Paulo discorda de Pedro em Antioquia Gl 2.11-16

 

Este é sem dúvida um dos episódios mais tensos e dramáticos do Novo Testamento. Temos aqui dois líderes apostólicos de Jesus Cristo, face a face em um conflito total e franco.

 

O cenário passou de Jerusalém, a capital do Judaísmo, onde se encaixam todos os v.s precedentes deste longo capítulo, para Antioquia, a principal cidade da Síria, até mesmo da Ásia, onde a missão gentia começou e onde os discípulos foram pela primeira vez chama­dos "cristãos". Quando Paulo visitou Jerusalém, Pedro (junto com Tiago e João) estendeu-lhe a destra da comunhão (v.s 1-10). Quando Pedro visitou Antioquia, Paulo se lhe opôs face a face (v.s 11-16).

 

Tanto Paulo como Pedro eram cristãos, homens de Deus, que sa­biam o que era ser perdoado através de Cristo e que haviam recebido o Espírito Santo. Além disso, ambos eram apóstolos de Jesus Cristo, especialmente chamados, comissionados e investidos com a sua autoridade. Ambos eram respeitados nas igrejas por sua liderança. Ambos haviam sido poderosamente usados por Deus. Na verdade, o livro de Atos está virtualmente dividido no meio pelos dois, a primeira parte contando a história de Pedro e a segunda parte, a história de Paulo.

 

Mas aqui encontramos o apóstolo Paulo resistindo face a face ao apóstolo Pedro, contradizendo-o, repreendendo-o, condenando-o, porque este havia se afastado e se separado dos crentes cristãos gentios e não comia mais com eles. Não que Pedro negasse o evangelho em sua doutrina, pois Paulo se esmera em demonstrar que ele e os apósto­los de Jerusalém estavam unidos quanto ao evangelho (v.s 1-10), e ele repete este fato aqui (v.s 15-16). A ofensa de Pedro contra o evangelho foi na sua conduta. Nas palavras de J. B. Phillips, "a sua conduta estava em contradição com a verdade do evangelho".

 

Convém investigarmos esta situação, na qual estes dois líderes apostólicos aparecem em total desarmonia. É particularmente importante notar o que cada apóstolo fez, por que o fez e com que resultado. Va­mos começar com Pedro.

 

1. A Conduta de Pedro (vs. 11-13)

 

a. O que ele fez

 

Quando Pedro chegou a Antioquia, ele comia com os cristãos gentios. Na verdade, o tempo imperfeito de verbo indica que este era o seu comportamento regular, como diz J. B. Phillips: "Pedro tinha o hábito de se sentar à mesa com os gentios". Seus antigos escrúpulos judaicos haviam sido vencidos. Ele não se considerava de forma alguma desonrado ou contaminado pelo contato com os cristãos gentios incircuncisos, como antigamente. Em vez disso, ele os convidava para comer com ele, e comia com eles. Pedro, que era um cristão judeu, desfrutava a fraternidade dos crentes de Antioquia, que eram cristãos gentios. Isto provavelmente significa que faziam refeições comuns juntos, embora, sem dúvida alguma, participassem também da Ceia do Senhor.

 

Então, um dia, chegou a Antioquia um grupo de Jerusalém. Eram todos crentes cristãos professos, mas eram de origem judaica, escrupulosos fariseus na verdade (At 15:5) e vinham "da parte de Tiago" (Gl 2:12), o líder da igreja de Jerusalém. Isto não significa que tives­sem a sua autoridade, pois ele mais tarde negou isso (At 15:24), mas, antes, que eles declararam que a tinham. Eles se apresentaram como delegados apostólicos. Ao chegarem à Antioquia começaram a pregar: "Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos" (At 15:1). Evidentemente foram até mais longe do que isso, ensinando que era impróprio que crentes judeus circuncidados par­ticipassem da mesma mesa com os crentes gentios incircuncisos, ainda que estes últimos cressem em Jesus e fossem batizados.

 

Na sua política perniciosa, esses mestres judaizantes ganharam um notável convertido na pessoa do apóstolo Pedro. Pois este, que anteriormente comia com estes cristãos gentios, agora se afastou e se separou deles. Parece que ele o fez por vergonha. Diz o Bispo Lightfoot: "As palavras descrevem convincentemente o afastamento cauteloso de uma pessoa tímida que se esquiva dos observadores."

