COISAS QUE A BÍBLIA NÃO DIZ

 

Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram, de fato, assim. Atos 17.11, ARA

 

A Bíblia, para muitos que se dizem cristãos, é um livro comum. Não a consideram infalível e inerrante, tampouco a sua regra de fé, de prática e de vida. Tenho notado que esses crentes são os que mais se sentem ofendidos com as críticas e refutações aos falsos evangelhos da atualidade. Vivem do que ouviram falar; são hábeis para citar letras de canções, mas incapazes de memorizarem um versículo bíblico sequer.

 

Neste texto, discorrerei sobre algumas "verdades" tidas como parte integrante das Escrituras, as quais são difundidas por animadores de auditório e cantores famosos, preocupados mais com as suas carreiras de popstar do que com a propagação do evangelho.

 

Afinal, o que a Palavra de Deus não diz?

 

NÃO DIZ QUE... CRENTE QUE TEM PROMESSA NÃO MORRE

 

Perguntaram-me, em um grande simpósio, se crente que tem promessa não morre. E eu dirigi outra pergunta ao auditório: "Quantos aqui têm promessas de Deus?" Todos levantaram as mãos. Então, lhes disse: "Bem, nesse caso, nenhum de vocês morrerá. Se Jesus demorar a voltar uns cem anos, ainda continuarão vivos, pois todos têm promessas".

 

Esse chavão anda de mãos dadas com outros clichês predestinalistas que não resistem a uma boa exegese. Afinal, se o Arrebatamento da Igreja não acontecer logo, todos nós morreremos, quer de uma forma, quer de outra. Basta lermos Hebreus 11 para sabermos que nem todas as promessas que aqueles heróis da fé abraçaram se cumpriram em suas vidas. A nossa maior promessa, aliás, é a de morar com Cristo, na glória (Fp 3.20,21; Tt 2.11-14).

 

Em Hebreus 11.39, menciona-se o seguinte acerca dos heróis da fé, fiéis ao Senhor Jesus até à morte: "E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa". E o versículo 13 também diz: "Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas..." Pois é... aquele grande grupo de testemunhas, de verdadeiros servos de Deus, morreu sem ter alcançado as promessas! Somos melhores do que eles?

 

As promessas de Deus são verdadeiras, mas temos de levar em conta a condicionalidade de muitas delas (2 Cr 7.14,15; Is 1.18-20; Dt 28.1,2). No dia de Pentecostes, a promessa do derramamento do Espírito Santo se cumpriu para cerca de 120 crentes (Lc 24.49; At 2). Se eles não tivessem ficado em oração, em Jerusalém, teriam recebido a promessa? Não foram mais de quinhentos irmãos que viram ao Cristo ressurreto, conforme 1 Coríntios 15.6? E os outros cerca de 380, não tinham a promessa? Sim, mas não estavam lá.

 

Segundo a Palavra de Deus, é possível sim morrer antes do tempo (Ec 7.17; Pv 10.27). Deus tira a vida de quem peca (Gn 38.10; Pv 22.23; Ez 18.4). Essa história de que há um destino para cada um — e que só morremos quando chegar a hora predeterminada — não tem apoio bíblico. O fato de termos muitas promessas não garante que não morreremos até que se cumpram todas elas (1 Pe 1.24,25).

 

Muitos têm deixado de pensar nas coisas de cima (Cl 3.1,2), considerando que as promessas que recebemos por meio de profecia devem ser abraçadas cegamente, como se fossem a garantia de que jamais morreremos enquanto elas não se cumprirem. Que engano! Temos de viver como se o Arrebatamento fosse acontecer a qualquer momento (1 Co 15.51,52).

 

A frase em análise, portanto, é mais um "versículo novo". Ela não está registrada na Bíblia, tampouco a tese contida nela tem o apoio das Escrituras. Afinal, para Deus vivemos e para Ele também morreremos (Fp 1.21-23; Rm 8.38,39).

 

Fiquemos com a Palavra do Senhor, que diz: "Eia, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos. Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo" (Tg 4.13-15).

 

NÃO DIZ QUE... UM SERVO DE CRISTO FICA ENDEMONINHADO

 

Um famoso tele missionário costuma dizer à sua plateia: "Meu irmão, agora eu vou orar por você. Ponha a mão na sua cabeça". Em seguida, ele diz: "Demônio que está neste corpo, pegue o que é seu e saia". Pode um crente, salvo em Jesus Cristo, ficar endemoninhado? Têm os agentes do mal alguma influência sobre a vida dos servos de Deus?

