Jacó Trapaceia o Irmão e Obtém a Bênção de Seu Pai (Gn 27.1-46)

 

Quanto a esta seção, os críticos veem uma mistura das fontes informativas. Observando o intercâmbio dos nomes divinos (Yahweh e Elohim), eles veem um padrão intrincado de mistura de fontes. Os eruditos conservadores, por sua vez, veem apenas o intercâmbio de nomes divinos por um único autor.

 

O relato bíblico informa-nos que Jacó (apesar de não ser o filho primogênito) obteve para si mesmo (com sua astúcia) o direito de primogenitura, que legalmen­te pertencia a seu irmão Esaú (o primogênito).

 

A Bênção Paterna. Havia algo de místico quando um pai abençoava seus filhos, onde havia profecias. Acreditava-se que um homem, em seu leito de morte, podia prever eventos significativos, e as pesquisas quanto às funções psíquicas confirmam isso. Quando desce a cortina da vida, sobe outra cortina. Naquele momento, a alma é liberada até certo ponto, podendo ver coisas que de outro modo estariam ocultas. O evento registrado neste capítulo teve um sentido especial, por estar envolvido o destino de nações, e não só de indivídu­os. Ver o vs. 4 deste capítulo quanto a detalhes do poder da bênção de um homem moribundo.

 

Outra importante consideração é: “Como seria projetado o Pacto Abraâmico?”. “Qual dos netos levaria avante esse pacto?” O texto responde: Jacó. O texto mostra-nos o modus operandi dessa escolha, ainda que, sem dúvida, a vontade divina já houvesse determi­nado a questão.

 

27.1

 

Isaque Velho e Cego. Chega o dia final de todo indivíduo. A juventude cede lugar à idade avançada, com todas as suas complicações. Lembro-me do dia em que me formei no colegial, faz quarenta anos, mas isso parece que foi ontem. Isaque, velho e cego, tinha passado a sua vida, prenhe de bênçãos, dignidade e abundância material. Agora o palco passava a ser preenchido por seus filhos. O que eles fariam? A vida deles estaria à altura da vida de seu pai? Levariam avante a tradição da família? Isaque, já cego, estava prestes a tomar uma importante decisão. Ele daria a sua bênção paterna. Estava prestes a fazer uma escolha errada, mas Deus haveria de corrigir as coisas. Usualmente, quando erramos, as coisas não correm bem. Ocasionalmente, um erro humano é usado por Deus, fazendo-o redundar em bem.

 

O homem reluta em enfrentar a brevidade da vida. Uma vida longa é desejável. No entanto, a brevidade da vida é uma realidade constante que precisamos enfrentar. E mesmo uma longa vida é muito breve. Ouvimos falar de um homem que morreu sem deixar testamento e exclamamos: “Que estupidez!”. Mas resta-nos alguma vontade final? Ninguém aprecia a morbidez de deixar no papel o que gostaria que fosse feito com suas coisas, depois da morte. Um diretor da British Broadcasting Corporation disse que tinha ouvido mais de seiscentos sermões pelo rádio, mas apenas um deles falava sobre a morte. É importante morrer bem e deixar nossas bênçãos para filhos e filhas. É importante passar adiante a nossa herança espiritual, e não apenas bens materiais. “Quantos pais têm um testamento espiritual que, acima de tudo mais, querem transmitir para os seus filhos?” (Walter Russell Bowie, in loc.).

 

O Material Conduziu ao Espiritual. Isaque gostava das caças que Esaú lhe trazia. Agora, pois, prestes a morrer, ele queria ter mais uma refeição deliciosa preparada por Esaú. Isaque comeria, abençoaria e morreria. Mas Jacó estava interessado na bênção, razão pela qual se fez presente, por insistência de Rebeca. A refeição redundaria em tristeza para Isaque e Esaú, e alegria para Rebeca e Jacó. Eram cumplicidades humanas que tinham produzido dissensão e separa­ção, mas Deus estava fazendo valer a Sua vontade em meio às tortuosidades humanas.

Abraão tivera de fazer a divisão entre Isaque e Ismael (Gn 21.11,12), em­bora ao preço de grande dor. Agora, Isaque enfrentava uma situação similar, entristecendo-se pelo que tinha de ser feito. Mas a providência divina estava operando, sendo este um dos principais temas do livro de Gênesis.

 

Envelhecido. Agora Isaque estava com cento e trinta e sete anos, e Esaú e Jacó tinham cerca de setenta e sete, embora os intérpretes não concordem com essa exatidão. Mas Isaque continuou vivendo por muito tempo depois desse incidente, talvez quarenta anos, até a volta de Jacó de Padã-Arã. Ver Gn 35.27- 29. Isaque faleceu aos cento e oitenta anos.

 

27.2

 

Não sei o dia da minha morte. Embora longa, a vida é muito breve (ver Gn 25.7). Mas quando um homem está idoso (Isaque estava com cento e trinta e sete anos), estabelece-se uma nova maneira de pensar. Muitas pessoas começam a tomar vitaminas e aspirina, para combater (ou adiar) o inevitável. Ainda recentemente, vi uma dama tomar oito pílulas durante o almo­ço, e fui informado que, em outras refeições, ela tomava mais pílulas! Ela queixava-se de que as pílulas, que supostamente deveriam devolver a cor de seus cabelos, não estavam funcionando. De fato, afinal de contas, nada dá certo. Conforme dizia um amigo meu: “Você tenta impedir a morte tomando várias medidas; e, então, de súbito, pam! ela o apanha de alguma maneira inesperada”. Isso é morbidez, exceto pelo fato de que Deus está conosco, e Ele é o Senhor da vida e da morte. Precisamos depositar fé nesse fator. A imortali­dade da alma é uma certeza. É mais importante viver bem do que viver longamente.

 

Isaque estava envelhecido e cego. Talvez alguma enfermidade crônica tenha tomado conta dele. Logo, ele não sabia quantos dias ainda lhe restavam de vida. Por certo não esperava viver mais quarenta anos, mas a graça de Deus conce­deu-lhe esse tempo. Senhor, concede-nos tal graça!

 

27.3

 

Aljava. Talvez tenhamos aqui uma tradução correta, posto que o termo he­braico correspondente seja duvidoso quanto ao seu sentido. Vem de uma palavra que significa “pendurai", provavelmente indicando algo que fica pendurado no ombro. Uma aljava é um receptáculo para flechas. Sua proximidade com a pala­vra arco facilita interpretarmos o seu significado.

 

Apanha para mim alguma caça. Esaú sempre servira bem a Isaque. Não podemos esquecer as boas qualidades que havia em Esaú. Sua especialidade era a caça, o que para ele era um meio de suprir-se de alimentos, sem falar no prazer da caça. Feliz é o homem que pode combinar o que ele faz para sobreviver com satisfação. Pouquíssimos têm esse privilégio. Ver Gn 25.27, que nos diz que Esaú era um perito caçador, um homem do campo, em contraste com Jacó, que preferia permanecer em sua tenda ou cuidando de seus rebanhos.

