duas idéias simplesmente não podem ser separadas. Na presente seção o apóstolo haverá de mostrar-nos como agirá o indivíduo que tem Jesus como seu Senhor. Paulo haverá de mostrar-nos o que significa contar alguém com a presença habitadora do Espírito Santo no íntimo, do ponto de vista da vida prática diária.

 

«Rogo-vos... Que palavra espantosa, quando proveniente de Deus! Quando proveniente do Deus contra o qual temos pecado, e sob cujo julgamento nos encontrávamos! Que palavra dirigida a nós, os crentes, uma raça de pecadores que tão recentemente estava em inimizade contra Deus. Rogo-vos! — Paulo recebera autoridade, da parte de Cristo, para ordenar-nos tal coisa, conforme ele chegou a dizer a Filemom: '...ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém...' Compete-nos dar ouvidos atentos a esse nosso apóstolo, que com freqüência cobria de lágrimas as páginas sobre as quais escrevia. Conforme também ele disse sobre o seu ministério: 'De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos...'» (Newell, in loc).

 

«Sabemos que os homens profanos, a fim de satisfazerem à carne, aproveitam-se ansiosamente de qualquer coisa que as Escrituras digam concernente à bondade infinita de Deus; e os hipócritas, por semelhante modo tanto quanto podem, obscurecem maliciosamente o conhecimento das mesmas, como se a graça de Deus houvesse extinguido o desejo de terem uma vida piedosa, tendo aberto a audácia da porta para o pecado. Esta exortação (a de Rm 12:1,2), entretanto, ensina-nos que enquanto os homens não aprenderem realmente o quanto devem à misericórdia de Deus, jamais o adorarão com sentimentos verdadeiros, e nem serão eficazmente estimulados a temê-lo e obedecê-lo». (Calvino, in loc).

 

«...pois...» Visto que Paulo não nos diz especificamente a que porção do material apresentado antes por ele é que ele aludia, é impossível para nós determinar, com certeza absoluta, a que idéia ou seção ele agora vincula a sua «aplicação prática». Várias idéias têm sido ventiladas, conforme a lista enumerada abaixo:

 

1.      É possível que haja a ligação dessa seção prática com o último pensamento da seção dos capítulos nono a décimo primeiro, isto é, com a doxologia, bem como com os elevados pensamentos ali contidos. (Ver Rm 11:33-36). Essa doxologia consiste da exclamação de Paulo, ante o pensamento de como o Senhor tem preparado a redenção para todos os homens (ver Rm 11:32), no que Deus exibiu uma sabedoria e um conhecimento que ultrapassam a toda a compreensão humana, porquanto todas as coisas procedem dele (ele é a fonte originária), «por meio dele» (ele é o meio eficaz) e «para ele» (ele é o alvo) de toda a existência e vida. Por causa dessa elevadíssima mensagem, «pois», é que nós temos a obrigação de lhe sermos supremamente dedicados.

 

2.      Mas outros estudiosos preferem vincular essa seção prática diretamente ao trigésimo segundo versículo do décimo primeiro capítulo, que serve de uma espécie de sumário de tudo quanto Paulo tencionou expor nos capítulos primeiro a décimo primeiro desta epístola aos Romanos.

 

3.      Ainda existem outros que vinculam essa seção prática com a seção didática inteira da epístola, a saber, com o material dos capítulos primeiro a décimo primeiro.

 

4.      Ainda outros eruditos supõem que em vista dos capítulos nono a décimo primeiro serem, na realidade, uma unidade separada do restante desta epístola, a qual poderia com facilidade ser destacada, sem com isso afetar a seqüência contida nos capítulos oitavo ao décimo segundo, Paulo estaria baseando esta seção prática sobre o que dissera nos capítulos primeiro a oitavo, reiterando as idéias ali existentes.

 

5.      O mais provável, entretanto, é que o apóstolo Paulo não esteja fazendo qualquer referência específica a qualquer seção particular da porção anterior da epístola, mas antes, esteja fazendo uma conexão bem geral com toda a grandiosa idéia da redenção humana, que consiste na combinação de todas as idéias dos onze capítulos anteriores a este, na presente epístola. Nesse caso, como que Paulo estaria exortando: «Rogo-vos, por causa de tudo quanto vos tenho mostrado em relação à 'redenção humana'». Todas as proposições doutrinárias anteriores desta epístola, portanto, teriam alguma vinculação com o tema desta «seção prática»; e, desse modo, Paulo teria alicerçado toda a presente seção com a totalidade da porção anterior da epístola aos Romanos.

