JESUS CRISTO É SENHOR

 

Quero colocar esta ajuda como uma forma de aumentar o conhecimento dos professores em relação ao significado do Senhorio de Jesus; surgiu quando falei sobre o Arianismo; sou professor da extensão do IBE, e dando a matéria Historia Eclesiástica e falando do concilio de Nicéia em 325 sobre a controvérsia ariana, achei o texto abaixo de John Stott muito interessante para a nossa lição 8, Principalmente na dimensão moral. Leiam.

 

O evangelho dos apóstolos não se ateve ao fato e ao significado da cruz e da ressurreição, mas foi mais além, concentrando-se no seu propósito: "Foi pre­cisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor, tanto de mortos como de vivos"(Rm 14.9).

 

E fato conhecido que o mais primitivo, mais curto e mais simples de todos os credos cristãos era a afirmação "Jesus é Senhor". Aqueles que reconheciam este senhorio eram batizados e recebidos na comunidade cristã. Afinal, como escreveu Paulo, sabia-se muito bem, por um lado, que: "Se com tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo"(Rm 10.9); e, por outro lado, que "ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito de Deus"(1 Co 12.3).

 

A primeira vista, pode parecer muito estranho que duas palavras gregas - Kyrios lesous "Senhor Jesus" (pois não existe nenhum verbo conectivo em nenhum dos versículos citados no parágrafo anterior) - pudessem servir como base satisfatória para se identificar e acolher alguém como cristão genuíno. Não seriam estas palavras terrivelmente inadequa­das? Ou, pior ainda, não seria isto um reducionismo teo­lógico?

 

A resposta a estas perguntas é "não". Afinal de contas, as duas palavras em questão, que soam como uma confissão cristã mínima, são impregnadas de significado. Elas têm enormes implicações, tanto para a fé cristã como para a vida cristã. Elas expressam, primeiro, uma profunda con­vicção teológica acerca do Jesus histórico, e, segundo, um radical comprometimento pessoal com ele, como conse­quência disso. É esta convicção e este compromisso que eu proponho explorarmos neste capítulo.

 

Convicção teológica

 

Talvez a melhor forma de analisar as implicações doutri­nárias de se chamar Jesus de "Senhor" seja olhar nova­mente para Filipenses 2.9-11. Estes versículos constituem o clímax do que às vezes é chamado de carmen Christi, "o cântico de Cristo". O que Paulo está citando é provavel­mente um hino cristão primitivo acerca de Cristo. E, ao fazê-lo, ele dá a esse cântico o seu imprimátur apostólico. Ele afirma que Cristo, embora compartilhasse da natureza de Deus e gozasse de igualdade com ele, mesmo assim esvaziou-se de sua glória e se humilhou para servir, tor­nando-se obediente a ponto de morrer numa cruz (versículos (5 a 8). E continua (versículos 9 a 11):

 

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,

para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,

e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

 

Como um hino cristão, usado pela igreja e endossado pelo apóstolo, ele indica o que os cristãos primitivos pensavam de Jesus. Há  aqui três pontos a destacar.

 

Primeiro, Paulo deu a Jesus um título divino. Isto é, referiu-se a ele como "Senhor". É bem verdade que o termo kyrios era usado com diferentes significados, dependendo do contexto. Às vezes significava simplesmente "senhor", como quando Maria Madalena pensou que o Jesus ressus­citado fosse o jardineiro(Jo 20.15) e quando os sacerdotes pediram a Pilatos que o sepulcro fosse guardado com segurança(Mt 27.62-63).

 

Mas quando usado pelos discípulos em relação a Jesus, kyrios era mais do que uma forma educada de tratamento; era um título, como quando eles o chamavam de "o Senhor Jesus" ou "o Senhor Jesus Cristo". Isto fica bem claro no contexto do Antigo Testamento.

