O Viver Cristão Ef 4.1-6.9

 

Depois de examinarmos as condições morais do mundo pagão, teremos melhores condições de reconhecer de que tipo de vida os efésios foram salvos e quais as tentações que os cercavam. Os divertimentos daqueles dias eram brutais e de­gradantes. Baixos padrões de comportamento eram ensinados nos teatros. Nos anfiteatros, escravos, cativos e criminosos lutavam entre si até a morte, para satisfazer o desejo do povo — ver sangue. O casamento perdera a sua santidade; era levianamente contratado porque era facilmente anulado. Crian­ças malformadas ou doentias eram abandonadas e expostas para morrer. A sociedade era indulgente para com o vício. "Desviar-se é humano" era o seu lema.

 

Para um grupo de pessoas habitantes, mas libertas de tal mundo foi que Paulo endereçou as suas exortações. Depois de descrever o caráter moral do mundo pagão (4.17-19), diz: "Mas vós não aprendestes assim a Cristo, se é que o tendes ouvido e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus". Noutras palavras, os efésios tinham aprendido outro padrão de conduta mediante o ouvir do Evangelho. O apóstolo menciona algumas das lições que aprenderam através da comunhão com Cristo.

 

I - A Abnegação (Ef 4.22)

 

"Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano". O "velho homem" se refere à natureza pecaminosa herdada de Adão. Essa natureza é corrompida e inspirada por desejos e concupiscências que colocam os homens numa armadilha e os destroem. A concupiscência pelo ganho leva à avareza; a concupiscência pelo prazer torna as pessoas sensuais. Cada desejo forte que deixa Deus de fora é uma "concupiscência". Essas concupiscências são "do engano" porque enganam as pessoas com brilhantes promessas de felicidade (Ec 2.1-11). O cristão deve lançar fora esses desejos assim como alguém tira uma roupa suja.

 

II - O Pensar Correto (Ef 4.23)

 

"E vos renoveis no espírito do vosso sentido". Como al­guém pensa no coração, assim é. Para vivermos corretamente, precisamos pensar de modo certo e ter atitudes corretas. Os pagãos imaginavam que seus deuses não se importavam como eles viviam porque, segundo a mitologia pagã, os deuses co­metiam os mesmos pecados que os homens. Tais pensamen­tos naturalmente levam a um viver corrupto. O cristão deve dirigir o seu pensar de acordo com o ensino do Novo Testamento. Então terá "a mente de Cristo".

 

III - A Vida Santa (Ef 4.24)

 

"E vos revistais do novo homem, que, segundo Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade". O "novo homem" se refere àquela qualidade santa do viver, que é o resultado da redenção. No princípio, Deus criou o homem à sua pró­pria imagem; aquela imagem foi danificada pelo pecado, mas é restaurada quando uma pessoa nasce de novo.

 

O "novo homem" está em contraste direto com o "ve­lho homem". Tendo sido libertado da sua vida antiga, o cristão deve rejeitar tudo aquilo que traz consigo o sabor daquela vida; tendo se tornado uma nova criatura em Cris­to, precisa cultivar aquelas graças e qualidades que perten­cem à nova vida (2 Co 5.17). Qual cerimônia é uma repre­sentação dessa verdade? (Rm 6.1-3; Gl 3.27; Rm 13.12,14).

 

IV - A Verdade no Falar (Ef 4.25)

 

"Pelo que deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo". Uma mentira é algo falso que tem o propósito de enganar e tem um desígnio errado. E repre­sentar falsamente aquilo acerca do qual uma pessoa tem o direito de saber. Toda mentira, insinceridade e falsa repre­sentação dos fatos é totalmente inconsistente com a nova vida. Os cristãos devem falar a verdade integral sem distorção ou exagero; a palavra de um cristão deve ser a sua obrigação firme.

 

Notemos a razão para se falar a verdade: "Porque so­mos membros uns dos outros". Meu vizinho cristão perten­ce ao mesmo corpo ao qual pertenço, e qualquer coisa feita contra ele é feita contra mim. Será que o olho mentiria ao pé, dizendo que não há perigo, quando o olho o está ven­do? Ou será que o pé mentiria ao olho, dizendo que o ter­reno é firme, quando não é? A falsidade traz confusão aos relacionamentos humanos.

