Paulo e Barnabé em Icônio e Listra

 

14:1    Em Icônio entraram juntos na sinagoga dos judeus e falaram de tal modo que creu uma grande multidão tanto de judeus como de gregos.

 

Os dois missionários cristãos derrubaram suas pontes atrás de si, isto é, não tinham meios de retroceder, porquanto tinham declarado que dali por diante se voltariam para os gentios, uma vez que já haviam cumprido seus deveres para com os judeus. Não era mais necessário que pregassem o evangelho primeiro aos judeus. No entanto, chegando eles em Icônio, voltaram à sinagoga, e ali deram início à tarefa de evangelização naquela nova área, tal como sempre haviam feito. A verdade é que a despeito da amarga oposição e do ódio demonstrados pelos judeus, ainda sentiam, os dois obreiros do Senhor, grande anelo em suas almas para que as pessoas de sua raça viessem a Cristo; e, embora verbalmente declarando-se livres para ministrarem exclusivamente aos gentios (ver At 13:46), na prática, isso não era fácil.

 

Além disso, as sinagogas ofereciam uma audiência preparada, composta de indivíduos que desde a meninice vinham recebendo instruções básicas quanto à religião monoteísta, pessoas que já haviam aceito na mente a esperança messiânica, e, por isso mesmo, essa audiência servia de excelente meio para, por ela, começar o trabalho de evangelização em qualquer localidade. Em certo sentido, esse método estava perfeitamente correto, posto que a pregação na sinagoga jamais deixou de produzir um bom número de convertidos. Todavia, essa circunstância, por si mesma, sempre provocou a inveja dos judeus, bem como seu ódio e oposição, os quais não toleravam ver a doutrina cristã invadir seu território há longo tempo ocupado, especialmente por que essa invasão dava a impressão de ser permanente.

 

As sinagogas, mui naturalmente, contavam com os seus «judeus da dispersão», bem como com os seus helenistas, isto é, judeus que falavam normalmente o grego, sem falarmos nos chamados «gregos», isto é, gentios que talvez se tivessem feito prosélitos do judaísmo, muitos dos quais eram sérios e sinceros. Contudo, havia muitos presentes que eram meros curiosos, embora não pertencessem às sinagogas em qualquer sentido oficial. A mensagem do evangelho, entretanto, atuava poderosamente entre todas essas categorias de membros das sinagogas. Ameaçava convencer todas as classes de homens, para que confiassem em Jesus como o Messias, não atingindo meramente alguns de um dos grupos específicos. A universalida­de do evangelho ficava desse modo demonstrada.

 

Para algumas pessoas, a verdade aparentemente deve ser sempre algo «antigo» e tradicional, porque tais pessoas pensam que Deus já revelou tudo quanto ele deseja ou pode revelar. Essa ideia da estagnação da verdade continua produzindo malefícios até os nossos próprios dias; e qualquer pessoa que não tenha estagnado em suas crenças corre o risco de ser considerado um herege. Isso se dá porque toda a suposta «nova verdade» é aquilatada em comparação com os preconceitos daqueles que se põem a julgá-la, os quais ditam como e de que maneira deve ser a verdade. O critério pelo qual toda verdade nova é aquilatada é sempre a verdade «antiga». Essa regra pode mostrar-se útil em muitas ocasiões, mas por certo nem sempre é digna de confiança. Pois não se há de duvidar que ainda muitas verdades que desconhecemos, uma parte das quais o Senhor pode conceder aos verdadeiros inquiridores, que não se satisfazem com meras tradições, formas externas e a estagnação que qualquer religião organizada acaba produzindo.

 

14:2    Mas os judeus incrédulos excitaram e irritaram os ânimos dos gentios contra os irmãos.

 

«...incrédulos...» O vocábulo grego assim traduzido significa realmente «desobedientes», mas é frequentemente empregado, no N.T., como o oposto de «crentes». Por isso mesmo mui provavelmente se refere à incredulidade em seus malignos resultados de rebeldia e de obras más, ou, simplesmente, se refere ao estado espiritual dos homens que preferem manter-se distantes de Deus. Quanto a isso podemos considerar o trecho de Jo 3:36 que diz: «Por isso quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus». É óbvio que a «crença», por conseguinte, é uma atitude que nos conduz à obediência, ao passo que a «incredulidade» sempre leva o indivíduo a diversas formas de desobediência e rebeldia, (Ver também a passagem de I Pe 2:7,8, onde as mesmas conclusões podem ser tiradas, com base nas palavras ali utilizadas).