 

Segundo a Bíblia, o Diabo pode agir na vida de uma pessoa por possessão ou por influência. Possessão é o estado de quem está endemoninhado. Já a influência ou a opressão é o ato ou o efeito de oprimir ou exercer pressão sobre alguém, a fim de induzi-lo a alguma atitude contrária à vontade de Deus.

 

Só pode ficar possessa uma pessoa que nunca teve ou perdeu o Espírito de Deus em sua vida. Para a ciência, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, o que também se aplica espiritualmente: "E o Espírito do Senhor se retirou de Saul, e o assombrava um espírito mau da parte do Senhor" (1 Sm 16.14). Note: quando o Espírito saiu de Saul, um espírito maligno, com a permissão de Deus, passou a agir imediatamente nele.

 

Não há como alguém estar possuído pelo Espírito Santo e por espíritos malignos, ao mesmo tempo (Jo 8.49; 1 Jo 4.4). O que pode ocorrer é uma pessoa que tem o Espírito ser oprimida, influenciada por demônios, induzida ao erro. Não foi o que aconteceu com Pedro? Depois de ele ter feito uma importante declaração, o Diabo, por influência, o induziu a dar a Jesus um conselho nada condizente com a vontade de Deus (Mt 16.16,22,23).

 

Um cristão autêntico, se não vigiar, pode até sofrer opressão, influência, mas não ficar possesso por demônios, a menos que se desvie do Senhor, tornando-se um ímpio, maldizente, desviado, soberbo, desobediente à Palavra, etc. Em resumo, só podem ser possuídas por demônios pessoas que ainda não foram salvas por Jesus Cristo ou os crentes que apostatam da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios (1 Tm 4.1).

 

NÃO DIZ QUE... OS DESOBEDIENTES TÊM O ESPÍRITO SANTO

 

Pode um crente de verdade não ser possuído pelo Espírito Santo? Não! Todos os crentes sinceros são moradas do Consolador (Ef 1.13; 1 Co 6.19,20). Nesse caso, o coração das pessoas não-salvas sempre estará ocupado pelos representantes do mau (Lc 11.21,22).

 

"E quanto aos membros da igreja da maioria? Eles não estão recebendo também o batismo no Espírito Santo? Eles são até chamados de carismáticos!" — alguém argumentará. Mas, à luz da Palavra de Deus, é impossível pessoas que não nasceram de novo nem obedecem à Bíblia receberem essa dádiva do alto, haja vista terem ainda Maria como mediadora, sendo que Jesus é o único Mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2.5)!

 

O batismo no Espírito Santo, na verdade, acompanha a salvação e é reservado aos verdadeiramente libertos. Por isso, o Senhor Jesus disse: "O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece (...) estará em vós" (Jo 14.17). E, em Atos 5.32, está escrito que o Espírito Santo é dado somente àqueles que obedecem a Deus.

 

NÃO DIZ QUE... A SUNAMITA FEZ CONFISSÃO POSITIVA

 

Para os seguidores do movimento triunfalista denominado confissão positiva, a mulher de Suném, ao declarar — diante de circunstâncias adversas — que tudo estava bem, teria usado o poder de suas próprias palavras para obter uma grande vitória (2 Rs 4.26). Afinal, se assim não ocorrera, segundo eles, teria sido da parte dela uma insanidade responder que estava "tudo em paz" (hb. shalom) sabendo que o próprio filho acabara de morrer (v.20).

 

Entretanto, ao ler todo o capítulo da passagem em apreço, constatamos que a sunamita era uma mulher de fé, haja vista ter dito ao seu marido: "Manda-me já um dos moços e uma das jumentas, para que eu corra ao homem de Deus e volte... Tudo vai bem" (vv. 22,23). Sua atitude assemelha-se à de Abraão, momentos antes do quase-sacrifício de seu filho: "Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós" (Gn 22.5).

 

Ter uma inabalável fé em Deus não é o mesmo que abraçar o triunfalismo. Confiar no Senhor é saber que Ele pode realizar grandes obras. Vemos isso no episódio envolvendo Ananias, Misael e Azarias (Dn 3). Ao serem ameaçados por Nabucodonosor, aqueles jovens disseram: "Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará do forno de fogo ardente e da tua mão, ó rei" (v.17). A fé, por conseguinte, faz-nos orar ou falar com ousadia, porém isso não é confissão positiva (At 4.29-31).