 

Caça. Não “veado", como dizem algumas traduções. Havia lebres, cabras monteses e outros animais selvagens para serem caçados, mas uma ou duas espécies de veado também eram possíveis. Rebeca tentou (e com sucesso) duplicar o gosto da caça possível com a came dos cabritos (vs. 9).

 

27.4

 

Comendo e Abençoando. Isaque fez uma espécie de acordo informal: uma boa refeição de carne em troca da bênção paterna. Ele apreciava aquela carne especial e amava a Esaú, desejando que aquele fosse um dia feliz. Apesar de sua tristeza diante do casamento de Esaú com as mulheres hetéias (Gn 26.34,35), sua atitude de pai não havia mudado.

 

E te abençoe. Temos aí o poder da palavra de um homem moribundo. Isaque estava prestes a abençoar a seu filho mais querido, Esaú. E isso “de todo o cora­ção”, conforme o texto dá a entender. No hebraico temos aqui “e minha alma te abençoe”. A palavra para “alma” (no hebraico, nephesh), naqueles dias, não tinha nenhuma conotação de substância ou entidade imaterial que sobrevive à morte do corpo. Essa foi uma ideia vinculada à alma em um período posterior da teologia dos hebreus. As palavras “antes que eu morra” dão a entender uma cena de leito de morte, embora Isaque tenha continuado a viver por mais quarenta anos, depois disso (ver o vs. 1, último parágrafo).

 

Parece que havia a crença de que a refeição o fortaleceria de tal modo que ele poderia transferir toda a sua força dinâmica para Esaú, na bênção que haveria de proferir. Havia a crença na eficácia especial das palavras ou da bênção final de um homem moribundo, conforme se vê também em Gn 48.10-20; 49.1-28; 50.24; Dt 33; Js 23; II Sm 23.1-7; I Rs 2.1-4; II Rs 13.14-19. Pensava-se que essa palavra final de um homem moribundo aproximava-se da própria palavra divina, dotada de seu próprio poder e capacidade de cumprimento. Daí, essa palavra era buscada com diligência.

 

Acordos e Refeições. Parece que toda variedade de acordos eram feitos medi­ante uma “refeição conjunta”, um símbolo de comunhão, que mostrava a boa-vontade em qualquer acordo. Bênçãos e maldições faziam parte desses acordos. Alguns supõem que Isaque haveria de proferir algo parecido com um juramento, em um pacto, à semelhança do que Abraão também fizera. Isso talvez envolvesse uma refeição junto com Esaú. Mas este ponto parece exagerar as exigências do texto.

 

27.5

 

O Plano de Rebeca. Parecia ter sido por um golpe de sorte que Rebeca ouviu o pedido e a promessa de Isaque a Esaú. Ela também acreditava na eficácia da palavra e da bênção de um homem moribundo e ansiava por substituir Esaú por Jacó. Isso garantiria a este um destino superior. Mas também havia a possibilidade de o plano falhar, e de que Isaque, em sua ira (por haver sido enganado), viesse a proferir uma maldição contra Jacó (vs. 13). A maldição de um homem moribundo por certo seria tão potente quanto uma bênção sua. Jacó temia, mas Rebeca tinha um segundo plano. Se Jacó fosse desmascarado, ela tinha um segundo plano: ela sofreria a maldição, porquanto fora a instigadora do primeiro plano.

 

Esaú tinha partido para caçar, pelo que havia urgência nas ações. Era preci­so agir agora; enganar agora; suplantar agora!

 

27.6

 

Executando o Conluio. Rebeca traçou o plano ali mesmo; e logo o plano estava rolando; Jacó temia, mas cooperava.

 

A Dama Virtuosa Não Era Muito Virtuosa. O capítulo vinte e quatro pinta uma Rebeca virtuosa, bondosa e pronta a servir. Mas estes versículos mostram-na a instigar Jacó a um ato corrupto. Ela foi a causa de que seu marido, Isaque, fosse vítima de engodo e traição. E levou seu filho amado a realizar um ato lamentável, que dividiu a família e causou muito sofrimento. Jacó precisou enfrentar os quase oitocentos quilômetros de viagem até Padã-Arã, onde residia Labão, irmão de Rebeca. Ali Jacó ficaria durante vinte anos.

 

Devido a uma inexplicável omissão, não há registro algum da morte de Rebeca. Mas sabemos, em Gn 49.31, que ela foi sepultada na caverna de Macpela, sendo provável que tenha falecido antes de Isaque. Embora Deus tenha contorna­do a situação, fazendo que a bênção, por decreto divino, fosse dada a Jacó, Ele não precisaria da ajuda de Rebeca para fazer isso. Deus dispõe de mais recursos do que ter de depender da astúcia de uma mulher.

 

27.7

 

Este versículo duplica os vss. 3 e 4. Aqui Rebeca usa o nome divino Senhor (no hebraico, Yahweh). A bênção seria “diante do Senhor”, como é natural, embora Isaque não tenha falado especificamente nesse sentido. Talvez haja uma reminiscência, nessa palavra, do Pacto Abraâmico, feito entre Abraão e o Senhor. Isso deve ter fortalecido o apelo de Rebeca a seu filho, Jacó. Era como se ela tivesse dito: “Não percas a oportunidade de ser abençoado como o foi Abraão, e de participar de seu pacto!”. Contudo, talvez isso seja injetar algo que não faz parte do texto sagrado.

 

27.8

 

Vamos! Obedece! Põe em execução o plano que te estou dando. “A autorida­de do afeto de uma mãe pode redundar no bem de um homem: mas se for mal utilizada, pode envolver esse homem no mal, e, então, ele terá de pagar um alto preço" (Walter Russell Bowie, in loc.). Ela forçou Jacó a tomar uma decisão que envolveu grande sofrimento, e isso durante vários anos dali por diante. Ela des­pertou a fúria de Isaque e forçou seu amado filho, Jacó, a dar início a um longo exílio. Isso criou uma rachadura na família, que não foi curada enquanto ela viveu. “Ela exigiu dele a obediência filial” (John Gill, in loc). Mas aquela foi uma ocasião em que ele não deveria ter dado ouvidos à sua mãe.

 

27.9

 

Dois bons cabritos. Não eram os animais selvagens que Esaú haveria de trazer, mas Rebeca, decidida a enganar, conseguiria fazer uma boa imita­ção. Jacó tinha rebanhos e ser-lhe-ia fácil arranjar os cabritos. Jarchi disse-nos que o gosto da carne de cabrito é parecido com a carne do veado ou do gamo, e assim, com um pouco de tempero, Isaque poderia ser enganado. O antílope seria um dos animais selvagens que Esaú poderia caçar. Assim, se os cabritos fossem chamados de antílopes, Isaque não notaria a diferença. Pessoas enganadoras sempre têm seu estoque de cabritos, que podem subs­tituir antílopes.

 

27.10

 

Para que a coma, e te abençoe. Ver o vs. 4 quanto ao poder da palavra de um homem moribundo, de acordo com as crenças antigas. Ali, dou uma lista de referências bíblicas ilustrativas. Rebeca fez o que ela pensou ser melhor para ela e para Jacó, o que ela presumia ser melhor para todos. Ela tinha razão quanto aos seus sentimentos, mas estava errada quanto aos seus métodos. Ela praticou o mal a fim de trazer o bem, uma antiga prática. O modo relativista de pensar diz: “O que funciona é bom”.

