Principados e potestades Ef 6.10-20

 

Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. 11Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; l2porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas re­giões celestes. 13Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer ina­baláveis. l4Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade, e vestindo-vos da couraça da justiça. l5Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; l6embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. 17Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; 18com toda ora­ção e súplica, orando em todo tempo no Espírito, e para isto com toda perseverança e súplica por todos os santos, l9e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para com intrepidez fazer conhecido o mistério do evangelho, 20pelo qual sou embaixa­dor em cadeias, para que em Cristo eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.

 

No estudo desta carta podemos maravilhar-nos com a amplitude da compreensão de Paulo. Ele começou desdobrando o propósito de Deus, concedido numa eternidade antes da fundação do mundo, para criar uma única nova raça humana através da morte e da ressurreição de Cristo e, finalmente, unir a igreja inteira e toda a criação sob a supremacia de Cristo como cabeça. Enfatizou que uma forma distintiva foi dada a este plano divino pela inclusão na nova sociedade de Deus, em completa igualdade, de judeus e gentios. Os dias antigos da divisão e da discriminação acabaram. Uma unidade completamente nova emergiu, onde, mediante a união com Cristo, os judeus e os gentios são membros iguais do mesmo corpo e coparticipantes iguais da mesma promessa. Desta maneira, agora um só Pai tem uma só família, um só Messias Salvador tem um só povo, e um só Espírito tem um só corpo. Estes são os fatos seguros do que Deus fez através de Cristo, e pelo Espírito formam a base sobre a qual Paulo passou a fazer seu eloquente apelo. Seus leito­res devem viver uma vida que é digna do seu chamamento e própria para sua posição de sociedade nova e reconciliada de Deus. Devem demons­trar sua unidade na comunhão cristã, ao mesmo tempo em que se rego­zijam na diversidade dos seus dons e, também, dos seus ministérios. De­vem despojar-se de toda a impureza do seu comportamento anterior à con­versão e viver uma vida de "justiça e de retidão procedentes da verdade". E devem aprender a submeter-se uns aos outros em todos os tipos de re­lacionamentos domésticos e assim promover a harmonia nos seus lares. A unidade, a diversidade, a pureza e a harmonia — estas o apóstolo res­saltou como características principais da nova vida e da nova sociedade em Cristo. Seria um belo ideal, um alvo obviamente desejável, e não tão difícil de ser atingido.

 

Agora, porém, Paulo nos traz de volta para a terra e, assim, para realidades mais duras do que os sonhos. Recorda-nos da oposição. Por bai­xo das aparências na superfície, está sendo travada furiosamente uma ba­talha espiritual invisível. Ele apresenta-nos o diabo, (já mencionado em 2:2 e 4:27) e certos principados e potestades sob seu comando. Não nos fornece nenhuma biografia do diabo, e nenhuma explicação da origem das forças das trevas. Admite a existência delas como um terreno comum entre ele e seus leitores. De qualquer maneira, seu propósito não é satisfazer a nossa curiosidade mas, sim, advertir-nos quanto à hostilidade des­sas forças e ensinar-nos a vencê-las. O plano de Deus é criar uma nova so­ciedade? Elas, então, farão de tudo para destruí-la. Deus, mediante Je­sus Cristo, quebrou as paredes que dividem os seres humanos de raças di­ferentes e de culturas diferentes, uns dos outros? Então, o diabo, através dos seus emissários, se esforçará para reedificá-las. Deus pretende que o seu povo reconciliado e redimido viva junto em harmonia e em pureza? Então os poderes do inferno espalharão entre eles as sementes da discór­dia e do pecado. É contra estes poderes que somos ordenados a guerrear, ou —para ser mais exato—- lutar (v. 12). Esta metáfora não é necessaria­mente incompatível com a do soldado armado que Paulo passa a desen­volver, como se tivesse "trocado o cenário do campo de batalha para o ginásio". Simplesmente quer enfatizar a realidade do nosso confronto com os poderes do mal, e a terrível realidade do combate corpo a corpo.

 

A transição abrupta dos "lares pacíficos e dias de saúde" dos pará­grafos anteriores para a malícia hedionda das tramas diabólicas deste parágrafo nos dá um susto doloroso que é, aliás, essencial. Todos nós gos­taríamos de passar a nossa vida em tranquilidade imperturbável, com os nossos entes queridos em casa e na comunhão do povo de Deus. O caminho do escapista, porém, foi eficazmente bloqueado. Os cristãos têm de enfrentar a perspectiva de um conflito com o inimigo de Deus, que tam­bém lhes defronta como inimigo. Precisamos aceitar as implicações des­ta passagem final da carta de Paulo. "É uma chamada emocionante pa­ra a batalha... Não escutas o clarim e a trombeta?... Estamos sendo despertados, estamos sendo estimulados, estamos sendo colocados em nos­sos pés; somos ordenados a ser homens. O tom inteiro é marcial, é varo­nil, é forte". Além disso, não haverá qualquer cessação de hostilidades, nem sequer uma trégua ou cessar-fogo temporário, até o fim da vida, ou da História, quando a paz do céu será alcançada. Parece claro que Paulo subentende isto ao dizer: Quanto ao mais... Os melhores manuscritos têm uma expressão que deve ser traduzida não como introdução à conclusão mas, sim, "a partir de agora" no sentido de "durante o tempo que resta". Se isto for correto, o apóstolo está indicando que todo o período interi­no entre as duas vindas do Senhor será caracterizado por conflitos. A paz que Deus fez através da cruz de Cristo deve ser experimentada somente em meio a uma luta sem tréguas contra o mal. E, para ela, a força do Senhor e a armadura de Deus são indispensáveis.

 

1. O inimigo que enfrentamos (vs. 10-12)

 

O conhecimento total do inimigo e um respeito sadio pelas suas proezas fazem um preliminar necessário para a vitória na batalha. Semelhantemente, se subestimarmos nosso inimigo espiritual, não veremos necessi­dade para a armadura de Deus, sairemos despreparados para a batalha, sem armadura alguma senão o nosso frágil esforço, e seremos rapidamente derrotados de modo vergonhoso. Deste modo, entre a chamada para buscarmos a força do Senhor e revestirmo-nos da armadura de Deus, de um lado (vs. 10-11), e sua lista detalhada de nossas armas, do outro lado (vs. 13-20), Paulo nos dá uma descrição completa e assustadora das forças organizadas contra nós (v. 12). Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, escreve, e, sim, contra os principados e potestades. Noutras palavras, nossa luta não é contra seres humanos, mas contra inteligências cósmicas; nossos inimigos não são humanos (Que "carne e sangue" significa "seres humanos" na sua presente natureza humana mortal fica claro em Mt 16:17; 1 Co 15:50; Gl l:16 e Hb 2:14.), mas demoníacos. Os leitores asiáticos de Paulo estavam bem familiarizados com este fato. Sem dúvida se lembravam — ou deviam ter ouvido contar o caso — do incidente dos exorcistas judeus em Éfeso que foram suficientemente atrevidos para procurarem expulsar espíritos malignos em nome de Jesus sem eles mesmos conhecerem o Jesus cujo nome invocavam. Ao invés de conseguirem o que tentavam, foram dominados pelo endemoninhado e fugiram em pânico, desnudos e feridos (At 19:13-17). Este tipo de acontecimento pode ter sido comum. É possível, pois, que os convertidos de Paulo tenham sido anteriormente diletantes nas ciên­cias ocultas, e depois tenham feito um fogaréu público dos seus valiosos livros de magia. Um desafio tão direto às forças do mal não deve ter pas­sado sem resposta (At 19:18-20).