 

V - Bom Humor (Ef 4.26)

 

1. Quando a ira é certa. "Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira". Essas palavras dão a entender que há uma ira que não é pecaminosa. A primeira expres­são pode ser interpretada: "Não haja pecado na vossa ira". Registra-se que Jesus ficou zangado com a dureza do coração de certas pessoas (Mc 3.5). Essa indignação justa é necessária para um caráter cristão forte; aquele que ama a retidão e a realidade odiará o pecado e a hipocrisia. "Vós que amais ao Senhor, aborrecei o mal" (Sl 97.10). Sem existir esse ódio àquilo que é mau, o amor se tornaria flácido e sentimental.

 

2. Quando a ira é pecaminosa. A ira se torna pecami­nosa nas seguintes circunstâncias:

 

2.1. Quando é incapaz de ser governada, de tal maneira que qualquer ofensa imaginária ou coisa sem importância desperta a fúria.

2.2. Quando interfere com o amor. A ira justa é livre de ódio. Podemos odiar o pecado sem odiar o pecador.

2.3. Quando é permanente. "Não se ponha o sol sobre a vossa ira". O dia da ira deve ser o mesmo da reconcili­ação. A ira deve ser uma emoção breve, lenta a ser desper­tada e logo repudiada. Se a ira tem licença de permanecer na mente, produz inimizade, ódio ou vingança, coisas que são positivamente pecaminosas. Conservar no coração qual­quer rancor ou ressentimento é inconsistente com o discipulado cristão.

2.4. Quando é egoísta. O Senhor Jesus nunca se ressentia de ofensas pessoais contra Ele. Sua indignação se despertava contra o tratamento duro e injusto dado àqueles que amava. Uma boa parte da ira humana é puramente egoísta.

2.5. Quando dá a Satanás uma oportunidade para trabalhar. Satanás tem simpatia por um espírito ranco­roso e malévolo - é bastante semelhante ao dele. Se o mau humor e a falta de controle próprio conquista o coração, abre as portas para aquelas paixões diabólicas que são semelhantes a ele. Sentimentos irados dão ao diabo uma oportunidade para trabalhar.

 

VI - A Honestidade (Ef 4.28) Esse verso sugere três deveres:

 

1. A honestidade. O padrão cristão com respeito ao furto vai mais profundo do que o padrão popular. Todos consi­deramos como ladrão aquele que a lei condenou por furto. Mas, em outras formas, o furto é tão comum como o men­tir. Por exemplo, o vendedor que dá pesos e medidas in­completos é um ladrão. O trabalhador que deliberadamente negligencia o seu trabalho é um ladrão (ver 2 Sm 15.6 que descreve uma forma muito sutil de furtar). Como é que os homens furtam de Deus? (Ml 3.8).

 

2. O esforço. "Antes, trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom" (cf. 2 Ts 3.11). Quem deu o exemplo? Leia At 20.33,34; Mc 6.3. A corrupção geralmente segue após a inatividade e a preguiça. O homem preguiçoso é usualmente mentiroso, descuidado e indigno de confiança.

 

3. A generosidade. "Para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade". Será que aqui Paulo pregava algo que não praticava? (ver At 20.35). A quem foram faladas estas palavras? (At 20.17). Nota-se que os cristãos têm que "fazer o que é bom", as contribuições generosas à caridade não com­pensarão os males das riquezas ganhas desonestamente.

 

VII - Conversação Santa (Ef 4.29,30)

 

O verso 29 pode ser explicado da seguinte forma: "Não permitam que palavras más venham a poluir os seus lábios. Falem apenas as palavras que ajudarão o progresso espiri­tual do seu irmão e que serão uma bênção para ele de acor­do com a sua necessidade". Que tipo de conversa é conde­nada? Palavras irreverentes que tratam levianamente as coisas sagradas. A zombaria que procura reduzir a nada o valor do nosso próximo. Conversa maliciosa que procura solapar outras pessoas. Palavras sugestivas de indecência. Palavras estultas, faladas numa tentativa de divertir.

 

Nossas palavras devem ser cuidadosamente escolhidas. Milton disse: "Uma palavra tem alterado um caráter, e um caráter já alterou um reino".