 

A história espúria de Paulo e Tecla, em um dos livros apócrifos do N.T., «Os Atos de Paulo», foi criada a fim de suprir a falta de detalhes quanto à narrativa dos feitos de Paulo neste trecho do livro canônico de Atos. É bem possível que tivesse realmente existido alguma mulher piedosa, discípula do apóstolo Paulo, em Icônio, sobre quem essa tradição se tenha alicerçado. Contudo, não podemos confiar nos adornos contidos nessa obra literária apócrifa. Tecla é atualmente venerada como uma santa, tanto pela Igreja Católica Romana como pela Igreja Ortodoxa Grega. Pelo menos podemos supor que, a despeito de todas as dificuldades e da repentina perseguição que rebentou em Icônio, o trabalho dos dois missionários cristãos não foi totalmente inútil, porquanto alguns crentes firmes foram o fruto dos esforços de Paulo naquela região.

 

A história geral de Paulo e Tecla, no livro apócrifo «Atos de Paulo», é a seguinte, em resumo: Uma jovem, de nome Tecla, ouviu o apóstolo Paulo pregar em Icônio, e se converteu. Chegou a embaraçar ao apóstolo com sua insistência em ser batizada. Os dois foram finalmente levados à presença das autoridades, e foi proferida sentença contra eles. Paulo foi condenado a ser expulso da cidade e Tecla foi sentenciada a ser queimada viva. Porém, no momento mais critico, uma chuva miraculosa a salvou da morte. Então ela seguiu Paulo de volta a Antioquia e se vestiu como um rapaz, na esperança de poder acompanhá-lo sempre. Sofreu sua parte de dissabores, incluindo o ter sido exposta a animais ferozes, mas conseguiu escapar e chegou a viver até idade avançada. Essa obra literária, como é evidente, é apócrifa, baseada numa fértil imaginação.

 

Qual teria sido o aspecto físico do apóstolo Paulo? Alguns eruditos acreditam que essa obra apócrifa, Atos de Paulo, talvez sirva a um propósito, ainda que não tenha outra utilidade, isto é, é a única obra escrita que conhecemos que procura fornecer-nos uma descrição da aparência física de Paulo. Diz essa obra: «Um homem de pequena estatura, de sobrancelhas juntas e um nariz um tanto volumoso, um tanto calvo, de pernas arqueadas, de físico robusto e de presença graciosa; pois algumas vezes ele se assemelha a um homem, e outras vezes se parece com um anjo» (1:7). Não dispomos de quaisquer meios para confirmarmos ou negarmos a autenticidade dessa descrição; porém, pelo menos é um ponto de curiosidade.

 

Trata-se de uma característica distintiva, em quase todas as perseguições historiadas no livro de Atos, que elas se originaram da hostilidade dos judeus. O caso de Demétrio fornece quase que a única exceção (ver At 19:24); e até mesmo nesse caso os judeus aparentemente fomentaram a inimizade dos ourives gregos. Assim, pois, em data consideravelmente posterior (169 d.C.), encontramos os judeus em papel de destaque na perseguição que terminou provocando a morte de Policarpo, em Esmirna. (Martírio de Policarpo, cap. 13).

 

14:3    Eles, entretanto, se demoraram ali por muito tempo, falando ousadamente acerca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra da sua graça, concedendo que por suas mãos se fizessem sinais e prodígios.

 

A causa em que estavam atarefados os missionários cristãos era digna e importante, pelo que também valia a pena sofrerem e se sacrificarem por ela. Nem todas as causas pertencem a essa categoria e nem todas merecem a atenção e a dedicação contínuas da parte dos homens, podendo ser abandonadas sem grande perda. Aqueles missionários cristãos, entretanto, labutavam na obra divina, agindo por intermédio de uma força divina, a saber, o «...Senhor...», palavra essa que sem dúvida se refere ao Senhor Jesus e à sua presença com eles através de seu alter ego, o Espírito Santo.