 

NÃO DIZ QUE... DEVEMOS FAZER CONFISSÃO POSITIVA

 

O que é confissão positiva? É a crença errônea de que as nossas próprias palavras podem abrir e fechar portas. E, para defender esse modismo, os triunfalistas recorrem a Marcos 11.23, a despeito de Jesus, nesta passagem, não ter intentado estimular os seus discípulos a removerem montes! Imagine se cada crente tivesse o poder de olhar para uma montanha e revolvê-la? Onde estariam hoje o Corcovado e o Pão de Açúcar?

 

Jesus, na verdade, empregou uma figura de linguagem, a hipérbole, da qual se valeu também ao afirmar que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus (Mc 10.25). Afinal, camelos não passam por orifícios de agulhas, literalmente. Isso foi apenas uma maneira de mostrar o quanto é difícil para quem confia em suas riquezas entrar no Reino dos Céus (Mt 6.19-21).

 

Da mesma forma, nenhum crente consegue tirar um monte do lugar, literalmente; mas pode, por meio de sua pequena fé, superar obstáculos e alcançar vitórias memoráveis (Hb 11.1).

 

Caso o leitor conheça alguém que parou diante de uma montanha e declarou: "Monte, vá agora mesmo para o mar" — e isso tenha acontecido —, gostaria de conhecê-lo...

 

Na verdade, os propagadores da confissão positiva não se cansam de "dar de ombros" para a Palavra de Deus. Apegando-se à suposição ou à crendice de que tudo o que falamos tem de ocorrer, afirmam que há um poder sobrenatural nas palavras humanas. E que, por isso, devemos fazer declarações (ou confissões) positivas, do tipo: "Eu sou vencedor", "Nasci para vencer", "Sou da geração de Samuel", além do desgastado clichê "O Brasil é do Senhor Jesus".

 

NÃO DIZ QUE... O NOME DA PESSOA TEM INFLUÊNCIA SOBRE SUA VIDA

 

Até o nome de uma pessoa é considerado uma espécie de confissão pelos triunfalistas de plantão. Se alguém tiver um nome de batismo com significado negativo (segundo um famoso pregador e escritor brasileiro), precisa adotar uma alcunha, a menos que não queira livrar-se dessa maldição! Em um de seus livros, tal pregador conta até o caso de uma irmã que só teve vitória depois de começar a apresentar-se como Maria de Jesus, renunciando ao nome de registro: Maria das Dores.

 

Não há nenhum apoio bíblico à confissão positiva, a menos que torçamos a Palavra de Deus, interpretando textos a bel-prazer, extraindo-os de seus contextos, como muitos têm feito (2 Co 2.17; 4.1-2). E, se fizermos isso, encontraremos passagens isoladas para corroborar não apenas essa doutrina triunfalista, mas para justificar todas e quaisquer heresias! Até o Diabo usou versículos bíblicos para tentar Jesus! Portanto, não confundamos a legítima oração da fé com a falaciosa confissão positiva, que transfere para o homem o poder da viva e eficaz Palavra de Deus (Hb 4.12). E quanto aos nomes e seus significados, um pouco de bom senso ajuda...

 

NÃO DIZ QUE... DEUS NÃO USOU UMA JUMENTA

 

Muitos têm afirmado que Deus não usou uma jumenta. Ele teria apenas aberto a sua boca... É claro que o Senhor usou a jumenta! Mas não como se ela fosse um profeta de Deus, que diz "Assim diz o Senhor". Sabemos que animais não falam, a não ser por uma ação sobrenatural. Eles não raciocinam nem foram dotados da mesma capacidade humana para falar. Como teria a jumenta raciocinado, repreendendo o profeta, que a espancava?