 

b. Por que ele o fez

 

Por que Pedro criou esta brecha desastrosa na comunhão da igreja de Antioquia? Já vimos a causa imediata, isto é, chegaram "alguns da parte de Tiago" (v. 12). Mas por que ele se deixou influenciar? Devemos supor que eles o convenceram de que estivera agindo de maneira errada ao comer com os cristãos gentios? Não pode ser.

 

Lembremos que havia pouco tempo, conforme registrado em At 10 e 11, Pedro recebera uma revelação direta e especial de Deus exata­mente sobre este assunto. Ele estava no terraço de uma casa em Jope, uma tarde, quando entrou em êxtase e teve a visão de um lençol que descia do céu segurado pelos quatro cantos, contendo uma variedade de criaturas impuras (aves, animais e répteis). Então ele ouviu uma voz dizendo: "Levanta-te, Pedro; mata e come". Quando ele objetou, a voz continuou dizendo: "Ao que Deus purificou não consideres co­mum". A visão se repetiu três vezes, com ênfase. Pedro concluiu que devia acompanhar os mensageiros gentios que lhe foram enviados da parte do centurião Cornélio e foi à casa deste, atitude que lhe era im­própria, por ser um judeu. No sermão que pregou na casa de Corné­lio, ele disse: "Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas". Quando o Espírito Santo veio sobre os gentios que creram, Pedro concordou que deviam receber o batismo cristão e que deviam ser recebidos na igreja cristã.

 

Devemos agora supor que Pedro tenha se esquecido da visão que teve em Jope e da conversão da casa de Cornélio? Ou que tenha traído a revelação que Deus lhe dera? Certamente não. Não há em Gl 2 indicação alguma de que Pedro houvesse mudado de opinião. Por que então ele se afastou da comunhão com os crentes gentios em Antioquia? Paulo nos conta. Ele "veio a apartar-se, temendo os da circuncisão" (v. 12). "E também os demais judeus dissimularam com ele, ao ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles" (v. 13). A palavra grega para "dissimulação" é "hipocrisia", que significa "fazer fita". Era o que estavam fazendo. Eles "fingiram" (cf. v. 13, BJ).

 

A acusação de Paulo é séria, mas evidente. É que Pedro e os outros agiram com falta de sinceridade, não por convicção pessoal. Seu afastamento da mesa dos crentes gentios não foi incitado por algum prin­cípio teológico, mas por medo covarde de um pequeno grupo. Na ver­dade, Pedro fez em Antioquia exatamente o que Paulo se recusou a fazer em Jerusalém, isto é, ceder diante da pressão. O mesmo Pedro que negou o seu Senhor com medo de uma criada, negou-o agora com medo do partido da circuncisão. Ele continuava crendo no evangelho, mas falhou na sua prática. Sua conduta "não se ajustou" com o evangelho. Ele virtualmente contradisse o evangelho com sua atitude, por­que lhe faltou coragem nas convicções.

 

c. As consequências

 

Já observamos que "os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles" (v.s 13). "A dissimulação deles", comenta Lightfoot, "foi uma enchente que levou tudo de roldão" Até Barnabé, o amigo de confiança de Paulo e seu colega missionário, que permanecera firme ao seu lado em Jerusalém (v.s 1, 9), agora, em Antioquia, cedeu. Isto é importante. Se Paulo não tivesse se colocado contra Pedro naquele dia, toda a igreja cristã teria derivado para uma água parada, estagnando, ou então haveria uma permanente rixa entre o Cristianismo gentio e o judeu, "um Senhor, mas duas mesas do Senhor". A notável cora­gem de Paulo naquela ocasião, resistindo a Pedro, preservou a verda­de do evangelho e a fraternidade internacional da igreja.

 

Agora vamos deixar Pedro de lado e vamos nos voltar para Paulo.