 

«...pelas misericórdias de Deus...» Ao usar aqui o vocábulo «misericórdias», Paulo não se refere às bênçãos diárias da vida humana, embora essas bênçãos também sejam um reflexo das misericórdias divinas; mas a sua alusão particular é às misericórdias espirituais, que ele já havia esboçado na seção anterior de sua epístola aos Romanos, a saber, a salvação dos crentes, em seus múltiplos aspectos. A misericórdia divina, que Paulo havia demonstrado ser inerente ao «sistema da graça», conforme a sua exposição do mesmo, está aqui em foco, onde cada conceito pertinente é visto em separado, motivo pelo qual ele emprega aqui a palavra no plural, «misericórdias». (Com isso pode-se comparar o trecho de II Co 1:3, onde Deus é chamado de «Pai de misericórdias»). Assim, pois, Paulo se utilizou das várias demonstrações das «compaixões divinas» para com os homens, a fim de impressionar estes últimos com a necessidade e com a excelência emocional da vida diária moldada segundo os desígnios e mandamentos do Senhor; porquanto, mediante essas misericórdias divinas, os homens aprendem que os desejos que Deus nutre em favor deles são benignos, beneficentes e misericordiosos, sendo todos tendentes à sua redenção e glória eternas.

 

A palavra misericórdia também é encontrada na forma singular, nas páginas do N.T. (Ver Cl 3:12). A forma plural evidentemente representa um hebraísmo, através da Septuaginta, que penetrou assim no N.T., porquanto no hebraico esse termo aparece regularmente no plural, provavelmente como meio de elevar o conceito, o que era um artifício perfeitamente comum no hebraico antigo. No caso desse vocábulo, raramente se encontra a forma singular. A forma plural é perfeitamente natural aqui, porque expressa a multiplicidade das doutrinas expostas na seção anterior, que expressam a graça divina.

 

Paulo, pois, referia-se às seguintes «misericórdias»;

1.      A misericórdia da justificação. Rm 3:24,28.

2.      A misericórdia da identificação dos crentes com Cristo, na experiência que é o batismo espiritual. Rm 6:3.

3.      A misericórdia da reconciliação. Rm 5:10.

4.      A misericórdia da graça superabundante. Rm 5:20,21.

5.      A misericórdia da permanência do Espírito Santo no íntimo dos remidos. Rm 8:9.

6.      A misericórdia da eleição divina. Rm 8:28,29.

7.      A misericórdia da segurança eterna. Rm 8:39.

8.      A misericórdia da glorificação final. Rm 8:29,30.

9.      A misericórdia da herança que possuímos em Cristo. Rm 8:17.

10.    A misericórdia do fato que todos os decretos divinos são benéficos para os homens, pois o seu alvo final é a redenção humana, e isso em grande escala. Rm 11:32.

 

Existem muitos outros aspectos da misericórdia divina, que poderiam ser enumerados nesta lista; mas esses aspectos servem de exemplos.

 

«...apresenteis...» Trata-se de um vocábulo que veio a adquirir o sentido técnico de «apresentar um sacrifício». (Comparar com Josefo, Antiq. IV. vi.4). Literalmente significa «pôr de lado», isto é, reservar para algum propósito particular. Pode-se perceber seu uso no trecho de Lc 2:22, onde é usado em conexão com a apresentação dos convertidos a Cristo, por parte de Paulo. Mediante o uso desse termo, bem como mediante o emprego da palavra «...sacrifício...», que igualmente aparece neste versículo, o apóstolo lembra-nos o sistema de sacrifícios do A.T. Do mesmo modo que os sacrifícios eram preparados e dedicados à adoração a Deus, assim também os remidos devem reputar-se. A dedicação total do ser fica aqui subentendida. (Ver as notas mais abaixo sobre os «sacrifícios», bem como os comentários concernentes ao «voto do nazireado», que ilustra bem a idéia que Paulo fazia sobre a dedicação da vida do crente ao Senhor).