 

Quando o Antigo Testamento veio a ser traduzido para o grego em Alexandria, cerca de 200 a.C, os devotos es­tudiosos judeus não sabiam como lidar com o nome sagrado Javé ou Jeová. Eles eram reticentes demais em pronunciá-lo; não sentiam liberdade para traduzi-lo ou mesmo para transliterá-lo. Portanto, eles colocavam em seu lugar a paráfrase ho kyrios ("o Senhor"), razão pela qual "Javé" ainda aparece, na maioria das versões, como "o Senhor". (Aos amantes da numerologia bíblica talvez interesse saber que isto ocorre 6.156 vezes na Septuaginta. Pelo menos é o que já li em algum lugar; eu nunca tive vontade nem paciência para conferir...)

 

O que é realmente impressionante é que os seguidores de Jesus, sabendo que, pelo menos em círculos judaicos, ho kyrios era o título tradicionalmente dado a Javé, Criador do universo e o Deus da aliança de Israel, não tinham escrúpulos de aplicar o mesmo nome a Jesus, nem viam nenhum mal em fazê-lo. Era a mesma coisa que dizer que "Jesus é Deus".

 

Segundo, Paulo transferiu para Jesus um texto divino. Em Isaías 45.23 Javé fizera um solilóquio:

 

Por mim mesmo tenho jurado;

da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás.

Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua.

 

Agora Paulo (ou o autor do hino que ele está citando) tem a audácia de extrair este texto de Isaías e reaplicá-lo a Jesus. A implicação é inevitável. A honra que o profeta disse ser devida a Javé, o apóstolo diz ser devida a Cristo; além disso, era para ser universal, envolvendo "todo joelho" e "toda língua".

 

Um exemplo similar é o uso que o Novo Testamento faz de Joel 2.32. O profeta havia escrito que "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo". No Dia de Pente­costes, porém, Pedro reaplicou esta promessa a Jesus, exortando seus ouvintes a crerem em Jesus e a serem balizados em seu nome(At 2.21, 38). Da mesma forma, mais tarde, Paulo escreveu que o Senhor Jesus "é o Senhor de todos, rico para com todos que o invocam", pois "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo"(Rm 10.12-13). Assim, o poder salvador de Javé para com Israel tornou-se o poder salvador do Jesus, tanto para os crentes judeus como para os gentios.

 

Em terceiro lugar, Paulo reivindicou para Jesus uma adoração divina. Qualquer que seja a nossa interpretação sobre a confissão da língua de que ele é Senhor, o dobrar os joelhos é certamente um culto. Na verdade, no Novo Testamento a oração é, com frequência, dirigida a Jesus, especialmente quando Paulo relaciona "Deus, nosso Pai" com "nosso Senhor Jesus Cristo" como sendo, ao mesmo tempo, a fonte de graça e o objeto da petição(Por exemplo, 1 Ts 1.1; 3.11; 2 Ts 1.2, 12; 2.16). Convém lembrarmos também Hebreus 1.6: "E todos os anjos de Deus o adorem." Nos documentos do Novo Testamento assume-se que graça brota de Cristo e que a ele são devidas a oração e a adoração. De fato, a cristolatria (adoração a Cristo) precedeu a cristologia (a doutrina desenvolvida de Cristo). Mas, se Cristo não é Deus, então cristolatria é idolatria, como Atanásio percebeu claramente no século IV ao argumentar contra a heresia ariana que dizia ser Cristo um ser criado.

 

Eis aqui, portanto, três importantes dados contidos no hino cristão que Paulo estava citando: os cristãos primi­tivos deram a Jesus um título divino ("Senhor"), trans­feriram para ele textos divinos (concernentes à salvação que ele confere e à honra que ele merece) e lhe renderam culto divino (o dobrar dos joelhos). Estes fatos são indis­cutíveis e são ainda mais impressionantes por serem naturais e quase casuais.

 

Além disso, convém notar que os autores do Novo Tes­tamento nem argumentaram se era certo ou não identificar tão ousadamente Jesus como Deus, pois não havia neces­sidade alguma de o fazerem. Paulo defendeu, e com toda ousadia, o evangelho da justificação pela graça por meio da fé, porque ele estava sendo desafiado. Mas o senhorio divino de Jesus (a verdade de que "há um só Senhor, Jesus Cristo"), isso ele não debateu(1 Co 8.6), o que deve significar que o assunto não estava em discussão. Assim, poucos anos depois da morte e ressurreição de Jesus, sua divindade já fazia parte da fé universal da igreja.