 

27.11

 

Jacó Previu Possíveis Problemas. Isaque estava virtualmente cego, mas po­dia tatear. Seria inevitável que ele viesse a tocar em seu amado filho Esaú; e, então, o ludibrio seria descoberto. É triste quando a inteligência é posta para trabalhar em favor do mal.

 

Jacó teve sentimentos corretos ao tentar evitar o conluio, mas seus sentimen­tos foram fracos demais para evitar isso. Ele tinha mais medo de ser apanhado do que de praticar o mal. Algumas pessoas pensam que o erro só ocorre quando a pessoa má é apanhada no ato. Em contraste com isso, Platão pensava que a pior coisa que pode acontecer a um homem é fazer ele uma maldade mas não vir a ser castigado por isso. Sob tal circunstância, a própria alma da pessoa se vê corrompida, e isso é pior do que qualquer retrocesso material.

 

27.12

 

O Logro Redundaria em Maldição. Se a trama fosse descoberta, Isaque ficaria consternado, para dizer-se o mínimo. E, então, poderia proferir uma maldição contra o enganador. Sem dúvida, a maldição de um homem moribundo seria tão potente quan­to a sua bênção, pelo que consequências drásticas poderiam ser esperadas. De acordo com as crenças antigas (o que é ilustrado no quarto versículo deste capítulo), questões extremamente sérias estavam em jogo. Jacó seria o pior dos enganadores, por ter tirado proveito da cegueira e da enfermidade de seu idoso pai. “Maldito aquele que fizer o cego errar o caminho. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27.18).

 

27.13

 

Caia sobre mim essa maldição. Rebeca estava disposta a sofrer uma maldição lançada por Isaque, seu marido, se o plano dela falhasse. Frederick W. Robertson, um dos maiores pregadores ingleses de todos os tempos, fez uma poderosa afirmação sobre a conduta de Rebeca nesse episódio: “Vemos aqui a idolatria da mulher: ela sacrificou seu marido, seu filho mais velho, todo princípio superior, sua própria alma, e tudo por uma pessoa idolatrada. . . Não nos enganemos. Ninguém jamais amou demais a filho, irmão ou irmã. O que compõe a idolatria não é a intensidade da afeição, mas sua interferência na verdade e no dever. Rebeca amou a seu filho mais do que à verdade. . . mais do que Deus... O único afeto verdadeiro é aquele que se subordina a um afeto maior. . . Comparemos, por exemplo, o amor de Rebeca por Jacó com o amor de Abraão por seu filho, Isaque. Abraão esteve prestes a sacrificar seu filho, por amor ao dever. Mas Rebeca sacrificou a verdade e o dever por amor a seu filho. Quem amou mais a seu filho? Quem teve o amor mais nobre?" (Sermons on Bible Subjects).

 

Assumindo as Consequências. Outro problema aqui era que Rebeca simples­mente estava equivocada. Não havia como tomar sobre si mesma algo que fosse dirigido contra Jacó. Isaque cuidaria para que Jacó recebesse o que merecia. Havia uma falha séria em seu raciocínio. Toda maldade está alicerçada sobre alguma falácia. Conforme disse Robertson: “Cuidado com os afetos que se impor­tam mais com a felicidade do que com a honra".

 

Rebeca confiaria no oráculo divino que lhe fora dado por ocasião do nasci­mento de seus filhos? Nesse caso, talvez ela tivesse alguma razão por não acreditar que Jacó seria amaldiçoado. Ver Gn 25.23. Aquela profecia pode tê-la feito confiar no bom resultado do conluio. Há nisso um profundo mal: o uso da fé religiosa a fim de dar respaldo a um ato errado.

 

A Maldição da Situação. O plano funcionou. Isaque não amaldiçoou nem Jacó nem Rebeca. Mas a situação foi uma desgraça para ambos, e mãe e filho tiveram de separar-se. Jacó foi para o exílio. E a família de Isaque dividiu-se.

 

27.14

 

Jacó Obedeceu ao Conselho Errado. A sua consciência ainda tentou, mas não conseguiu deter o plano. Ele obedeceu à voz de sua mãe. A maioria dos pecados ocorre porque obedecemos a alguma voz errada. Algumas vezes, essa voz é de um amigo ou parente. Há muitas pessoas prontas a encorajar-nos a praticar algum mal. Algumas pessoas regozijam-se em ver o mal de outrem; elas praticam o mal, encorajam à prática do mal e têm prazer no mal (Rm 1.32). Algumas vezes, a voz que nos instiga a fazer o mal é a voz das circunstâncias. quando somos encorajados a fazer aquilo que nos dê alguma vantagem imediata. É então que ignoramos os princípios. Mas também há uma voz corrupta que fala dentro de nossa alma. A corrupção interior está sempre conosco, impelindo-nos à maldade. Ver o sétimo capítulo de Romanos quanto a uma longa diatribe de Paulo contra a sua própria corrupção interior.

 

27.15

 

A melhor roupa de Esaú. Só o melhor traje serviria para a ocasião, visto que um grande ludibrio estava sendo pespegado. A cena toda é doentia. Esaú estava fora, procurando servir a seu pai. Mas Rebeca, usando as roupas dele, separava um filho de seu pai e provocava tristeza geral. O odor característico de uma pessoa apega-se às suas vestes. E isso seria mais verdadeiro ainda no caso de um caça­dor, quando as roupas provavelmente não eram lavadas com frequência. Isaque estava quase cego, mas tinha bom olfato. Ele haveria de tocar e cheirar. Essas roupas quase certamente eram feitas de peles de animais. Todos os elementos necessários ao ludibrio estavam presentes. Era impossível que falhasse. Contudo, ainda que tudo tivesse sido bem planejado, nada poderia purificar o mal da ação. Um pecado excelente continua sendo pecado. O cinema e a televisão glorificam pecados excelentes. As pessoas pecam com classe, e outras pessoas as admiram.

Esaú não guardaria suas roupas na tenda de Rebeca. Portanto, ela teve de ir até a tenda dele, ou à tenda de uma de suas mulheres, para conseguir a tal roupa. Ela precisou roubar a fim de dar apoio a seu plano.

 

Os intérpretes judeus perverteram o texto, ao dizerem que essa roupa de Esaú seria uma veste sacerdotal, supondo que Esaú costumava usá-la em suas práticas idólatras. Outra fábula dessas diz que Esaú havia roubado essa veste (que tinha pertencido a Adão), que havia sido usada por Ninrode, e que ele tivera de matar seu dono para ficar com a roupa.

 

27.16

 

Com a pele dos cabritos. O fato de que Jacó não era homem peludo não constituía problema. Peles de animais imitariam a pele do cabeludo Esaú. Isaque talvez tocasse em suas mãos. Nesse caso, ele teria de tocar em pêlos. Talvez passasse os braços em torno de seus ombros. Nesse caso, teria de sentir pêlos. “Nos países de clima quente, a pele dos animais é muito menos espessa e peluda do que nos países de clima frio, e algumas espécies de cabras orientais são famosas por sua lã fofa e sedosa... Em Cantares 4.1, os cabelos da esposa são comparados ao pêlo das cabras” (Ellicott, in loc.). Cf. I Sm 19.13,16.