 

«...corpos...» O emprego dessa palavra não indica, certamente, que Paulo pensava que somente o corpo, e não também a alma, pode ser corrompido e usado erroneamente, ou que somente o corpo pode ser oferecido como oferta apropriada a Deus, como se isso não se estendesse igualmente ao espírito. Antes, ele lança mão do termo «corpo» a fim de indicar a ação total do ser humano mortal, porquanto é o corpo que deve ser empregado no serviço a Deus, por ser o mesmo o veículo de expressão do homem mortal. Nenhuma alma se dedica realmente a Deus, a menos que seu corpo também seja consagrado. Indiretamente, pois, Paulo nega aqui a idéia gnóstica que dizia que o corpo é a sede ou princípio do pecado, ao passo que a alma é pura, e que, com a morte do corpo, a alma é liberada finalmente do pecado. Antes, o apóstolo deixa claro que muito importa o modo como usamos o nosso corpo, porquanto isso serve de excelente indicação sobre o estado da alma.

 

A alma pura, entretanto, garante o uso apropriado do corpo, o qual, nesse caso, serve de instrumento ou veículo no serviço ao Senhor, embora o impulso espiritual e intelectual parta realmente da alma. Várias interpretações têm sido atribuídas à palavra «corpo», aqui usada:

 

1.      Seria uma designação figurada da própria personalidade humana, correspondente à figura simbólica da «oferta», porquanto as ofertas consistiam de «corpos», especialmente no caso das ofertas queimadas, que provavelmente são as ofertas aqui em vista. Essa interpretação é parcialmente correta. Pois certamente é a «personalidade inteira» que é salientada neste caso, e «corpo» sem dúvida tem aqui esse sentido.

 

2.      Porém, os corpos, em sentido literal e real, também devem ser enfatizados, porquanto o corpo é aquele instrumento que tão facilmente pode ser usado para o bem ou para o mal; e usualmente os homens mortais empregam-no para o mal. O apóstolo Paulo frisa aqui, pois, a debilidade da natureza humana, deixando entendido que essa dedicação deve envolver até mesmo o veículo físico do corpo, porque, de outra maneira, não haverá dedicação autêntica e profunda. Pois nenhuma alma (de homem mortal) pode realmente dedicar-se a Deus, enquanto o corpo estiver entregue aos pecados, às concupiscências e aos interesses próprios deste mundo.

 

3.      Outros estudiosos preferem pensar que a palavra «corpo», neste caso, refere-se à natureza sensual do homem, que o impulsiona na direção do pecado; mas, apesar desse pensamento necessariamente ter de ser incluído nesta interpretação, não é essa a idéia central do termo, neste caso.

 

Essa idéia geral de Paulo pode ser comparada com o conceito que ele fazia de si mesmo, como servo de Cristo, ou melhor, escravo de Cristo (segundo uma tradução mais literal), em Rm 1:1. Os escravos eram possuídos por seus senhores enquanto se encontrassem vivos em seus corpos físicos, sendo obrigados a cumprirem todas as ordens dos mesmos, pois eram controlados pela vontade de seus senhores. Todavia, a utilidade do corpo é necessária para a servidão. Com isso também podemos confrontar nosso presente estado de moralidade, em que a dedicação do corpo é uma medida necessária para que haja a dedicação total da nossa personalidade ao Senhor.

 

O corpo é considerado como instrumento da vontade. (Ver os trechos de Rm 6:13,19 e II Co 5:10. Ver também Rm 7:5,23). A nós é ordenado que glorifiquemos Deus «no corpo» (ver I Co 6:20; ver também Fm 1:20 e II Co 4:10). Pode haver, pois, o «corpo do pecado», isto é, o corpo ainda controlado pelo princípio do pecado, o que torna o indivíduo, em sua personalidade inteira, escravo do pecado. (Ver Rm 6:6 e Cl 2:11). Por semelhante modo, há o corpo controlado pela justiça, o que indica algo sobre a pureza da alma, que indica a pessoa essencial, pois usamos aqui a palavra alma como sinônimo de «espírito». O homem é, essencialmente, um ser espiritual; porém, na qualidade de ser mortal, precisa contender com o corpo mortal que possui, resolvendo se o usará para o bem ou para o mal.

