Lição 11

 

13 de Março de 2011

 

Antioquia, uma igreja que rompe barreiras

 

Texto Áureo

 

"E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja e ensinaram muita gente. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos". At 11.26

 

Verdade Aplicada

 

Uma Igreja onde a graça de Deus predomina não existem preconceitos, é envolvente, atraente e impactante, pois o Espírito Santo é seu cartão de visitas.

 

Objetivos da Lição

 

      Revelar que Antioquia foi fundada por pessoas desconhe­cidas durante a dispersão;

      Ensinar que Antioquia era uma Igreja cheia de graça, sem barreiras e sensível a voz do Espírito Santo;

      Mostrar a preocupação de Bar­nabé quanto ao ensino das Es­crituras e o êxito obtido em meio a um lugar pecaminoso e hostil.

 

Textos de Referência

 

At 11.19    E os que foram dis­persos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chi­pre e Antioquia, não anuncian­do a ninguém a palavra senão somente aos judeus.

At 11.20    E havia entre eles alguns varões de Chipre e de Cirene, os quais, entrando em Antioquia, falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus.

At 11.21    E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor.

At 11.22    E chegou a fama des­tas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e en­viaram Barnabé até Antioquia.

 

Ajuda Versículos

 

Ajuda 1

 

Ajuda 2

 

Ajuda 3

 

Ajuda 4

 

Ajuda 5

 

Ajuda 6

 

Ajuda 7

 

 

 

A Igreja em Antioquia 11:19-30

 

Atividades de Paulo e Barnabé

 

Esta seção parece dar prosseguimento ao trecho de Atos 8:4, porquanto temos aqui a reiteração da declaração que a igreja foi dispersa, em face das perseguições que começavam a ficar mais severas. O autor sagrado, mui provavelmente, se alicerçou em alguma fonte informativa da igreja cristã de Antioquia e ele teria interrompido para falar-nos sobre a conversão de Saulo de Tarso (baseado em uma fonte informativa paulina), bem como sobre as atividades de Simão Pedro, que deram inicio, oficialmente, à igreja cristã gentílica, narrativas essas quase certamente fundamentadas em uma fonte informativa derivada de Jerusalém-Cesaréia. (Ver At 8:5 - 11:18).

 

O livro de Atos, a partir deste ponto, começa a expandir a narrativa sobre as várias atividades que constituíram a missão da igreja cristã entre os gentios, através das quais o cristianismo se tornou instituição verdadeiramente universal, para jamais retornar ao provincialismo do judaísmo. Da mesma forma que as atividades do apóstolo Pedro foram aprovadas pela igreja-mãe, em Jerusalém, embora houvesse ainda alguma oposição, assim também, na presente seção, a missão da igreja de Antioquia, entre os gentios, foi abençoada por Barnabé. Presumivelmente, pois, também foi afirmada pela igreja de Jerusalém, visto que Barnabé era representante da mesma. O autor sagrado, por conseguinte, esforça-se aqui por mostrar-nos que a igreja cristã dera um passo avante em unidade, e não de modo faccioso, dividido.

 

A história de Cornélio e seus familiares, bem como dos primórdios da igreja cristã em Cesaréia, foi apresentada de maneira dramática; mas, neste ponto, os inícios igualmente importantes do cristianismo, em Antioquia, são expostos como fatos consumados.

 

Paulo já estava agindo, levantando congregações cristãs na Síria e na Cilícia (ver Gl 1:21), tendo sido o verdadeiro originador da missão cristã entre os gentios, embora o livro de Atos não nos dê essa impressão, posto que a história de Cornélio e Pedro representa o início oficial da missão evangelizadora entre os povos gentílicos, provavelmente porque foi através desse incidente que a igreja-mãe, em Jerusalém, deu sanção oficial à mesma. Ou talvez tenha ocorrido simplesmente que Lucas não estava informado sobre os muitos anos de labor de Paulo, na Síria e na Cilícia, antes desse incidente em Cesaréia.

 

O inicio da igreja cristã de Antioquia não se deveu aos esforços de Paulo, mas antes, de algum irmão cujo nome não é dado, que fora forçado a fugir de Jerusalém, o qual, tendo chegado à região de Antioquia mui naturalmente continuou falando a respeito do Senhor Jesus, não tendo seguido a norma de falar exclusivamente aos judeus (ver o vs. 19). O vigésimo versículo não deixa perfeitamente claro se esses discípulos, cujo nome não nos é dado, eram judeus helenistas, de Jerusalém, que haviam sido forçados a fugir por causa das perseguições, ou eram nativos de Chipre e Cirene, provavelmente judeus helenistas que haviam estabelecido ali residência permanente. Esta última possibilidade parece mais provável.

 

A passagem de Atos 13:1 parece indicar, de forma bem definida, que se tratava de judeus cristãos, residentes permanentes em áreas ocupadas por gentios, aqueles que foram os responsáveis pela evangelização de Antioquia e redondezas. Por conseguinte, o apóstolo Paulo não foi o único fundador do cristianismo gentílico; a despeito do que, o grande espaço que Lucas dedica a ele, nessa história, demonstra, acima de qualquer dúvida, que Paulo era considerado a força mais poderosa do evangelismo entre os gentios. Não se há de duvidar que importante parte das atividades do apóstolo Paulo, em alguns territórios, se alicerçava em igrejas cristãs já fundadas, não sendo um trabalho inteiramente pioneiro.

