O Naufrágio de Paulo

 

Festo entregou Paulo ao centurião chamado Júlio, da coorte imperial de Augusto, cujos oficiais e homens viajavam por todo o império prestando serviços de escolta e correio. Júlio reuniu um destacamento de cerca de doze soldados. Paulo era o único prisioneiro de influência, e recebeu permissão para levar dois assistentes, relacionados como seus escravos pessoais: Aristarco e Lucas, o médico. Os outros presos eram criminosos a caminho da morte, quer como comida de leões na arena, quer, se fortes o suficiente, como aprendizes de gladiadores. Estes iam acor­rentados nos porões, mas Paulo e seus assistentes tinham liberdade de movimento, embora ele devesse sempre usar uma corrente leve, símbolo de sua condição.

 

No porto de Cesaréia Júlio encontrou um navio de Adramítio, a leste de Assôs na província da Ásia, que estava de partida com uma carga do Levante. Embarcaram, esperando encontrar ou­tro navio para Roma em uma das localidades em que aportas­sem. Se o navio fosse por demais devagar ao ponto de passar da estação, ele podia, de Adramítio, atravessar para Neápolis, perto de Filipos, e conduzir o grupo por terra, e então atravessar o Adriático chegando a Brindisi. De qualquer modo, ele es­perava tê-los em Roma no final de outubro.

 

Partiram de Cesaréia na última semana de agosto de 59, na frente de uma leve brisa ocidental, e aportaram por um dia em Sidom. Júlio permitiu que Paulo desembarcasse, desta forma mostrando uma bondade que era mais do que o respeito devido a um cidadão romano. Como outros militares, Júlio sucumbiu rapidamente ao charme e autoridade de Paulo. Os cristãos de Sidom ofereceram a Paulo, e possivelmente a Lucas e a Aris­tarco, calorosa hospitalidade e preencheram quaisquer necessidades que tivessem para a longa viagem.

 

O vento ocidental impediu-os de atravessar o mar aberto ao Sul de Chipre, a rota direta de uma viagem de volta de dois anos atrás, da qual Lucas se lembrava. Tiveram de manter-se entre Chipre e a costa da Cilicia. Uma vez mais Paulo avistou a cordilheira do Tauro, azulada na distância, além da planície, onde passara a infância. Quando as montanhas se aproximaram do mar, o navio apegou-se à costa, usando as brisas costeiras, a corrente ocidental, e aportando todas as noites. Lucas a tudo anotava. Ele não era marinheiro, mas descrevia suas observa­ções com linguagem tão exata que quando, nos meados do século dezenove, um curioso escocês com um iate e grande conhecimento de navegação retraçou a rota de Paulo, descobriu que os detalhes dos ventos, do mar e da costa dessa famosa viagem com seu final desastroso eram fiéis à realidade.

 

A viagem pela costa sul anatolina foi lenta e trabalhosa. Du­rante quinze dias Paulo e seus amigos não desceram à terra. O calmo e agradável clima mediterrâneo significava calor e miséria para os réus abaixo, e impaciência para os soldados confinados num navio pequeno, entre sacos de frutas secas que, provavel­mente, compunham a maior parte da carga. Júlio teve opor­tunidade suficiente para conhecer seu principal prisioneiro; se houve conversão, Lucas é por demais discreto para mencioná-la, mas as ações subsequentes de Júlio sugerem essa possibili­dade.

 

Atravessaram o golfo de Atália, onde, muito tempo atrás, Paulo e Barnabé estiveram na primeira viagem missionária. A frente estavam os montes da Lícia. A esta altura, nos meados de setembro, o tempo podia apresentar-se instável. Os topos das montanhas desapareciam nas nuvens, e o terreno baixo, que se estreitava até formar uma ponta, contrastava com céus ocidentais mais claros pela tarde. Paulo jamais entrara nessas montanhas, mas a fé, vinda de suas igrejas missionárias do Norte e do Leste, já devia ter-se espalhado pelos vales. Quando, afinal, o navio chegou ao porto de Mirra, cerca de um quilómetro e meio distante da cidade e à entrada de um grande desfiladeiro, aí já podia haver uma igreja. Mirra, que hoje se encontra de­serta, veio a ser importante bispado e, mediante peculiar dis­torção histórica e folclórica, São Nicolau de Mirra tornou-se Papai Noel.