 

«...por sacrifício vivo...» Essa expressão é usada juntamente com o verbo «apresenteis», a fim de lembrar-nos o sistema judaico de sacrifícios, a fim de obtermos boa idéia sobre a natureza absoluta da dedicação espiritual que Deus requer de nossa parte. É evidente que, nas páginas do A.T., os «sacrifícios» de todas as espécies, e, sobretudo as «ofertas queimadas», que mui provavelmente estão em foco neste versículo, eram totalmente entregues, com o propósito de adorar e servir a Deus. Nesses sacrifícios, havia um período de preparação para os animais que seriam sacrificados. Tinham de ser de certa idade, de elevada qualidade física, tendo de passar por certos preparativos preliminares.

 

Os sacrifícios não tinham vontade própria, e sua única razão de existência era que servissem para cumprir seu uso como sacrifício. Assim sendo, devemos pensar sobre a «totalidade» e sobre o «caráter absoluto» do serviço que nos compete prestar a Deus, envolvendo o sacrifício espiritual da personalidade inteira. Não pode haver qualquer tentativa de dar a Deus um «segundo lugar», porquanto nenhum sacrifício estava dependente de categorias ordinais, para sua existência. Pelo contrário, Deus é tudo, e a dedicação deve ser total.

 

«Como pode o corpo tornar-se um sacrifício? Que os olhos não contemplem o mal; e isso importa em sacrifício. Que a língua não profira nenhuma vileza; e isso será uma oferta. Que as mãos não operem o que é pecaminoso; e isso equivale a um holocausto. Mais do que isso, ainda, tudo isso ainda não é bastante, pois, acima disso, devemo-nos esforçar ativamente em favor do bem; as mãos dando esmolas, a boca bendizendo aqueles que nos amaldiçoam, e os ouvidos sempre prontos a dar atenção a Deus». (Crisóstomo).

 

«As ofertas queimadas eram um símbolo da vida inteira, com todas as suas faculdades, a qual deve ser consumida no fogo do senhorio divino, visando seu serviço e sua glória». (Lange, in loc).

 

«...vivo...» Em que sentido? De conformidade com os três pontos alistados abaixo:

1.      Em oposição aos «sacrifícios abatidos», que prestavam seu serviço mediante a morte.

2.      Pois o crente presta seu serviço a Deus através de sua vida consagrada. Isso nos faz lembrar de Sócrates, cuja ética dizia que a vida santa consiste em morrer diariamente. Primeiramente, enfatizamos o nosso lado «espiritual», negando os apetites do corpo. Em segundo lugar, devemos ser como homens que estão prestes a morrer, por estarem as nossas mentes voltadas totalmente para valores mais elevados, mediante os quais também nós vivemos, não nos deixando guiar pelos valores da carne.

3.      Também devemos libertar de tal maneira nossos espíritos que prestemos ao Senhor o serviço apropriado, sem os empecilhos das limitações mortais e pecaminosas.

 

Os sacrifícios judaicos subentendiam em matança; os sacrifícios cristãos subentendem em sua atividade e uma vida contínuas; porém, assim como nos ritos judaicos todas as cerimônias precisam ser cumpridas, a fim de que os sacrifícios fossem aceitáveis aos olhos de Deus, assim também, nos sacrifícios cristãos, nossos corpos devem ser santos, sem mancha ou mácula.

 

«...santo...» Uma das principais, se não mesmo a principal característica do «sacrifício» a que somos aqui convidados, sem a qual todos os movimentos e atividades são inúteis e sem significado, «...o altar será santíssimo: tudo o que o tocar será santo» (Êx 29:37). Outro tanto deve suceder no caso do crente que sobe ao altar do serviço de Deus. Podemos dar atenção à mensagem do trecho de Mt 5:48: «Portanto, sede vós perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste». Esse é o grande alvo, e eventualmente será atingido por todos os crentes verdadeiros. Em outras palavras, a própria santidade de Deus será transmitida aos remidos, de tal modo que eles serão santos como o próprio Senhor. Mediante a santificação, os homens dão início agora à santificação e à transformação segundo a imagem de Cristo, adquirindo gradualmente a natureza moral do Filho de Deus. Essa transformação moral, por sua vez, provoca e acompanha a transformação «metafísica», mediante a qual os crentes vão adquirindo a própria natureza de Cristo, participando de sua divindade, conforme nos ensina o trecho de II Pe 1:4. (Ver também as passagens de Jo 6:48 e Rm 8:29, que falam sobre esse tema geral).