 

11:19  Aqueles, pois, que foram dispersos pela tributação suscitado por causa de Estêvão, passaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus,

 

Neste ponto tem continuação a narrativa interrompida no trecho de Atos 8:4, a fim de que fossem feitas as inserções do material concernente à conversão de Saulo de Tarso e do material concernente ao início oficial da missão cristã entre os gentios, por parte de Simão Pedro. (Ver a lição 10).

 

Fenícia. O território que ficava nas costas orientais do mar Mediterrâneo, e cobria cerca de duzentos e quarenta quilômetros entre os rios Litani e Arvade (modernamente Líbano Latáquia do Sul). Esse lugar é mencionado exclusivamente no N.T. como lugar de refúgio para os cristãos perseguidos, os quais fugiram de Jerusalém por causa da perseguição que rebentou logo após o assassínio de Estêvão (ver At 11:19). Foi também o território através do qual passaram Paulo e Silas, em sua jornada de Samaria a Antioquia. (Ver At 15:3). Posteriormente, o apóstolo Paulo aportou na costa da Fenícia, perto de Tiro, em sua viagem a Jerusalém. (Ver At 21:2,3). Nos tempos do Senhor Jesus, a Fenícia era reputada como a região costeira em redor de Tiro e Sidom. (Ver Mt 15:21 e Lc 6:17). E os habitantes da região, que incluíam gregos, eram considerados «sírios-fenícios» (ver Mc 7:26).

 

Nos tempos do A.T., esse território era denominado, pelos hebreus, «Canaã» (ver Is 23:11). A palavra «cananeu» significa comerciante, e mui provavelmente esse foi o nome que os habitantes do lugar aplicaram a si mesmos. (Ver Gn 10:15). A origem dessas populações tão dadas às coisas do mar é extremamente obscura; mas sabemos, com base nos escritos de Heródoto (1.1. 11.89), que eles ali chegaram provenientes da área do golfo persa, através do mar Vermelho e primeiramente erigiram a cidade de Sidom. As principais cidades desse território eram Trípolis, Biblis, Sidom, Tiro e Berito. A área é fértil, a começar pelas terras altas no sopé do monte Líbano e descendo lentamente para o mar. Ocupava um lugar muito cobiçado para o comércio, desde os tempos mais remotos que se conhecem. Diz Plínio (L. 5, cap. 12) que a Fenícia se tornara famosa pela invenção das letras, das constelações e das artes navais e da guerra.

 

O território era conhecido por sua religião idolatra, o que foi condenado por Elias (ver I Rs 18-19) e por Isaías (ver Is 65:11). A arqueologia, quando do descobrimento dos textos de Ras Shamra, demonstrou que ali imperava o politeísmo, bem como uma mitologia natural centralizada ao redor de Baal, que também era conhecido pelo nome de Moloque (que significa «rei»), do deus-sol Sapis e de Quesepe, uma divindade pertencente ao submundo. Cultos surgidos posteriormente misturaram diversas ideias pertencentes a outras culturas, mas, de maneira geral, a área era estritamente pagã. Foi em um lugar assim, pois, que agora chegava o cristianismo.

 

Chipre. Trata-se da terceira maior ilha do mar Mediterrâneo, com 238 quilômetros de comprimento e 24 a 64 quilômetros de largura. Ali nasceu Barnabé. A história registrada menciona Chipre desde 1500 A.C. Diversos povos, entre os quais os egípcios, os fenícios, os gregos e os romanos, nela habitaram em estágios vários de sua história. Os missionários cristãos nela penetraram, pela primeira vez, através de uma de suas mais excelentes cidades portuárias, Salamina. Ainda existe um grande aqueduto nesse local, o qual era suficiente para suprir de água uma cidade com cerca de cem mil habitantes. Ali medrava grande população judaica, nos dias de Paulo, o que fica demonstrado pelo fato de haver bom número de sinagogas na cidade. O cristianismo lançou ali raízes firmes. Acredita-se que Barnabé foi martirizado na ilha de Chipre, em Salamina. Quando do concilio de Nicéia (325 D.C.), três bispos vieram de Chipre como representantes das igrejas dali, o que nos mostra até que ponto o cristianismo já se desenvolvera na ilha. Chipre parece nunca ter sido densamente povoada, pois Plínio alistou apenas quinze centros populacio­nais.

 

Antioquia. Essa cidade, localizada às margens do rio Orontes, foi o berço das missões cristãs. Era conhecida como Antioquia da Síria, a fim de ser distinguida de Antioquia da Pisídia. (Ver At 13:14). Antioquia da Síria foi fundada em cerca de 300 a.C. e cresceu a ponto de contar com numerosa população nos tempos de Paulo, incluindo muitos judeus, os quais, desde tempos remotos haviam obtido o direito de cidadania. Durante o período das guerras dos Macabeus, muitas famílias judaicas se estabeleceram em Antioquia. Na época de Paulo, era a terceira maior cidade do império romano, perdendo em importância numérica apenas para Roma e Alexandria. Os romanos fizeram-na capital da província romana da Síria.