 

A confissão de que "Jesus é Senhor" tem uma segunda inferência teológica, a saber, que ele tanto é Salvador como é Deus. A tradição em alguns círculos evangélicos é distinguir claramente entre Jesus como Salvador e Jesus como Senhor, e até sugerir que a conversão implica em crer nele como Salvador, sem necessariamente submeter-se a ele como Senhor. A motivação para este ensinamento até que é boa, pois visa salvaguardar a verdade da justi­ficação somente pela fé, sem introduzir pela porta dos fundos a justiça pelas obras (obedecer a Cristo como Senhor). No entanto, esta posição é biblicamente indefensável. Jesus não só é "nosso Salvador e Senhor", único e indivisível, como também seu senhorio implica sua salvação e, na verdade, a proclama. Ou seja, seu título de "Senhor" é um símbolo de sua vitória sobre todas as forças do mal, que foram postas debaixo de seus pés. O próprio fato de podermos ser salvos deve-se a esta vitória. E precisamente por ser Senhor que ele é capaz de ser Salvador(Cf. At 2.33-39). Não pode haver salvação sem senhorio. As duas afirmações, "Jesus é Senhor" e "Jesus salva", são virtualmente sinônimos.

 

Compromisso radical

 

Conforme já vimos, a palavra kyrios podia ser usada sim­plesmente como uma designação respeitosa. Mas era mais comum empregá-la referindo-se a proprietários de terras ou de escravos. A posse trazia consigo o pleno controle e direito de disponibilidade. É com essa compreensão que Paulo, Pedro e Tiago começam suas cartas, designando-se a si mesmos "servo de Jesus Cristo". Eles sabiam que ele os havia comprado à custa de seu próprio sangue, e que, por isso mesmo, pertenciam a ele e estavam inteiramente a seu serviço.

 

Este ser possuído pessoalmente por Cristo e estar pes­soalmente comprometido com ele vai impregnar cada parte da vida de seus discípulos. E tem pelo menos seis dimensões.

 

A primeira é a dimensão intelectual. Eu começo com a mente porque ela é a cidadela central da nossa persona­lidade e efetivamente governa nossas vidas. Apesar disso, ela é muitas vezes a última fortaleza a render-se ao senho­rio de Jesus. A verdade é que nós preferimos pensar nossos próprios pensamentos e ponderar nossas próprias opiniões; e se os dois entrarem em conflito com o ensino de Jesus, pior para ele!

 

Mas Jesus Cristo reivindica autoridade sobre nossas mentes. "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim", disse ele(Mt 11.29). Seus ouvintes judeus o teriam compreendido imediatamente. Afinal, eles estavam acostumados a falar sobre o "jugo da Tora" (a lei), a cuja autoridade se sub­metiam. Agora Jesus falava de seu ensino como sendo um jugo. Seus seguidores tinham que tornar-se seus pupilos, seus discípulos, sujeitar-se a suas instruções, aprender com ele. Não precisavam ter medo disso, pois, por um lado, ele mesmo era "manso e humilde de coração"; e, por outro lado, o jugo era "suave" e sob sua leve disciplina eles encontrariam "descanso" para suas almas. Em outras palavras, o verdadeiro "descanso" reside em submeter-se ao jugo de Cristo (e não em resistir a ele). O apóstolo Paulo, posteriormente, iria escrever algo similar, ao ex­pressar sua decisão de "levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo"(2 Co 10.5).

 

Mas o cristão contemporâneo, na sua ânsia por reagir com sensibilidade aos desafios do mundo moderno, não pode, para tanto, tentar livrar-se da autoridade de Jesus Cristo a fim de fazê-lo. Um discípulo não tem a liberdade de discordar de seu divino mestre. O que nós cremos acerca de Deus e do ser humano, seja homem ou mulher, criado à sua imagem, ou sobre a vida e a morte, os deveres e o destino, a Escritura e a tradição, a salvação e o juízo, e muito mais ainda, tudo isso nós aprendemos com ele. Existe em nossos dias, tão cheios de especulações estranhas e loucas, uma urgente necessidade de retomarmos nossa posição correta aos pés de Cristo. "Só quem obedece sem reservas à ordem de Jesus", escreveu Dietrich Bonhoeffer, "e submete-se sem resistências ao seu jugo, acha leve o seu fardo e sob sua doce pressão recebe o poder de perseverar no caminho certo. A ordem de Jesus é difícil, insuporta­velmente difícil, para quem tenta resistir a ela. Mas para quem se submete voluntariamente, o jugo é suave e o fardo é leve."(Dietrich Bonhoeffer, The Cost of Discipleship (1937; ET SCM, 1948), p. 31)