 

Deus abriu a boca da jumenta para dizer algo relacionado com o que estava acontecendo. E foi depois de Balaão ter reconhecido o seu erro, ao ouvir as palavras do animal, que Deus abriu os seus olhos! "Que te fiz eu, que me espancaste estas três vezes? (...) Porventura, não sou a tua jumenta, em que cavalgaste desde o tempo que eu fui tua até hoje? Costumei eu alguma vez fazer assim contigo? E ele respondeu: Não. Então, o Senhor abriu os olhos a Balaão..." (Nm 22.28-31). O profeta só viu o anjo depois de ter ouvido a repreensão da jumenta! É, pois, um equívoco pensar que Deus apenas abriu a boca do animal, que, por conta própria, raciocinou, articulou bem as sílabas e impediu a loucura do profeta! Deus abriu a boca da jumenta e lhe deu palavras inteligíveis, como se fosse uma pessoa falando, a fim de repreender Balaão (2 Pe 2.16). Isso foi um milagre, uma ação divina sobrenatural.

 

NÃO DIZ QUE... DEUS VISITA HOJE A MALDADE DOS PAIS NOS FILHOS

 

Existe uma crença extra bíblica de que, além das doenças decorrentes de uma predisposição genética, males espirituais são transmitidos de avô para neto, de pai para filho, etc. O evangelho de Cristo é simples: basta crer em Jesus, confessá-lo como Senhor (Rm 10.9-10), permanecer nEle (Mt 24.13; 1 Co 15.1-2) e viver em santificação (Hb 12.14), a fim de ser salvo e participar das bênçãos que acompanham a salvação (Hb 6.9).

 

No entanto, há enganadores querendo complicar a simplicidade do evangelho (2 Co 11.3,4). É como se dissessem: "Se podemos complicar, por que simplificar?"

 

Somente Cristo, por meio de sua graça, liberta o ser humano. Não são necessárias fórmulas e receitas para alguém se libertar de supostas maldições hereditárias. Mas alguém poderá argumentar: "Há passagens bíblicas, como Êxodo 20.5, que não deixam dúvidas quanto à existência da maldição hereditária". É mesmo? Não se apresse! Cada passagem da Bíblia deve ser analisada com base no contexto. Você sabe o que é isso, não sabe?

 

Bem, se acreditarmos que Êxodo 20.5 aplica-se a nós, teremos de admitir que fomos tirados do Egito, literalmente, nos dias de Moisés! Constate isso lendo agora os versículos 1 e 2.

 

Esse mandamento e as punições extensivas às gerações dos seus infratores foram endereçados aos israelitas, e não a nós! Os mandamentos da Bíblia se dirigem a três povos (1 Co 10.32), e não devemos interpretá-los a bel-prazer. É a Palavra de Deus que deve nos guiar (Sl 119.105).

 

Mas, sabe de uma coisa? Ainda que a passagem citada se aplicasse a nós, ela não apoiaria a maldição hereditária, posto que alude ao fato de os pecados dos pais levarem os filhos ao sofrimento, ao adotarem os seus hábitos e atitudes más. Apesar de Deus respeitar a individualidade (Ez 18.4; Tg 1.14), o exemplo dos pais é preponderante na formação de uma pessoa (Êx 34.7; Pv 22.6).

 

NÃO DIZ QUE... EXISTE MALDIÇÃO HEREDITÁRIA

 

Os propagadores da maldição hereditária costumam mesclar conceitos e métodos psicoterápicos com a Bíblia. No entanto, embora a psicologia tenha o seu valor como ciência, a chamada "psicoterapia cristã" é um jugo desigual (2 Co 6.14).

 

Quem cura o nosso íntimo, libertando-nos do passado, é o Senhor Jesus (Jo 8.32,36; Lc 4.18). A psicologia é até útil, desde que não queiramos associá-la à obra do Espírito Santo.

 

Se precisamos quebrar maldições de antepassados, para que serve a nossa santificação diária (Hb 12.14)? E os erros que cometemos, eles se devem a fatores hereditários? Por que a Bíblia diz: "Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos" (Cl 3.9)? Que culpa tenho eu se meu avô foi um mentiroso inveterado? Ora, tenho de lutar é contra a minha própria natureza (Hb 12.4; Gl 5.17)!

 

Portanto, que tal seguir à Bíblia? Ela diz: "... nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus..." (Rm 8.1). E: "...se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Co 5.17).

 

NÃO DIZ QUE... NOÉ LEVOU O URSO POLAR À ARCA

 

Alguns evolucionistas admitem que houve um dilúvio, mas rejeitam o relato do livro de Gênesis, afirmando que tal acontecimento se deu há milhões e milhões de anos. Segundo eles, é fácil contestar a descrição bíblica do dilúvio.