 

Paulo começou e terminou ali a sua segunda viagem missionária. Não sabemos exatamente quão grande era a cidade nos dias de Paulo, mas, à base da informação dada por Crisóstomo, deve ter contado com uma população de cerca de oitocentos mil habitantes, em 300 d.C. A atual Antikiyeh assinala o local da cidade antiga, mas é comparativamente pequena, cobrindo apenas pequena parte da área original. As escavações arqueológicas têm descoberto numerosas ruínas do passado, algumas das quais anteriores à era cristã. O circo, um dos maiores dos tempos romanos, a acrópole, numerosos banhos, vilas e cemitérios romanos, têm sido descobertos. Belos pisos de mosaico, que datam do período apostólico até o século VI D.C., também têm sido descobertos. O Caronion (busto de Caron, deus grego mitológico, que transportava as almas para o outro lado do rio Estige), de cerca de 170 A.C, com cinco metros e pouco de altura, entalhado em uma penedia de pedra calcária, a nordeste da cidade, continua visível, embora bastante estragada pelas intempéries. Nos dias de Paulo certamente ainda era um marco notável. Mais de uma vintena de edifícios cristãos tem sido ali descoberta, embora nenhuma dessas construções date dos dias apostólicos. O famoso Cálice de Antioquia foi descoberto ali por alguns trabalhadores que cavavam um poço, em 1910. No início foi declarado pertencente à última parte do século I D.C, e alguns chegaram a imaginar que fosse o cálice original em que Cristo serviu a Ceia. Há nele gravadas efígies que representam Cristo e os apóstolos. A maioria das autoridades concorda que se trata de um produto da primitiva arte cristã, datando entre os séculos II e VI de nossa era.

 

Antioquia sobre o Orontes era sede do legado imperial da província romana da Síria e Cilícia, e aparecia como a capital do oriente. Josefo, o historiador judeu do tempo dos apóstolos, diz-nos que era a terceira maior cidade do império romano, perdendo em importância somente para Roma e Alexandria. A grande maioria da população era síria, embora houvesse numerosa colônia judaica. Sua cultura era tipicamente greco-helenista. Seu porto era Selêucia (At l3:4), a qual era reputada cidade comercial e centro marítimo. Não muito distante dali ficava Dafné, quartel-general do culto de Apolo e Artêmisa, culto esse que se tornou famoso por sua degradação. Isso era tanto verdade que Juvenal, ao queixar-se da degradação moral que invadia Roma, disse que «...o Orontes sírio desaguou no Tibre» (Sátiras III. 62). O centro da igreja cristã passou de Jerusalém, seu berço original, para Antioquia da Síria, seu centro gentílico, pois a igreja cristã, cada vez mais, se foi tornando uma instituição gentílica. A tradição associa o apóstolo Pedro a essa cidade, considerando-o primeiro de seus bispos. Nomes ilustres posteriores, associados a essa cidade, foram Inácio e João Crisóstomo, ambos chamados bispos de Antioquia. Crisóstomo foi grande escritor de comentários bíblicos e exerceu notável influência sobre o desenvolvimento doutrinário da igreja cristã.

 

A cidade de Antioquia foi fundada por Seleuco Nicator, um dos generais de Alexandre, em 300 A.C, que lhe deu nome em honra a seu pai, Antíoco. Antíoco havia devastado e poluído a cidade de Jerusalém, mas os seus sucessores, de conformidade com o que diz Josefo («Guerras dos Judeus» 1.7, cap. 3, seção 3), foram mais liberais, tendo criado uma boa atmosfera para o desenvolvimento do judaísmo naquele lugar; e isso teria atraído a muitos judeus, até que, finalmente, Antioquia se tornou grande centro da erudição judaica, bem como cidade onde havia numerosa colônia judaica. (Ver Talmude Hieros. Kiddishin, foi. 64.4). Com base nessa circunstância, o caminho ficou preparado para a entrada e o crescimento do cristianismo em Antioquia.

 

«...não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus...» «...tão pouco compreendida foi a comissão de Cristo, para que se pregasse o evangelho a todas as nações, embora ela fosse tão clara; ou então assim foi ordenado pela providência divina, que embora devesse primeiramente ser pregado o evangelho a eles, isso perdurasse por pouco tempo apenas...» (John Gill, in loc). Tal tipo de atividade era apenas de esperar-se da parte de quem abandonara Jerusalém, porquanto o incidente de Cesaréia, que envolveu o apóstolo Pedro e a família de Cornélio, que assinalou o início da missão cristã entre os gentios, ainda não se tornara suficientemente conhecido ao redor.

 

11:20  Havia, porém, entre eles alguns cíprios e cirenenses, os quais, entrando em Antioquia, falaram também aos gregos, anunciando o Senhor Jesus.

 

«...Cirene...» Trata-se de um porto no norte da África, fundado pelos dórios, rico em várias mercadorias, como trigo, lã e tâmaras. Tornou-se parte integrante do império ptolemaico no século III A.C. Em cerca de 96 A.C. foi doado a Roma, tendo-se tornado província romana em 74 A.C. Josefo, tomando por empréstimo uma informação de Estrabão, diz-nos que a colônia judaica era ali encorajada e que a população judaica foi crescendo até constituir um dos quatro principais grupos étnicos da cidade. (Ver Antiq. xiv. 7.2). Simão, que levou a cruz do Senhor Jesus, era nativo desse lugar, segundo lemos em Mc 15:21 e seus paralelos, nos demais evangelhos. Houvesse representantes dessa cidade na multidão no dia de Pentecoste (ver At 2:10), e, evidentemente, em Jerusalém, antigos habitantes de Cirene tinham a sua própria sinagoga (ver At 6:9).

