A
FONTE DA IMPUREZA Mc 7.14-23
Jesus insiste em penetrar até o âmago
dos pensamentos e práticas. Ele deixa muito claro que a palavra de Deus é a
fonte da autoridade religiosa, não a tradição humana (7.1-13). Agora, ele
focaliza na fonte da impureza. Chamando a todos para o ouvirem atentamente,
Jesus conta uma parábola que vai até o centro do debate sobre a purificação.
Após afirmar um princípio geral sobre impureza (v. 15), ele oferece maiores
explicações aos discípulos em particular (vv. 17-23).
Estes ensinamentos preparam para os
próximos encontros (7.24ss), onde Jesus demonstra o
que ele havia ensinado ministrando aos gentios, tidos por alguns advogados da
lei ritual de purificação como a personificação da impureza.
7.14-16 - Os falsos
conceitos dos líderes religiosos agitam também as mentes das pessoas comuns.
Por isso, Jesus chama a multidão e exorta a todos: "Ouvi-me todos e
entendei". Jesus não se esquece da questão básica por detrás da acusação
dos líderes (7.1-5), ou seja, "Como pode alguém ser santo?" (Em outras
palavras: "Como pode alguém estar puro diante de Deus?").
Ao censurar os líderes religiosos por
abandonarem os mandamentos de Deus (v. 8), ele oferece a todos uma palavra de
Deus, apresentando uma verdade incomum que libertaria o cristianismo da
escravidão do legalismo.
Enquanto que as tradições humanas afirmam
que as influências externas são a causa da "impureza", Jesus afirma o
oposto: uma pessoa se torna impura por causa daquilo que está dentro de seu
coração. Essas palavras marcam uma diferença fundamental entre o reino de Deus
e o judaísmo farisaico. Jesus destacou o princípio de que o que é meramente
externo não pode purificar. Agora, ele enfatiza o oposto: aquilo que é
meramente externo não torna impura a natureza espiritual do homem. A natureza
moral humana é a fonte da impureza moral. O que contamina as pessoas não é o
que entra nelas, e sim o que vem de dentro delas mesmas.
7.17-19 - Tendo ouvido
este princípio em forma de parábola, os discípulos perguntam a Jesus o que isso
significa. A resposta dura de Jesus, "Assim vós também não
entendeis?" (v. 18a), não veio sem razão, pois os discípulos são
responsáveis por sua própria falta de entendimento. Dado o longo tempo que
estavam com Jesus, eles deveriam saber mais.
Os discípulos observam Jesus e
participam ativamente no ministério. No entanto, isso não é o suficiente. Jesus
está ensinando e treinando seus seguidores com o desejo de que eles compreendam
os princípios básicos por detrás do que ele ensina. Entretanto, essas questões
revelam que ainda há lacunas no seu entendimento da mensagem de Jesus.
Os ensinamentos de Jesus são tão
contrários aos conceitos populares que ele repete aos discípulos (vv. 18-20) as
verdades que ensinara à multidão (v. 15b). Para ter certeza de que nenhum
leitor perca esse ensinamento importante, Marcos também enfatiza seu
significado: "E assim considerou ele puros todos os alimentos" (v.
19).
7.20-23 - Jesus indica
algumas das coisas que vêm do coração humano e que contaminam o indivíduo; ele
menciona doze pecados. Os primeiros seis substantivos são plurais, referentes a
"sucessivos atos pecaminosos, à medida em que
emergem da fonte interior da corrupção humana; as tendências mais sutis para o
mal que se seguem estão no singular (v.22)". A lista não pretende ser
completa. Jesus enumera esses pecados a fim de que seus seguidores evitem
cometê-los, pois eles criariam barreiras entre os discípulos e quebrariam a
unidade na família de Deus (3.35).
Os maus pensamentos (dialogismoi, "imaginações más") são
significativamente indicados primeiro, pois além de serem pecaminosos em si,
eles não permanecem sozinhos. Eles concebem e dão vida a outros pecados (cf. Tg
1.14-15), alguns dos quais são mencionados na lista seguinte de ações e vícios
degradantes.
Dois dos seis substantivos no plural,
indicando más ações, nomeiam explicitamente pecados sexuais. Imoralidade sexual
(porneiai, geralmente traduzida por
"fornicação") é um termo genérico que inclui todo tipo de imoralidade
sexual. Adultério (moicheia) é um termo mais
restrito, denotando relacionamento sexual que envolve Infidelidade conjugal.