 

2. A Conduta de Paulo (vs. 14-16)

 

a. O que ele fez

 

O v. 11 diz que Paulo "resistiu" ou "enfrentou" (JB) a Pedro "face a face". A razão da atitude drástica de Paulo foi que Pedro "se tornara repreensível". Isto é, "ele estava inteiramente errado" (BLH). Além disso, Paulo repreendeu Pedro "na presença de todos" (v. 14), franca e publicamente.

 

Paulo não hesitou, nem mesmo por deferência ao que Pedro era. Ele reconhecia que este era um apóstolo de Jesus Cristo, que realmen­te fora designado como apóstolo antes dele (1:17). Sabia que Pedro era umas das "colunas" da igreja (v. 9), a quem Deus confiara o evangelho para os circuncidados (v. 7). Paulo não negou nem se esqueceu destes fatos. Não obstante, isto não o impediu de contradizer e se opor a Pedro. Nem o intimidou de fazê-lo publicamente. Ele não deu ouvidos àqueles que talvez o aconselhassem a ser cauteloso, evitando lavar roupa suja teológica em público. Ele não tentou ocultar a desavença ou marcar (como nós faríamos) uma entrevista particular da qual o público ou a imprensa ficasse excluído. A entrevista em Jerusalém foi particular (v. 2), mas a revelação dos fatos em Antioquia teve de ser pública. O afastamento de Pedro dos crentes gentios havia provocado um escândalo público; da mesma forma, ele de­veria sofrer oposição publicamente. Portanto, Paulo se opôs a Pedro "face a face" (v. 11) e "na presença de todos" (v. 14). Foi exatamente o tipo de colisão frontal que a igreja tentaria evitar a qualquer preço nos dias de hoje.

 

b. Por que ele o fez

 

Por que Paulo se atreveu a contradizer um companheiro seu, apóstolo de Jesus Cristo, e isto publicamente? Seria porque tinha um temperamento irascível e não podia controlar o gênio ou a língua? Seria ele um exibicionista, que gostava de discutir? Será que considerava Pedro como um perigoso rival, de modo que agarrou aquela oportunidade para rebaixá-lo? Não. Nenhum desses sentimentos desprezíveis moti­varam a Paulo.

 

Por que então ele agiu desse modo? A resposta é simples. Paulo agiu assim porque estava profundamente preocupado exatamente com o princípio que Pedro parecia ignorar. Ele sabia que o princípio teoló­gico que estava em jogo não era um assunto sem importância. Martinho Lutero capta isso de maneira admirável: "Ele não estava lidando com um assunto superficial, mas com o artigo principal de toda a dou­trina cristã... Pois quem é Pedro? Quem é Paulo? Quem é um anjo do céu? O que são todas as outras criaturas para com o artigo da justi­ficação? O que somos nós, se é que o sabemos, estamos à luz clara do dia; mas se somos ignorantes nesse ponto, então estamos na mais miserável escuridão."

 

Que princípio teológico era esse que estava em jogo? Duas vezes neste capítulo o apóstolo chama-o de "a verdade do evangelho". Fora a questão discutida em Jerusalém (v. 5), e foi novamente o assunto discutido em Antioquia (v. 14). Paulo "viu". Observe a percepção espiritual nessa questão fundamental que ele reivindica: que Pedro e os outros não estavam procedendo "corretamente segundo a verdade do evangelho" (literalmente, "não andavam corretamente", v. 14). "A verdade do evangelho" parece estar sendo compara­da a um caminho reto e estreito. Em vez de se manter nele, Pedro esta­va se desviando.

 

Qual é, então, essa verdade do evangelho? Qualquer leitor da Epís­tola aos Gálatas deveria perceber a resposta a esta pergunta. São as boas novas de que nós, os pecadores, culpados e sob o julgamento de Deus, podemos ser perdoados e aceitos pela sua plena graça, pelo seu favor livre e imerecido, com base na morte do seu Filho e não através de quaisquer obras ou méritos nossos. Mais resumidamente, a verdade do evangelho é a doutrina da justificação (que significa aceitação diante de Deus) tão somente pela graça, através da fé, o que Paulo prossegue expondo nos v.s 15-17.