 

«...falavam também aos gregos...» Talvez não tenham sabido acerca da obra de Paulo na Síria e na Cilícia e nem acerca das atividades de Pedro em Cesaréia, mas sentiam o mesmo impulso evangelístico, que os proibia falar exclusivamente aos judeus. O entendimento que possuíam sobre o caráter universal da mensagem de Cristo, sobre o fato de que não havia mais distinções entre judeus e gentios, e sobre a verdade de que as leis cerimoniais haviam sido abolidas na igreja cristã, talvez ainda fosse muito fraco; mas o amor de Cristo os compelia a não limitarem a sua mensagem. Pode-se observar o trecho de At 13:1, onde Lúcio de Cirene é mencionado juntamente com Barnabé, que era de Chipre, como um dos líderes da igreja cristã de Antioquia. Lúcio, pois, mui provavelmente, foi um dos homens que assim pregou, conforme está registrado aqui. Barnabé, conhecendo pessoalmente o lugar, foi posteriormente comissionado para investigar os acontecimentos dali e confirmar os resultados. (Ver os vss. 22 e ss.).

 

11:21  E a mão do Senhor era com eles, e grande número creu e se converteu ao Senhor.

 

Pregavam ao Senhor Jesus, ou talvez «Jesus como Senhor» (ver o vs. 20), conforme a frase pode ser interpretada; pois o evangelho, que pregavam, na realidade anuncia a todos os homens o senhorio de Cristo, sendo ele o alvo de toda a existência, o ponto central em torno do qual gira o plano do evangelho (ver Ef 1:10), e a imagem em que os remidos estão sendo transformados, sempre crescendo na obediência a ele, ou seja, participando de sua natureza moral, que os transforma em seres que compartilham de sua própria essência.

 

Por causa dessa mensagem, «...a mão do Senhor estava com eles...», o que quer dizer que o poder e a presença de Deus se manifestavam entre eles. Ora, isso é «teísmo», em contraste com o «deísmo». O teísmo ensina que Deus não somente criou todas as coisas, mas igualmente se faz presente em sua criação, recompensando e punindo aos homens, tendo ou não comunhão com eles. O deísmo, por sua vez, ensina que apesar de talvez existir uma força superior, esse poder, que pode ser pessoal ou não, abandonou de vez a sua criação, e nada acontece, de positivo ou de negativo, por motivo da ação de sua vontade. Esse «deus» deísta nem pune e nem galardoa aos homens.

 

A expressão «...mão do Senhor...» é uma expressão hebraica comum para dar a ideia da assistência de Deus aos homens, fortalecendo-os em sua vida. (Ver Êx 9:3 e Is 59:1). Podem-se ver outros usos dessa expressão nos trechos de Lc 1:66; At 4:28,30 e 13:11. Deve-se observar que a palavra «...Senhor...» torna-se aqui, uma alusão ao Senhor, pois ele é quem é o «Senhor» dos crentes, para quem todos eles se voltam. Voltar-se para Deus ou para o Senhor, pois, significa expressar arrependimento e propósito de vida, centralizados na mensagem do evangelho, o que, naturalmente, conduz os homens a Deus. Essa expressão também é empregada em outros trechos bíblicos. (Ver At 14:15; 15:3,19; 26:18,20 e I Ts 1:9).

 

«Sem essa influência acompanhadora, nem mesmo um apóstolo poderia fazer grande bem; e poderiam homens inferiores esperar serem capazes de convencer e de converter os pecadores, sem a mesma?» (Adam Clarke, in loc.),

 

«A 'mão', conforme se sabe bem, significa poder e força. Portanto, o que Lucas queria dizer é que Deus testificava com a sua ajuda presente, sobre o fato de que os gentios estavam sendo chamados juntamente com os judeus, através de sua orientação, para que se tornassem participantes da graça de Cristo». (Calvino, in loc).

 

«Através de manifestações visíveis que não podiam ser postas em dúvida, o Senhor mostrou que era com sua aprovação que deveriam prosseguir nessa predica...aos gentios». (Alford, in loc).

 

11:22  Chegou a noticia destas coisas aos ouvidos da igreja em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia;

 

A igreja-mãe, em Jerusalém, atuava como uma espécie de diretora do movimento cristão inteiro, até esse ponto da narrativa, embora assim não tenha continuado a ser, após a destruição de Jerusalém, em 70 D.C., quando parece que Antioquia da Síria e Éfeso se tornaram os novos centros eclesiásticos principais, apesar de não terem jamais exercido aquela autoridade moral que evidentemente residira em Jerusalém. Lembremo-nos que os apóstolos habitavam em Jerusalém, tendo sido comissionados a coordenar a expansão do ministério cristão. Os apóstolos, pois, sentiam-se responsáveis por todo o avanço e o desenvolvimento da igreja, e ansiavam para que isso fosse feito conforme era mister, de maneira aprovada pelo Senhor.

 

O problema legalista havia causado consternação na igreja-mãe; e essa quiçá tenha sido uma das razões pelas quais os apóstolos viram ser necessário enviar Barnabé a Antioquia, a fim de que inspecionasse o trabalho que ali vinha sendo feito. Essa inspeção e o relatório subsequente seriam então considerados pelos oficiais da igreja de Jerusalém, e o selo resultante de aprovação da obra então a «oficializaria». Lembremo-nos que Pedro esteve em Samaria (oitavo capítulo do livro de Atos) a fim de realizar missão semelhante. Parece que todas as variegadas expressões da igreja cristã estavam sujeitas a uma aprovação apostólica direta ou indireta. Essa foi a natureza da missão de Barnabé, que lhe foi dada pelos apóstolos. Barnabé não figurava entre os doze apóstolos, mas, quanto à atividade e ao poder, parece ter excedido a maioria deles; e, a despeito da falta de designação oficial de um deles, parece ter funcionado na igreja primitiva como apóstolo. Foi a ele, pois, que se confiou essa missão. E foi uma escolha apropriada, de qualquer maneira, posto ter sido um judeu helenista, que compreendia o tipo de ministério levado a efeito fora de Jerusalém e em territórios gentílicos, melhor do que um apóstolo típico. O poder da influência de Barnabé, e a importância da obra em Antioquia, embora apresentados de forma um tanto casual aqui, eram evidentes pelo fato de que, através de sua liderança e labores em Antioquia é que resultará a transferência do centro da igreja de Jerusalém para Antioquia.