 

As forças em ordem de batalha contra nós têm três características principais. Em primeiro lugar, são poderosas. Não sabemos se principados e potestades se referem a diferentes categorias na hierarquia do inferno, mas os dois títulos chamam a atenção ao poder e à autoridade que exer­cem. Também são chamados de os dominadores deste mundo tenebroso. A palavra kosmokratores era usada na astrologia para os planetas que, segundo se pensava, controlavam o destino da humanidade; os hinos órficos para Zeus; nos escritos rabínicos para Nabucodonosor e outros mo­narcas pagãos; e em várias inscrições antigas, para o imperador romano. Todos estes usos exemplificam a noção de um domínio de alcance mun­dial. Quando é aplicada aos poderes do mal, relembra a alegação do dia­bo de que podia dar a Jesus "todos os reinos do mundo", relembra o tí­tulo de "príncipe deste mundo" que Jesus lhe atribuiu, e ainda a decla­ração de João de que "o mundo inteiro jaz no maligno" (Mt 4:8-9; Jo 12:31; 16:11; 1 Jo 5:19. Cf. também Ef 2:2). Estes textos não negam a conquista decisiva por nosso Senhor dos principados e potesta­des mas, sim, indica que como usurpadores que são, não admitiram a der­rota nem foram destruídos. Deste modo, continuam a exercer poder considerável.

 

Em segundo lugar, são malignos. O poder propriamente dito é neu­tro; pode ser bem usado ou não. Nossos inimigos espirituais, porém, empregam seu poder destrutivamente ao invés de construtivamente, para o mal e não para o bem. São os dominadores deste mundo tenebroso. Odeiam a luz, e se retraem diante dela. As trevas são sua habitação natu­ral; as trevas da falsidade e do pecado. Também são descritos como sen­do as forças espirituais do mal, que operam nas regiões celestes, ou seja, na esfera da realidade invisível. São "os agentes secretos do mal" (CIN). Assim, portanto, as trevas e o mal caracterizam suas ações, e "o apareci­mento de Cristo na terra foi o sinal para uma explosão sem precedentes da atividade do poder do domínio das trevas controlado por estes domi­nadores mundiais". Se esperamos vencê-los, temos que ter em mente que não possuem qualquer princípio moral, nem código de honra, nem sentimentos mais nobres. Não reconhecem nenhuma Convenção de Genebra para restringir ou parcialmente civilizar as armas de sua guerra. São totalmente inescrupulosos, e implacáveis na procura de seus desígnios maldosos.

 

Em terceiro lugar, são astutos. Paulo escreve aqui das ciladas do diabo (v. 11), tendo declarado numa carta anterior que "bem sabemos o que está procurando fazer"(BV) ou "conhecemos bem os planos dele" (BLH). (2 Co 2:11) (G. B. Caird acha que ciladas "menospreza um pouco" como se Paulo "não levasse o diabo a sério", e "não muito em harmonia com a metáfora mi­litar de que aqui ele se vale". Sugere, em substituição, que "estratagemas daria a necessária combinação de sagacidade tática com engano engenhoso". Quando o diabo se transforma em anjo de luz, geralmente somos apanhados sem nada suspeitar. Isto porque raramente ele ataca desta for­ma, preferindo sempre as trevas à luz. É um lobo perigoso, mas também entra no rebanho de Cristo disfarçado de ovelha. Por vezes ruge como leão, mas muito frequentemente é sutil como a serpente (1 Pe 5:8; Gn 3:1). Não devemos ima­ginar, portanto, que a perseguição aberta e a tentação declarada para pecarmos são as suas únicas armas, ou mesmo as mais comuns que ele tem. Ele prefere seduzir-nos para entrarmos num meio-termo, e assim lograr-nos para nos levar ao erro. É significante que esta mesma palavra ciladas é traduzida pela ERAB em 4:14 como astúcia no caso dos falsos mestres com suas artimanhas. "Como na Guerra Santa de Bunyan", escreve E. K. Simpson, o diabo desenvolve "um dupla política infernal". Ou seja, "a tática de intimidação alterna-se com a da insinuação no plano de campanha de Satanás. Ele faz o papel do valentão bem como o do trapacei­ro. A força e a fraude constituem a sua ofensiva principal contra o arraial dos santos; ele reveza os dois métodos."

 

As ciladas do diabo tomam muitas formas, mas o seu maior êxito em astúcia é quando ele consegue persuadir as pessoas de que ele não existe. Negar a sua existência é expor-nos ainda às suas sutilezas. O Dr. Lloyd-Jones expressa seu ponto de vista sobre esta questão nos seguintes termos: "Estou certo de que uma das principais causas das más condições da igreja de hoje é o fato de que o diabo está sendo esquecido. Tudo é atribuído a nós mesmos; todos nós temos chegado a ser por demais psicológicos em nossas atitudes e em nossos pensamentos. Ignoramos este grande fato ob­jetivo, a existência do diabo, o adversário, o acusador, com seus dardos inflamados".

 

Na caracterização que Paulo faz dos poderes das trevas, no entanto, estes são poderosos, malignos e astutos. Como poderemos resistir aos as­saltos de tais inimigos? É impossível. Somos demasiadamente fracos e in­gênuos. Muitos, porém — senão a grande maioria — dos nossos fracas­sos e das nossas derrotas são devidos à nossa insensata autoconfiança quando descremos ou nos esquecemos quão formidáveis são os nossos ini­migos espirituais.

 

Apenas o poder de Deus pode defender-nos e livrar-nos da força, da maldade e da astúcia do diabo. É verdade que os principados e as potestades são fortes, mas o poder de Deus é mais forte ainda. Foi o seu poder que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos e o entronizou nas regiões celestes, e que nos ressuscitou da morte no pecado e nos entronizou com Cristo. É verdade que é naqueles mesmos lugares celestes, naquele mes­mo mundo invisível, que os principados e as potestades estão operando (v. 12). Foram, no entanto, derrotados na cruz e agora estão debaixo dos pés de Cristo e dos nossos. Assim sendo, o mundo invisível em que eles nos atacam e nós nos defendemos é o próprio mundo em que Cristo rei­na sobre eles e nós reinamos com Cristo. Quando Paulo nos conclama a fazer uso do poder, da força e da fortaleza do Senhor Jesus (v. 10), usa exatamente o mesmo trio de palavras que usou em 1:19 (dynamis, kratos e ischus) com relação à obra de Deus em ressuscitar Jesus dentre os mortos.

 

Duas exortações ficam lado a lado. A primeira é geral: Sede fortale­cidos no Senhor e na força do seu poder (v. 10). A segunda é mais especí­fica: Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderes ficar firmes contra as ciladas do diabo (v. 11). Os dois mandamentos são exemplos des­tacados do ensino equilibrado das Escrituras. Alguns cristãos são tão autoconfiantes que imaginam que podem defender-se sozinhos sem a for­ça e a armadura do Senhor. Outros estão tão desconfiados de si mesmo que imaginam que nada têm para contribuir para a vitória na guerra es­piritual. Ambos os tipos estão enganados. Paulo expressa uma combinação apropriada de capacitação divina e cooperação humana. O poder real­mente é do Senhor, e sem a força do seu poder falharemos e cairemos mas, mesmo assim, precisamos ser fortalecidos nele e na sua força. O verbo, pois, é um presente passivo que pode também ser traduzido "fortalecei-vos no Senhor" (BJ e ERC).

 

É a mesma construção de 2 Timóteo onde Paulo exorta Timóteo: "fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus". Semelhantemente, a armadura é de Deus e, sem ela, ficaremos fatalmente desprotegidos e expos­tos, mas de nossa parte há a necessidade de lançar mão dela e vesti-la. E realmente, devemos assim fazer, peça por peça, conforme o apóstolo passa a explicar nos versículos 13 a 17.

 

2. Os principados e as potestades

 

Até esta altura, tenho tomado por certo que Paulo, com "principados e potestades" referiu-se a inteligências demoníacas. Há uma teoria que es­tá cada vez mais em moda entre teólogos recentes e contemporâneos, no entanto, de que Paulo estaria aludindo-se mais a estruturas de pensamento (à tradição, à convenção, à lei, à autoridade, e até mesmo à religião), es­pecialmente conforme estão incorporadas no Estado e nas instituições. Conquanto um certo número de teólogos alemães tenham debatido esta possibilidade na década de 1930, no mundo da língua inglesa tem sido uma discussão de após a guerra. Tornou-se tão popular que penso que é ne­cessário primeiramente seguir a origem do seu desenvolvimento, e depois sujeitá-la a uma crítica.