 

Qualquer desvio deste evangelho o apóstolo simplesmente não con­segue tolerar. No começo da epístola ele pronunciou um terrível anátema contra aqueles que o distorciam (1:8,9). Em Jerusalém ele se re­cusou a submeter-se aos judaizantes por um momento que fosse, "pa­ra que a verdade do evangelho permanecesse" (2:5). E agora em An­tioquia, movido por essa mesma veemente lealdade para com o evan­gelho, ele enfrenta Pedro face a face porque o comportamento deste contradizia tal verdade. Paulo estava determinado a defender e man­ter o evangelho a qualquer custo, ainda que fosse às custas da humi­lhação pública de um irmão apóstolo.

 

Mas talvez alguém fique imaginando por que o afastamento de Pe­dro contradizia a verdade do evangelho. Considere com atenção o ra­ciocínio de Paulo. Os v.s 15 e 16 dizem: Nós (isto é, Pedro e Paulo)... sabendo, contudo, que o homem (qualquer homem, judeu ou gentio) não é justificado por obras da lei, e, sim, mediante a fé em Cristo Jesus... Estas palavras fazem parte do que Paulo disse a Pedro em Antioquia, fazendo-o lembrar do evangelho que eles dois conhe­ciam e que ambos defendiam. Neste assunto não havia diferença de opinião entre eles. Eles haviam concordado que Deus aceita o pecador através da fé em Cristo e por causa da obra que ele consumou na cruz. Este é o caminho da salvação para todos os pecadores, tanto judeus como gentios. Não há distinção entre eles quanto ao pecado; e, por­tanto, não há distinção entre eles quanto ao meio de sua salvação.

 

Agora, se Deus justifica os judeus e os gentios nos mesmos termos, simplesmente pela fé no Cristo crucificado, não vendo diferença entre eles, quem somos nós para negar comunhão aos crentes gentios ape­nas porque não são circuncidados? Se, para aceitá-los, Deus não exige a tal obra da lei chamada circuncisão, como nos atrevemos a lhes im­por uma condição, a qual o próprio Deus não impõe? Se Deus os aceitou, como podemos rejeitá-los? Se ele os aceita na sua comunhão, va­mos nós negar-lhes a nossa! Ele os reconciliou consigo mesmo; como podemos nos afastar daqueles a quem Deus reconciliou? O princípio está bem explicado em Rm 15:7: "Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu."

 

Além disso, o próprio Pedro fora justificado pela fé em Jesus. Além de "conhecer" a doutrina da justificação pela fé, ele próprio agira com base nela, "crendo" em Jesus a fim de ser justificado (v. 16). E Pedro já não observava mais os regulamentos dietéticos judaicos. Se, sendo tu judeu, diz-lhe Paulo, vives como gentio, e não como ju­deu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus? (v. 14).

 

c. As consequências

 

Nesta passagem não somos informados explicitamente do que resul­tou da atitude de Paulo, mas a perspectiva da história mais adiante nos diz. Este incidente em Antioquia precipitou o futuro Concilio de Jerusalém, descrito em Atos 15. É possível que Paulo estivesse já a ca­minho de Jerusalém para assistir ao Concilio quando escreveu esta epís­tola (Gálatas). Sabemos de At 15:1,2 que as dissensões provocadas pelos judaizantes em Antioquia foram a causa imediata do Concilio. Paulo, Barnabé e alguns outros foram designados pela igreja para irem a Jerusalém, falar com os apóstolos e os anciãos acerca desta questão. Tam­bém sabemos qual foi a decisão que o Concilio de Jerusalém tomou, isto é, que a circuncisão não devia ser exigida dos crentes gentios. E, assim, parcialmente como resultado da posição de Paulo contra Pedro em Antioquia naquele dia, o evangelho obteve uma grande vitória.