 

Segundo, o compromisso radical com Jesus Cristo tem uma dimensão moral. Por todo lugar ao nosso redor os padrões morais estão desabando. As pessoas estão confu­sas, sem saber se ainda resta algum absoluto moral. O relativismo permeou o mundo e tem se infiltrado na igreja.

 

Até certos crentes evangélicos deturpam a Escritura no que se refere à lei. Eles citam as conhecidas declarações do apóstolo Paulo, de que "o fim da lei é Cristo"( Rm 10.4) e "não estais debaixo da lei"( Rm 6.14) e, fazendo vista grossa ao contexto, distorcem o seu sentido, dizendo que a lei já foi abolida, que nós já não temos mais a obrigação de obedecer a ela, mas somos livres para desobedecer-lhe. Mas o que Paulo quis dizer foi algo completamente diferente. Ele estava se referindo ao caminho da salvação, não ao caminho da santidade. Ele estava insistindo em que, para sermos aceitos por Deus, nós "não estamos sob a lei, mas debaixo da graça", já que somos justificados somente pela fé e não por obras da lei. Mas nós ainda estamos sujeitos à lei moral no que tange à nossa santificação. Como Lutero sempre dizia, a lei nos conduz a Cristo para sermos justificados, mas Cristo nos manda de volta para a lei a fim de sermos santificados.

 

O apóstolo é bem específico quanto ao lugar da lei na vida cristã. Ele insiste em dizer que tanto a obra expiatória de Cristo como o fato de o Espírito habitar em nós têm em vista a nossa obediência à lei. Por que foi que Deus enviou seu Filho para morrer por nossos pecados? Respos­ta: "A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que... andamos... segundo o Espírito"(Rm 8.3-4). E por que Deus colocou o seu Espírito em nossos corações? Resposta: a fim de escrever ali a sua lei(2 Co 3.3, 6). Portanto, a promessa de Deus encontrada no Antigo Testamento quanto à nova aliança poderia se expressar igualmente como: "Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei"(Jr 31.33) e "Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei... que guardeis os meus juízos e os observeis"( Ez 36.27).

 

Portanto, Jesus nos conclama à obediência. "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele."( Jo 14.21) A maneira de provarmos nosso amor por Cristo não é, nem fazendo altos protestos de lealdade, como Pedro, nem entoando cantilenas sentimentais na igreja, mas, sim, obedecendo aos seus mandamentos. A prova do amor é a obediência, disse ele, e o galardão do amor é o fato de Cristo revelar-se a nós.

 

Em terceiro lugar, o compromisso cristão tem uma dimensão vocacional. Isto significa que ele inclui nossa vida de trabalho. Dizer "Jesus é Senhor" nos compromete a servir a vida inteira. Nós não deveríamos hesitar em dizer que cada cristão é chamado a ministrar, ou melhor, dar a sua vida em ministério. Se para você isto parece uma declaração chocante demais, provavelmente é porque está pensando em "ministério" como sinônimo de ministério pastoral ordenado. Mas o que eu estou dizendo é que nós somos chamados a ministrar ou servir (diakonia) de al­guma forma. A razão por que se pode dizer isso é que nós somos seguidores de alguém que assumiu "a própria na­tureza de um servo"( Fp 2.7), que declarou que não tinha vindo "para ser servido, mas para servir"( Mc 10.45) e acrescentou: "no meio de vós, eu sou como quem serve"( Lc 22.27). Portanto, se nós nos dizemos seguidores de Jesus, é inconcebível que gas­temos nossa vida de outra forma que não seja servindo. E isto significa que devemos ser capazes de ver nosso emprego ou profissão em termos de serviço. Nosso trabalho diário tem de ser uma esfera mais ampla em que Jesus exerça o seu senhorio sobre nós. Além do nosso empregador terreno, e por detrás deste, temos que ser capazes de en­xergar o nosso Senhor celestial. Então poderemos estar "trabalhando para o Senhor, e não para homens", já que "a Cristo, o Senhor, é que estamos servindo"( Cl 3.23-24).