 

Dizem que a arca, nas dimensões apresentadas em Gênesis (130m de comprimento, 35m de largura e 15m de altura, aproximadamente), só poderia ser construída nos dias de hoje, pois seria necessária a ajuda da engenharia moderna e de centenas de pessoas. E afirmam que Noé e sua família não conseguiriam percorrer todos os continentes em busca das espécies de animais. Como teria chegado, por exemplo, o urso polar à arca? Asseveram que seria impossível manter os animais na arca sem as técnicas zoológicas modernas. Os animais estavam fora de seu habitat. Como sobreviveriam? Como alimentar todas as espécies? Como a biologia considera extintas as espécies que possuem algumas centenas de exemplares, questionam: De que maneira um casal de cada espécie garantiria a subsistência das criaturas? Finalmente, argumentam que o ciclo hidrológico de evaporação que provoca a chuva é incapaz de prover uma quantidade de água que inundasse toda a extensão da Terra.

 

Bem, as questões apresentadas pelos evolucionistas concentram-se no campo racional. Eles (por mais irracional que seja o evolucionismo de Darwin) analisam tudo pela razão, sem levar em conta a existência de um Deus Todo-poderoso no controle de todas as coisas, capaz de fazer acontecer tudo o que lhe apraz. Somente o fato de que Ele estava no controle de tudo refutaria essas teses meramente racionais. Entretanto, consideraremos essas questões à luz das Escrituras.

 

No que diz respeito à construção do barco, Deus deu a planta a Noé, com todas as medidas. Além disso, capacitou-o com sabedoria e lhe concedeu todas as condições necessárias para construir a embarcação (Gn 6.13-22). Considerando que não havia a atual divisão continental, as espécies estavam concentradas em grande proporção na região da Mesopotâmia. Nesse caso, o trabalho de Noé no encaminhamento dos animais à arca não teria sido tão difícil.

 

Segundo o relato bíblico, o Senhor ensinou a Noé como preservaria as espécies dentro do barco (Gn 6.16-20). E a sabedoria de Deus é infinitamente superior às técnicas zoológicas da atualidade. Tanto é verdade que, das espécies mais frágeis, como as aves, Ele ordenou a Noé que se apanhassem sete casais, o que garantiria, de qualquer forma, a continuidade dessas criaturas sobre a terra após o devastador dilúvio (Gn 7.2-8).

 

O poder de Deus é ilimitado; não se restringe a leis ditas científicas (1 Tm 6.20). Se fôssemos analisar o Livro de Deus pela razão apenas, e não pela fé, não só o dilúvio seria impossível. Teríamos de negar todos os milagres registrados nas páginas sagradas. Mas, graças a Deus, o crente espiritual discerne bem tudo (1 Co 2.14-16).

 

Como controlador da natureza, o Deus Todo-poderoso certamente guiou os animais até à arca. Quanto ao urso polar, os próprios evolucionistas sabem que resultou da mistura de algumas espécies, sendo desnecessário explicar como ele chegou à arca, não é mesmo?

 

NÃO DIZ QUE... A IGREJA PASSARÁ PELA GRANDE TRIBULAÇÃO

 

É comum recorrer-se à simbologia com o intuito de afirmar que a Igreja não enfrentará a Grande Tribulação. Afirmasse que Enoque foi arrebatado antes do dilúvio; que as águas do Mar Vermelho só caíram sobre os egípcios depois que Israel passou; que Elias subiu num redemoinho antes do cativeiro; que a Igreja é a luz do mundo, e, quando for tirada, se instalará um período de trevas; que ela é também coluna e firmeza da verdade, e, ao ser arrebatada, o mundo virá abaixo, etc. No entanto, tais exemplos apenas ilustram e reforçam uma verdade que está revelada claramente nas páginas sagradas.

 

Os teólogos pós-tribulacionistas e mesotribulacionistas têm as suas razões pessoais para não crer no rapto dos salvos antes da Grande Tribulação. Contudo, é bom não irmos além do que está escrito (1 Co 4.6) nem nos movermos facilmente de nossas convicções quanto ao nosso livramento da ira futura, por ocasião da vinda de Jesus (2 Ts 2.2-9). Os primeiros afirmam que Jesus virá após a Grande Tribulação; e os mídi-tribulacionistas (ou mesotribulacionistas) asseveram que o advento de Cristo se dará no meio desse tempo de angústia.