 

A conversa corrompida não somente danifica almas hu­manas, como também ofende a Deus. "E não entristeçais o Espírito Santo de Deus". Entristecemos o Espírito quando fazemos aquilo que é repugnante a Ele, por exemplo, as coi­sas proibidas nos versos 25-32 e todo tipo de imoralidade. O resultado do entristecimento do Espírito Santo será o afasta­mento da sua presença e das suas bênçãos. Wesley conta que certa vez ficou em trevas espirituais ao falar mal de alguém.

 

"No qual estais selados, para o Dia da redenção". Quando um negociante efésio comprava madeira, colocava o seu selo nas toras e depois mandava o seu empregado ir buscá-las. O selo era sinal de propriedade. Aqueles que são sal­vos e se tornam a propriedade de Deus são selados com o Espírito Santo. Um dia, o Senhor virá buscar aqueles que selou. Então experimentarão a plena redenção na glorificação dos seus corpos, ficando eternamente na presença do Senhor.

 

VIII - Bondade (Ef 4.31—5.2)

 

"Toda a amargura [em pensamento, mentalidade e dis­posição], e ira [um estado tumultuoso da mente, do qual surge] ... e cólera [um sentimento firme de aversão ou ini­mizade], e gritaria [brigando com os oponentes e não dei­xando-os falar], e blasfêmias [maledicências, sujando a reputação alheia], e toda malícia [desejando o mal para outra pessoa] seja tirada de entre vós. Antes, sede uns para com os outros benignos [de doce disposição], misericordiosos [tendo dó das fraquezas e misérias de outros], perdoando-vos uns aos outros [não tratando os outros duramente por causa das suas faltas, lembrando-nos de que nós também temos faltas], como também Deus vos perdoou em Cristo [o motivo supremo para o perdão]".

"Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados [dEle]; e andai em amor". Não podemos nos tornar seme­lhantes a Deus na sabedoria, poder e soberania, mas pode­mos nos assemelhar a Ele no amor (Mt 5.43-48). Nosso amor se assemelha ao de Deus quando amamos os nossos inimigos e aqueles que são difíceis de amar.

 

"Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós [morreu em nosso lugar, Gl 1.4; 2.20; Tt 2.14; 1 Tm 2.6], em oferta e sacrifício a Deus [a oferta ressalta a ideia de presente, o sacrifício ressalta o pensamento da morte] em cheiro suave [algo agradável a Deus]" (cf. Gn 8.21). A obra inteira de Cristo e a bela atitude com que se ofereceu eram agradáveis ao Pai e asseguram uma bênção para todos aque­les que, pela fé, se tornam participantes do sacrifício.

 

IX - Ensinamentos Práticos

 

1. A verdade acerca da natureza humana. "O velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do enga­no". Pessoas de mentalidade moderna se queixam de que o quadro que a Bíblia nos dá a respeito da natureza humana é melancólico, e que é muito deprimente ensinar que a natureza humana é totalmente corrupta. No entanto, os seguintes fatos devem ser considerados:

 

1.1. A questão não é de ser melancólica a doutrina bíblica do homem; trata-se de averiguar se esta é a ver­dade. Quem conhece o seu próprio coração e o do seu próximo concordará que: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso" (Jr 17.9). Em perí­odos de guerra e revolução, as fornalhas vulcânicas que descansam no coração humano irrompem através da crosta de educação e civilização, e então ficamos sabendo que o quadro que a Bíblia pinta da natureza humana é verdadeiro. A guerra é um inferno, e a guerra nasce no coração do homem (Tg 4.1).

 

1.2. Se um médico sabe que pode curar uma doença, pode se permitir dar toda ênfase à gravidade dos sintomas. A Bíblia ensina a cura divina para o pecado e, portanto, revela toda a hediondez do pecado. Por outro lado, se um médico sabe que não pode curar uma doença, pode ser tentado a minimizar a sua importância, a fim de encorajar o paciente a aguentá-la. Aqueles que não conhecem cura alguma para o pecado são tentados a minimizar a sua se­veridade e a desculpá-lo.

 

1.3. O quadro bíblico da natureza é realmente brilhante, porque ensina que o pecado não é essencial ao homem, mas que entrou como intruso. Sendo assim, pode ser ex­pulso. Aqueles, porém, que negam o remédio para o peca­do querem alegar que ele é parte natural do homem, e excluem toda a esperança de libertação.