 

Não houve possibilidade alguma de Paulo e Barnabé serem mortos, enquanto não chegasse o momento de partirem desta vida para os lugares celestiais. Nenhuma maquinação dos homens poderia jamais prevalecer contra eles, porquanto a providência de Deus os protegia. Em outras localidades sucedeu que eles foram forçados a partir; e, nesses casos, podemos afirmar com toda a razão que o trabalho deles havia terminado em tais territórios, tendo chegado o tempo de se fazerem úteis para o Senhor noutros lugares. Aquele que se demora demasiadamente em um lugar, e assim sai da proteção da vontade de Deus, perde a noção daquela providência que dirige e protege aos homens que agradam ao Senhor Deus.

 

«...sinais e prodígios...» são palavras que formam uma característica expressão lucana, para indicar as muitas e grandiosas maravilhas e milagres realizados pelos crentes primitivos. (Quanto ao seu emprego, em outras passagens bíblicas, ver At 2:43; 4:29 e ss.; 5:12 e Hb 2:4).

 

Os sinais eram milagres didáticos, ou seja, feitos extraordinários e sobrenaturais que tinham por intuito ensinar alguma coisa para aqueles que deles eram testemunhas. As lições que eram dessa maneira ensinadas visavam mostrar, especificamente, que Jesus era realmente o Messias e que os seus enviados haviam sido dotados de poder para realizarem a sua obra, porquanto era obra de «Cristo». Além disso, esses «sinais» igualmente ensinavam que o ministério, tanto dos apóstolos como de outros crentes primitivos que receberam do Senhor algo para fazerem em sua obra, era inspirado e autenticado por Deus; porquanto ficava subentendido que nenhum indivíduo poderia operar tão grandes maravilhas como eles faziam, se o Senhor Deus não estivesse com ele.

 

Os prodígios, por sua vez, eram casos admiráveis de curas e de outros feitos extraordinários. Naturalmente esses «prodígios» também faziam parte da categoria dos milagres didáticos, embora as Escrituras chamem-nos por outra designação, naturalmente por causa de sua natureza espantosa.

 

14:4    E se dividiu o povo da cidade; uns eram pelos judeus, e outros pelos apóstolos.

 

A divisão aqui descrita, que se estabeleceu entre os habitantes de Icônio, envolvia essencialmente a sua população «gentílica», porquanto os judeus devem ter-se mantido bem unidos, excetuando alguns poucos dentre eles, que se tinham convertido ao cristianismo. Esse é apenas o resultado natural do movimento de algo que é novo e poderoso.

 

«Os judeus tratavam os enviados cristãos como mestres falsos e os seus milagres como falsos; e muitos, dentre a população gentílica, assim pensavam também; ao passo que outros, que ainda não haviam endurecido os seus corações contra a verdade, sentiam a força da mensagem cristã; e estes últimos, não se deixando guiar por preconceitos, podiam discernir facilmente que aqueles milagres eram de Deus, pelo que também se apegavam aos enviados cristãos». (Adam Clarke, in loc.).

 

«Tal divisão de forma alguma é inteiramente inaceitável para um mestre fiel. De fato, o Senhor Jesus declarou que viera a este mundo a fim de produzir tal divisão (ver Lc 12:51). O Senhor cumpre essa sua declaração sempre que convulsiona o reino das trevas através da agência dos seus servos, criando assim uma perturbação salutar, ensinando os homens a se desviarem da iniquidade». (G.V. Lechler, in loc.).

 

«...apóstolos...» Deve-se notar, neste ponto, o uso do termo «apóstolo», aplicado a Barnabé. Trata-se do uso secundário e não-técnico da palavra. Como título oficial, que dá a entender poderes e autoridade especiais, em referência aos alicerces da igreja cristã (ver Ef 2:20), aplicava-se exclusivamente aos doze apóstolos originais, a Matias e a Paulo. Todo apóstolo dessa categoria principal precisava ter sido testemunha ocular da ressurreição do Senhor Jesus, dele tendo recebido sua comissão apostólica especial. Não há qualquer evidência bíblica de que esse ofício tenha sido transferido a outros, embora várias tradições e alguns dogmas eclesiásticos façam essa transferência, o que é aceito pela Igreja Católica Romana, mas é rejeitado pela maioria dos grupos protestantes.