 

Barnabé parece ter exercido considerável influência sobre Paulo, e desde o princípio tiveram várias associações, tendo viajado juntos em jornadas missionárias. Paulo não demorou, entretanto, a ultrapassar a Barnabé em poder e autoridade, pois ele era, verdadeiramente, o apóstolo dos gentios. No entanto, Barnabé participou da formação de Paulo, pois é com frequência que um personagem de menor envergadura se mostra importantíssimo na formação de um homem verdadeiramente grande. Barnabé, tal como Pedro e a maioria dos oficiais da igreja de Jerusalém, tinha seus preconceitos judaicos pois era um «levita» (At 4:36), estando, presumivelmente, intimamente associado à corrente principal do pensamen­to judaico; mas foi capaz, a exemplo de Paulo e Pedro, de desligar-se desses preconceitos, tendo-se feito poderoso ministro do evangelho entre os gentios. Contudo, à semelhança de Pedro, em ocasião posterior, fez algumas concessões desnecessárias às pressões dos judaizantes, e, temporariamente pelo menos, negou o seu conhecimento recém-adquirido sobre como Deus não faz acepção de pessoas. Por causa desse retrocesso, tanto Barnabé como Pedro foram severamente criticados por Paulo. (Ver Gl 2:13).

 

A igreja-mãe de Jerusalém agia como coordenadora e inspetora da obra inteira do cristianismo. Alguns intérpretes têm considerado a questão da necessidade de inspeção por parte dos apóstolos, direta ou indireta, sobre a obra entre os gentios, pensando que isso teria sido um tema «artificial» de Lucas, isto é, contradito por tudo quanto se sabe acerca da autoridade apostólica, acerca de como se expandiu a igreja, antes da destruição de Jerusalém. O poder da igreja-mãe, entretanto, era perfeitamente real, embora a autoridade dos apóstolos em nada se assemelhasse à autoridade dos «bispos», como se vê hoje em dia. Pois os apóstolos agiam muito mais como uma força orientadora, aconselhadora. O trecho de Gl 2:11-13 e os decretos apostólicos, do décimo quinto capítulo do livro de Atos, deixam claro que a igreja de Jerusalém realmente reivindicava possuir autoridade sobre as igrejas de outras regiões, incluindo a Síria e a Cilícia.

 

«Realmente não há nenhuma dificuldade em supormos que Barnabé, que já era figura proeminente da igreja de Jerusalém, tenha sido enviado para investigar as atividades de seus compatriotas cipriotas». (G.H.C. Macgregor, in loc).

 

A seleção de Barnabé, para levar a efeito essa obra, mostra-nos bem claramente que a igreja de Jerusalém não queria usar de severidade, mas antes, de gentileza e de cautela, para com os labores cristãos entre os gentios.

 

11:23  o qual, quando chegou e viu a graça de Deus, se alegrou, e exortava a todos a perseverarem no Senhor com firmeza de coração;

 

«A astuciosa voluntariedade de Satanás é bem conhecida. Por isso, assim que ele percebe alguma porta aberta para o evangelho, esforça-se, por todos os meios, por corromper ali o que é sincero... Barnabé foi enviado a fim de fazer os crentes avançarem nos princípios da fé, para colocar em ordem certas coisas, para dar alguma forma ao edifício que fora iniciado, a fim de que houvesse um estado ordeiro na igreja».

 

«...Barnabé nada queria se não a glória de Cristo. Pois, ao dizer que viu a graça de Deus e que os exortou a avançarem, depreendemos que haviam sido bem ensinados 'aqueles crentes'. O regozijo foi um testemunho de sincera piedade. A ambição sempre se mostrará invejosa e maliciosa; e é por isso que muitos buscam ser louvados ao reprovarem a outros, posto que almejam mais a própria glória do que a glória de Cristo. Porém, os servos fiéis de Cristo devem regozijar-se (a exemplo de Barnabé) ao virem o progresso do evangelho, sem importar através de quem Deus queira que o seu nome se torne conhecido». (Calvino, in loc).

 

Importância do ensino cristão. Uma das importantes lições que nos dá este versículo é que, inerente ao tipo de ministério que Barnabé efetuou ali, havia a preocupação de instruir. Não se contentou ele em deixá-los onde os encontrara. A aura do reavivamento sempre diminui, e então chega a importante obra do ensino e do arraigamento, ou seja, da instrução sobre «todas as coisas» que o Senhor Jesus ensinara, para serem praticadas. É deveras estranho que alguns ministros do evangelho pensem ser tão importante e urgente a pregação do evangelho simples, mas, infelizmente, sem jamais mencionarem a questão da transformação do crente segundo a imagem do Senhor, quando isso é o coração mesmo do evangelho, sendo uma verdade de alcance muito maior do que já pudemos imaginar, por mais que refletíssemos, ignorando, dessa maneira, o ministério do ensino.

 

A salvação não consiste meramente em alguém vir a crer e fazer publicamente uma declaração de fé. Mas consiste em tudo quanto acontece a essa pessoa, até que ela chegue ao nível da perfeição que há em Cristo Jesus.