 

«...agradável a Deus...» Embora algumas versões digam aqui «aceitável», na verdade o original grego diz aqui «agradável», «satisfatório». Uma vez mais somos relembrados sobre particularidades do sistema judaico de sacrifícios, porquanto, ali, os sacrifícios tinham de ser santos, sem qualquer defeito físico. Não fosse a existência dessa qualificação, e um sacrifício qualquer não era aceitável ao culto divino. (Com essa idéia podemos comparar o trecho de II Co 5:9, onde o apóstolo fala do esforço dos crentes de sermos agradáveis ao Senhor, quer «presentes» (isto é, vivos como seres mortais) quer «ausentes» (isto é, já com o Senhor, em Espírito). E isso é o que terá valor, quando do juízo efetuado ante o tribunal de Cristo (ver II Co 5:10), onde os remidos serão julgados acerca do uso que fizeram de seu corpo, para efeito de recebimento ou não dos galardões, e não para efeito de salvação ou perdição.

 

É possível que Paulo tivesse querido dar a entender que os sacrifícios do A.T., mesmo quando satisfaziam a todas as exigências legais, não eram plenamente aceitáveis aos olhos de Deus, porque somente o oferecimento da vida e do corpo dos crentes, em sacrifício, é que poderia agradar ao Senhor realmente. (Ver Sl 51:16,17). Os verdadeiros sacrifícios oferecidos a Deus, portanto, devem ser «vivos», «santos» e «agradáveis», porque somente atendendo a essas especificações é que o crente individual terá feito tudo quanto lhe é exigido. Isso significa que pouquíssimos são os sacrifícios agradáveis a Deus, oferecidos entre os crentes professos dos nossos dias.

 

«...que é o vosso culto racional...» Algumas versões dizem aqui, «vosso culto espiritual». Vários sentidos podem ser compreendidos no tocante à palavra «racional», a saber: 1. «racional», 2. «razoável» e 3. «espiritual». A raiz desse termo, no original grego, vem da palavra «logos», que significa o princípio divino da razão universal. A idéia simples de «racionalidade», pois, é por demais limitada; mas igualmente limitado é o conceito de «razoabilidade», que dá a entender que tudo que Paulo contemplava era algo de acordo com a nossa razão, que nos capacita a perceber por qual razão Deus requer essas qualidades de nós. Pelo contrário, o serviço cristão deve ser caracterizado por aquilo que é «divino», tal como essa palavra era correntemente usada nos tempos de Paulo, no vocabulário das religiões misteriosas. O termo «espiritual», portanto, é uma tradução melhor do que a palavra «racional».

 

O culto espiritual, pois, é nossa adoração apropriada, a qual se caracteriza pela «infusão de qualidades divinas». É bem provável que Paulo também teria entendido assim a nossa adoração. Essa adoração, portanto, é aquela inspirada pelo Espírito Santo, conforme também lemos em Rm 8:26,27. Também é provável que Paulo tencionasse fazer aqui um contraste com os sacrifícios próprios do A.T. Nenhum sacrifício verdadeiramente «espiritual» era possível de conformidade com o sistema legal, porque se tratava de sacrifícios de animais, que não poderiam jamais ser «infundidos de qualidades divinas».

 

É verdade que o culto cristão também é «razoável» e «racional». Contudo, é muito mais do que isso. O sistema de sacrifícios do A.T. era mecânico e simbólico, e não verdadeiramente espiritual. O homem é um ser espiritual, que pode ser ajudado pelo Espírito Santo a oferecer ao Senhor essa forma de adoração. Com isso se pode comparar o trecho de I Pe 2:5, onde os crentes são chamados de «casa espiritual», capazes de oferecerem «sacrifícios espirituais», os quais são aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo, numa declaração que virtualmente duplica aquilo que Paulo expressa aqui. Não obstante, a palavra usada pelo apóstolo Pedro, aqui traduzida por «espiritual», não é a mesma palavra empregada por Paulo neste versículo. Também é possível, além disso, que Paulo tivesse querido contrastar a forma espiritual da adoração cristã com o culto idólatra, num confronto perfeitamente apropriado para chamar a atenção dos crentes que habitavam em Roma.

 

12:2:   E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.