 

Em novembro de 1940 a cidade de Coventry foi devastada por um bombardeio aéreo, que destruiu inclusive sua ca­tedral do século XIV. Depois da guerra, as ruínas da velha catedral foram preservadas, construindo-se uma nova ao lado dela. Desde os tempos medievais havia, dispostas em volta das paredes da velha catedral, uma série de capelas corporativas (por exemplo, para os ferreiros, para os ven­dedores de tecidos, os cortineiros e os tintureiros) simbo­lizando a íntima ligação entre a igreja e o trabalho. Estas capelas foram destruídas, mas em seu lugar foram dispos­tos "santuários" ao redor das paredes em ruínas, expres­sando as implicações da oração "Santificado seja o teu nome":

 

Na indústria, ó Deus, que estejas tu em minhas mãos e em meu fazer. Nas artes, Deus, que estejas tu em meus sentidos e em meu criar. No lar, ó Deus, que estejas tu em meu coração e em meu amar. No comércio, que estejas, Deus, no meu balcão e em meu vender. Na cura, ó Deus, que estejas tu em minha habilidade e em meu tocar. No governar, que estejas, Deus, nos planos e em meu decidir. Na educação, que estejas, Deus, em minha mente e em meu crescer. Na recreação, que estejas, Deus, em meus membros e em meu lazer.

 

Em quarto lugar, o senhorio de Cristo tem uma dimen­são social. Isto significa, em parte, que os seguidores de Jesus têm responsabilidades, tanto individuais como so­ciais — por exemplo, para com a família, a firma, a vizi­nhança, o país e o mundo. Porém significa muito mais que isso.

 

Em certo sentido, confessar "Jesus como Senhor" é reconhecê-lo como Senhor da sociedade, mesmo daquelas sociedades ou segmentos da sociedade que não reconhecem explicitamente o seu senhorio. Consideremos este dilema que o Novo Testamento coloca diante de nós. Por um lado, diz-nos que Jesus é Senhor. Ele destronou e desarmou os principados e potestades, triunfando sobre eles na cruz ().Deus o exaltou à sua mão direita e colocou tudo debaixo de seus pés(Ef 1.20-22). Consequentemente, ele pode reivindicar para si toda autoridade(Mt 28.18). Por outro lado, nós continuamos lutando contra os principados e potestades das trevas. Eles podem ter sido derrotados e até privados de poder; mas continuam ativos, influentes e sem escrúpulos(Ef 6.11-18). O após­tolo João vai ainda mais longe ao declarar que "o mundo inteiro jaz no maligno"(1 Jo 5.19). De fato, este dilema está bem resumido no Salmo 110.1, que foi citado por Jesus e por vários autores do Novo Testamento: "Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés." Dentro do compasso deste único versículo, o Messias é descrito como alguém que reina à mão direita de Deus e também como quem aguarda a derrota de seus inimigos.

 

Como é que podemos conciliar estas duas perspectivas? Quem é Senhor: Jesus ou Satanás? Está Cristo reinando sobre seus inimigos, ou ele está esperando que se rendam? A única resposta possível para estas questões é "as duas coisas". Temos que distinguir entre o que é de jure (por direito) e o que é de facto (de fato ou na realidade). De jure Jesus é Senhor, pois Deus o elevou ao lugar mais sublime. De facto, porém, é Satanás que reina, pois ainda não foi declarado derrotado nem foi destruído.