 

27.17

 

A Provisão Fina. Rebeca já havia preparado a refeição com a carne dos cabritos. A imitação era excelente. Ela pôs a comida nas mãos de Jacó. E ele a aceitou de bom grado, apoiando e confirmando o ludibrio. Eles eram cúmplices no engano; e as vítimas eram membros amados da própria família deles. Com frequência, é de nossos familiares que recebemos os golpes mais devastadores. “...nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.14).

 

27.18

 

Jacó Fez a Parte que Lhe Cabia. Rebeca fizera “bem” a sua parte. Jacó também teria um “bom” desempenho? Ele é que se aproximaria de Isaque; a ele cabia a finalização do plano. Sua mãe dependia dele para que o crime fosse perfeito! Ficamos muito chocados quando vemos, nos jornais ou na televisão, como alguns pais usam seus filhos na prática de crimes. No entanto, bem aqui, na Bíblia, uma das matriarcas de Israel envolveu-se nesse tipo de conduta! Jacó é visto aqui a seguir o truque sugerido por sua mãe, e isso com uma habilidade inescrupulosa. O vs. 20 nos entristece de modo especial. Jacó chegou a dizer que o Senhor o tinha ajudado.

 

Quem és tu, meu filho? Talvez Isaque tenha suspeitado de estar sendo ludibriado, ou, talvez, tivesse apenas querido ter certeza de que era Esaú, para que abençoasse a quem de direito. Essa pergunta foi repetida mais adiante (vs. 24). Isaque estava sendo cauteloso, pois queria que seu filho primogênito rece­besse a bênção maior, conforme fazia parte do costume local.

 

27.19

 

Sou Esaú. Algumas pessoas mentem por puro esporte. A maioria mente para obter alguma vantagem. A menti­ra causa tristeza a outras pessoas, como neste caso. Isaque e Esaú ficariam vencidos pela tristeza. Esaú clamou com um amargo choro, e Isaque estremeceu (vss. 33 e 34). Mas a dor deles nada significou para Jacó e Rebeca. Sempre haverá angústia no pecado, quando estamos pecando, e somos capazes de esquecer esse aspecto da questão.

 

Jacó sabia o que Isaque havia dito a Esaú, e, segundo parecia, tinha satisfei­to o desejo de Isaque. A evidência era avassaladora, mas falsa.

 

Assenta-te, e come. Os hebreus sentavam-se para comer, conforme nós fazemos. Os romanos é que se reclinavam. Cf. I Sm 20.25.

 

Calmet (in loc.) descreveu como Jacó usou de todos os artifícios a fim de enganar seu pai: 1. mediante suas palavras enganadoras; 2. mediante seus atos; 3. mediante suas roupas. Alguns intérpretes mostram-se ridículos aqui, procuran­do desculpar os atos de Jacó e Rebeca. Mas Deus não precisa de nossa ajuda para fazer concretizar os seus propósitos. Deus não se sente obrigado a nada, diante de nossas ofensas.

 

Para que me abençoes. Ver o vs. 4. Assim previa o acordo feito entre Isaque e Esaú. Primeiro, Esaú ofereceria uma refeição de carne de caça a seu pai; depois, Isaque abençoaria Esaú. Jacó apressou-se a mencionar essa parte do trato. Para isso ele estava ali.

 

27.20

 

Como... a pudeste achar tão depressa...? O falso “Esaú” tinha feito tudo em pouquíssimo tempo. E isso deixara Isaque admirado. Mas Jacó atribuiu tudo ao Senhor, dando-Lhe o crédito pela pseudo-realização. Quão fácil é atribuir ao Senhor as coisas mais triviais, por meio do teísmo popular. Os hebreus honravam de tal modo o nome divino que lavavam as mãos antes de escrevê-lo. Temiam proferir o nome Yahweh, pelo que criaram uma combinação dos nomes Yahweh e Adonai, tornando-o “Jeová”, para terem um nome divino que pudessem pronunci­ar. Mas muitos crentes dizem de forma tão frívola: “Oh, meu Deus!”. E isso por qualquer razão. Essa é uma maneira de tomar o nome de Deus em vão. Jacó tomou o nome de Deus em vão. Muitos religiosos modernos tornam-se culpados dessa frivolidade. Não honramos em nada ao Senhor quando dizemos: “O Senhor disse-me isto ou aquilo”, para então falarmos de coisas banais nas quais o Se­nhor nunca se meterá. O teísmo exprime uma grande verdade, mas o teísmo popular, com frequência, é degradante. “A caçada foi providencial”, disse Jacó de maneira ridícula. Faz-me lembrar do pregador que viu (de uma janela de sua casa) alguém abalroar seu carro, que estava estaciona­do diante da casa. E disse ele: “Não sei por que, Senhor, quiseste que o Teu carro fosse destruído!”. Um caso claro de teísmo popular.

 

.. .outra falsidade. A refeição não havia sido preparada por Deus, mas por sua mãe. . (John Gill, in loc.). Assim também sucede a muitos de nós, que dizem: “O Senhor, o Senhor", como se fosse Ele a causa de qualquer coisa que fantasiemos ou façamos. Deveríamos dizer, nesses casos: “Eu, eu, eu!.

 

Conforme pensam alguns estudiosos, talvez nessa pergunta de Isaque transpareça alguma suspeita da parte dele. Nesse caso, ele expressou a dúvida por quatro vezes (vss. 20, 21, 22 e 24).

 

27.21

 

Chega-te aqui, para que eu te apalpe. Isaque queria confirmar se era mesmo Esaú. Mas Rebeca também tinha tomado providência para essa eventua­lidade. Uma maldade esperta continua sendo uma maldade. Isaque parece ter suspeitado, mas sua investigação nada descobriu de errado.

 

27.22,23

 

A voz é de Jacó. Os gêmeos, mais do que meros irmãos, têm vozes muito parecidas. Mas Isaque pôde perceber a diferença. Porém deu mais valor a seu toque do que a seu ouvido. Este versículo tornou-se o instrumento para expres­sar coisas que “parecem” ser uma coisa mas, na verdade, são outra, ou seja, casos dúbios que suscitam dúvidas. Livros escritos no nome de algum bom autor, mas que na realidade não foram escritos por ele, como os livros pseudepígrafos do Antigo e do Novo Testamento, “têm a voz de Jacó, mas as mãos de Esaú”.

 

E o abençoou. A bênção aparece nos vss. 27-29, uma espécie de pequeno oráculo que descreve, em termos latos, as características e o futuro do homem abençoado. As crenças antigas supunham que a bênção ou a maldição de um homem moribundo (especialmente de um pai, ao abençoar seus filhos) tinham um poder especial e muito eficaz. Comentei sobre isso no quarto versículo deste capítulo.

 

Supomos que Isaque tivesse em mente as provisões do Pacto Abraâmico (ver Gn 15.18), e não apenas as coisas que ele proferiu na ocasião, embora o texto não nos diga isso.