 

A palavra «...conformeis...» indica a modelagem segundo um determinado padrão, em que uma coisa toma a forma de outra, adquirindo o seu caráter, mediante alguma influência ou poder exterior. Significa «moldar de conformidade com». É possível que o verbo «conformar-se» (no grego, schema) seja contrastado com o vocábulo grego «morphe», que é a raiz da palavra que pode ser traduzida por «transformar», indicando algo que Sanday e Headlam disseram (in loc): «Não adoteis a moda externa e fugidia deste mundo, mas sede transformados em vossa própria natureza». Pelo menos as palavras podem adquirir esse sentido: a primeira, o sentido de uma forma externa passageira, e a outra o sentido de uma transformação profunda e essencial.

 

Quanto a isso também se pode examinar o artigo de Lightfoot, publicado no vol. iii.1857, pág. 114, Phil., 125, no Journal of Classical and Sacred Philology, onde ele declara: «Diz ele (Paulo), não mudeis a moda, mas 'sede transformados'; e isso a fim de mostrar que os caminhos do mundo são uma moda, mas que a virtude não é uma moda, e, sim, uma espécie real de 'forma', dotada de beleza natural toda sua, que não tem necessidade das complicações e modas das coisas externas, as quais, nem bem aparecem, logo se transformam em nada. Porquanto todas essas coisas, antes mesmo de virem à luz, já começam a dissolver-se. Por conseguinte, se não nos demorarmos em lançar fora a moda externa, não demoraremos também a adquirir a forma interna».

 

A palavra aqui usada, no original grego, e traduzida por «transformai-vos», é a mesma palavra empregada em Mt 17:2, onde a cena da transfiguração do Senhor Jesus é descrita. A passagem de II Co 3:18 também contém esse vocábulo, onde lemos que «...com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito». Esse é o melhor de todos os comentários possíveis sobre o sentido desse termo, bem como acerca da profunda realidade espiritual que o mesmo expressa. Essa transformação, pois, visa a natureza essencial do crente individual, e não apenas sua aparência externa. Essa transformação é segundo os moldes da «imagem de Cristo», o que se processa de «glória em glória», ou seja, de um estado glorioso para outro. O seu alvo final é a perfeição absoluta, quando os remidos haverão de participar da imagem moral e metafísica do Senhor Jesus.

 

Considere: 1. Os eleitos compartilharão da imagem e natureza do Filho (Rm 8:29); 2. A plenitude (natureza e atributos) de Deus (Ef 3:19); 3. E tudo isto através do poder do Espírito Santo (II Co 3:18). 4. Sem a santidade de Deus implantada no indivíduo, estas maravilhas espirituais seriam impossíveis porque nada disto é o produto do sistema-mérito-na-lei.

 

Essa transformação, segundo os moldes da natureza moral e metafísica

de Cristo, permitirá que os remidos escapem da modelagem segundo este «...mundo...» Essa palavra, aqui utilizada por Paulo, não é a palavra grega «kosmos», que significa o mundo físico, o mundo dos homens, e, sim, é o termo grego «aeon», que indica «era» ou «época», o que envolve tudo quanto caracteriza tal época. Os vários sentidos possíveis dessa palavra, «aeon», são os seguintes:

1.      Um tempo extremamente longo, a eternidade, tanto a passada como a futura. (Ver Josefo, Guerras dos Judeus 1:12; Gn 6:4 e At 15:18).

2.      A era presente, simplesmente como uma idéia temporal, embora, por extensão, também indique o «estado de coisas» que caracteriza a época presente ou qualquer outra época da história. O «estado de coisas» que assinala o período de tempo ou as condições que prevalecem durante determinada época, dando a entender o caráter geral dessa época. (Ver Mt 13:22 e Rm 12:2).

3.      O mundo material, conforme se vê em Hb 1:2.

4.      As condições naturais do homem, o mundo e o seu caráter. Assim é que esse vocábulo é utilizado em I Co 1:20, onde encontramos a menção da «sabedoria do mundo».

5.      Algumas vezes, essa palavra é utilizada para referir-se à era vindoura, no sentido do «período messiânico», quando se instaurará o governo messiânico à face da terra. (Ver Josefo, Antiq., 18,287; Mc 10:30; Lc 18:30 e II Clemente 19:4).

6.      O mundo, como um conceito espacial. (Ver Sabedoria de Salomão 13:9; 14:6 e 18:4).

7.      Há, finalmente, um uso pessoal, em que a palavra «aeon» aparece como um ser espiritual, ou mesmo como uma era vista em sentido pessoal. (Ver Ef 3:9; e talvez também Cl 1:26 e Ef 2:2, além de Mesomedes 1,17).