 

Barnabé, entretanto, ensinou que aqueles convertidos precisavam apegar-se à mensagem com «...firmeza de coração...» «O pregador vira a graça de Deus, e se regozijara com ela; mas sabia, conforme o sabem todos os verdadeiros mestres, que é possível à vontade de um indivíduo frustrar essa graça, pelo que a cooperação do crente, manifesta em uma resolução deliberada e firme, é necessária para que a boa obra seja levada a bom termo». (E.H. Plumptre, in loc).

 

11:24  porque era homem de bem, e cheio do Espirito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor.

 

Deve-se observar, nesta altura do comentário, que as propriedades especiais de bondade, possuídas por Barnabé, bem como o seu excelente caráter cristão, são atribuídos ao ministério do Espírito Santo, tal como fora a eloquência de Estêvão. (Ver At 6:10). Neste ponto aprendemos o que já sabíamos, isto é, que em qualquer coisa em que um homem se pareça com Cristo, é porque o seu «alter ego», o Espírito Santo, está operando em seu íntimo, produzindo os diversos aspectos do fruto do Espírito Santo, de acordo com a lista de suas virtudes, em Gl 5:22,23. Essas são as virtudes positivas da natureza moral de Cristo, a qual todos os crentes finalmente possuirão em sua perfeição, porque a perfeição moral, que as Escrituras nos ordenam possuirmos (ver Mt 5:48), não consiste em mera ausência do pecado. Pelo contrário, é uma participação ativa e positiva em todas as facetas da natureza de Cristo - o seu amor, a sua compaixão, a sua bondade, a sua longanimidade, a sua graça, a sua alegria, a sua paz, etc. Somente o Espírito de Deus pode assim transformar um homem, de modo a vir ele a participar, plena e verdadeiramente, dessas virtudes. O desígnio de Deus é que, eventualmente, todos os crentes venham a participar da completa imagem de Cristo, quando as suas virtudes tornar-se-ão verdadeiramente completas em cada crente. O processo será eterno.

 

«Ele é santo porque o Espírito de Santidade habita nele: não conta apenas com algumas visitas ou retiradas transitórias do Espírito; mas este reside em sua alma e enche o seu coração. O Espírito Santo é a luz do entendimento; é a 'discriminação' do juízo. É o propósito fixo e a 'determinação' da 'vontade' reta. É a 'pureza', seu amor, alegria, paz, gentileza, bondade, mansidão, controle próprio e fidelidade em suas afeições e paixões. Em suma, era o controle soberano sobre o seu coração; governa todas as paixões e é o motivo e o princípio de toda a ação justa. Ele é cheio de fé. Implicitamente dava crédito a seu Senhor: sabia que ele não pode mentir que a sua palavra não falha jamais; esperava não somente o cumprimento de todas as promessas, mas também todo grau de ajuda, de luz, de vida e de consolo, que Deus, em qualquer ocasião, julgasse ser necessário para a sua igreja. Orava pela bênção divina e confiava que não estava orando em vão. Sua fé jamais fracassou, porque se apegava no Deus que não pode mudar. Contemplai ainda, pregadores do evangelho! um ministro original de Cristo. Emulai a sua piedade, a sua fé e a sua utilidade». (Adam Clarke, in loc).

 

A menção do importante papel desempenhado por Barnabé, na igreja cristã primitiva, é feita por Clemente, em sua obra Redactor Antijudaicus, pág. 109, onde se percebe como a sua reputação perdurou além de sua vida terrena, tendo sido famoso mesmo em séculos posteriores, inteiramente à parte dos registros do N.T.

 

Barnabé era «...homem bom...», no sentido de possuir «coração amplo», «mente liberal», «generosidade», e não meramente como quem obedecia a certo conjunto de regras. Ele se avantajava acima do estreito sectarismo judaico, de sua santidade meramente legalista. Não era apenas «justo», conforme eram considerados os estritos observadores da lei mosaica, mas era «bom» na manifestação pessoal e fervorosa das graças espirituais. «Sua benevolência impedia-o, eficazmente, de censurar qualquer coisa que fosse nova ou estranha entre aqueles pregadores aos gentios. levando-o a regozijar-se no sucesso deles». (Gloag, in loc).

 

«...muita gente...» Uma grande multidão foi acrescentada à igreja cristã, evidentemente para indicar esse aumento, além da menção do vigésimo primeiro versículo, como resultado direto da presença e do ministério de Barnabé. Esse tipo de ministério florescente e harmonizador, despido de inveja, gradualmente foi fazendo de Antioquia o grande centro do cristianismo. A glória da igreja cristã de Jerusalém foi diminuindo, pois a sua estrela já se apagava. Mas a estrela da graça de Deus subia sobre Antioquia, e ali o Espírito de Deus tomou residência. Que tantas pessoas tenham sido adicionadas à igreja, não é para admirar, posto contarem com ministros como aqueles, ouvindo elas o evangelho de Cristo, pregado e recebido pelo poder do Espírito Santo.

 

11:25  Partiu, pois, Barnabé para Tarso, em busca de Saulo;

 

Paulo chega a Antioquia; vss. 25 e 26: Desde a sua conversão Paulo estivera atarefado nas regiões da Síria e Cilícia, e não se há de duvidar que se mostrara ativo especialmente ao redor de sua cidade natal de Tarso, pregando o evangelho e estabelecendo igrejas. Por conseguinte, foi ele o verdadeiro pioneiro da igreja cristã entre os gentios, e o seu ministério marcou o início real da missão cristã entre os povos gentílicos, embora, «oficialmente» falando, segundo está registrado por Lucas em seu livro de Atos, essa distinção tenha sido conferida a Pedro, em sua atividade em Cesaréia, junto à família de Cornélio.