 

Como é que esta tensão afeta o nosso discipulado? Já que Jesus é Senhor por direito, isto é, por determinação divina, nós não podemos ser condescendentes em nenhuma situação que negue isso. Nós bem que gostaríamos que aquele que é Senhor fosse reconhecido como tal; esta é a nossa tarefa evangelística. Entretanto, mesmo em uma sociedade que não reconhece especificamente o seu senho­rio, ainda nos preocupa que os seus valores prevaleçam, que os povos de todas as raças e religiões tenham respei­tados os direitos e a dignidade humana, que mulheres e crianças sejam tratados com honra, que se garanta justiça para os oprimidos, que a sociedade se torne mais justa, compassiva, livre e serena. Por quê? Por que nos preocu­pamos com estas coisas? Porque Jesus é, por direito, o Senhor da sociedade, e porque ele se preocupa com elas. Isto não seria ressuscitar o velho "evangelho social" do liberalismo teológico, que cometeu o equívoco de confundir uma sociedade compassiva com o reino de Deus? Pelo contrário, é levar a sério a verdade de que Jesus é Senhor da sociedade e, portanto, tentar torná-la mais ao gosto dele.

 

Foi durante sua palestra inaugural na abertura da Uni­versidade Livre de Amsterdã, em 1880, que Abraham Kuyper, que mais tarde viria a tornar-se Primeiro Ministro da Holanda, disse: "Não existe uma única polegada de toda a área da vida humana sobre a qual Cristo, que é Soberano de tudo, não declare 'É minha!'" De igual maneira, o Dr. David Gill, do New College, Berkeley, escreveu: "Jesus é Senhor, não só da vida íntima, da vida futura, da vida familiar e da vida da igreja, mas também da vida intelectual e política     tudo é seu domínio."( David W. Gill, The Opening of the Christian Mind (IVP USA, 1989), p. 131)

 

Em quinto lugar, um compromisso radical com Cristo tem uma dimensão política. Não podemos esquecer que Jesus foi condenado tanto por uma ofensa política quanto por uma ofensa religiosa. Na corte judaica ele foi consi­derado culpado de blasfêmia, por ter chamado a si mesmo Filho de Deus, enquanto que na corte romana ele foi con­denado por sedição, por se haver declarado rei, e Roma não reconhecia outro rei além de César. Portanto, as reivin­dicações de Jesus tinham implicações políticas inevitáveis. Sua declaração de que nós temos que dar "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus"( Mc 12.17) pode ter sido deliberadamente enigmática. Mas ela certamente implica­va que existem áreas sobre as quais Deus é Senhor e nas quais César não deve se intrometer.

 

Os cristãos primitivos enfrentavam um constante con­flito entre Cristo e César. Durante o primeiro século, a megalomania dos imperadores era cada vez maior. Eles mandavam construir templos em sua própria honra e exigiam que seus súditos os reverenciassem como deuses. Estas exigências acabaram entrando em choque direto com o senhorio de Cristo, a quem os cristãos honravam como rei(At 17.7), ou melhor, como "o soberano dos reis da terra"( Ap 1.5). Plínio, que foi governador da Bitínia no século II, descreveu em uma carta para o Imperador Trajano como ele fazia trazer à sua presença na corte os cristãos que suspeitava serem desleais, e como libertava somente aqueles que "ofe­reciam invocação com vinho e incenso a vossa [sc. o Imperador] imagem"( Epistles,  10:96). Mas como é que os crentes podiam dizer "César é Senhor" se eles haviam confessado que "Jesus é Senhor"? Antes ir para a prisão e a morte do que negar o senhorio de Cristo!

 