 

Em 1952 foi lançado o livro de Gordon Rupp, Principalities and Powers, com o subtítulo "Studies in the Christian Conflict in History". Escrevendo sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, Rupp contrastou a "falta de coragem" do homem moderno com a "confiança exultante" e "valentia" dos cristãos primitivos ao enfrentarem o mal, e atribuiu es­ta última atitude à certeza deles acerca da vitória de Jesus sobre os prin­cipados e potestades. Paulo, com esta expressão, emprestada do pensa­mento apocalíptico judaico posterior, quis dizer "forças cósmicas sobre­naturais, uma vasta hierarquia de seres angelicais e demoníacos que ha­bitavam as estrelas e... eram os árbitros do destino humano", escravizan­do os homens "debaixo de um totalitarismo cósmico". O Dr. Rupp, po­rém, passou a aplicar o conceito "à gente pequena" que em todas as eras "se sentiram nada mais do que joguetes de grandes forças históricas", ora na Idade Média, ora na revolução industrial, e agora no século vinte em que se sentem vítimas de "grandes pressões econômicas e sociológi­cas". Concluiu: "No decorrer dos séculos, os principados e as potências têm assumido muitos disfarces. Aterrorizantes e mortíferos são eles, às vezes se espalhando pela terra em algum despotismo gigantesco, às vezes estreitados a um único impulso na mente de um só indivíduo. A luta pros­segue, no entanto. Para os crentes, há a certeza de um conflito até o fim. Há, porém, também a garantia da vitória!' O Dr. Rupp escreve mais co­mo um historiador do que como um teólogo. Sem qualquer argumento exegético, simplesmente transfere a expressão "principados e potestades" a forças econômicas, sociais e políticas.

 

No ano seguinte foi publicado o original em Holandês do monógrafo de Hendrik Berkhof, Christ and the Powers, depois de uma preleção fei­ta na Alemanha, em 1950. Sua tradução para o inglês por John Howard Yoder apareceu nos Estados Unidos em 1962. A tese do Professor Berkhof é que, embora Paulo tenha tomado emprestado o vocabulário "potestades" da literatura apocalíptica judaica, sua maneira de compreendê-lo era diferente: "Em comparação com os apocalipticistas, uma certa 'demitologização' ocorreu no pensamento de Paulo. Resumindo: os apocalipses pensam primariamente nos principados e nas potestades como sendo anjos celestiais; Paulo os vê como estruturas de existência ter­restre!' Reconhece que Paulo pode ter "concebido as potestades como sendo seres pessoais", porém "este aspecto é tão secundário que faz pou­ca diferença se assim pensava ou não". Desta maneira conclui que "de­vemos deixar de lado o pensamento de que as 'potestades' de Paulo se­jam anjos". A seguir identifica-as com as stoicheia tou kosmou ("espí­ritos elementares do universo") de Gálatas 4:3, 9, e Colossenses 2:8, 20, traduz a expressão por "potências mundiais" e sugere que estas podem ser vistas nas tradições humanas e nas regras religiosas e éticas.

 

O Dr. Berkhof passa a desenvolver o seu modo de entender o ensino de Paulo sobre as potestades com relação à criação, à queda, à redenção, e com relação ao papel da igreja. As potestades (a tradição, a moralida­de, a justiça e a ordem) foram criadas por Deus, mas se tornaram tirâni­cas e objetos de adoração. Assim tanto preservam quanto corrompem a sociedade. "O Estado, a política, a luta social, o interesse nacional, a opi­nião pública, a moralidade aceita, as ideias da decência, da humanida­de, da democracia" — todas estas coisas unificam os homens, ao passo que os separam do Deus verdadeiro. Mesmo assim, Cristo as venceu, porque mediante a cruz e a ressurreição foram "desmascaradas como deu­ses falsos", e "o poder para iludir" foi arrancado das suas mãos. Em consequência, os cristãos "desmascaram o engano das potestades" e ques­tionam a sua legitimidade, ao passo que outros, encorajados pela igre­ja, não se deixam escravizar ou intimidar. Deste modo, as potestades são "cristianizadas" (isto é, limitadas ao papel modesto e instrumental que Deus pretendeu) ou "neutralizadas". Mais especialmente, "o Espírito Santo reduz as potestades diante do olho da fé", de modo que o crente com discernimento as vê em suas verdadeiras proporções como criaturas (seja o nacionalismo, o estado, o dinheiro, a convenção ou o militarismo) e evita que o mundo seja deificado. Mais positivamente, a igreja tanto anuncia às potestades mediante a qualidade e a unidade da sua vida "que o seu domínio ininterrupto chegou ao fim" quanto trava uma guerra defensiva contra elas a fim de "manter... sua sedução e sua escravização a uma boa distância". Esta declaração é a explicação de Efésios 3:10 e da guerra defensiva de 6:10-17 dada por Dr. Berkhof.

 

Uma terceira apresentação deste conceito das Potestades foi feita em 1954 por G. B. Caird numa série de preleções no Canadá, que foram pu­blicadas em 1950 com o título Principalities and Powers, A Study in Pauline Theology. É um estudo bíblico mais cuidadoso do que qualquer um dos livros até agora citados, embora pessoalmente eu não possa abor­dar com qualquer grau de confiança uma obra que não só se refere a "ló­gica falha e à exegese igualmente falha" de Paulo, como também menciona "a insuficiência dos argumentos espúrios de Paulo". Afirmando na sua introdução que "a ideia de potestades mundiais sinistras e sua subjugação por Cristo é embutida no próprio sistema do pensamento de Pau­lo", o Dr. Caird passa a isolar três "potestades" principais. A primeira é "a religião pagã e a potência pagã", inclusive o Estado, e interpreta Efé­sios 3:10 no sentido de que o ensino ali contido é que estas já começa­ram a ser redimidas através da ação social cristã. A segunda potestade é a lei, que é boa em si mesma, porque é de Deus, mas quando é "exalta­da em um sistema independente de religião, torna-se demoníaca". A ter­ceira potestade diz respeito àqueles elementos recalcitrantes na natureza que resistem ao domínio de Deus, inclusive as feras, as enfermidades, as tempestades e a escravidão da natureza inteira à corrupção. Desta maneira, "o conceito de Paulo quanto ao dilema do homem" é o seguinte: "Ele vi­ve sob autoridades nomeadas por Deus — os poderes do estado, os po­deres da religião legalista, os poderes da natureza — que através do pe­cado se tornaram em agências demoníacas. Esperar que o mal seja der­rotado por qualquer um destes poderes, pela ação do Estado, pela autodisciplina da consciência, ou pelos processos da natureza, é pedir que Satanás expulse Satanás. As potestades podem ser despojadas da sua influên­cia tirânica e levadas à sua correta sujeição a Deus somente na cruz."

 

No comentário sobre Efésios publicado vinte anos depois de Principalities and Powers, o Dr. Caird parece mais disposto a conceder que Paulo estivesse se referindo a "seres espirituais que presidem sobre todas as formas e estruturas de poder operantes na vida corpórea dos ho­mens". Na realidade, "os inimigos verdadeiros são as forças espirituais que ficam por detrás de todas as instituições de governo, e que controlam as vidas dos homens e das nações."

 

O único autor que mencionarei pelo nome é o Dr. Markus Barth, cujo livro The Broken Wall (A Study of the Epistle to the Ephesians) foi publicado em 1959, e cujos dois volumes monumentais na série Anchor Bible surgiram em 1974. No primeiro livro, ele identifica os principados e potestades "com referência a quatro aspectos do pensamento e da termi­nologia de Paulo", a saber, o Estado (autoridades políticas, judiciais, eclesiásticas), a morte, a moral e a lei ritual, e as estruturas econômicas, in­clusive a escravidão. "Concluímos que com principados e potestades Paulo refere-se ao mundo de axiomas e princípios da política e da religião, das ciências econômicas e da sociedade, da moral e da biologia, da história e da cultura", e, portanto, "é da essência do evangelho incluir declarações concernentes às situações, dogmas e problemas políticos, sociais, econô­micos, culturais e psicológicos".