 

Na baía, entre as galeras navais impelidas à força de escravos e o comércio marinho costeiro, Júlio encontrou um grande mercador que fazia a rota egípcia, o conduto vital de Roma, importando trigo sob um sistema de navios particulares comis­sionados para o serviço imperial. Mirra, bem ao norte de Ale­xandria, era um dos principais portos de escala do verão, quando os ventos não permitiam a navegação diretamente a Roma.

 

Júlio fez a transferência de soldados e presos. Não havia nenhum outro oficial militar a bordo e assim, de acordo com o costume romano, ele passou a ter mais autoridade que o capitão do navio ou mesmo que o dono da supercarga. Em qualquer emergência, a última palavra seria de Júlio. Seu grupo aumentou o número de passageiros para 278 almas — entre eles, comerciantes italianos e egípcios, até um hindu ou um chinês; talvez um punhado de escravos africanos do Nilo su­perior; veteranos militares aposentados de volta a casa, sacer­dotes de Isis, animadores, eruditos da grande universidade de Alexandria, juntamente com mulheres e crianças. Com todos estes, e grande carga de trigo, o navio alexandrino devia pesar mais de 500 toneladas, de modo nenhum o maior de que se tem notícia e que era usado naquela época, e não menor do que muitos mercadores que navegavam o Mediterrâneo no tempo de Nelson e da última era da navegação.

 

O navio de Paulo, porém, diferia dos navios do século vinte e um em vários aspectos essenciais. Tinha apenas um mastro com enorme vela mestra, acrescentando, assim, grande pressão à madeira. A popa era parecida com a proa moderna. Era guiado por lemes destacáveis, similares a grandes pás, e o ca­pitão não possuía bússola, cronometro nem os mapas mais ru­dimentares, de modo que não sabia onde se encontrava a menos que pudesse ver o sol ou as estrelas, pelos quais avaliava sua posição usando um quadrante primitivo.

 

O curso original do navio ao deixar Mirra era passar por Rodes, através dos arquipélagos, rodear o Sul da Grécia (hoje chamado cabo Matapan) e chegar à Itália pelo estreito de Messina; e daí para Óstia, o porto de Roma. Mas quando o navio deixou a baía de Mirra, por volta de 16 de setembro, o vento, soprando do noroeste, ainda era contrário e forte. O capitão, a fim de aproveitar águas mais tranquilas e as brisas costeiras, teve de permanecer perto da terra. "Navegando vagarosamente muitos dias", lembra-se Lucas, "e tendo chegado com dificul­dade defronte de Cnido", o espaçoso porto no final de uma península estreita e montanhosa, o ponto mais ocidental da costa sul de Anatólia.

 

Cnido era o último porto onde tinham proteção da força total do vento contrário. Lucas escreveu: "não nos sendo permitido prosseguir, por causa do vento contrário". Embora Cnido ti­vesse ancoradouro suficiente, o capitão não quis entrar na en­seada, mas prosseguiu ao sudoeste, passando pelos dodecaneses em direção das montanhas de Creta. Ele rodeou o cabo de Salmona e começou a navegar abaixo do sul de Creta, esperando que o vento mudasse antes que tivesse de seguir rumo norte. Assim, "costeando-a, penosamente, chegamos a um lugar cha­mado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laséia."