A divinização do estado não acabou com o fim do Império Romano. Ainda hoje existem regimes totalitários que exi­gem de seus cidadãos uma lealdade incondicional, que os cristãos simplesmente não podem prestar. Os discípulos de Jesus devem respeitar o estado e, dentro dos limites, submeter-se a ele; nunca, porém, irão adorá-lo nem dar-lhe o apoio acrítico que ele exige. Por isso é que às vezes o discipulado implica em desobediência. Aliás, a desobe­diência civil é uma doutrina bíblica, e existem na Escritura uns quatro ou cinco exemplos notáveis disso(Êx 1.15-17; Dn 3 e 6; At 4.19; 5.29). Ela nasce naturalmente da afirmação de que Jesus é Senhor. O princípio é claro, mesmo que sua aplicação possa envolver os crentes em agonias de consciência. É isso aí. Nós temos que nos submeter ao estado, pois sua autoridade provém de Deus e seus oficiais são ministros de Deus(Rm 13.1-7). Mas há um limite: quando a obediência ao estado implica em de­sobediência a Deus. Neste ponto nosso dever, como cris­tãos, é desobedecer ao estado a fim de obedecer a Deus. Pois, afinal de contas, se o estado abusa de sua autoridade dada por Deus e tem a presunção, seja de ordenar aquilo que Deus proíbe, seja de proibir aquilo que Deus ordena, nós precisamos dizer "não" ao estado a fim de dizer "sim" a Cristo. Como diz Pedro, "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens"( At 5.29). Ou, em palavras de Calvino, "obe­diência aos homens não deve transformar-se em desobe­diência a Deus"( Walter Bauer, A Greek-English Lexicon ofthe New Testament and Other Early Christian Literature, traduzido e adaptado para o inglês por W. F. Arndt e F. W. Gingrich (University of Chicago Press, 2 ed. 1979)).

 

Vejamos um exemplo bem recente, da África do Sul. Em 1957, Hendrik Verwoerd, então Ministro dos Negócios Nacionais, anunciou um projeto de lei cuja "cláusula re­ferente à igreja" impediria qualquer associação racial em "igreja, escola, hospital, clube ou qualquer outra institui­ção ou lugar de lazer". O arcebispo anglicano da Cidade do Cabo na época era um gentil académico chamado Geoffrey Clayton. Ele e seus companheiros de clero, embora com relutância e apreensão, resolveram desobedecer. Então ele escreveu ao Primeiro Ministro, dizendo que, se o projeto se transformasse em lei, ele seria "incapaz de obedecer-lhe ou de aconselhar nosso clero e pessoal a fazê-lo". Na manhã seguinte ele morreu, talvez sob a dor e o sofrimento do desafio da desobediência civil. O projeto foi aprovado, de uma forma que não chegaria a prejudicar os líderes da igreja mas que iria penalizar os adoradores negros. Depois que se transformou em lei, foi lida em todas as igrejas anglicanas uma carta convocando tanto o povo como o clero a desobedecerem a ela.

 

Em sexto lugar, o compromisso com Cristo tem uma di­mensão global. Afirmar que "Jesus é Senhor" é reconhecer seu senhorio universal. Afinal, Deus o "exaltou sobrema­neira"(Fp 2.9), assim como nós deveríamos prestar-lhe hyperypso - uma palavra que não ocorre em nenhum outro lugar no Novo Testamento e que pode até ter sido cunhada por Paulo. Ela significa que Deus o elevou "à mais elevada das altu­ras". E o propósito de Deus ao fazer isto foi que todo joelho se dobrasse e toda língua o confessasse como Senhor. Nós não temos liberdade alguma de impor qualquer limite à repetição da palavra "todo". Portanto, se Deus deseja que todo o mundo reconheça a Jesus, este deve ser também o nosso desejo. Os hindus falam sobre "o Senhor Krishna" e os budistas do "Senhor Buda", mas nós não podemos aceitar essas reivindicações. Só Jesus é Senhor. Ele não tem rivais.

 

Não existe incentivo maior para a missão mundial do que o senhorio de Jesus Cristo. Missão não é, nem uma inter­ferência impertinente na vida privada de outras pessoas, nem uma opção dispensável que pode ser rejeitada. Pelo contrário, missão é uma dedução inevitável do senhorio universal de Jesus Cristo.

 

A princípio a afirmação dessas duas palavras - Kyrios Iesous - parecia completamente inofensiva. Mas nós vimos que ela tem ramificações que vão muito longe. Além de expressar nossa convicção de que ele é Deus e Salvador, ela também indica nosso radical comprometimento com ele. Esse compromisso tem dimensões intelectuais (sub­meter nossas mentes ao jugo de Cristo), morais (aceitar seus padrões e obedecer às suas ordens), vocacionais (gas­tar nossas vidas em seu serviço libertador), sociais (pro­curar impregnar a sociedade com os seus valores) e globais (zelar pela honra e glória de seu nome).

 

Bibliografia John Stott