 

Na sua obra posterior em dois volumes, no entanto, fico com a níti­da impressão de que o Dr. Barth está disposto a conceder a Paulo uma continuada crença "mitológica" ou "supersticiosa" (segundo o modo de Barth encarar o assunto) nos poderes sobrenaturais. Parece estar procu­rando algum tipo de meio-termo inquieto entre as duas interpretações. Por isto ele diz: "Paulo denota os seres angelicais ou demoníacos que residem nos céus", embora haja uma "associação direta entre estes principados e potestades celestes com as estruturas e as instituições da vida na terra". Além disso, "os 'principados e potestades' são, ao mesmo tempo, entidades espirituais intangíveis e estruturas ou instituições concretas, históricas, so­ciais ou psíquicas".

 

Minha primeira reação a esta tentativa de reconstrução, da qual dei quatro exemplos, é de admiração por sua engenhosidade. Os citados estudiosos empregaram muita perícia em sua determinação de fazer essas não muito claras referências de Paulo às potestades celestiais referirem-se de modo relevante às nossas presentes situações deste mundo. Daí o atra­tivo desta teoria, que certo número de autores de formação evangélica tam­bém começaram a adotar. Mas daí, também, seu caráter suspeito. Alguns, pois, estão reconhecendo com grande simplicidade os dois embaraços que os levaram a abraçá-la. Em primeiro lugar, dizem, a interpretação tradi­cional refletia uma cosmovisão arcaica, com anjos e demônios, não muito longe de fantasmas e espíritos das sessões mediúnicas. Em segundo lu­gar, não podia achar no Novo Testamento alusão alguma a estruturas so­ciais, sendo que estas se tornaram uma preocupação moderna de relevân­cia. Então, de repente, uma nova teoria é proposta, teoria que soluciona os dois problemas simultaneamente. Perdemos os demônios e ganhamos as estruturas, pois os principados e as potestades são estruturas disfarçadas!

 

Seria errado, no entanto, rejeitar a nova teoria porque talvez suspeitemos das pressuposições que levaram as pessoas a propô-la ou aceitá-la. O que é necessário em ambos os lados é um trabalho exegético mais sé­rio, pois a nova teoria "não está comprovada" e deixou, segundo julgo, de convencer a maioria dos exegetas. Tudo quanto posso ensaiar aqui é uma crítica introdutória. É verdade que o vocabulário "principados e po­testades" (archai e exousiai) às vezes é usado no Novo Testamento para autoridades políticas. Por exemplo, os sacerdotes judaicos procuravam al­gum meio de entregar Jesus "à jurisdição e autoridade (archê e exousia) do governador" (Lc 20:20). Naquele versículo, as palavras estão no singular. Jesus também advertiu seus seguidores de que seriam levados perante "os go­vernadores e as autoridades", ao passo que Paulo mandou que seus lei­tores fossem sujeitos "aos que governam, às autoridades" ou "às autori­dades superiores" (Lc 12:11; Tt 3:1; Rm 13:1-3), sendo que em todas estas passagens as palavras exou­siai e archai ou archontes ocorrem juntas e no plural. Além disso, e cada caso o contexto deixa claro, sem ambiguidade, que autoridades humanas estão em consideração.

 

Nos outros contextos, no entanto, em que as mesmas palavras são normalmente traduzidas por "principados e potestades", não fica claro, de modo algum, que a referência diz respeito às estruturas políticas ou à au­toridades judaicas. Pelo contrário, a suposição a priori de gerações de in­térpretes é que se referem a seres sobrenaturais. Não devemos nos surpreen­der pelo fato de terem recebido os mesmos nomes e títulos dos governantes humanos, visto que "pensava-se que tinham uma organização política" e que são "governantes e funcionários do mundo dos espíritos". Con­fesso achar as reconstruções dos novos teóricos não somente engenhosas, como também artificiais ao ponto de terem sido inventadas.

 

Tomemos como exemplos as três referências principais aos principa­dos e potestades em Efésios. A interpretação natural de 1:20-21 não é que Deus exaltou Jesus acima de todos os governantes e instituições terrestres, tornando-o "Rei dos reis e Senhor dos Senhores" (embora também isso seja verdade e este pensamento possa ser incluído), visto que o âmbito em que foi supremamente exaltado é, conforme foi expressamente dito, "nos lugares celestiais" à direita de Deus. Depois, para mim é extremamente forçado sugerir que em 3:10 Paulo realmente esteja dizendo que é para estruturas de poder na terra que a multiforme sabedoria de Deus é tor­nada conhecida pela igreja. Para os que o interpretam assim, a alusão aos "lugares celestiais" é, mais uma vez, um acréscimo que não se encaixa bem. E em terceiro lugar, declara-se especificamente que a guerra espiritual do cristão "não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades", o que significa: "não contra forças humanas, mas, sim, contra forças demoníacas". As alusões aos "dominadores deste mundo tenebroso" e às "forças espirituais do mal", juntamente com a armadura e as armas necessárias para resistir-lhes, são muito mais apropriadas para poderes sobrenaturais, especialmente num contexto que duas vezes menciona o dia­bo (vs. 11 e 16), enquanto que, além disso, há o acréscimo de "nas regiões celestes", que dificilmente se ajeita na teoria deles. Na realidade, não achei nenhum novo teórico que leve em conta adequadamente o fato de que as três referências aos principados e potestades em Efésios também contêm uma referência às regiões celestes, ou seja, o mundo invisível da realida­de. É uma teimosia, como se Paulo fosse deliberadamente explicar quem são os principados e as potestades, e onde operam. De fato, as seis eta­pas no drama dos principados e potestades — sua criação original, sua queda subsequente, sua conquista decisiva por Cristo, o que aprenderem através da igreja, sua continuada hostilidade, e sua destruição final (Para a criação deles, ver Cl 1:16; sua queda é subentendida porque Cristo precisou conquistá-los; para a conquista deles ver Ef 1:20-22; Cl 2:15; Rm 8:38 e 1 Pe 3:22; para aprendizagem deles, Ef 3:10; para sua hostilidade, Ef 6:12 e para sua destruição final, 1 Co 15:24.) — todas parecem aplicar-se mais logicamente a seres sobrenaturais do que a estruturas, a instituições e a tradições.

 

Voltando-se agora das considerações exegéticas para as teológicas, ninguém pode dizer que o Jesus retratado nos evangelhos não acreditava nos demônios e nos anjos. Isso poderia ter ocorrido, pois os saduceus não acreditavam. O exorcismo, no entanto, foi para Cristo parte integrante do seu ministério de compaixão, e um dos sinais principais do reino. É re­gistrado, também, que ele falava sem inibições acerca dos anjos (Por ex. Mt 26:53; Mc 12:25; Lc 15:10; 16:22). Se, pois, Jesus Cristo nosso Senhor acreditava neles e falava deles, por que ficaremos nós envergonhados de neles crer? Os apóstolos receberam de Jesus esta crença. Bem à parte das referências aos principados e às potes­tades, há numerosas outras alusões aos anjos, feitas por Paulo, por Pe­dro e pelo autor de Hebreus (Por ex. Rm 8:38; 1 Co 4:9; 1 Tm 5:21; 1 Pe 1:12; 3:22; Hb 1:4-2:9; 12:18-24). Ora, os comentaristas têm toda a liberda­de, se a teologia deles assim lhes permite de discordar de Jesus e dos após­tolos, e de repudiar as crenças acerca dos seres sobrenaturais como sen­do "mitológicas" ou "supersticiosas", e de procurar "desmitologizar" o ensino deles. Isto, porém, é algo bem diferente de tentar argumentar que o nosso Senhor e os apóstolos não tenham ensinado aquilo que, durante séculos, a grande maioria dos comentaristas sempre aceitaram como ver­dadeiro ensino de Jesus. Razões exegéticas muito fortes, e não apenas um forte apelo, seriam necessárias para derrubar este ponto de vista quase universal de entender a Bíblia.