 

27.24

 

És meu filho Esaú mesmo? A dúvida de Isaque persistia. Isaque solicitou outra averiguação de identidade. Novamente Jacó mentiu, fazendo-se passar por seu irmão gêmeo, o que já tínhamos visto e comentado nos vss. 18 e 19. Jacó agora estava próximo do sucesso, mais ou menos como fazem os alegados “grandes” atletas que obtêm maior energia por meio de substâncias químicas proibidas. Nesses casos, os grandes tornam-se pequenos. “Ali estava Isaque, dando-nos pena por sua perturbação, procurando assegurar-se de que o filho diante de si era o Esaú que ele tanto amava. Também houve uma bênção dada para outro, até onde ia o desejo de Isaque, embora estivesse obedecendo ao destino” (Walter Russell Bowie, in loc.).

 

27.25

 

Carne e Vinho. Eles (Esaú e Isaque) tinham feito um acordo: primeiro Esaú ofereceria uma refeição a seu pai; e então Isaque abençoaria Esaú. Ver os vss. 3 e 4. Presumivelmente, Esaú tinha cumprido a sua parte, mas era um falso Esaú que agora aguardava ansiosamente pela bênção. O cego e enfermo Isaque sen­tou-se à mesa servida com a “caça”. Seu coração estava apertado. Mas isso em nada importava a Jacó.

 

27.26

 

Dá-me um beijo, meu filho. O texto faz-nos lembrar a traição de Judas, que osculou a fim de trair a Jesus (Lc 22.48). O beijo era uma preparação solene para a doação de uma bênção: filho e pai juntos, o pai impelido para proferir o oráculo abençoador; a presença de Deus com ele, impulsionando-o; um filho a esperar anelantemente pela palavra, com a autoridade mesma da Palavra divina.

 

27.27

 

Beijou... aspirou o cheiro. A ordem normal era: beijar e falar. Mas Isaque beijou, cheirou e falou. O cheiro do campo removeu suas dúvidas (expressas nos vss. 20,21,22 e 24). Estudos científicos recentes mostram que o sentido do olfato é mais forte (embora, com frequência, muito sutil) do que se supõe no homem, pois várias de suas reações são influenciadas por esse sentido. Como é claro, o que Isaque fez nada teve que ver com a ciência. Ele conhecia o cheiro do campo, e seu rapaz, Esaú, era um homem do campo, ao passo que seu outro rapaz, Jacó, cheirava mais a ovelhas. “Não o cheiro de ovelhas, mas do campo. ..” (John Gill, in loc.). Isaque pôde identificar o aroma do campo, com suas ervas fragrantes, flores e outras coisas agrestes. Certos aromas fazem parte da nossa nostalgia, bem como de nossa vida diária.

 

O cheiro do campo, que o Senhor abençoou. É dali que procede a frutificação necessária para sustentar a própria vida. Assim, Isaque deu início à sua bênção lembrando isso e desejando que seu filho, “Esaú”, prosperasse de forma fragrante, tal como seus amados campos de caça eram lugares agradáveis e abençoados pelo próprio Deus.

 

27.28

 

Deus te dê. A bênção teve a forma de um oráculo, e Deus estava por trás dela. A palavra de um homem moribundo era considerada dotada de grande poder, trazendo embutida em si o seu próprio poder de cumprimento. De fato, essa palavra era considerada dotada da autoridade da Palavra divina. Ver o vs. 4 e suas notas quanto a uma descrição dessa antiga crença. Bons pais, de todos os séculos, abençoam seus filhos de maneira formal ou informal, e, naturalmente, suas orações são respondidas. Se os estudos têm mostrado que a genética é um fator importantíssimo, e que as pessoas parecem seguir uma espécie de curso programado, também é verdade que “a oração muda as coisas” e “mais coisas são realizadas através da oração do que este mundo imagina”.

 

Do orvalho do céu. A umidade que causa o crescimento das plantas, o que garante a fertilidade e refrigera a alma. No vs. 39 vemos que Esaú recebeu mais ou menos a mesma coisa quanto a bênçãos temporais, mas Esaú seria subservi­ente a Jacó, ilustrando assim como Israel conquistaria e sujeitaria os idumeus. Ademais, as bênçãos espirituais por meio do Pacto Abraâmico seguiriam a linha Abraão-lsaque-Jacó, e ainda que o Messias viria abençoar todas as nações, através desse pacto, Esaú não seria alijado, embora só recebesse bênçãos secundárias. Todavia, a bênção primária foi dada para garantir a secundária; e em Cristo, o distante Filho de Isaque, todos seriam um só (Gl 3.14 ss.).

 

Da exuberância da terra. Uma terra fértil seria a herança, conferida por Deus. Um território fértil, com a regularidade da semeadura e da colheita, e com a bênção da abundância. A Terra Prometida tinha seus desertos, mas sempre hou­ve territórios férteis para uma agricultura suficiente. O solo da Terra Prometida é naturalmente fértil, mas, além disso, haveria a bênção divina. As chuvas e o solo dali são adequados para uma agricultura abundante, embora seja mister o esforço humano para cuidar das plantações. O solo fértil e as chuvas são símbolos de abundância, nas Escrituras. Ver Dt 33.13,28; Mq 5.7; Zc 8.12. Se as chuvas escasseiam, isso leva à esterilidade do solo e à aflição dos homens (II Sm 1.21).

 

De trigo e de mosto. Os cereais necessários, mas também a satisfação dada por bons vinhos. Os estudos mostram que qualquer bebida alcoólica ingerida mata um certo número de células do cérebro. Mas pelo seu lado positivo, um pouco de bebida alcoólica por dia (com apropriada moderação) diminui a taxa de colesterol no sangue, e atua como uma espécie de calmante natural. Essa combi­nação adiciona alguns anos à vida do indivíduo. Pessoalmente, continuarei como total abstêmio, pois penso que os malefícios do álcool são maiores do que os seus benefícios. Mas que cada pessoa obedeça aos ditames de sua consciência!

 

27.29

 

Sirvam-te povos... senhor de teus irmãos. Este versículo fala a respei­to do domínio sobre nações e sobre a própria família! Os idumeus haveriam de servir aos descendentes de Jacó. Este furtou as bênçãos que Isaque queria dar a Esaú. Não fora isso e poderíamos pensar que Israel é que seria subserviente aos idumeus. Todavia, a promessa é geral. Todos os povos vizinhos de Israel seriam sujeitos. Isso aconteceu, de fato, apenas por um breve período de tempo, especi­almente através da conquista da Terra Prometida, e mais tarde, nos dias de Davi e Salomão. Os terríveis cativeiros não foram vistos por Isaque. Talvez a profecia tenha tido grande poder e olhado ao longo da estrada do tempo, até a restauração, quando Israel vier a tornar-se cabeça de todas as nações, um tema explorado por Isaías. Quanto a uma aplica­ção paulina deste versículo, ver Rm 9.12.