 

Contudo, há também um sentido não-técnico, secundário, da palavra «apóstolo». Trata-se de uma significação mais lata, em que o termo foi aplicado a muitas outras pessoas, nas páginas do N.T. Esse sentido secundário dá a entender essencialmente «missionários», enviados dotados de poder e autoridade especiais. Foi assim que Barnabé é aqui incluído como um «apóstolo», juntamente com Paulo. Não sabemos precisar, naturalmente, se ele chegou a ver o Senhor Jesus ressurreto, mas isso não seria motivo essencial para ele não poder ser chamado de «apóstolo» nesse sentido secundário.

 

A palavra «apóstolo» significa enviado, pelo que também pode ter grande gama de aplicações, enquanto não é utilizada em algum sentido técnico, para indicar o ofício especial do apostolado, conforme foi instituído pelo Senhor Jesus. O apóstolo Paulo aplica essa palavra a Tiago, irmão do Senhor (ver Gl 1:19), a Epafrodito (ver Fp 2:25), por ser mensageiro da igreja em Filipos, a Silvano e a Timóteo (ver I Ts 2:6 e At 18:5), e, possivelmente também a Apolo (I Co 4:9), a Andrônico e a Júnias (ver Rm 16:6). Os próprios «judaizantes» foram chamados «falsos apóstolos», pelo mesmo Paulo, o que demonstra a grande flexibilidade desse vocábulo, quando usado em seu sentido mais amplo (ver II Co 11:13).

 

14:5    E, havendo um motim tanto dos gentios como dos judeus, juntamente com as suas autoridades, para os ultrajarem e apedrejarem,

 

A palavra «...tumulto...» indica um «levante» súbito, impulsivo, sendo usada apenas por duas vezes em todo o N.T., isto é, neste versículo e em Tg 3:4. Nesta última passagem é traduzida, em nossa versão portuguesa, por «impulso», referindo-se aos caprichos ou decisões arbitrárias ou não do timoneiro de um navio, em alto-mar. Pelas circunstâncias registradas neste versículo, que nos mostram que esse ataque, por parte dos gentios e dos judeus, contra Paulo e Barnabé, ainda não havia passado da fase do planejamento; mas veio a lume como movimento repentino cujo propósito era o de assassinar aqueles dois «apóstolos». O simples fato de que planejavam efetuar um apedrejamento serve para mostrar o fato de que os judeus estavam por detrás desse movimento, como seus principais instigadores, e que eles se imaginavam os «executores divinos» contra dois elementos blasfemadores. O suposto crime dos missionários cristãos era de caráter religioso, e os judeus planejavam uma execução coerente com os ensinamentos do A.T.

 

«Já que haviam falhado as medidas legais, restava aos judeus o único recurso da violência ilegal». (Rackham, in loc.).

 

Os dogmas religiosos, seguidos cegamente, têm efeitos potencialmente maléficos. Pode-se notar, neste episódio, a quais extremos se sujeitam os homens, quando se aferram obstinadamente às suas próprias tradições, dando preferência a estas, em detrimento da verdade revelada. Quão equivocadas podem ficar até mesmo as pessoas consideradas religiosas, e como elas podem desculpar ações violentas e profundamente perversas, com base em supostos princípios religiosos. Quão grande é o prejuízo à moral e ao caráter do homem, sofrido por aqueles que não buscam a verdade, não acolhendo as novas verdades, à medida em que elas vão sendo reveladas.

 

A providência divina controlou toda a situação. «Depois que aos apóstolos já fora concedido tempo suficiente para espalharem a semente ‘do evangelho' em Icônio, Deus permitiu que rebentasse um período de perseguição, sem dúvida alguma com o propósito de fazer com que essa semente fosse levada ainda a paragens mais distantes, derramando-se também a Listra e Derbe. Quão maravilhosos são os caminhos de Deus, tanto quando o seu povo conquista como quando seu povo sucumbe! Até mesmo quando os crentes parecem sucumbir, não são derrotados. Neste ponto, os apóstolos cristãos consideram a inteligência concernente ao plano traçado pelos seus inimigos, simplesmente como um passaporte divino que lhes permite continuarem a viagem que faziam». (G. V. Lechler, in loc., fazendo uma referência a Williger).