 

Nenhum livro descreve de forma mais sombria aquilo que somos do que a Bíblia, mas nenhum outro livro ofere­ce esperanças tão brilhantes quanto àquilo que podemos vir a ser mediante a graça de Deus.

 

2. Os apetites devem ser servos, e não mestres. Paulo fala em "concupiscências do engano". As "concupiscên­cias" são desejos de todos os tipos - pelo dinheiro, pela fama, pela comida, pela bebida, e por outras satisfações físicas. Alguém pode dizer: "Não é verdade que Deus me criou com esses desejos, e não é meu dever satisfazê-los?" A resposta é que foram feitos para nos servir, e não para nós servirmos a eles. São impulsos, e não gui­as. Nós fomos feitos para dirigi-los; não foram feitos para dirigir-nos. As locomotivas precisam de engenhei­ros e trilhos. Os impulsos humanos precisam da consci­ência e do raciocínio para guiá-los. E comum ver um cachorro abanando o rabo, mas seria triste ver o rabo abanando o cachorro! A posição dos apetites está debai­xo do nosso controle, e não assumindo o controle sobre nós. "O fruto do Espírito é... temperança" (Gl 5.22).

 

3. Somente Cristo pode purificar a alma. "Vos despojeis do velho homem... e vos revistais do novo homem". Os moralistas nos ensinam que precisamos afastar aquilo que há de mau em nossa natureza, mas não explicam como. Como pode uma coisa limpa surgir daquilo que é sujo? A natureza humana não tem poder para lançar fora o seu próprio pecado. Martinho Lutero empregava a seguinte ilus­tração: o coração humano é como um estábulo muito sujo. Carrinhos de mão e pás podem ser usados para remover parte da sujeira superficial, e sujam os corredores no pro­cesso. O que se pode fazer? Faça um rio passar por ele, e as correntezas levarão para longe toda a poluição.

 

Aqueles acúmulos de pecado multiplicados durante os anos e a maldade profundamente arraigada que manchou a nossa alma não podem ser purificados por nossos próprios esforços, mas só pela graça de Cristo, que perdoa e purifi­ca. Ele nos receberá e nos revestirá com as suas vestes de retidão.

 

Uma reforma de caráter afeta a forma, e não a substân­cia, dá novas feições à matéria antiga. A regeneração, pelo contrário, empurra para longe a vida velha infundindo uma vida nova que é divina e pura.

 

4. Forte e tenro. Certo escritor viu uma rocha enorme de granito duro - granito que podia desafiar os raios e ficar firme no meio da tempestade mais violenta. Do coração dela, porém, fluía uma fonte cristalina e refrescante de água bem doce. O cristão, na sua resistência contra o pecado, deve ser firme como uma rocha. Mesmo assim, deve fluir da parte dele uma corrente de bondade para com os outros. "Sede uns para com os outros benignos".

 

5. "Mais bem-aventurado é dar que receber''. "Antes trabalhe... para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade". Disse um rico a Paton, o herói missionário de algumas décadas atrás: "Orei ao Senhor para que Ele me dê sucesso". O missionário respondeu: "E Ele o deu ao senhor. Quão grande dívida tens com Ele! Qual vai ser o seu modo de pagá-lo?" O conselho de João Wesley era: "Ganhe o que puder. Poupe o que puder. Dê o quanto puder".

 

6. Não entristeçais o Espírito. O Espírito Santo frequentemente é descrito de forma impessoal como Fogo que purifica, Água que refrigera, Sopro que enche, Unção que é derramada, o Selo que preserva. Tais palavras apenas se referem às suas operações. Quanto à sua natureza, é claramente descrito como Pessoa que pensa, que exerce vontade e que sente. O fato de que é possível entristecê-lo comprova a sua personalidade, porque não podemos entris­tecer uma influência.

 

Por ele somos selados para o dia da redenção. Quando um selo fica em contato com um objeto, deixa ali a sua impressão. O Espírito Santo entra em contato com o nosso espírito e deixa ali a impressão divina. Ele foi enviado não somente para nos dar poder, mas também para nos tornar santos, amorosos, bondosos, pacientes, alegres, calmos e controlados. Essas são as influências que o Espírito traz às nossas vidas. Podemos ou cooperar com elas ou resisti-las. O pecado de qualquer tipo entristece o Espírito.

 

Bibliografia M. Pearlman