 

Haviam chegado a uma angra bem protegida pelas monta­nhas e ilhas, o mais distante que podiam navegar contra um vento noroeste. Logo depois de Bons Portos fica o cabo Matala, onde a costa rochosa segue em direção norte por cerca de 32 quilómetros, antes de virar novamente para o oeste. Se tivessem tentado atravessar esse golfo aberto, teriam naufragado. O ca­pitão baixou âncora, retido por ventos contrários. Passaram-se dias. Bons Portos era agradável mas não tinha porto; pequenos grupos podiam desembarcar para visitar Laséia, mas toda a companhia do navio teria de permanecer a bordo, se resolves­sem passar aí o inverno. O Dia da Expiação daquele ano de 59 d.C, 5 de outubro, chegou e passou. Os dias perigosos, nos quais a navegação era arriscada mas possível, estavam-se es­gotando. No dia 11 de novembro cessaria toda a navegação em alto mar, pois o céu podia permanecer nublado por dias a fio, e sem o sol e as estrelas não podiam determinar a posição do navio. Era este e não o perigo inevitável das tempestades, o fator que fazia cessar o tráfego marítimo no inverno.

 

Tinham perdido toda a esperança de chegar à Itália naquela estação. Júlio convocou uma conferência a fim de decidir o melhor plano e para a qual convidou Paulo. A esta altura Júlio respeitava o julgamento e a experiência marítima do apóstolo.

 

O capitão instava com eles a aproveitarem a primeira opor­tunidade de rodearem o cabo de Matala e chegar ao porto de Fenice, que não estava muito longe; é provável que ele tivesse medo de rebelião por parte dos passageiros e da tripulação, caso passassem o inverno nos isolados Bons Portos, que tinham ainda a desvantagem, como ancoradouro, de ser aberto a quase metade da bússola, de modo que numa forte tempestade o navio podia arrastar as âncoras e encalhar na praia. Se o vento mu­dasse para o sul, eles conseguiriam chegar a Fenice. Ele era marinheiro experiente, como o demonstram suas ações futuras, e sabia que no outono, nestes mares, um vento sul era muitas vezes acompanhado de violento vento nordeste, chamado Euro-aquilão veja na outra ajuda ebdareiabranca o significado. O conselho dele como profissional foi tentarem pros­seguir. O mestre do navio aprovou a ideia, pois enquanto o navio estivesse em Bons Portos ele era responsável por alimen­tar o grupo, ao passo que em Fenice os passageiros desembarcariam.

 

Júlio voltou-se para Paulo, que lhes disse:

 

Senhores, vejo que a viagem vai ser trabalhosa, com dano e muito prejuízo, não só da carga e do navio, mas também das nossas vidas.

 

Júlio decidiu-se em favor do capitão e do mestre do navio.

 

Por volta de 10 de outubro o capitão percebeu que o vento tinha mudado. Lucas separa-se da reação da tripulação, como se a desaprovasse totalmente: "Soprando brandamente o vento sul e pensando eles ter alcançado o que desejavam, levantaram âncora, e foram costeando mais de perto a ilha de Creta."

 

Deram volta ao cabo e começaram a atravessar o golfo, o bote bamboleando atrás do navio, como era o costume em pequenas viagens. Apesar de o sol brilhar sobre eles, uma grossa e amea­çadora nuvem pairava sobre o monte Ida, o ponto mais alto de Creta que agora se encontrava a estibordo. De súbito o vento mudou de direção. Tremenda rajada desceu rugindo do monte, atingindo-os com força total. Lucas diz que foi um "tufão de vento". O ar rodopiava e se contorcia, e uma forte chuva apagou a costa. O mastro, com toda a vela, tremia à fúria da tempestade, provando a falta de sabedoria da prática antiga de navegar com um único mastro: a vibração era tanta que a madeira do navio Partiu e a água começou a entrar pelo casco.

 