 

Finalmente, ao reafirmar que os principados e potestades são seres sobrenaturais, pessoais, não estou dizendo, de modo algum, que os mes­mos não possam usar estruturas, tradições, instituições, etc, para o bem ou para o mal. Estou apenas desejando evitar a confusão que advém de identificá-las com esses seres. Que as estruturas sociais, políticas, judiciais e econômicas possam tornar-se demoníacas, isso é evidente para quem te­nha considerado que o Estado, que em Romanos 13 é ministro de Deus, tornou-se, em Apocalipse 13, aliado do diabo. De modo semelhante, a lei moral que Deus deu para o bem do homem levou-o à escravidão huma­na e foi explorada pelos "espíritos elementais do universo" (Gl 3:19-4:11). Toda boa dádiva de Deus pode ser pervertida para usos malignos. Se, porém, iden­tificarmos "as potestades" com estruturas humanas de um tipo ou de ou­tro, em decorrência haverá sérias consequências. Primeiro, falta-nos uma explicação adequada de por que as estruturas tão regularmente, mas nem sempre, se tornam tirânicas. Em segundo lugar, restringimos de modo in­justificável o nosso entendimento da atividade malévola do diabo, ao passo que ele é por demais versátil para limitar-se àquilo que é estrutural. Em terceiro lugar, tornamo-nos por demais negativos para com a sociedade e suas estruturas. As potestades, pois, são malignas, destronizadas, e deve-se lutar contra elas. Se, pois, potestades são estruturas, esta fica sendo a nossa atitude para com as estruturas. Achamos difícil acreditar ou dizer qualquer coisa boa acerca delas, pois parecem ser tão corruptas. Os defensores da nova teoria nos advertem contra a deificação das estruturas; eu quero adverti-los contra a demonização delas. São dois extremos a se­rem evitados. Sem dúvida alguma, a igreja, como a nova sociedade de Deus, deve questionar os padrões e os valores da sociedade contemporâ­nea, desafiá-los, e demonstrar uma alternativa viável. Se, porém, Deus abençoar o testemunho dela, talvez algumas estruturas possam ser trans­formadas para o bem e o que acontecerá, então, à nova teologia das potestades?

 

3. A armadura de Deus (vs. 13-20)

 

O propósito de vos revestirdes de toda a armadura de Deus é para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo (v. 11), para que possais resis­tir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

 

Estai, pois, firmes... Esta quádrupla ênfase dada à necessidade de "ficar firme" ou "resistir" demonstra que o apóstolo se preocupa com a estabilidade cristã. Cristãos instáveis que não têm os pés firmes em Cristo são uma presa fácil para o diabo. E cristãos que tremem como taquara e canas não podem resistir ao vento quando os principados e as potestades começam a soprar. Paulo deseja ver os cristãos tão fortes e estáveis que fiquem firmes até mesmo contra as ciladas do diabo (v. 11) e até mesmo no dia mau, ou seja: num tempo de pressão especial. Para tal estabilidade, tanto de caráter como na crise, a armadura de Deus é essencial.

 

A expressão toda a armadura de Deus traduz a palavra grega panóplia, que é "a armadura completa de um soldado pesadamente armado" (AG) embora "os aspecto divino, mais do que o caráter completo do equipamento, é que é enfatizado". A lição é que este equipamento é "feito e fornecido" por Deus. No Antigo Testamento, é o próprio Deus que é retratado como um guerreiro lutando para vindicar o seu povo: "Vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na ca­beça!'(Is 59:17). Até hoje as armas e a armadura continuam sendo dele, mas agora as compartilha conosco. Temos de vestir a armadura, pegar em armas, e ir à guerra contra as potestades do mal.

 

Paulo alista em detalhes as seis peças principais do equipamento do soldado — o cinto, a couraça, as botas, o escudo, o capacete, e a espada — e emprega-as como ilustrações da verdade, da justiça, do evangelho da paz, da fé, da salvação e da Palavra de Deus, que nos equipam em nossa luta contra as potestades. Paulo estava bem familiarizado com os solda­dos romanos. Encontrava-se com muitos deles em suas viagens, e quan­do ditava Efésios, estava acorrentado a um deles, pelo pulso. Paulo refere-se à sua cadeia no versículo 20. E embora fosse improvável que semelhante guarda usasse a plena armadura de um soldado da infantaria no campo da batalha, mesmo assim, vê-lo de perto pode muito bem ter-lhe desper­tado a imaginação.

 

Em 1655, o ministro puritano William Gurnall "pastor da igreja de Cristo em Lavenham, Suffolk" (conforme se identificava a si mesmo), pu­blicou o tratado The Christian in Complete Armour. Seu subtítulo é tão minucioso, que para lê-lo é necessário respirar fundo: A guerra dos san­tos contra o Diabo, em que efeito o desmascaramento daquele grande ini­migo de Deus e do seu povo, nas suas políticas, no seu poder, na sede do seu império, na sua maldade, e no desígnio principal que tem contra os santos; em que é aberto um arsenal de onde o cristão é suprido com ar­mas espirituais para a batalha, ajudado a vestir uma armadura; juntamente com o resultado feliz da guerra inteira. Na dedicatória do livro aos seus paroquianos, refere-se a si próprio modestamente como ministro "pobre" e "indigno" deles, e ao seu tratado como sendo apenas uma "migalha" e um "pequeno presente" para eles. Apesar disso, a oitava edição, de 1821, ocupa três tomos, 261 capítulos e 1.472 páginas, embora seja uma expo­sição de apenas onze versículos.

 

Deixem-me fazê-los apreciar um pouco da espiritualidade de Gurnall. A respeito da armadura de Deus, ele escreve: "No céu, comparece­remos não com armadura, mas vestindo roupas de glória; aqui, porém, elas (ou seja, as peças de armadura especificadas) devem ser usadas noi­te e dia. Devemos andar, trabalhar e dormir vestidos com elas, senão, não somos verdadeiros soldados de Cristo!'. Com esta armadura devemos ficar em pé e vigiar, e nunca relaxar a nossa vigilância, pois "o tempo em que os santos dormem é o tempo em que Satanás vai tentar; qualquer mos­ca ousa aventurar-se a andar num leão adormecido". Continua, citan­do como exemplos Sansão (cujos cabelos foram cortados por Dalila en­quanto ele dormia), o rei Saul (cuja lança foi furtada por Davi enquanto ele dormia), Noé (que, enquanto estava num sono ébrio, foi de alguma maneira maltratado pelo seu filho) e Êutico (que dormia enquanto Pau­lo pregava).

 

O Dr. Martyn Lloyd-Jones, já em nossos dias, escreveu uma excelente e ampla exposição dos mesmos onze versículos em dois volumes, chamada The Christian Warfare e The Christian Soldier, com um total de 736 pá­ginas. Há vinte e um capítulos no primeiro volume sobre "as ciladas do diabo", que descrevem alguns dos ataques mais sutis do diabo ao povo de Deus (em três âmbitos: da mente, da experiência, e da prática ou condu­ta) e que destacam como precisamos ficar de sobreaviso. Estas páginas estão cheias de conselhos sábios de um pastor experimentado.

 

A primeira peça com que devemos nos equipar, que Paulo mencio­na, é o cinto da verdade: cingindo-vos com a verdade (v. 14). Usualmente feito de couro, o cinto do soldado pertencia mais à sua roupa de baixo do que à armadura. Mesmo assim, era essencial. Prendia a túnica, e também segurava a espada. Garantia que não sofreria impedimento algum ao mar­char. Ao afivelar o cinto, o soldado recebia uma sensação de força e de confiança escondidas. Isso ainda hoje é verdade. "Apertar o cinto" pode significar não somente um tempo de austeridade durante uma carestia de alimentos, como também preparar-se para a ação, o que os antigos teriam chamado de "cingir os lombos".