 

Nesse comentário é destacado um dos mais importantes princípios que governam a existência humana, dando-lhe o significado que ela tem: a providência divina. Confiamos que tudo quanto acontece, enquanto um indivíduo não se afasta da honestidade respeitável, desejando que se cumpra em sua vida a vontade de Deus, ainda que ele venha a cometer muitos equívocos, tudo contribuirá juntamente para seu bem, e, especificamente, para ajudá-lo a cumprir apropriadamente a sua missão na vida: sendo usado para a glória de Deus e para benefício de seus semelhantes humanos, e assim vir a desenvolver-se espiritualmente, passando, continuamente, pelo processo de transformação segundo a imagem de Cristo, o que também é o grande alvo de toda a vida humana. (Ver Rm 8:29 sobre essa importante questão. Quanto a notas expositivas mais completas sobre a providência de Deus, como ela opera, e quão importante é ela como princípio orientador de toda vida e atividade humanas, ver os trechos de Jo 7:6; 11:4; At 7:9,10 e 10:17. Quanto sobre a «ajuda divina», que é uma espécie de ajuda especial que nos é outorgada por Deus, além dos meios ordinários de que dispõem os homens para realizar qualquer coisa, o leitor deve ver At 12:11. Quanto ao fato de que, nas Escrituras, cada indivíduo é visto como alguém que tem uma missão especial na vida, ver At 9:11. Quanto à «conduta ideal» do crente, para que cumpra a sua própria missão, ver At 13:25.

 

«...ultrajar...» Esse verbo, no original grego, expressa insultos e ultrajes desabridos. O apóstolo Paulo se utilizou do substantivo derivado do mesmo para expressar o caráter de sua própria conduta anterior, como perseguidor (ver I Tm 1:13); e deve ter sentido, como mais tarde no apedrejamento de que foi vítima, segundo nos mostra o décimo nono versículo, que estava recebendo a justa retribuição por seus próprios atos passados». (E.H.Plumptre, in loc.).

 

A lei fixa da retribuição é excelente, e não pode deixar de cumprir-se. O fato da perseguição aqui abordado nos salienta um importante princípio, que é o da lei imutável da retribuição. Paulo fora perdoado de sua vida passada; e os seus erros passados jamais seriam lançados contra ele, como algo que pudesse condenar-lhe a alma. Todavia, ainda tinha uma dívida a saldar, porquanto tudo quanto um homem semear, isso também será forçado a colher. Assim também Davi, ao cometer os seus gravíssimos crimes, foi perdoado pelo Senhor; mas teve de sofrer grande dose de adversidade posteriormente, bem como grande agonia de consciência por causa daquilo que fizera. De fato, no caso do profeta Davi, é fácil para nós, com base na Bíblia, mostrarmos que realmente ele jamais se recuperou inteiramente de seu crime. Seus próprios familiares e seus filhos se voltaram contra ele, e o seu reino foi abalado pelas revoltas, pelo ódio e pela dissensão. Assim, pois, teve de colher a profunda perversidade que havia semeado, embora desde há muito fora «perdoado» por Deus. Ser perdoado, por conseguinte, não é sinônimo de ficar livre de qualquer dos maus efeitos do pecado. Alguns pecados trazem consigo mesmos a sua punição natural; e as sementes daninhas assim semeadas mui naturalmente florescem e produzem os seus frutos, ainda que antes, muito antes, dessa produção de frutos, o crente já se tenha arrependido.

 

14:6    eles, sabendo-o, fugiram para Listra e Derbe, cidades da Licaônia, e a região circunvizinha;

 

Quando devem permanecer os obreiros do Senhor, e quando devem partir de um lugar? Os missionários cristãos, Paulo e Barnabé, tiveram que fugir, para que pudessem continuar combatendo. «Paulo e Barnabé não tinham a menor intenção de permanecerem e serem apedrejados (linchados) pela multidão. É sábio o pregador que sempre percebe quando deve fazer pé firme e quando deve partir, afastando-se do perigo, para a glória de Deus». (Robertson, in loc.).