Em poucos minutos o capitão soube que jamais poderia ma­nobrar o navio nesse tufão. O Euro-aquilão estava sobre eles e li deviam agir de acordo. "Cessamos a manobra e nos fomos dei­xando levar." Passaram a sotavento (Sota-vento e o lado para onde vai o vento; bordo contrário àquele de onde sopra o vento) da pequena ilhota chamada Clauda, que ficava a 40 milhas da costa, bem no caminho do vento. Não tinham esperança de chegar ao seu pequeno porto, que ficava no lado errado, nem ousavam lançar âncora, mas usaram a água temporariamente calma e o abrigo arriscado de seus penhascos a fim de se prepararem para o que vinha pela frente. Primeiro, recolheram o bote, levantando-o a bordo. Os passageiros ajudaram, e Lucas registra, com sentimento: "A custo conseguimos recolher o bote." Então usaram de todos os meios para cingir o navio, apertando a madeira, precaução co­mum nos tempos antigos, e ocasionalmente nos dias de Nelson, contra a pressão do vento e da água. O maior medo de todos os que se encontravam a bordo era de o navio se quebrar ou que o madeiramento vazasse e o navio se enchesse de água. A maioria dos navios antigos se perdia mais pelo naufrágio do que por qualquer outra causa.

 

Arriaram a verga com sua vela mestra, pois se navegassem nesse vento a todo pano, o fim — se não afundassem primeiro — seria os bancos de areia e as areias movediças da costa afri­cana, o notório golfo de Sirte Maior, perto da Líbia. A única esperança deles era içar as velas de tempestade, apontar o lado direito do navio contra o vento e deixá-lo ir à deriva até passar a tempestade.

 

Tendo passado pelo abrigo de Clauda, logo enfrentavam a agonia total de mares encapelados. Sem o peso da vela, diz Lucas que foram "açoitados severamente" —jogados ao léu como um pedaço de cortiça. A chuva e o mar impedia fogos, encharcava os suprimentos, as roupas, tudo acima e abaixo dos convés. O pouco que conseguiam comer, seus estômagos enjoados os for­çavam a vomitar. As tábuas escorregadias e em constante mo­vimento tornavam dolorido qualquer movimento. Paulo, Lucas, os suprimentos, as roupas, tudo acima e abaixo do convés. O alternava nas bombas, mas a água que entrava pelas madeiras sob pressão subia enquanto o navio abaixava. No segundo dia, a fim de aliviar o navio, o capitão ordenou que se atirasse ao mar a carga solta: todos os animais e muito mais. No terceiro dia, mandou lançar ao mar a aparelhagem sobressalente: cabos, mastreação, tudo o que não fosse essencial.

 

Um dia miserável após outro, uma noite pavorosa após outra, levantaram-se e caíram no mar montanhoso. A nuvem grossa e contínua impedia que o capitão determinasse a posição do navio. Para Lucas, parecia que se agitavam num curso louco, mas de fato derivavam à razão de dois quilómetros e meio por hora na direção de oito graus a noroeste. Tivessem mapas e meios de determinar sua posição, não se teriam preocupado tanto, pois não poderiam ter planejado um curso mais vantajoso — caso não fossem a pique. A principal carga de trigo havia-se molhado toda — os sacos pesados demais para serem movidos num navio que arfava e cada vez mais aumentava em peso.

 

O nível da água subia, o navio abaixava, até que no décimo primeiro ou décimo segundo dia da tempestade "dissipou-se afinal toda a esperança de salvamento". O naufrágio agora era inevitável — apenas questão de poucos dias, ainda que a tem­pestade cessasse — e significaria a perda de todos se abandoassem o navio num mar como esse.

 

Lucas não havia notado a Paulo. Pouco se sabe do desenho interior de navios antigos, mas todos os passageiros estariam mais ou menos amontoados, partilhando suas misérias sem a menor privacidade. Entretanto, Lucas não tinha visto o que Paulo viu, até a manhã em que Paulo, com dificuldade foi até onde Júlio, o capitão e a tripulação se empilhavam, tristes. Paulo lançou a voz acima do vento e se reuniram ao seu redor.

 

Suas primeiras palavras foram uma amostra do antigo Paulo com a tendência de justificar a si mesmo, mas seus ouvintes respeitavam-no demais para notar. "Senhores", disse ele, "na verdade era preciso terem-me atendido e não partir de Creta, para evitar este dano e perda. Mas, já agora vos aconselho bom ânimo, porque nenhuma vida se perderá de entre vós, mas somente o navio. Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas; é preciso que compareças perante César, e eis que Deus por sua graça te deu todos quantos navegam contigo. Portanto, senhores, tende bom ânimo; pois eu confio em Deus, que sucederá do modo por que me foi dito. Porém é necessário que vamos dar a uma ilha."