 

A escola de interpretação que honra as Escrituras é o prétribulacionismo, pois não há dúvidas de que a Igreja será arrebatada antes desse período de trevas. A Palavra de Deus nos exorta a "esperar dos céus a seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura" (1 Ts 1.10). E Jesus disse: "Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do homem" (Lc 21.36, ARA).

 

Note: escapar, e não participar, atravessar, etc.

 

Em Apocalipse 3.10, Jesus fez uma promessa à igreja de Filadélfia: "Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra". Contudo, essa mensagem não é apenas para uma igreja local, haja vista o que está escrito nos versículos 13 e 22 do mesmo capítulo: "Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas".

 

Conquanto Filadélfia estivesse passando por tribulações, naqueles dias, os salvos daquela igreja não passaram pela "hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo" — todos os mortos em Cristo têm a garantia de que não passarão pela Grande Tribulação, uma vez que ressuscitarão e serão tirados da Terra antes dela.

 

Todas as mensagens de Jesus registradas em Apocalipse às igrejas da Ásia possuem mandamentos e exemplos para nós, hoje, quanto: à manutenção do amor e da fidelidade (2.4,10), às falsas profecias (2.20-22), ao perigo de Jesus estar do lado de fora (3.20), etc. Nesse caso, a promessa de livramento da hora da tentação em apreço é extensiva a todos os salvos — "há de vir sobre todo o mundo" —, assim como o que está registrado no versículo 11: "Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa".

 

Antes de o Cordeiro de Deus desatar o primeiro selo, dando início a uma série de juízos contra a Terra (Ap 6), João viu os 24 anciãos diante de Deus, no Céu (Ap 4-5). E estes representam a totalidade da Igreja: as doze tribos de Israel e os doze apóstolos de Cristo. Isso prova que, desde o início da Grande Tribulação na Terra, os salvos estarão no Céu. Glória ao Cordeiro, pois estaremos com Ele nesse período de trevas e aflições.

 

Em Apocalipse 13.15, está escrito que serão mortos todos os que não adorarem a imagem do Anticristo. Se este fará guerra aos santos, a fim de vencê-los (v. 4), quantos destes seriam arrebatados durante ou depois do período tribulacionista? Como vimos acima, tais santos mortos pela Besta são os mártires da Grande Tribulação, e não a Igreja, que já terá sido arrebatada.

 

A Palavra de Deus diz que a Noiva de Cristo estará no Céu durante esse período, e que voltará com Ele para pôr termo ao império do mal: "vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos. (...) E seguiam-no os exércitos que há no céu em cavalos brancos e vestidos de linho fino, branco e puro" (Ap 19.7-14).

 

Em suas cartas aos tessalonicenses, a ênfase de Paulo é o Arrebatamento. Ao mencionar este glorioso evento pela primeira vez, ele deixou claro que Jesus nos livrará da ira vindoura (1 Ts 1.10). E isso é confirmado ainda na primeira epístola: "quando disserem: Há paz e segurança, então, lhes sobrevirá repentina destruição (...) e de modo nenhum escaparão. Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele Dia vos surpreenda como um ladrão" (5.3,4).

 

Observe, no texto acima: são os que estão em trevas que não escaparão da destruição. Os filhos da luz (5.5) já terão sido arrebatados (4.16-18). Por isso, mais adiante, Paulo reafirma o que dissera no primeiro capítulo (v. 10): "Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo" (5.9).

 

A passagem de 2 Tessalonicenses 2.6-8 é de difícil interpretação, e não convém fazer especulações sobre o que não está revelado claramente. Mas vemos nela a reiteração de que a Igreja não estará sob o domínio do Anticristo: "E, agora, vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que, agora, resiste até que do meio seja tirado; e, então, será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca e aniquilará pelo esplendor da sua vinda".

 

Se o mistério da injustiça opera, por que o Iníquo ainda não se manifestou? O que o detém? Quem o resiste? Quem será tirado da Terra, para que ele tenha total liberdade até à esplendorosa vinda de Cristo? A única revelação que temos, retratada pelo próprio apóstolo Paulo, é que o povo de Deus será tirado da Terra, no aparecimento de Jesus Cristo (Tt 2.13,14; 1 Ts 4.17). E, se é depois disso que será revelado o Anticristo, então estamos diante de mais uma prova de que a Igreja não passará pela Grande Tribulação!