 

Os filhos de tua mãe. Parte do Pacto Abraâmico (Gn 15.18) é que Abraão teria numerosa posteridade, tornando-se pai de muitas nações. Ele foi o pai de Isaque-Jacó-Israel, mas também de Ismael e dos doze patriarcas de nações árabes; e também de seis filhos com Quetura, que deram mais nações árabes; e, finalmente, da linhagem de Esaú, os edomitas ou idumeus, a qual também se arabizou por meio de casamentos. Mas onde quer que se achassem parentes de Jacó, sem importar de qual nação ou subdivisão da família de Abraão, todos estariam sujeitos a ele. Ver Sl 2.12; Is 60 e Ap 15.4 quanto a provisões ainda futuras que cumprirão as predições deste versículo.

 

Maldito... abençoado. Aquele que amaldiçoasse Jacó seria amaldiçoado, e aquele que o abençoasse seria abençoado. Isso também é uma provisão do Pacto Abraâmico (Gn 12.3). Naturalmente, não são mencionadas diversas das provisões daquele pacto, pois não temos aqui uma repetição do pacto, mas so­mente de partes dele, que subentendem o todo. Ver Gn 28.3,4 quanto a como o pacto foi transferido para Jacó.

Portanto, Jacó foi abençoado, mas Esaú perdeu a bênção. . .em um senti­do, Rebeca e Jacó venceram, embora nada tivessem ganho que Deus não lhes teria dado de qualquer modo; e perderam muito” (Allen P. Ross, in loc.).

 

27.30

 

Chega Esaú. Este mostrara-se expedito em sua caçada; já a havia prepara­do, e agora chegava ansioso, à presença de seu pai. Porém, era tarde demais. “Quão dramático e comovente pode ser o livro de Gênesis!” (Walter Russell Bowie, in loc.). O retrato dos atos e das emoções humanas é simples mas profundo. Temos aqui uma história de favoritismo paterno; de como mãe e pai estavam divididos quanto a seus filhos; de como irmão estava separado de irmão; de como o ódio cresceu; de como um filho favorito foi mandado para o exílio; de como prevaleceram anos de miséria (em alguns aspectos da vida). Temos aqui a insen­sibilidade espiritual ligada com o crasso egoísmo. Mas o elemento amoral mais proeminente são o ludibrio e a mentira. Há ainda outra lição aqui, ou seja, podemos tentar forçar a vontade de Deus a se cumprir, à nossa maneira e em nosso tempo, quando um pouco de paciência deixaria tudo ao encargo do poder divino. Mas a vontade de Deus, quando o homem intervém, pode ser feita da maneira e no tempo errado. Deus tem Seus próprios métodos e Seu próprio cronograma.

 

27.31

 

Come da caça... para que me abençoes. Este versículo duplica o vs. 19, onde são comentados os itens, exceto pelo fato de que agora quem fala é Esaú, e não Jacó. A comida preparada por Esaú era carne genuína de uma caça apanha­da no campo, através de um esforço honesto. Jacó trouxera apenas uma imita­ção. Os intérpretes judeus, que odiavam Esaú mas amavam Jacó, disseram que o primeiro havia abatido um cão e o trouxera a seu pai. Isso é ridículo, para dizer­mos o mínimo.

 

A Ironia. Esaú trouxe a caça genuína; Jacó, uma fraude. Essa fraude fora consumida por um pai faminto. A caça genuína ficou intocada.

 

27.32

 

Sou Esaú. A voz era mesmo de Esaú. Dessa vez, Isaque não teve dúvidas. Não precisava fazer nenhuma investigação. Ele era Esaú, o filho amado de Isaque; era o filho primogênito; e a bênção deveria ter sido dada a ele. É verdade que tinha perdido a primogenitura mediante um ato tolo e deliberado, mas também havia-se esforçado muito para obter a bênção de seu pai, somente para perdê-la também.

 

27.33

 

Estremeceu Isaque de violenta comoção. A verdade bateu no cérebro de Isaque como um malho, e seu corpo frágil quase não pôde aguentar o golpe. E ficou tremendo da cabeça aos pés. É verdade que ele ficou vexado por haver sido enganado tão vergonhosamente; mas sua agonia derivava-se do fato de que seu filho favorito tinha perdido a bênção. Alguns eruditos pensam que foi então que ele percebeu que vinha resistindo à vontade do Senhor, e que o oráculo que Rebeca havia recebido antes do nascimento dos gêmeos era correto (Gn 25.23), embora nada disso venha à tona neste texto. Mas Isaque estava agora impotente para reverter o que havia sido feito.

 

. . .estava chocado e espantado, tomado por tremores por todo o seu corpo, e, com terror e confusão mental, percebeu a astúcia de Jacó, e sentiu profunda cons­ternação diante do fato de que Esaú havia perdido a bênção” (John Gill, in loc.).

 

27.34

 

Esaú... bradou com profundo amargor. Ele havia perdido novamente. Na primeira vez, sua insensatez fê-lo ser um perdedor; mas agora ele era inocente. Seu astucioso irmão, ajudado por uma mãe trapaceira, tinha-lhe aplicado um rijo golpe. Dizem que os homens não choram; mas Esaú chorou incontrolavelmente.

 

“As rodas do destino tinham ido longe demais! Esaú havia desprezado o seu direito de primogênito em um momento crítico, por sua própria escolha, e isso possibilitou o triunfo de Jacó. Havia sido pesado na balança do julgamento divino e fora achado em falta. . . ele nunca fora um homem mau, mas mostrava-se indiferente e desprezador quanto aos valores invisíveis (Hb 12.16)” (Walter Russell Bowie, in loc.). A Vulgata Latina diz aqui que ele rugiu como um leão, um toque pitoresco adicionado ao texto.

 

27.35

 

E tomou a tua bênção. Jacó, o homem dos truques; o enganador e suplantador. Foi ele quem praticou um ato tão traiçoeiro. A bênção paterna não era a mesma coisa que o direito de primogenitura, embora, como seja óbvio, as duas coisas estivessem ligadas uma à outra. Todavia, ante a perda do direito de primogenitura, a causa de Esaú não estivera ainda perdida. A bênção poderia ser uma espécie de restauração do que fora perdido. Daí ele a ter buscado com tanto afã. É triste quando um presumível homem bom é identificado com um grande mal, quando finalmente se percebe que ele não era o que parecia ser. Naquele momento, ninguém teria nada de bom para dizer acerca de Jacó.

 

Os intérpretes judeus que tiveram coragem de comentar sobre o que Jacó fez, registraram: “Ele tomou [a bênção] com sabedoria".

 

27.36

 

Não é com razão que se chama ele Jacó? Encontramos aqui um jogo de palavras que envolve o nome Jacó. A referência é a Gn 25.26. Ele era o “agarrador de calcanhares”, pois já viera do ventre de sua mãe agarrado ao calcanhar de seu irmão, tentando ultrapassá-lo, assediando-o. Esaú tinha nascido primeiro; mas o astuto Jacó acabou recebendo a primogenitura. Esse nome, naturalmente, tem esse sentido apenas por etimologia popular; pois seu verdadei­ro sentido é “que Ele (Deus) proteja”.

 

Tirou-me o direito... e agora usurpa. Embora Esaú tivesse vendido a Jacó seu direito à primogenitura, ainda assim o ato foi um roubo. Pois Jacó tirou proveito da fraqueza momentânea de seu irmão, de um pecado moral. Compete-nos ajudar os fracos, e não tirar vantagem deles (Rm 15.1).