 

Conclusão

 

O que podemos aprender hoje desta desavença entre Paulo e Pedro em Antioquia? Será que não passou de uma indigna e indecorosa coli­são de personalidades, sem qualquer significado duradouro? Pelo con­trário, a controvérsia entre Paulo e Pedro tem se repetido em debates eclesiásticos contemporâneos, especialmente no que se refere à comunhão internacional. O cenário é diferente. Não é mais a Síria nem a Palestina, mas outras partes do mundo, sem excluir o Brasil. Os parti­cipantes também são diferentes. Eles não são apóstolos do primeiro século, mas gente da igreja do século XXI. O campo de batalha também é diferente, pois já não é mais a questão da circuncisão mosaica, mas assuntos secundários tais como a confirmação, a forma de batismo ou o ministério da igreja. Mas a questão fundamental em jogo é exata­mente a mesma, isto é: em que base os crentes cristãos podem desfrutar a comunhão uns com os outros ou afastar-se uns dos outros? A resposta a estas perguntas encontra-se no evangelho. O evangelho é a boa nova da justificação dos pecadores pela graça de Deus. Ele nos diz que a aceitação do pecador diante de Deus é somente pela fé, total­mente à parte das obras. Esta é a verdade do evangelho. Uma vez que a assimilemos claramente, ficamos em posição de entender nosso du­plo dever para com ela.

 

a. Devemos andar corretamente, de acordo com o evangelho Não basta que creiamos no evangelho (Pedro cria, v. 16), nem mesmo que lutemos por preservá-lo, como Paulo e os apóstolos de Je­rusalém fizeram, e os judaizantes não. Temos que ir ainda mais adian­te. Temos de aplicá-lo; foi o que Pedro deixou de fazer. Ele sabia per­feitamente bem que a fé em Jesus é a condição única para que Deus tenha comunhão com os pecadores; mas ele acrescentou a circuncisão como condição extra para que ele tivesse comunhão com eles, contra­riando assim o evangelho.

 

Hoje em dia diversos grupos cristãos e pessoas repetem o mesmo erro de Pedro. Recusam-se a ter comunhão com outros crentes cris­tãos professos a não ser que estes sejam totalmente imersos na água (nenhuma outra forma de batismo os satisfaz), ou que tenham sido episcopalmente confirmados (insistem que apenas as mãos de um bis­po na sucessão histórica são adequadas), ou que sua pele tenha determinada cor, ou que venham de uma determinada classe social (geral­mente a de cima) e assim por diante.

 

Tudo isto é uma séria afronta ao evangelho. A justificação é só pe­la fé; não temos o direito de acrescentar uma forma particular de ba­tismo, de confirmação ou alguma condição denominacional, racial ou social. Deus não insiste nessas coisas para nos aceitar em sua comu­nhão; por isso não devemos insistir nelas também. Que exclusividade eclesiástica é esta que nós praticamos e Deus não? Será que somos mais reservados do que ele? A única barreira para termos comunhão com Deus, e consequentemente uns com os outros, é a incredulidade, a fal­ta da fé salvadora em Jesus Cristo.

 

Não somos anarquistas, é claro. É necessário haver uma sadia disciplina eclesiástica. Cada igreja tem o direito de estabelecer regras pró­prias para os seus membros. O propósito de tal disciplina doméstica é garantir, na medida do possível em termos humanos, que aqueles que desejam ser membros da igreja tenham sido justificados pela fé. Mas negar a um companheiro cristão (crente, batizado, membro ativo de outra igreja) o acesso à mesa do Senhor simplesmente porque ele não foi batizado da mesma forma que nós ou porque não foi confirmado, ou por qualquer outro motivo, é uma ofensa ao Deus que o justificou, um insulto ao irmão pelo qual Cristo morreu e uma contradição à ver­dade do evangelho. Quem sou eu para considerar impuro um compa­nheiro crente justificado, para não comer com ele? Temos de ouvir no­vamente a voz que veio do céu: "Ao que Deus purificou não conside­res comum" (At 10:15).

 

b. Devemos nos opor àqueles que negam o evangelho Quando o problema existente entre nós for trivial, devemos ser o mais flexível possível. Mas quando a verdade do evangelho estiver em jogo, devemos permanecer firmes. Graças a Deus por Paulo que enfrentou Pedro face a face, por Atanásio que enfrentou o mundo inteiro quan­do o Cristianismo abraçou a heresia ariana, e por Lutero que se atre­veu a desafiar até mesmo o papado. Onde estão os homens desse cali­bre nos dias de hoje? Muitos são os grupos de pressão vocal na igreja contemporânea. Não devemos ser levados à submissão por causa do medo. Se eles se opõem à verdade do evangelho, devemos nos opor a eles sem hesitação.

 

Bibliografia J. R. W. Stott