 

Ora, o cinto do soldado cristão é a "verdade". Muitos comentaris­tas, especialmente nos primeiros séculos, entendiam que isto significava "a verdade", a revelação de Deus em Cristo e nas Escrituras. Afinal, somente a verdade pode dissipar as mentiras do diabo e nos libertar (Cf. Jo 8:31-36, 43-45), e Paulo já se referiu várias vezes nesta carta à importância e ao poder da verdade (Por ex. 4:21; 5:6, 9). Outros comentaristas, no entanto, especialmente porque o ar­tigo definido está ausente na frase grega, preferem entender que Paulo es­teja se referindo à verdade no sentido de sinceridade ou integridade. Cer­tamente Deus requer "a verdade no íntimo", e o cristão deve ser honesto e verdadeiro a todo custo (Sl 51:6; Ef 4:15, 25). Ser enganador, cair na hipocrisia, apelar para intrigas e complôs, seria fazer o jogo do diabo, e não poderemos vencê-lo seguindo suas próprias regras. O que o diabo abomina é a verdade trans­parente. Ele ama as trevas. A luz o põe em fuga. Tanto para a saúde espi­ritual como mental, a honestidade sobre si mesmo é indispensável.

 

Talvez não precisemos ficar com uma só dessas duas alternativas. O judicioso Gurnall escreve: "Uns querem dizer, com verdade, uma verdade de doutrina; outros querem que seja a verdade do coração, a sinceri­dade; penso que é melhor juntar as duas... uma não bastará sem a outra!'

 

O segundo item do equipamento do cristão é a couraça da justiça (v. 14). Alguns expositores têm sustentado que na armadura de Deus, embora haja uma couraça, nenhuma proteção é fornecida para as costas. Passam, então, a argumentar que devemos enfrentar o nosso inimigo com cora­gem e não fugir dele, expondo as nossas costas desprotegidas. John Bunyan ensinou esta lição em O Peregrino. Quando Cristão entrou no Vale da Hu­milhação, "saiu-lhe ao encontro um abominável demônio, chamado Apolião. Cristão teve medo, e começou a refletir se seria melhor fugir ou conservar-se firme no seu posto. Mas lembrou-se de que a armadura não lhe protegia as costas, e que, portanto, voltá-las ao inimigo seria dar-lhe grande vantagem, porque poderia feri-lo com as suas setas. Decidiu-se, então, a enfrentar e a manter-se firme." É um bom conselho espiritual, mas permanece sendo um exemplo duvidoso de exegese bíblica, porque a couraça do soldado frequentemente cobria as costas bem como a fren­te, e era sua peça principal de armadura, protegendo quase todas as suas partes vitais.

 

Numa carta anterior, Paulo escreveu "revestindo-nos da couraça da fé e amor" (1 Ts 5:8), mas aqui, como em Isaías 59:17, a couraça consiste na jus­tiça. Ora, "justiça (dikaiosynê) nas cartas de Paulo significa, frequentemente, justificação, ou seja, a iniciativa graciosa de Deus em fazer com que os pecadores fiquem de bem consigo através de Cristo. É esta, então, a couraça do cristão? Certamente nenhuma proteção espiritual é maior do que um relacionamento justo com Deus. Ter sido justificado pela sua graça mediante a simples fé em Cristo crucificado, ser vestido numa jus­tiça que não é sua própria, mas a de Cristo, ficar em pé diante de Deus, não condenado, mas sim aceito, esta é uma defesa essencial contra uma consciência acusadora e contra os ataques caluniadores do maligno, cu­jo nome hebraico ("Satanás") significa adversário e cujo título em Gre­go (diabolos, "diabo") significa caluniador. "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus... Quem intentará acu­sação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os con­denará? É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós!' (Rm 8:1, 33-34). Esta é a certeza cris­tã da justiça, ou seja, de um relacionamento correto com Deus mediante Cristo. É uma forte couraça para nos proteger contra as acusações satânicas.

 

Do outro lado, o apóstolo escreveu em 2 Coríntios 6:7 acerca das "armas da justiça, à direita e à esquerda" (ERC), aparentemente no sentido de justiça moral, e empregou a mesma palavra com o mesmo sentido em Efésios 4:24 e 5:9. Desta forma, a couraça do cristão pode ser a justiça de caráter e de conduta, a retidão. Pois assim como cultivar a verdade é a maneira de derrubar os enganos do diabo, assim também cultivar a jus­tiça, neste sentido, é a maneira de resistir às suas tentações.

 

Alternativamente, tal como acontece com os dois possíveis signifi­cados de verdade, assim também ocorre com os dois possíveis significa­dos de justiça. Bem pode ser correto combiná-los, visto que, conforme o evangelho de Paulo, um deles invariavelmente leva ao outro. Como G. G. Findlay expressa: "A qualidade completa do perdão para delitos passados e a integridade de caráter que pertencem à vida justificada estão tecidas juntas numa malha impenetrável!'.

 

As botas do evangelho vêm em seguida na lista. Conforme Markus Barth, há concordância entre os comentaristas de que Paulo "tem em men­te a caliga (a "meia bota") do legionário romano, que era feita de couro, deixava os dedos do pé livres, tinha solas pesadamente cravejadas, e era fixa nos calcanhares e nas canelas com tiras de couro mais ou menos or­namentais. Estas "equipavam-no para marchas longas e para tomar po­sição firmemente... Embora não impedissem a sua mobilidade, evitavam que o pé deslizasse!'.

 

Ora, as botas do soldado cristão são a preparação do evangelho da paz (v. 15). "Preparação" é a tradução de hetoimasia, que significa "prontidão", "preparo" ou "firmeza". Não sabemos, porém, se o genitivo que se segue é subjetivo ou objetivo. No primeiro caso, a referência diz res­peito a uma certa firmeza ou qualidade inabalável que o evangelho dá àqueles que nele creem, como a firmeza que as botas fortes dão para aque­les que as usam. A BV entende assim e parafraseia: "Calcem sapatos que possam fazê-los andar depressa ao pregarem a Boa Nova da paz com Deus!' E, certamente, se recebemos as boas novas, e estamos desfrutan­do da paz com Deus e de uns com os outros, paz que as boas novas nos trazem, temos o apoio mais firme possível para nossos pés, com o qual podemos lutar contra o mal.

 

O genitivo, no entanto, pode ser objetivo, e neste caso os sapatos do soldado cristão são "o entusiasmo para anunciar as Boas-Notícias de paz" (BLH). Não pode haver dúvida de que sempre devemos estar prontos para dar testemunho de Jesus Cristo como pacificador da parte de Deus (2:14-15) e também — conforme Paulo escreve numa passagem paralela em Colossenses (Cl 4:5, 6) — dar respostas graciosas, "temperadas com sal" a per­guntas que os de fora nos fazem. Semelhante prontidão "nas pontas dos pés" tem uma influência muito estabilizadora sobre a nossa própria vi­da, além de apresentar a outras pessoas o evangelho que liberta. Quanto a mim, inclino-me levemente para esta explicação, em parte por causa do paralelo em Colossenses, e em parte por causa dos leves ecos de 2:17 ("e, vindo, evangelizou paz a vós outros") e de Isaías 52:7 ("Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz"). Conforme Johannes Blauw escreveu, "a obra missionária é como um par de sandálias que foi dado à igreja a fim de que ela se coloque no cami­nho e continue andando para tornar conhecido o mistério do evangelho".

 

De qualquer maneira, o diabo odeia o evangelho por ser o poder de Deus para salvar as pessoas da sua tirania satânica, salvando tanto nós que recebemos esse evangelho quanto aqueles com que o participamos. Por isto, precisamos conservar atadas as nossas botas do evangelho.