 

Esse princípio pode ser aplicado a muitas situações diversas, até mesmo a um pastor em sua igreja local, que já não é bem acolhido pela sua congregação; e então, embora não tenha praticado coisa alguma que seja condenável, tornando-se inaceitável para muitos membros de sua igreja, por uma razão ou por outra, ou por uma série de motivos de pequena monta, mas que em seu conjunto importam em um grave impedimento, se afasta do pastorado para cuidar de outro rebanho. Um pastor sábio, portanto, deve saber como julgar a situação, permanecendo ou transferindo-se para outro local, de conformidade com os ditames da sabedoria, e não de conformidade com os seus desejos pessoais ou com a sua vantagem financeira imediata. No que diz respeito às perseguições que nos são movidas, o Senhor Jesus antecipou a necessidade ocasional de fugirmos, tendo recomendado aos seus discípulos que assim fizessem quando muito pressionados. (Ver Mt 10:23).

 

«Não nos devemos expor afoitamente ao perigo, mas antes, fugirmos dele, se tal fuga for necessária, tal como aqueles líderes primitivos da igreja, que desejavam continuar expandindo a sua prédica, multiplicando o número de discípulos através da perseguição». (Ecumênio).

 

«Nem sempre nos devemos submeter calmamente à vergonha e à desgraça; não obstante, é mister aprendermos a distinguir qual curso de ação melhor promove a honra de Deus». (Quesnel. in loc.).

 

«E embora tivessem fugido, a fim de que não se precipitassem de cabeça na morte, a constância deles, na pregação do evangelho, declarava, de modo suficiente, que não temiam o perigo». (Calvino, in loc.).

 

«...fizeram um retrocesso honroso, e não tiveram uma fuga inglória... a fim de encontrarem outro campo de trabalho. Em períodos de perseguição, os ministros do evangelho podem ver motivos para suspenderem seu trabalho em um lugar qualquer, sem que com isso pretendam abandonar o trabalho». (Matthew Henry, in loc.).

 

«...não tanto para preservarem a própria vida, e, sim, para propagarem o evangelho em outros lugares». (John Gill, in loc.).

 

«...Licaônia...» Esse era o território sul-central da Ásia Menor, assim chamado porquanto ali habitavam os licaônios. Foi área mencionada por autores antigos, começando por Xenofonte, no século IV A.C. Nas páginas do N.T., o termo indica uma parte da província romana da Galácia. Listra e Derbe eram cidades dessa região.

 

Quando do remanejamento dos territórios da porção ocidental da Ásia Menor, por Pompeu (64 A.C.), a parte ocidental da Licaônia foi acrescentada à Cilícia, ao passo que a parte oriental se tornou parte da Capadócia e a parte norte veio a fazer parte da Galácia, que se tornou província romana em 25 A.C. Posteriormente, a parte oriental da Licaônia se tornou independente da Capadócia (de 37 D.C. em diante), formando parte do reino vassalo de Antíoco, rei de Comagene, passando a ser conhecida pelo nome de Licaônia Antioqueana. O território que, no N.T. se chama Licaônia, é justamente aquela parte da província da Galácia conhecida pelo nome de «Licaônia-Gálata». Listra e Derbe, em evidente contraste com Icônio, são cidades consideradas parte integrante da Licaônia, apesar de que, tecnicamente, essa atribuição é inexata, posto que oficialmente a cidade de Icônia fora incorporada à Licaônia, por propósitos administrativos. Contudo, desde os dias do domínio persa que vinha sendo, na realidade, uma cidade fronteiriça da Frigia, e os seus habitantes, racial e linguisticamente, eram frígios. Assim também se reputavam esses habitantes, não se julgando pertencentes racialmente à Licaônia.

 

ALÉM disso, existem evidências de que os lugares em foco eram governados por governos locais diversos, aparentemente com pouca ou nenhuma conexão inerente entre si. É a exatidão, «prática» de Lucas, neste ponto, que tem levado os historiadores arqueólogos a começar a estudar a narrativa do livro de Atos a sério, e não como mera obra literária propagandística. Isso dá a esse livro sagrado o caráter de narrativa histórica séria. Muitas descobertas arqueológicas têm demonstrado a grande exatidão do autor sagrado naquilo que ele escreve, e até mesmo os eruditos de inclinações mais liberais se deixam impressionar por esse fato.