 

Desde sua conversão, até sua chegada em Antioquia, cerca de catorze anos se tinham passado na vida de Paulo, pois diz ele que fora «...para as regiões da Síria e da Cilícia» (Gl 1:21). E então, apos catorze anos, ele visitou novamente Jerusalém. A maior parte desse tempo ele passou, mui provavelmente, em Tarso, para o qual lugar, segundo diz Lucas, ele foi imediatamente, depois de sua primeira visita a Jerusalém. (Ver At 9:30). Em Atos 15:41 encontramos a menção à igreja na Síria e na Cilícia, que já estava estabelecida quando Paulo e Silas ali chegaram, embora não nos seja dito como tal igreja fora iniciada. Por conseguinte, parece que a narrativa do livro de Atos deixa em branco um período de catorze anos no ministério do apóstolo Paulo. Esse hiato se reveste de alguma importância, posto que foi então que realmente se estabeleceu a missão de evangelização cristã entre os gentios.

 

Essa omissão, da parte de Lucas, tem deixado os intérpretes perplexos, embora a maioria usualmente resolva que é melhor seguirmos a informação que nos é dada pelas epístolas paulinas, e não os informes do livro de Atos, havendo algumas diferenças nesses relatos. Alguns estudiosos têm conjeturado que os «catorze» anos de Gl 2:1 deveriam ser «quatro» anos, e que algum erro primitivo foi feito aqui, ou pelo próprio Paulo ou por algum escriba primitivo. Contudo, nenhum manuscrito contem o número quatro, pelo que também esse tipo de interpretação se alicerça inteiramente em conjeturas. Seja como for, apesar da suposição de que seriam «quatro anos» para fazer á Omissão de Lucas tornar-se cronologicamente menor, materialmente falando, isso não faz diferença alguma, porquanto Lucas continuaria não nos fornecendo qualquer informe sobre o ministério de Paulo durante esse tempo —ou quatro ou catorze anos. E assim, permanece de pé a principal dificuldade.

 

A fim de ser preenchido esse período de catorze anos, alguns estudiosos sugerem que a—a longa lista—sofrimentos, pelos quais Paulo passou, segundo o registro de II Co 11:23-27, deve ser encaixada dentro desse período, pelo menos parcialmente. Mas isso, infelizmente, tem de permanecer dentro das interpretações especulativas. Não sabemos dizer por que Lucas omitiu esse período do ministério de Paulo; mas o mais provável é que ele simplesmente não tenha contado com qualquer informe histórico a respeito. Por qual motivo ele não conversara com Paulo, acerca desse período, ao formular suas anotações, também não sabemos dizê-lo, posto que, como companheiro de viagens daquele apóstolo, teria tido fácil acesso a esse material informativo. Alguns talvez encarem isso como prova que Lucas não foi o autor dessa narrativa histórica, e isso deve ser considerado como um problema sério. Entretanto, os pontos em favor da autoria de Lucas em muito contrabalançam essa objeção.

 

A omissão acerca desse importante período da vida de Paulo, na história do livro de Atos, pode ter uma implicação positiva, ou seja, que Lucas não fabricou suas narrativas, meramente pelo uso de certas epístolas paulinas; antes, se utilizou de outras fontes informativas, ainda que estas fossem incompletas, em certos casos. Por exemplo, a simples leitura do primeiro capítulo da epístola aos Gálatas poderia ter levado Lucas a inventar muitas histórias sobre o ministério «siro-ciliciano» de Paulo. Ao invés disso, no livro de Atos, o primeiro ministério significativo de Paulo é a sua primeira viagem «missionária», e At 13:1-14:28. A verdade é que Lucas, valendo-se dos informes de que dispunha, relatou histórias verídicas, e, embora não completas, pelo menos têm o mérito de cativar a nossa confiança.

 

Weiss, seguindo essa linha de raciocínio, apresenta a seguinte observação: «...um fenômeno da mais elevada importância, em conexão com a origem das narrativas do livro de Atos. Se porventura fossem fictícias, talvez baseadas na epístola de Gálatas, certamente encontraríamos algumas histórias sobre esse período». (Ver History of Primitive Christianity, Macmillan and Co., Nova Iorque, I, pág. 205).

 

Embora não possuamos a mais leve informação sobre como Paulo se manteve ocupado durante esse período, pelo menos sabemos que o seu trabalho foi significativo, e que, ao lançar-se em sua primeira viagem «missionária», já era um missionário veterano. «Não podemos insistir demasiadamente sobre o fato de que o real desenvolvimento de Paulo, tanto como cristão quanto como teólogo, já estava completo nesse período que é tão obscuro para nos, e que, em suas epístolas estamos tratando com um homem plenamente amadurecido». (Ibid., I, pág. 206).

 

Os dois estiveram juntos em Antioquia pelo espaço de um ano (ver o próximo versículo). Sobre esse tempo o próprio Paulo nada diz, provavelmente porque no primeiro e no segundo capítulos de sua epístola aos Gálatas ele se tenha preocupado mais em narrar os seus contatos com os demais apóstolos, o que dizia respeito à sua afirmação que ele não obteve sua doutrina em consulta com eles, mas antes, independentemente, tendo-a recebido diretamente do Senhor Jesus; por isso mesmo, qualquer menção do fato de que estivera trabalhando com Barnabé seria incidental para o seu propósito. Com base em Gl 2:11-13 ficamos sabendo que quatro anos mais tarde Paulo e Barnabé estavam novamente trabalhando juntos em Antioquia, cidade à qual retornaram depois de terem completado a primeira viagem missionária (ver At 14:26). Por quanto tempo Paulo e Barnabé labutaram em Antioquia, antes de se lançarem em sua primeira jornada missionária, não sabemos precisar; mas a circunstância de que ambos esses ministros estiveram ali por algum tempo, produziu o fenômeno de grande desenvolvimento daquela igreja cristã do mundo gentílico, em que Antioquia foi elevada à posição de nova capital da igreja de Cristo.