 

NÃO DIZ QUE... UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE

 

Os teólogos predestinalistas insistem em afirmar que Deus elegeu uns para a perdição e outros para a salvação, além de propagar a graça irresistível e a segurança absoluta da salvação. Isso fez com que o clichê "Uma vez salvo, salvo para sempre" ganhasse status de versículo bíblico. Contudo, a Bíblia não diz isso.

 

A respeito de Judas, a Palavra de Deus diz: "E, orando, disseram: Tu, Senhor, conhecedor do coração de todos, mostra qual destes dois tens escolhido, para que tome parte neste ministério e apostolado, de que Judas se desviou, para ir para o seu próprio lugar" (At 1.24,25). Quem pensa, portanto, que Judas era uma "figurinha carimbada" está redondamente equivocado. Havia a profecia acerca de "um traidor", e não de Judas (Sl 41.9; Jo 13.18; 17.12). Deus, na sua presciência, sabia que ele se desviaria. No entanto, presciência divina é uma coisa, e predestinação é outra. O Senhor sabe o fim antes do começo, mas não se vale disso ao chamar pessoas à salvação e ao ministério, haja vista respeitar o livre-arbítrio. Prova disso é a própria chamada de Judas. Temos visto isso acontecer em nossos dias com grandes pregadores, verdadeiramente chamados pelo Senhor, os quais apostataram da fé, tornando-se enganadores (1 Tm 4.1; 2 Pe 2).

 

NÃO DIZ QUE... É ERRADO OFERTAR SEM SEGUNDAS INTENÇÕES

 

Virou moda hoje em dia incentivar os crentes a darem oferta ou dízimo esperando receber recompensas. Há pregadores que dizem até que ofertar sem segundas intenções é coisa de "bobo" ou de "trouxa". Em primeiro lugar, esse tipo de linguagem chula não combina com um homem de Deus. E mais: oferta é um ato espontâneo, voluntário, e não uma forma de barganha. O texto de 2 Coríntios 9 não apoia o discurso dos telepregadores, pelo qual asseveram que quanto mais alta a contribuição financeira tanto mais bênçãos materiais e espirituais (!) serão derramadas sobre o tele-ofertante. É claro que essa interpretação forçada tem como objetivo sensibilizar os telespectadores a mandarem dinheiro para os telenganadores de plantão. Se a oferta é a semente para recebermos bênçãos espirituais, ela então substitui a oração, a meditação, a renúncia e a santificação?

 

Não é errado contribuir pensando em receber uma retribuição da parte de Deus, pois, de fato a passagem acima e outras igualmente claras, como Malaquias 3.8-10, asseveram que o Senhor abençoa quem é fiel em suas contribuições. Entretanto, transformar os dízimos e ofertas em um meio de negociação, barganha, chantagem, como que, se Deus estivesse obrigado a nos abençoar, só porque contribuímos, além de atrelar o tamanho da bênção à quantia ofertada, cheira engodo.

 

Desde os tempos do Antigo Testamento, as ofertas e os dízimos são voluntários. Ninguém era obrigado a contribuir nem fazia isso para receber o dobro ou o triplo da quantia entregue na casa do tesouro. Por ocasião da construção do Tabernáculo, tudo o que se coletou foi voluntariamente. Não houve barganha. Isso está claro em passagens como Êxodo 25.2; 35.5,21,29.

 

Portanto, ofertemos com confiança e humildade na presença do Senhor, pensando no bem e no progresso de sua obra, e não em nossos bem-estar e prosperidade. Rejeitemos esse falacioso evangelho materialista, antropocêntrico, que faz do ser humano o centro das atenções, como se a vida cristã tivesse como principal objetivo conquistar bênçãos na Terra. Pensemos nas coisas que são de cima (Cl 3.1,2).

 

NÃO DIZ QUE... O DÍZIMO É COISA DO ANTIGO TESTAMENTO

 

Nesses últimos dias, muitas verdades da Palavra de Deus vêm sendo abandonadas, enquanto outras, conquanto extra bíblicas, apresentadas como verdadeiras. É o caso do pensamento, que a cada dia ganha novos adeptos, de que o dízimo é coisa do passado.

 

Não é só o Antigo Testamento que apresenta o dízimo como uma obrigação do crente, conquanto este não contribua por obrigação, e sim espontaneamente (Ml 3.8-10). Jesus referiu-se ao dízimo, quando disse aos fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer essas coisas e não omitir aquelas" (Mt 23.23).