 

Paulo e Barnabé, por conseguinte, em cerca de 46 - 47 D.C., no decurso de sua viagem missionária, ao chegarem a Listra e Derbe, encontraram a barreira do idioma. A arqueologia tem podido desenterrar diversas inscrições que preservam amostras dessa antiga língua. Não sabemos dizer, contudo, a que família de idiomas pertencia ela. Tem sido conjeturado pelos estudiosos que era uma forma corrompida do grego, ou seja, uma forma qualquer de idioma indo-europeu, ou mesmo alguma língua distantemente aparentada do assírio (ou seja, um idioma semita). Todavia, essas conjeturas não têm fundamento. Não se há de duvidar que a maioria do povo daquela região também falava o idioma grego; e assim, Paulo e Barnabé puderam comunicar-se com eles em grego.

 

«...Listra...» O local da antiga cidade era desconhecido e incerto até o ano de 1885, quando suas ruínas foram identificadas pelos arqueólogos, perto da moderna cidade de Catin. Fica acerca de trinta e quatro quilômetros a sudoeste de Icônio. Uma inscrição, ali encontrada, informa-nos que essa cidade se tornou colônia nos tempos do imperador Augusto.

 

Listra era uma obscura aldeia, nas altas planícies da Licaônia (próxima da moderna Hatum Sarai), que foi selecionada por César Augusto como local de uma dentre diversas colônias romanas, provavelmente com propósitos de melhorar a defesa. Inscrições até hoje existentes mostram-nos que naquela época havia ali uma comunidade que falava o latim. Paulo e Barnabé talvez tenham se dirigido para aquele obscuro lugar, na esperança de terem um ministério pacífico, isento das perseguições movidas pelos judeus, mas essa expectação estava fadada a não se cumprir. Naquela localidade havia uma população de origem grega e judaica (ver At 16:1), mas também havia uma substancial porção não-helênica (conforme nos mostra o décimo primeiro versículo deste capítulo). Atualmente, no sítio de Listra, está a moderna cidade de Zoldera.

 

«...Derbe...» ainda não foi positivamente identificada, mas acredita-se, conforme opinam alguns estudiosos, que ficava em Gudelisin, onde foi encontrado um grande cômoro, com remanescentes dos tempos romanos. Marcos romanos têm sido encontrados ao longo da rota para Derbe. Essa área foi a região localizada mais a oriente visitada por Paulo e Barnabé, quando fundaram as igrejas do sul da Galácia. Qualquer movimento ainda mais para o oriente tê-los-ia levado para fora daquela província romana, tendo-os feito entrar no reino vassalo de Antíoco. Paulo e Silas, posteriormente, visitaram esse lugar em sua viagem na direção do ocidente, ao atravessarem a Ásia Menor (ver At 16:1). Outro dos companheiros de Paulo, em suas viagens missionárias, de nome Gaio, era natural de Derbe (ver At 20:4).

 

Ballance (em 1956) identificou Derbe tentativamente como Kerti Huyuk,

A cerca de vinte e um quilômetros a nordeste de Caraman(Laranda) e à cerca de noventa e sete quilômetros de Listra. Assim sendo, evidentemente o trecho de Atos 14:20b deveria ser traduzido: «...e na manhã seguinte partiu com Barnabé para Derbe». (Ver M. Ballance, -The Site of Derbe: A New Inscription», Ánatolian Studies, VII, 1957, págs. 147 e s.).

 

Não se sabe ao certo qual a localização das chamadas igrejas da Galácia, as quais são mencionadas na epístola de Paulo aos «Gálatas». Alguns eruditos acreditam que Paulo escreveu às igrejas localizadas principalmente em Listra, Derbe, Antioquia da Pisídia e Icônio, cidades do mais antigo território conhecido por Galácia. Esses estudiosos defendem a chamada «teoria da Galácia do Sul», a qual é defendida pela maioria dos estudiosos modernos. Mas outros creem que o apóstolo Paulo escreveu para algumas cidades não designadas por nome, pertencentes à província romana da Galácia. Supostamente esse grupo de igrejas ficaria situado um pouco mais para o norte, sobre cujo estabelecimento não possuímos qualquer registro histórico escrito. A província romana da Galácia derivou o seu nome do menor e mais nortista distrito da Galácia, que foi incluído na província romana do mesmo nome, que igualmente incorporava o Ponto, a Frigia, a Licaônia, a Pisídia, a Paflagônia e a Isáuria.