 

Nossa quarta peça da armadura é o escudo da fé (v. 16), que deve­mos embraçar não tanto "sobretudo" (ERC) como se fosse a mais impor­tante dentre todas as armas mas, sim, sempre, (ERAB) como algo indispensável. A palavra que Paulo emprega denota, não o pequeno escudo re­dondo que deixava a maior parte do corpo desprotegida mas, sim, o lon­go escudo retangular, medindo 1,2 metros por 0,75, que cobria a pessoa inteira. Seu nome em Latim era scutum. "Consistia em... duas camadas de madeira coladas juntas, e cobertas primeiramente com linho e depois com couro: era fixado com ferro em cima e em baixo!'69 Era especialmen­te projetado para apagar os perigosos mísseis incendiados que eram em­pregados, especialmente as flechas mergulhadas em paz, que eram acen­didas e atiradas.

Quais, pois, são todos os dardos inflamados do maligno, e com que escudo os cristãos podem proteger-se? Os dardos do diabo sem dúvida in­cluem suas acusações maliciosas que inflamam a nossa consciência com aquilo que (se estamos abrigados em Cristo) somente pode ser chamada de falsa culpa. Outros dardos são indesejados pensamentos de dúvida e de desobediência, de rebeldia, de concupiscência, de malícia ou de me­do. Há, porém, um escudo com o qual podemos apagar ou extinguir to­dos estes dardos com pontas de fogo. É o escudo da fé. O próprio Deus é "escudo para os que nele confiam" (Pv 30:5), e é pela fé que fugimos para ele, procurando refúgio. A fé, pois, toma posse das promessas de Deus em tem­pos de dúvida e de depressão, e a fé toma posse do poder de Deus em tem­pos de tentação. Apolião zombou de Cristão com a ameaça: "Vou arrancar-te a alma!' "E, ao mesmo tempo" Bunyan continua, "expeliu com grande força um dardo de fogo contra o peito de Cristão. Este, que tinha o escudo no braço, aparou com ele o golpe e escapou do perigo!'

 

O capacete do soldado romano, que é a peça da armadura que apa­rece em seguida na lista, usualmente era feito de um metal resistente, tal como o bronze ou o ferro. "Um forro interno de feltro ou de esponja tornava o peso tolerável. Nada, senão um machado ou um martelo, poderia furar um capacete pesado, e em alguns casos um visor móvel dava uma melhor proteção frontal." Os capacetes eram decorativos e protetores, e alguns tinham plumas ou cristas magníficas.

 

Segundo uma declaração anterior de Paulo, o capacete do soldado cristão é "a esperança da salvação" (1 Ts 5:8), ou seja, a nossa certeza da salva­ção futura e definitiva. Aqui, em Efésios, é simplesmente o capacete da salvação (v. 17) que devemos tomar e usar. Mas se a proteção para a nos­sa cabeça é a medida de salvação que já recebemos (o perdão, a liberta­ção da escravidão a Satanás, e a adoção na família de Deus) ou a expec­tativa confiante da plena salvação no último dia (inclusive a glória da res­surreição e a semelhança a Cristo no céu), não há dúvida de que o poder salvífico de Deus é a nossa única defesa contra o inimigo das nossas al­mas. Charles Hodge escreveu: "o que adorna e protege o cristão, que o capacita a levantar a cabeça com confiança e alegria, é o fato de ser salvo" e, poderíamos acrescentar, de saber que a sua salvação será aperfei­çoada no fim.

 

A sexta e última arma a ser especificada é a espada (v. 17). De todas as seis peças da armadura ou arsenal alistadas, a espada é a única que pode claramente ser usada tanto para defesa quanto para o ataque. Além dis­so, o tipo de ataque em mira envolverá um encontro pessoal bem de per­to, pois a palavra empregada é machaira, a espada curta. É a espada do Espírito que passa imediatamente a ser identificada como sendo a pala­vra de Deus, embora no Apocalipse seja vista procedendo da boca de Cris­to (Ap 1:16; 2:12; 19:15; cf. Is 11:4; Os 6:5). Pode muito bem incluir as palavras de defesa e de testemunho que, como Jesus prometeu, o Espírito Santo colocará nos lábios dos seus se­guidores quando forem arrastados diante dos magistrados (Mt 10:17-20). Mas a expressão "a palavra de Deus" tem uma referência muito mais ampla do que aquela, a saber, às Escrituras, à palavra de Deus escrita, cuja origem é re­petidas vezes atribuída à inspiração do Espírito Santo. Ainda hoje é a es­pada divina porque o Espírito ainda a emprega para cortar as defesas das pessoas, ferir suas consciências e despertá-las espiritualmente com sua ação penetrante. Mesmo assim, o Senhor também coloca a sua espada em nossas mãos, de modo que a possamos usar não somente para resistir à tentação (conforme fez Jesus, citando as Escrituras para repelir o diabo no deserto da Judéia) mas também na evangelização. Todo evangelista cris­tão, seja ele um pregador ou uma testemunha pessoal, sabe que a pala­vra de Deus tem poder para cortar, sendo "mais cortante do que qualquer espada de dois gumes" (Hb4:12). Nunca, portanto, devemos ter vergonha de usá-la, ou de reconhecer a nossa confiança de que a Bíblia é a espada do Es­pírito. Conforme escreveu E. K. Simpson, esta frase expõe "o poder cor­tante das Escrituras... Mas uma Bíblia mutilada é o que Moody denomi­nou de "uma espada quebrada".

 

Aqui, pois, estão as seis peças que, em conjunto, perfazem toda a armadura de Deus: o cinto da verdade e a couraça da justiça, as botas do evangelho e o escudo da fé, o capacete da salvação e a espada do Espíri­to. São a armadura de Deus, pois é ele quem a fornece. Mesmo assim, é nossa a responsabilidade de tomá-la, vesti-la, e empregá-la com confiança contra os poderes do mal. Além disso, devemos ter a certeza de que fare­mos uso de todos os equipamentos da armadura, e que não deixaremos de lado nenhum deles. "Nossos inimigos estão de todos os lados, e assim deve ser a nossa armadura, à direita e à esquerda."

 

Finalmente, Paulo acrescenta uma oração (vs. 18-20), não (provavelmente) porque pensa na oração como sendo outra arma, não mencio­nada na lista mas, sim, porque ela deve permear toda a nossa guerra es­piritual. Equipar-nos com a armadura de Deus não é uma operação me­cânica. É em si mesma uma expressão da nossa dependência a Deus. Nou­tras palavras: denota a necessidade da oração. Além disso, é oração no Espírito, induzida e guiada por ele, assim como a palavra de Deus é "a espada do Espírito" que ele mesmo emprega. Deste modo as Escrituras e a oração permanecem juntas como as duas armas principais que o Es­pírito coloca em nossas mãos.

 

A oração cristã que prevalece é admiravelmente compreensível. Tem quatro universais, indicados pelo uso quádruplo da palavra "todo". Devemos orar em todo tempo (tanto regular quanto constantemente), com toda oração e súplica (porque são necessárias muitas formas variadas), com toda a perseverança (porque precisamos, como bons soldados, ficar vigiando, nunca esmorecendo nem adormecendo), fazendo súplica por todos os santos (já que a unidade da nova sociedade de Deus, que tem si­do a preocupação constante nesta carta, deve ser refletida em nossas ora­ções). A maioria dos cristãos ora alguma vez, e com algum grau de perseverança, por alguns dentre o povo de Deus. Mas substituir alguns por to­dos em cada uma destas expressões seria introduzir-nos em uma nova di­mensão de oração. Foi quando Cristão percebeu "a boca do inferno, junto da estrada" no Vale da Sombra da Morte, e viu sair chamas e fumo, e ou­viu rugidos infernais, e "reconhecendo que a espada para nada lhe servi­ria, resolveu embainhá-la e lançar mão de outra arma, isto é, da arma da oração, e assim exclamou: 'Livra, Senhor, a minha alma'."