 

Na décima quarta noite desde a partida de Creta, não di­minuindo o vendaval, os marinheiros de repente detectaram o som da arrebentação a sotavento. Não podiam ver nada, mas se a arrebentação era mais alta que a tempestade, deviam estar-se aproximando de uma costa rochosa. Lançaram o prumo, e acharam vinte braças. Um pouco mais tarde, acharam quinze. Se continuassem assim, logo se despedaçariam contra as rochas. Podiam ver agora as ondas, mas não a praia, pois se encontra­vam afastados do ponto baixo de Koura, na abertura do que agora é a baía de São Paulo. Smith descobriu que era este o lugar exato que um navio à deriva teria chegado na décima quarta noite, e que as tomadas de profundidade também eram exatas.

 

O capitão ordenou que lançassem quatro âncoras da popa. Então "oravam para que rompesse o dia". Nada mais havia que pudessem fazer.

 

Os marinheiros pensavam de outra forma. Paulo, alerta, viu o que estavam para fazer: os homens, de cuja habilidade de­pendia a segurança dos oficiais e dos passageiros, estavam quie­tamente abaixando o bote, a pretexto de largar âncoras da proa, decididos a escapar antes que o navio se quebrasse. Paulo disse ao centurião e aos soldados: "Se estes não permanecerem a bordo, vós não podereis salvar-vos." Os soldados cortaram os cabos e o bote caiu no mar, afastando-se.

 

Logo antes da aurora Paulo fez outra sugestão. O capitão estivera por demais preocupado com a crise para pensar nela.

 

Paulo, dirigindo-se aos oficiais e a todos os que pudessem ouvi-lo, disse: "Hoje é o décimo quarto dia em que, esperando, estais sem comer, nada tendo provado. Eu vos rogo que comais alguma coisa; porque disto depende a vossa segurança; pois nenhum de vós perderá nem mesmo um fio de cabelo."

 

Tomando um pão encharcado e bolorento, ele deu graças a Deus, orando na presença de todos; quebrou-o e mui delibe­radamente começou a comer. Todos cobraram ânimo e organizou-se uma refeição geral. Sendo o movimento do navio menor do que nos quatorze dias passados, a alimentação de 270 pessoas não ofereceu nenhuma dificuldade. Com novas forças, jogaram o restante do trigo ao mar.

 

A esta altura já tinha amanhecido. O navio estava na entrada de uma baía. Não reconheceram a terra; não sabendo a velo­cidade nem a direção da deriva, podiam estar em algum lugar perto da Silícia ou da Tunísia. A frente estava uma costa ro­chosa, mas podiam ver um rio e uma praia arenosa.

 

O capitão executou uma manobra complicada. A tripulação, na descrição de Lucas, "levantando as âncoras, deixaram-no ir ao mar, largando também as amarras do leme; e, alçando a vela de proa ao vento, dirigiram-se para a praia." O capitão tinha o navio totalmente sob controle e pouco espaço para percorrer. Logo o navio estaria encalhado e vadeariam até à praia.

 

Mas ele não podia perceber, quando deu a ordem, que o pedaço rochoso de terra a estibordo era, de fato, uma ilha (Salmoneta) ligada ao continente por um banco de areia, "lugar onde duas correntes se encontravam", na descrição de Lucas. Por causa disso o navio foi apanhado numa corrente cruzada e levado para o banco de areia até que a proa encravou-se na lama enquanto as ondas começaram a despedaçar a popa. A companhia começou a pular para fora do navio. Os soldados reagiram instantaneamente, pois os presos ou Paulo podiam nadar e fugir. De acordo com as ordens vigentes, pediram permissão para matar o grupo.

 

"Mas o centurião, querendo salvar a Paulo, impediu-os de o fazer; e ordenou que os que soubessem nadar fossem os pri­meiros a lançar-se ao mar e alcançar a terra. Quanto aos demais, que se salvassem uns em tábuas, e outros em destroços do navio. E foi assim que todos se salvaram em terra."