 

As jornadas de Paulo e Barnabé levavam-nos agora para uma área mais selvagem, menos civilizada. A cadeia do Tauro separa essa antiga área da região mais bem cultivada da Cilícia e da Pisídia. A área em que agora adentravam foi descrita, por antigos escritores, como ressequida, desnuda de árvores, destituída de água potável, coberta de diversos lagos salgados. Ovídio (Metaph. viii.621), com base em suas observações pessoais, diz-nos que aquela era uma terra

 

Onde homens antes habitaram, onde se vê um lago lamacento,

Onde galeirões e alcaravões buscam a água esverdeada».

 

No que diz respeito às descrições dessa área, feitas por Estrabão, ver xii. 6 de suas obras.

 

Nessa região de Listra o judaísmo era débil. Esse território selvagem não conseguiu atrair numerosa população judaica, embora a passagem de Atos 16:1-4 mostre que mesmo assim habitavam ali alguns judeus. Não há menção de qualquer sinagoga, quer em Listra ou em Derbe; contudo, se havia qualquer população judaica, então também havia alguma sinagoga.

 

Seja como for, parece-nos que, pela primeira vez, o apóstolo Paulo começou um trabalho de evangelização sem dirigir-se, «primeiramente», aos judeus, consoante sucedeu sempre noutras paragens, nas quais ele se dirigia, antes de tudo, à sinagoga judaica.

 

Paulo conheceu a Timóteo em Listra (ver At 16:1), sendo notável que lhe fora permitido chegar à idade adulta sem jamais ter sido circuncidado, embora sua mãe fosse judia. Isso demonstra quão menos proeminente e forte deve ter sido o judaísmo naquela região. Quão estranho, pois, que Paulo, a fim de agradar à exígua população dessa área, tenha feito Timóteo circuncidar-se! É possível que durante esse período Paulo se sentisse exausto da batalha, tendo feito uma concessão que jamais teria feito, quando menos exposto ao cansaço por causa do trabalho e das asperezas encontradas.

 

Paulo e Barnabé também trabalharam nas áreas ao derredor, cobrindo áreas ainda de menor importância, como as aldeias interioranas; e esse trabalho, quase certamente, se desenvolveu entre uma população puramente gentílica. Timóteo e Gaio são os mais bem conhecidos convertidos que resultaram dessa obra, nessas duas cidades de Listra e Derbe, bem como no território em geral. A julgar por essas descrições bíblicas, os missionários cristãos devem ter passado um tempo considerável naquela região.

 

14:7    e ali pregavam o evangelho.

 

Isto é, nas duas principais cidades da região, bem como no território em geral, tendo conduzido muitas pessoas aos pés de Cristo e tendo fundado certo número de igrejas cristãs. Devemos comparar com isso o trecho de At 16:5, que diz: «...Assim as igrejas eram fortalecidas na fé e aumentavam em número dia a dia...», que é um dos sumários editoriais do autor sagrado, observando o crescimento das igrejas cristãs, dos quais há diversos no livro de Atos. É bem provável que essas igrejas sejam as igrejas da «Galácia», para as quais Paulo escreveu a sua epístola aos Gálatas.

 

Paulo e Barnabé devem ter-se utilizado do idioma grego, o qual, pelo menos nas duas cidades principais, teria sido suficiente como veículo de comunicação; porém, é provável que os habitantes das cidades e aldeias do interior não falassem o grego, e que os missionários cristãos tenham tido de comunicar-se com eles no seu idioma nativo. (Ver o décimo primeiro versículo deste mesmo capítulo). Paulo e Barnabé, portanto, mui provavelmente empregaram a ajuda de discípulos de Antioquia da Pisídia e de Icônio, para que funcionassem como seus intérpretes.

 

«Os apóstolos, Paulo e Barnabé, não passaram o tempo a proferir queixas acerca das injustiças de que foram vítimas, mas antes, com uma atitude de ânimo, imediatamente deram reinicio ao trabalho que lhes fora designado por Deus». (Rieger, in loc.).

 

Bibliografia R. N. Champlin