 

Dentre esses vários usos do vocábulo grego «aeon», o mais provável é que Paulo se utilizava dele conforme a segunda dessas sete possibilidades acima. A «era presente» se caracteriza por uma série de condições, qualidades, costumes, padrões morais e espirituais, degradações, estados maléficos, etc, que não estão de acordo com a idéia divina de bondade e moralidade, e, quando muito, são valores espirituais bem inferiores. Ora, a «era presente», considerada em seu conjunto, pode ser uma poderosa influência negativa sobre os crentes, de tal modo que eles sejam meramente produtos de seu ambiente, totalmente parecidos e conformados aos que não se dizem «convertidos» ou regenerados, que nem pensam em serem transformados segundo a imagem de Cristo. Essa conformação com a «era presente» se tornou tão comum entre os «crentes» que quase não se pode mais estabelecer a distinção entre a igreja cristã e o mundo. A igreja exibe suas modas mundanas no vestuário, na música, nos maneirismos, nos padrões morais, nas ambições, nos alvos e nos costumes diários. Paulo, entretanto, queria que os membros da igreja cristã se tornassem cidadãos autênticos daquela outra era, daquele outro mundo, que existe acima do nosso.

 

Sobre este mundo, esta nossa «era», diz Newell (in loc), em interessante comentário: «...Satanás desenvolveu esta fatal ordem mundial, com a sua filosofia (a explicação do homem sobre todas as coisas, embora uma explicação que se modifique com a passagem do tempo); com a sua ciência (sempre procurando eliminar o elemento sobrenatural); com o seu governo (onde o homem exalta a si mesmo); com suas diversões (adaptadas a apagarem da mente as grandes realidades da vida); e com suas religiões (que visam abafar a consciência humana e eliminar todo o temor do juízo). O Espírito (Santo), por meio do apóstolo Paulo, rogava aos santos que não se deixassem amoldar a essa ordem satânica das coisas...»

 

«Uma das ameaças mais persistentes contra a vida consagrada é a atração exercida pelo meio ambiente em que vivemos. Ao nosso derredor os homens organizam a sua vida diária de maneira que dão a entender que Deus está morto, ou, pelo menos que Deus pode ser ignorado com toda a segurança. O próprio vocábulo, transformai-vos, dá-nos a entender o processo gradual mediante o qual nosso estado de alerta é desarmado, porque é mediante estágios imperceptíveis que vamos aquiescendo ante as coisas exigidas pelo mundo. A sociedade humana, de acordo com a sua organização, apartada de Deus, impõe sobre nós os seus próprios padrões, e gradualmente vamos passando a pensar e a agir segundo os seus ditames. No cristianismo dos nossos dias não existe maior fraqueza do que o fato que tão grande número de membros de igrejas evangélicas aceita, sem qualquer discussão, a atmosfera dominante, intelectual e social de nossa época. Os corrosivos do secularismo têm corroído as impressões feitas pela graça divina. Deveríamos viver em nossos dias com o poder de uma vida ressurreta; bem pelo contrário, contentamo-nos em nos amoldar às convenções ditadas pela nossa sociedade. Esse fato deveria parecer-nos suficientemente melancólico por si mesmo; porém, a natureza fugidia e transitória deste mundo duplica a melancolia da situação. Somos ameaçados pelo perigo de irmos sendo gradualmente modificados, para entrarmos em conformidade com algo que não pode perdurar». (Gerald R. Cragg, in loc).

 

«...pela renovação da vossa mente...» Essa «renovação» é de caráter espiritual, assumindo o aspecto de «reforma», em que as faculdades mentais e espirituais—as faculdades imateriais do indivíduo—são afetadas para melhor. Isso é mais do que a renovação «intelectual», porquanto também deve ser ação da própria alma ou espírito, a verdadeira essência intelectual do ser humano.

 

«A mente é renovada pela novidade do Espírito, e do íntimo o impulso transformador passa a transfigurar a totalidade da vida». (Philip Schaff, no Comentário de Lange).