 

Primogenitura. Ver aqui.

 

A bênção que era minha. Ela é dada com detalhes nos vss. 28 e 29. Essas grandes vantagens deveriam ser de Esaú, mas o destino, divinamente determina­do, levou as coisas noutra direção. Não obstante, Esaú receberia uma bênção toda sua (vss. 39,40), posto que secundária, e com elementos negativos. O trecho de Hb 11.20 diz que Isaque abençoou Jacó e Esaú em um ato de fé, de modo que houve em tudo uma orientação espiritual. Estão envolvidos no caso certos aspectos do Pacto Abraâmico, conforme se vê no vs. 29.

 

Há um Grande Fundo de Bênçãos. Deus amou o mundo de tal maneira (Jo 3.16) que até os gentios viriam a participar das bênçãos do Pacto Abraâmico (Gl 3.14 ss.). A linhagem Abraão-lsaque-Jacó-Messias ocorreu não meramente para abençoar Israel, o descendente direto, mas para abençoar todos, por meio de Israel, que foi nação nomeada como mestra do mundo.

 

27.37

 

... o constituí em teu senhor. Aquilo que Isaque teria gostado de dar a Esaú, já havia dado a Jacó. Ver o vs. 29, que é o âmago da bênção e contém todos os elementos mencionados neste versículo. Todos seriam subservientes a Jacó, não somente Esaú, mas até os seus futuros descendentes. Seriam reduzidos a confinamento e a taxas. Os idumeus tomaram-se servos de Davi (II Sm 8.13,14). Esses eram fatos que Esaú não poderia cancelar. Contudo, havia um raio de espe­rança para os seus descendentes (vs. 40); pois conseguiram romper “o jugo” impos­to por Israel (II Rs 8.20-22 registra isso). De modo geral, porém, as coisas seriam dificílimas para Esaú e seus descendentes, por causa do predomínio de Israel.

 

27.38

 

Tens uma única bênção, meu pai? Um apelo tocante escapou dos lábios de Esaú. Jacó teria ficado com tudo? Não restaria mais nenhuma bênção? Não admira que Esaú tenha odiado a Jacó (vs. 41). O direito de primogenitura só podia pertencer a um filho. Todavia, mais do que um só filho seria abençoado. Mas, visto que Jacó dominaria tudo, Esaú não poderia esperar muita coisa. Esaú tentou escapar dessa triste sorte com lágrimas, e lágrimas genuínas.

 

. . .nem haja algum impuro, ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteri­ormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arre­pendimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado” (Hb 12.16,17).

 

27.39

 

Traduções Radicalmente Diferentes. Bênção secundária de Esaú, de acordo com certas traduções, inclui as mesmas vantagens temporais dadas a Jacó, no tocante à fertilidade e à abundância, equivalentes ao vs. 28, onde a questão é anotada. Mas a nossa versão portuguesa (como também a versão inglesa RSV) diz aqui: “Longe dos lugares férteis da terra será a tua habitação, e sem orvalho que cai do alto”. E isso indica que Esaú seria privado até mesmo dessas vanta­gens temporais. O território de Edom, ocupado por Esaú e seus descendentes, era uma região desértica, e isso se harmoniza com a ideia de privação. A história subsequente mostra-nos que Esaú chegou a prosperar (ver Gn 33.9 ss.). Aque­le capítulo, incidentalmente, mostra-nos que o amor triunfou no fim (vs. 4). Mas a julgar pela bênção secundária de Esaú, parece que Isaque nada tinha de positivo, para todos os efeitos práticos, para dizer a seu filho desse nome.

 

27.40

 

Tua espada. Esaú seria homem cercado pela violência, e teria de matar a fim de sobreviver. Mas mesmo assim seria subserviente a Jacó. E outro tanto sucederia a seus descendentes. A história subsequente mostra-nos que isso não se aplicou diretamente a Esaú, mas aos seus descendentes. Davi acabou por subjugá-los (II Sm 8.13,14).

 

Servirás. Tal como no vs. 29, onde a questão é comentada. Embora fosse irmão gêmeo de Jacó, Esaú seria como um dos filhos de Ismael ou de Quetura.

 

Os idumeus tornaram-se um povo de incursionistas e saqueadores de cara­vanas. E isso envolvia o fato de que tinham de viver de sua espada. Todavia, também ocupavam um território hostil ao ser humano, e sempre tiveram de manter-se na defesa, envolvidos em guerras com chefes locais.

 

O trecho de II Rs 8.20-22 mostra-nos que os idumeus escaparam tempora­riamente ao jugo de Jorão, rei de Judá, e isso não muito depois de terem sido derrotados por ele. A situação foi mais tarde revertida de novo, e Edom gozou de um período bastante longo de independência, embora nunca livre de tribulações. Hircano, sobrinho de Judas Macabeu, conquistou o território deles, e eles continuaram subservientes. É uma curiosidade histórica o fato de que os Herodes eram descendentes de idumeus e tiveram um momento de glória nos dias em torno de Jesus, e mesmo depois Dele.

 

Resultados do Engano e da Mentira (27.41-46)

 

27.41

 

Passou Esaú a odiar Jacó. E não era para menos. Esaú planejava assassi­nar seu irmão, depois da morte de Isaque. Todavia, essa terrível ameaça acabou por dissipar-se. Jacó foi para o exílio. Esaú conseguiu prosperar. Anos mais tarde, os dois irmãos gêmeos encontraram-se sob condições amistosas (Gn 33.4). O amor triunfou no fim. Os dois irmãos puderam sepultar juntos Isaque (Gn 35.29).

 

Novamente, Rebeca exigiu de Jacó que obedecesse à sua voz. Mas agora ela o enviava ao exílio, para ele poder escapar com vida. Era para Jacó ficar fora somente por “alguns dias” (vs. 44), mas o astucioso Labão, irmão de Rebeca, conseguiu mostrar-se ainda mais esperto do que Jacó, que até então havia ultrapassado a todos em astúcia. E assim, o que seria alguns dias acabou somando cerca de vinte anos.

 

Rebeca perdeu o filho querido. Não se ouve mais falar em Rebeca até o seu sepultamento (Gn 49.31). Nem mesmo é relatada a sua morte. Ao que tudo indica, ela nunca mais viu seu filho, excetuando, como é óbvio, do outro lado da porta de Deus que chamamos de morte. Jacó e Rebeca tiveram ambos que pagar caro por sua duplicidade. Jacó não mais pôde enganar a Esaú. Antes, em várias oportunidades, foi enganado por Labão, seu tio por parte de mãe. A lei da colheita segundo a semeadura dominou toda a situação. Jacó ainda teria de aprender que nin­guém obtém a bênção de Deus por meio do ludibrio, mas obedecendo ao Senhor.

 

Vêm. . . os dias de luto por meu pai. Esaú planejou matar a Jacó, mas somente após a morte de Isaque. Enquanto isso, conter-se-ia em sua profunda tristeza. Esaú pensava que Isaque não demoraria a morrer, mas passaram-se mais quarenta anos!