 

Alguém argumentará: "De acordo com a Hermenêutica, um único versículo não pode servir de base para uma doutrina". Bem, procura-se quem inventou essa falácia! Com certeza, não foi um professor de Hermenêutica temente a Deus quem fez essa equivocada afirmação. Afinal, o que o Senhor disse é verdade. É ponto final. Se Ele disse que é dever valorizar o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia, a fé e o dízimo, cabe a nós atentar para isso, e não para os que não querem andar segundo as Escrituras.

 

NÃO DIZ QUE... A TRINDADE NÃO EXISTE

 

O termo "trindade" não aparece nas Escrituras, e os chamados teólogos unicistas se apegam a isso para afirmar que a doutrina da Trindade também é antibíblica. Alguns mais ousados enumeram passagens e mais passagens para convencer os seus parceiros neófitos de que esse pensamento é verdadeiro. Paradoxalmente, uma igreja e seu grupo que têm "verdade" no nome propagam essa heresia de que a Santíssima Trindade não existe.

 

Para esses que pensam ter a "voz da verdade", Jesus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, ao mesmo tempo. No entanto, a Trindade, conquanto seja uma doutrina humanamente incompreensível, trata-se de uma verdade fundamental da Palavra de Deus. São tantos os textos que, comprovadamente, aludem ao Deus triúno, que cabe ao leitor estudá-los, sem preconceito, para chegar à conclusão de que o Todo-Poderoso é único, mas formado por três Pessoas (Gn 1.1,26; Is 6.1-8; Dt 6.4; Mt 28.19; Jo 14.17; Rm 5.1-5; 2 Co 13.13; etc).

 

Deixo aqui um desafio aos unicistas de plantão. Se vocês, de fato, amam a Palavra de Deus e andam segundo a vontade dEle, respondam-me: A quem Jesus orou, pedindo outro Consolador, em João 14.16? Se Ele, o Pai e o outro Consolador são a mesma Pessoa, o que o Senhor quis dizer com estas palavras: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre"?

 

 A BÍBLIA NÃO DIZ AS EFEMERIDADES QUE ALGUNS DIZEM

 

São tantas coisas que a Bíblia não diz... O assunto deste texto daria um livro. Mas vou analisar de maneira sucinta mais algumas frases tidas como bíblicas.

 

Um ao outro ajudou. Muitos têm citado o versículo bíblico "Um ao outro ajudou e ao seu companheiro disse: Esforça-te" (Is 41.6). Mas é uma pena que isso esteja relacionado com os inimigos do povo de Deus! Você sabia disso? Leia o contexto...

 

Restitui. Quero de volta o que é meu. O pensamento contido na letra de uma canção "evangélica" pela qual se afirma que devemos buscar restituição junto a Deus é bíblico? Bem, alguém já chamou esse "hino" de "melô do imposto de renda"... Mas, quem somos nós para exigirmos alguma coisa? Quem somos nós para fazer uma exigência desse tipo? Uma coisa é certa: em Cristo, somos mais que vencedores (Rm 8.37), e as coisas velhas já passaram; tudo se fez novo (2 Co 5.17).

 

Não diga a Deus qual é o tamanho do seu problema. Eis outra frase de efeito: "Não diga a Deus qual é o tamanho do seu problema, mas ao problema qual é o tamanho do seu Deus". Tudo bem, tudo bem... O Senhor é maior do que todas as coisas. Contudo, esse chavão desestimula o crente a orar. É claro que precisamos dizer a Deus que as nossas necessidades são grandes ou pequenas. Isso se chama oração.

 

Agora tudo é profético. Hoje em dia, tudo é profético: "intercessão profética", "mover profético", "adoração profética"... Certa cantora, como já vimos, vestiu uma bota para pisar "profeticamente" na cabeça do Diabo. Um grupo escalou e ungiu o pico Dedo de Deus (no Rio de Janeiro), "profeticamente"... Ah, também existe escola de capacitação profética! Meu Deus! Que banalização é essa? Tudo agora é profético? É claro que a Bíblia não apoia nada disso. Trata-se de mais um modismo...

 

Bem, são muitas as coisas que a Bíblia não diz... Vou parar por aqui.

 

Bibliografia C. S. Zibordi