 

Talvez mais importante seja o mandamento no sentido de manter-se vigilante e, portanto, alerta (v. 18). Remonta até ao ensino do próprio Jesus, que enfatizava a necessidade da vigilância tendo em vista que não somente a sua volta (Por ex. Mc 13:33ss.; Lc 12:37ss) como também o ataque da tentação (Mc 14:34-38) seriam repen­tinos. Parece que sempre repetia a mesma advertência: "Digo-vos: Vigiai!" Os apóstolos ecoavam e estendiam essa mesma admoestação. "Vigiai!" era sua conclamação geral à vigilância cristã (1 Co 16:13; cf. Ap 3:2-3), em parte porque o diabo sempre estava à espreita como um leão faminto, e os falsos mestres, como lobos ferozes (1 Pe 5:8; At 20:31), e, em parte, para que a volta do Senhor não nos apa­nhe de surpresa (1 Ts 5:1-8; Ap 16:15), mas especialmente por causa da nossa tendência de dormir quando deveríamos estar orando (V. 18; Cl 4:2). "Vigiai e orai", Jesus insistiu.

 

Foi a falta de obediência a esta ordem que levou os apóstolos à sua deslealdade desastrosa. Um fracasso semelhante leva a uma deslealdade se­melhante hoje. É mediante a oração que esperamos no Senhor e renova­mos as nossas forças. Sem a oração somos muito débeis e lassos para fi­car firmes contra as forças do mal.

 

Orai também por mim, Paulo rogou (v. 19). Ele era suficientemente sábio para saber da sua própria necessidade de força para ficar firme con­tra o inimigo, e era também suficientemente humilde para pedir que seus amigos orassem com ele e por ele. As forças das quais precisava não eram apenas para a sua confrontação pessoal com o diabo mas, sim, para o seu ministério evangelístico pelo qual procurava libertar as pessoas do domínio do diabo. Esta tinha sido parte da sua comissão original quando o Senhor Jesus ressurreto o mandou converter as pessoas "das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus" (At 26:18). Daí o conflito espiritual do qual tinha consciência. Além disso, não deixaria o campo de batalha, agora que estava sob prisão domiciliar, e impossibilitado de continuar aquelas expedições militares. Não! Havia aqueles soldados aos quais, um por um, e cada um por algumas horas alternadamente ele ficava acorrentado; e havia ainda suas visitas constantes! Ainda podia testemunhar a elas, e as­sim fazia. Deve ter havido outros indivíduos, além do escravo foragido Onésimo, a quem levou a Cristo. Lucas conta acerca de líderes judeus que vinham até ele no seu alojamento, e que o ouviram fazer uma exposição "desde a manhã até a tarde" acerca do reino e acerca de Jesus. "Houve alguns que ficaram persuadidos", acrescentou Lucas (At 28:17, 23-24). Deste modo, as labutas evangelísticas de Paulo continuavam. Durante "dois anos... recebia a todos que o procuravam, pregando o reino de Deus, e... o Senhor Jesus Cristo". E o fez "com toda a intrepidez, sem impedimento algum" (At 28:30-31).

 

São essas últimas palavras que devemos notar especialmente. Porque "com toda a intrepidez" traduz a frase grega "com toda aparrêsia". A palavra originalmente denotava a liberdade democrática de expressão des­frutada pelos cidadãos gregos. Depois veio a significar "a sinceridade, a franqueza, a clareza da fala, que nada esconde e não passa por cima de nada", juntamente com "a coragem, a confiança, a ousadia, o destemor, especialmente na presença de pessoas de alta posição" (AG). E é precisa­mente isto que Paulo solicita aos efésios que orem pedindo que isso lhe seja concedido. É pela liberdade que anseia — não pela liberdade do confinamento mas, sim, pela liberdade para pregar o evangelho. Por isso, em­prega a palavra parrêsia duas vezes (primeiro como substantivo, depois, como verbo) nas expressões no abrir da minha boca... com intrepidez (v. 19) na pregação do evangelho, e para que em Cristo eu seja ousado para xxxxxmo me cumpre fazê-lo (v. 20). Às boas novas que anuncia ele ainda que chama de mistério, porque se tornou conhecido apenas pela revelação, e se centraliza na unidade entre judeus e gentios em Cristo; e as duas qua­lidades principais que ele deseja que caracterizem sua pregação deste mis­tério são palavra (v. 19) e intrepidez (vs. 19-20).

 

A primeira destas duas palavras parece referir-se à clareza da sua comunicação, e a segunda, à sua coragem. Ele anseia por não obscurecer coisa alguma com palavras imprecisas, e por não ocultar nada com um meio-termo covarde. A clareza e a coragem permanecem sendo duas das características mais cruciais da pregação cristã autêntica. É porque rela­cionam o conteúdo da mensagem pregada com o estilo da apresentação. Alguns pregadores têm o dom do ensino lúcido, mas falta-lhes nos ser­mões conteúdo sólido. A substância é diluída pelo medo. Outros são ou­sados como leões. Não temem a ninguém, e não omitem nada. Mas o que dizem é só confusão e acabam não esclarecendo nada. A clareza sem co­ragem é como a luz do sol no deserto: bastante luz, mas nada que valha a pena olhar. A coragem sem clareza é como uma bela paisagem à noite: muitas coisas para ver, mas nenhuma luz para desfrutar essa visão. O que é necessário nos púlpitos do mundo hoje é uma combinação de clareza e coragem, ou palavra e intrepidez. Paulo pediu que os efésios orassem para que estas duas coisas lhe fossem dadas, pois as reconhecia como dá­divas de Deus. Devemos juntar-nos a eles em oração em prol dos pasto­res e pregadores da igreja contemporânea.

 

Isso tudo era em prol do evangelho pelo qual ele se tornara embai­xador em cadeias (v. 20). Anteriormente na carta Paulo se designara tan­to "prisioneiro... por amor de vós, gentios" quanto "prisioneiro no Se­nhor" (3:1; 4:1). Consequentemente, ele está dizendo que o evangelho, o Senhor e os gentios são três razões para a sua prisão. Mesmo assim, estas três são uma só. As boas novas que pregava eram a inclusão dos gen­tios na nova sociedade, e fora o Senhor quem lhe confiara a mensagem. Assim sendo, ao comunicá-la na sua plenitude, estava sendo simultanea­mente fiel ao próprio evangelho, ao Senhor que o revelara e aos gentios que recebiam as bênçãos desse evangelho. Sua fidelidade a estes três lhes custara a liberdade. Era, então um prisioneiro por causa desses três fato­res. Talvez agora às vezes fosse tentado a aceitar um meio-termo para ga­rantir a sua soltura. Isso porque "ser preso traz consigo a tentação no sen­tido de curvar-se diante do temor ao homem". Mas se assim foi, Paulo recebeu graça para resistir. "Paulo pensa em si mesmo como sendo o em­baixador de Jesus Cristo, devidamente acreditado para representar o seu Senhor na corte imperial em Roma!' Como poderia ter vergonha do seu Rei, ou ter medo de falar no nome dele? Pelo contrário, orgulhava-se de ser o embaixador de Cristo, ainda que estivesse passando pela anomalia de ser "embaixador em cadeias". É possível que até deliberadamente te­nha feito um jogo de palavras com este paradoxo. Markus Barth escreve: "O termo cadeia (alusis) significa, entre outras coisas, os adornos (de ouro) usados ao redor do pescoço e nos pulsos por damas ricas ou por homens de alta posição. Nas ocasiões festivas, os embaixadores usavam tais cor­rentes a fim de revelarem riqueza, poder e dignidade do governo que re­presentavam. E Paulo, servindo a Cristo crucificado, consideraria as ca­deias dolorosas de ferro que o prendiam como as insígnias mais apropria­das para a representação do seu Senhor!' O que mais preocupava Pau­lo não era, no entanto, que os seus pulsos fossem libertos das cadeias mas, sim, que a sua boca fosse aberta em testemunho. Não que ele fosse liber­tado, mas, sim, que o evangelho viesse a ser difundido livremente e sem impedimento. É por isto, pois, que ele orou, e que pediu que os efésios orassem também. Contra esta oração, os principados e as potestades não teriam qualquer poder.

 

Bibliografia R. N. Champlin