 

Filhos Pródigos e o Arrependimento. Hebreus 12.16,17 mostra-nos que Esaú buscou arrependimento e reversão, mas não os achou. Isso, naturalmente, não diz respeito à salvação de sua alma, mas somente aos seus privilégios terrenos. O relato neotestamentário do filho pródigo (Lucas 15) mostra-nos que há arrepen­dimento em disponibilidade, mesmo nos casos mais extremos. O homem da histó­ria contada por Jesus era jovem, intempestivo e profano. No entanto, obteve lugar de arrependimento e subsequente restauração.

 

27.42

 

Algum Informante? Esaú continuou proferindo ameaças. Alguém (que não é identificado) contou a Rebeca os planos de Esaú. E, novamente, ela pressionou Jacó. E outra vez, ele obedeceu. Obteve assim a sua sentença por haver tratado com má-fé o seu irmão: teve de submeter-se ao exílio. É um ponto curioso da história, que foi Rebeca quem o forçou a cumprir a sentença, a qual, ao mesmo tempo, era uma sentença contra ela. Para Rebeca não foi coisa de somenos separar-se de seu filho querido, e isso pelo resto de seus dias.

 

Consolo no Homicídio. Corrigir uma ofensa mediante a violência era a mentali­dade de Esaú, e ele não estava fazendo segredo disso. Cada dia era um dia de homicídio potencial, e Rebeca tratou de evitar a tragédia. Em lugar da pena de morte, Jacó receberia uma pena de vinte anos de exílio. O que fora semeado agora começara a ser colhido: uma dolorosa separação; uma longa viagem ao desconhe­cido; a perda do próprio lar e da família. Todas as maçãs do diabo têm vermes.

 

27.43

 

Ouve o que te digo. Tal como no vs. 8, Jacó foi posto sob as ordens de sua mãe. Antes ele havia obtido o que tinha querido, mas agora obtinha o que não queria. Estava sendo traçado um plano que concordava com os propósitos divinos; e Jacó estava sendo arrastado a ele, percebendo que não poderia agir de outro modo. Seu anterior sucesso, ao obedecer a Rebeca, fora doce; mas esse “sucesso" logo se tornou amargo, e agora era mister escapar à execução.

 

27.44

 

Fica com ele alguns dias. Jacó acabou ficando mais de vinte anos com seu tio, Labão. Alguns eruditos chegam a falar em quarenta anos. E não há registro de que ele tenha visto novamente sua mãe. Cada pessoa colhe aquilo que semeia (Gl 6.7,8). O exílio de Jacó faria Esaú acalmar- se, mas um elevado preço precisou ser pago em resultado do ludibrio. Deus poderia ter feito as coisas acontecer sem a ajuda de atos pecaminosos.

 

27.45

 

O Tempo Cura. Pelo menos isso é o que alguns dizem. O tempo faria Esaú acalmar-se; e então Rebeca mandaria chamar Jacó de volta, ao ver que tudo voltara à normalidade em casa. Ela seria a juíza do tempo. Todavia, não lemos que algum dia ela tenha feito isso. Talvez o seu tempo de vida tenha sido curto, e não o tempo de vida de Isaque. No entanto, Jacó não demorou a ser absorvido na família de Labão; pois se tinha apaixonado por Raquel e se dispôs a fazer qual­quer sacrifício por ela. Uma grande mudança ocorrera em sua vida, impedindo que ele voltasse prontamente para casa.

 

Os meus dois filhos. Ou seja, Esaú e Jacó. Se Esaú matasse Jacó, teria de sofrer as consequências, de acordo com a lei da vingança (Gn 9.6), e também perderia a própria vida. A morte de ambos os filhos era mais do que Rebeca poderia suportar. Ela deveria ter algum amor por Esaú, ao que parece. Estava disposta a rebaixar Esaú abaixo de Jacó, mas não queria perdê-lo.

 

“Aqueles que tentam santificar os meios através dos fins, acabam perplexos e aflitos. Deus não dará seu apoio, nem mesmo a um culto à divindade, exceto se for feito à Sua maneira” (Adam Clarke, in loc.).

 

27.46

 

Aborrecida estou da minha vida. Rebeca estava enfrentando muitas angústi­as. Ela tinha manipulado o caso de Jacó e Esaú, com resultados desastrosos. Agora, Jacó iria para o exílio. E, então, suas noras (esposas de Esaú) mostraram ser tudo quanto já era de esperado que fossem (ver Gn 26.34,35) — terríveis. Os hititas tinham outros costumes e outra fé religiosa. Havia muitos fatores irritantes; não havia harmonia nem amor entre os membros da família. “... elas viviam vexando-a e aborrecendo-a com sua impiedade e idolatria, com sua irreligiosidade e conduta profana, com sua desobediência e contradição, com seu temperamento e sua conduta contrários" (John Gill, in loc.). George Hodges, de bom humor, disse acerca deste versículo: “Aquelas jovens de Hete me deixam preocupado quase até a morte”. Mas para Rebeca a coisa não era engraçada, e surgiram dificuldades domésticas sérias, que corroíam a alma e vexavam a mente. Mais tarde, o povo de Israel, mediante a lei mosaica, teve de separar-se de elemen­tos estrangeiros (embora sempre tenha havido muitos lapsos).

 

A Desculpa e a Razão. Algumas vezes, desculpas são meras desculpas; mas de outras vezes também são razões. Assim dava-se no caso à nossa frente. Rebeca expôs o seu caso a Isaque. “Envia Jacó à minha família, em Padã-Arã, para que ele consiga esposa ali. Eu não suportaria se ele também se casasse com alguma jovem hetéia, conforme fez Esaú, e trouxesse mais dificuldades à nossa família.” Desse modo, ela conseguiu a permissão de Isaque quanto ao afastamento de Jacó, salvando-lhe assim a vida, sem dizer qual a razão real pela qual ela queria que ele saísse de casa.

 

Este versículo atua como transição para a narrativa que envolve Jacó em sua associação com Labão, seu tio, ainda que, na Bíblia em hebraico, não haja interrupção entre o fim de nosso capítulo vinte e sete e o começo de nosso capítulo vinte e oito.

 

A História Repete-se. Abraão tinha feito o que Rebeca promovia aqui. Ele tinha mandado buscar uma noiva para Isaque. E essa noiva tinha sido Rebeca. Ver a descrição sobre isso no capítulo vinte e quatro do Gênesis. Abraão tinha-se casado com sua meia-irmã; Naor (irmão dele) casara-se com uma sobrinha. Isaque casara-se com uma prima. Raquel era a filha mais nova de Labão. E isso quer dizer que Jacó estava destina­do a casar-se também com uma prima. E a outra esposa de Jacó, Lia, também era sua prima, sendo irmã de Raquel. As filhas de Labão eram mulheres bonitas, portanto ali era o lugar certo para Jacó buscar esposa!

 

Jacó partiu sob a bênção de seu pai, Isaque. Ele agora era o herdeiro das promessas divinas feitas originalmente a Abraão (Gn 28.3-5). Assim, ele deu continuidade à linhagem favorecida, de acordo com o Pacto Abraâmico (Gn 15.18).

 

Bibliografia R. N. Champlin