Mais tarde (10.2-12) Jesus enfatizará a fidelidade vitalícia à esposa como
sendo o propósito de Deus desde a criação. Imoralidade sexual tira a pureza
moral da pessoa, enquanto que o adultério rouba o que pertence ao casamento.
Dois outros tipos de roubo se seguem: roubar propriedade alheia (klopaí), e assassinato (phonoi)
que é roubar a vida de alguém.
Cobiça (pleonexiai)
é o desejo de se ter. Dentre suas muitas facetas, a cobiça deseja
ardentemente o que pertence a outros; ela almeja poder. A ganância é como uma
peneira que nunca fica cheia. E encontrada no coração daquele que busca a felicidade
nas coisas e não em Deus.
Malícia (poneriai)
descreve a pessoa que persegue ativamente o mal com o desejo de prejudicar.
Como Satanás (o "maligno", poneros),
tal pessoa busca corromper outros também.
Os seis substantivos seguintes
referem-se a vícios em si mesmos, começando com o engano (dolos, "dolo");
ilustrado mais tarde com os sacerdotes e mestres da lei (14.1). A lascívia (aselgia, "indecência, devassidão") significa
ressentimento contra todas as restrições morais e sociais. A pessoa lasciva
cinicamente desafia fazer, aberta e explicitamente, qualquer coisa que seus
desejos devassos e insolentes pretendam.
Inveja é um vício que começa com
pensamentos enciumados quando alguém olha com malícia sobre a propriedade de
outra pessoa. É também uma raiz de amargura que cresce, sempre produzido
mesquinhez para a pessoa e também causando problemas para os outros. (cf. Hb
12.15). Enquanto que ophtalmos poneros significa, literalmente, "um olhar maldoso".
O significado aqui é muito "longe" da mágica pagã por meio da qual
alguém, "lança maldição" sobre outra pessoa a fim de vingar-se.
Difamação (blasphemia)
aqui pode ser uma fala difamatória, abusiva contra outra pessoa, embora no
Antigo Testamento era sempre descrita como "uma
afronta à majestade de Deus". Arrogância (hyperephania)
pode não ser mostrada ostensivamente, mas o desprezo pelos outros inflama o
coração da pessoa com orgulho a ponto do indivíduo colocar-se contra Deus. E
como acontece com os outros vícios "Deus resiste aos soberbos"(Tg 4.6).
O último termo, "loucura"(aphrosyne) não se
refere a debilidade mental mas ao "homem que é moralmente e
espiritualmente insensível, ele não conhece e não deseja conhecer Deus".
Precisamos reconhecer que essa lista
retrata fielmente o mal que há no coração humano. Vemos os resultados desses
vícios nas páginas dos jornais. Admitimos que se escondem
no mais íntimo de nosso ser, ameaçando manifestar-se quando estivermos
suficientemente perturbados. Esses males não podem ser corrigidos por meio de
um ritual ou de uma dieta; não podem ser controlados pelas leis (civis ou
religiosas) por que são parte de nossa natureza
decaída. Eles vem "de dentro do coração do
homem" (v. 20).
O único remédio é um novo coração. É
mais difícil ter um coração limpo do que mãos limpas. De fato, é impossível ter
uma vida aceitável a Deus, com nossos corações contaminados longe de sua graça
purificadora. Jesus diz a cada um de nós para enfrentarmos a realidade de nosso
pecado por meio do arrependimento (1.15) e crer na misericórdia de Deus demonstrada
na morte de seu filho (10.45).
Nesses versículos, Marcos publica o
quadro da liberdade cristã (Rm 5.8) e alerta os crentes quanto à sua tendência
de criar regras extra bíblicas para si mesmos e para
os outros.
Tanto pensamentos como conduta são
importantes para Deus. Mas nenhum dos rituais religiosos do mundo pode mudar o
coração de uma pessoa. O evangelho trabalha de dentro para fora, provendo a
motivação interna necessária para adquirir caráter justo e para livrar-se
"de toda impureza e acúmulo de maldade"(Tg
1.21). Aquele que experimenta o governo de Deus é capaz de viver num plano de
vida diferente, pois "o homem bom tira boas coisas de seu bom tesouro"(Lc 6.45).
Bibliografia Dewey
M. Mulholland