 

Vendo o naufrágio, os nativos correram à praia e tudo fi­zeram para ajudar. Acenderam uma fogueira, pois além do frio e da chuva que voltava a cair, todos os náufragos estavam en­sopados da água do mar.

 

Os marinheiros descobriram, a esta altura, que a ilha era Malta, e que o grande porto de Valeta, com o qual muitos estariam familiarizados, não ficava muito distante. A chuva havia transformado Lucas num grego um tanto superior; ele descarta os malteses, que "trataram-nos com singular hu­manidade", como bárbaros por causa do seu dialeto e sotaque, embora Malta houvesse sido latinizada havia séculos. Ele ficou encantado com a reação dos nativos próximo ao incidente. Paulo, depois de aquecido e apesar da sua corrente, procurava gravetos que alimentassem o fogo. Ao atirar um feixe de gravetos na fogueira, um pedaço de pau pulou para fora e agarrou-se à mão do apóstolo — ele havia apanhado uma cobra venenosa.

 

"Quando os bárbaros viram a bicha pendente da mão dele, disseram uns aos outros: Certamente este homem é assassino, porque, salvo do mar, a Justiça não o deixa viver. Porém, ele, sacudindo o réptil no fogo, não sofreu mal nenhum; mas eles esperavam que ele viesse a inchar, ou a cair morto de repente. Mas, depois de muito esperar, vendo que nenhum mal lhe su­cedia, mudando de parecer, diziam ser ele um deus."

 

Paulo não entrou em pânico com a picada da cobra, e esteve à altura do próximo chamado. Perto do naufrágio havia um sítio pertencente a Públio, o principal magistrado de Malta, o qual imediatamente ofereceu hospitalidade temporária. A tri­pulação e a maioria dos passageiros foram talvez distribuídos pelas cabanas do seu povo, enquanto Júlio, Paulo e seus assis­tentes recolheram-se, como convidados, à casa do chefe. Aí descobriram que o pai de Públio estava enfermo de disenteria e febre. Não foi Lucas, o médico, quem efetuou a cura, mas Paulo. "Paulo foi visitá-lo", registra Lucas com generosidade, "e, orando, impôs-lhe as mãos e o curou. À vista deste acon­tecimento, os demais enfermos da ilha vieram e foram curados."

 

Paulo e Lucas ficaram apenas alguns dias na casa do magis­trado. Júlio pode ter alugado uma casa em Valeta, onde as curas e a evangelização continuaram durante todo o inverno. Os na­tivos demonstraram grande amor por Paulo, Lucas e Aristarco, de modo que lhes deram muitos presentes e, na sua partida, proveram-lhes suprimentos. A tradição em Malta marca a es­tada de Paulo como o começo de um Cristianismo ininterrupto; os malteses guardaram na memória o local do naufrágio por dezoito séculos até que Smith de Jordanhill chegou e provou que eles estavam certos.

 

Outro grande navio alexandrino, navegando sob o emblema dos deuses gémeos Castor e Pólux, invernara na ilha. Quando, no início de fevereiro de 60, o capitão decidiu aproveitar o bom tempo e prosseguir viagem, embora a época da navegação ainda não tivesse começado, Júlio comprou as passagens. A viagem transcorreu sem incidentes, e finalmente Paulo entrou na baía de Nápoles, viu o Vesúvio soltando seu preguiçoso caracol de fumaça e a cidade de Pompeia, esta sem saber que lhe restavam apenas dezenove anos. O cargueiro aportou em Potéoli, na época, o maior ancoradouro da baía, onde acharam alguns cris­tãos. Júlio, quer desejasse que Paulo desfrutasse mais um pouquinho da sua relativa liberdade — sabendo que ele ainda não era esperado em Roma — quer por ter de pedir instruções a Roma, ou então por não admitir que seus dias em companhia do apóstolo estivessem contados, permitiu-lhe uma visita de sete dias.

 

J. Pollock