 

Deus é intelecto puro, o «nous» dos gregos (que significava a «mente», para eles), o «nous» do universo, o grande ser imaterial. O homem também possui intelecto, cuja espiritualidade é derivada da espiritualidade infinita de Deus. A «...mente...», palavra empregada neste texto e usada constantemente no vocabulário da filosofia grega. a começar por Anaxágoras, reveste-se da idéia de «espiritualidade», e não apenas da idéia de «intelectualidade». Portanto supomos, paralelamente a vários intérpre­tes, que o presente versículo fala mais do que sobre as qualidades intelectuais, dando a entender que mais do que essas faculdades ainda precisam ser transformadas pelo poder de Deus. Na realidade, é a própria alma ou espírito que terá de passar por essa renovação do Espírito, o que, naturalmente, incluirá o processo e as qualidades intelectuais. E assim o «intelecto» humano não mais será escravo ante as influências de um mundo ímpio, embora o sentido da passagem seja mais profundo que esse.

 

Os Elementos Dessa Renovação

 

1.      Quando do arrependimento, o homem é libertado do domínio do pecado, passando a ter uma nova concepção da vida e seu significado (ver Jo 3:3).

2.      Na santificação, o homem não somente se vai despindo do poder do pecado, mas também vai adquirindo as virtudes espirituais positivas de Deus. Tal homem vai caminhando pelo novo caminho, compartilhando da mente de Cristo, ao invés de ser dominado pela mente carnal. (Ver «santificação», em I Ts 4:3; e sobre a «mente de Cristo», em I Co 2:16).

3.      Essa operação renovadora, naturalmente, é realização do Espírito (ver II Co 3:18 e Gl 5:22), pois é algo divino, e não alguma operação humana. O caminho de Deus é místico, e não legal ou sacramental. Noutras palavras, tal obra é realizada através de um contacto com o sobre-humano, conforme a definição básica do misticismo.

4.      Essa renovação é fomentada pelo emprego dos meios de desenvolvimento espiritual: O estudo da Bíblia; a dedicação da mente às questões espirituais através do uso das Escrituras, e outros livros espirituais; a oração, que é a comunhão direta com Deus (ver Ef 6:18); a meditação (que é quando Deus fala intuitivamente com os homens); a santificação (pois sem santidade não pode haver qualquer desenvolvimento cristão); a prática da lei do amor (as boas obras), pois o amor é a comprovação da espiritualidade e se deriva do próprio novo nascimento (ver Jo 4:7,8); e o uso dos dons espirituais, que tende por conduzir-nos na direção de nossa perfeição (ver Ef 4:11 e ss.).

 

«...para que experimenteis...» A palavra aqui traduzida por «...experimenteis...» tem sido traduzida também por «proveis», «façais real», «conheçais certamente» ou «tenhais um conhecimento fidedigno de»; porém, a verdade é que deve mesmo significar conhecimento experimental, e não apenas a consciência intelectual. Significa por à prova. E, apesar do conhecimento fazer parte integrante, a experiência faz parte integrante do que aqui é dito, pois faz parte inerente deste pensamento. Mediante a renovação do ser espiritual inteiro do homem, podemos provar e pôr a teste a boa, aceitável e perfeita vontade de Deus. Somente desse modo, através da renovação do íntimo, segundo foi esclarecido mais acima, é que podemos realmente experimentar a «vontade» de Deus na presente existência.

 

«O indivíduo regenerado prova, mediante o veredito de sua consciência, a vontade de Deus, por haver sido despertado e iluminado pelo Espírito Santo». (Meyer, in loc).

 

«...vontade de Deus...» Não o atributo divino da vontade, que controla a todas as coisas, a parte volitiva de Deus; mas antes, a «coisa desejada», o «curso correto da conduta», conforme Deus vê as coisas. Esse correto curso de ação deve ser de qualidade «...boa...», como também «...agradável...» e «...perfeita...» Trata-se de um alvo elevadíssimo que é posto à nossa frente. Nenhum homem mortal, entretanto, pode jamais atingi-lo, embora alguns tenham chegado mais perto do grande alvo do que outros.

 

Alguns intérpretes pensam que os adjetivos «boa», «agradável» e «perfeita», modificam diretamente o substantivo «vontade». Isso é possível, embora a maioria dos estudiosos prefira pensar que a construção da frase deve ser: «...para que experimenteis a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito». Mas, mesmo fazendo desses adjetivos outros substantivos de oposição, esses três vocábulos devem ser compreendidos como qualificações da vontade de Deus, ou seja, aquilo que o Senhor deseja que os homens sejam e façam. Assim o significado da frase redunda na mesma coisa, ainda que, gramaticalmente, seja expressa de forma levemente diferente.

 

Bibliografia R. N. Champlin