 

«A primeira coisa que Barnabé fez, quando chegou a Antioquia, foi lembrar-se de Paulo. Sabia que precisava de ajuda, se tivesse de aproveitar ao máximo as oportunidades que a cidade de Antioquia oferecia à igreja cristã». (Theodore P. Ferris, in loc).

 

«Barnabé mui provavelmente sabia que Saulo era vaso escolhido por Deus (ver At 9:15) para o trabalho entre os gentios. Naturalmente que sabia do trabalho efetuado por Saulo entre os helenistas de Jerusalém (ver At 9:29), bem como já recebera notícias de sua obra na Cilícia e na Síria. E, assim sendo, foi a Tarso ao perceber que precisava de ajuda. 'Não tinha ele coisa alguma daquela baixeza que não pode tolerar a presença de um possível rival' (Furneaux). Barnabé reconhecia suas próprias limitações e sabia onde se encontrava o homem do destino, para aquela crise, o homem que já recebera o selo aprovador de Deus. O momento e o homem certo se encontraram, quando Barnabé trouxe Saulo para Antioquia. A porta estava aberta, e o homem estava preparado, muito mais do que quando o Senhor Jesus o chamara na estrada de Damasco. Os anos passados na Cilícia e na Síria não haviam sido em vão, pois ele não estivera indolente... Deus sempre tem um homem preparado para qualquer grande emergência em seu reino. O convite feito por Barnabé foi simplesmente a repetição do chamamento de Cristo. Por isso Saulo atendeu ao mesmo». (Robertson, in loc).

 

11:26  e, tendo-o achado, o levou para Antioquia. E durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos.

 

CRISTÃOS: grego, «christianós», seguidores de Cristo.

 

A cunhagem desse vocábulo—cristão—segue a ordem de termos como «herodianos» (ver Mt 22:16; no grego, «herodianoi», isto é, seguidores de Herodes) ou «cesarianos» (seguidores de César). Deissman, em sua obra Light from the Ancient East, pág. 377, dá exemplos do genitivo kaisaros, que também significa «pertencente a César», tal como o adjetivo comum «cesariano».

 

A palavra «...chamados...» (no grego, «chrematisai») denota «obter o nome». O termo «cristão» (no grego, «christianous») se compõe da palavra grega que significa «Messias» ou «Cristo» (ungido), mais a terminação latina usual que significa «partidário de». Por conseguinte, em Antioquia, alguém inventou uma nova palavra, que agora é usada entre nós há quase vinte séculos. Não é muito provável que os judeus tenham cunhado o termo, pois jamais teriam elevado a nova seita aplicando-lhe qualquer forma ou derivado da palavra hebraica «messiah» (ungido). Também é perfeitamente evidente que os próprios discípulos de Cristo não inventaram essa designação. O mais provável é que tenha sido criação dos gentios de Antioquia, familiarizados como estavam tanto com o latim como com o grego, sabendo que os discípulos de Jesus chamavam-no pelo título de «Cristo». Usaram tal palavra, pois, e latinizaram-na um tanto, a fim de dar-lhe o sentido de «partidários de», «seguidores de», «aderentes de» Cristo. Os judeus costumavam chamar os cristãos pelo apelido de «nazarenos», o que, para eles, era termo depreciativo, porquanto Nazaré era uma aldeia de ínfima significação. Nada de bom se esperava que procedesse dali (ver Jo 1:46), quanto menos a maior de todas as figuras humanas, o próprio Messias... Assim, pois, os judeus usavam esse apelido por derrisão, sarcasticamente. Os próprios crentes se chamavam de aprendizes (discípulos) ou «seguidores» de Cristo.

 

Existem três empregos diferentes dessa palavra, nas páginas do N.T. a fim de indicar os seguidores de Cristo. O primeiro emprego é o que aqui encontramos, utilizado pelos gentios hostis, a fim de designarem os seguidores da nova religião. Em At 26:28 encontramos o segundo emprego, evidentemente como termo depreciativo, usado por Agripa. E a passagem de I Pe 4:16 emprega essa palavra, referindo-se à comunidade cristã. Mui provavelmente, quando essa epístola petrina foi escrita, os crentes já usavam livremente a designação cristãos para indicarem a si mesmos, embora a perseguição de que Pedro fala, contra os cristãos, provavelmente subentende que Roma perseguia os «cristãos» como indivíduos desprezíveis, usando a palavra em sentido pejorativo. Pedro, pois, escreveu que se alguém viesse a sofrer como «...cristão...», não deveria encarar com alarme tal perseguição, pois isso era, na realidade, sinal de que estava sendo elevadamente favorecido pelo Senhor. Pois, por essa altura primitiva de sua história, era motivo de ufania para os crentes o fato de serem chamados «cristãos».

 

Portanto, foi em Antioquia que esse honroso título de «cristão» passou a ser usado para designar os crentes em Jesus. O famoso Inácio foi bispo de Antioquia, e mais tarde sofreu martírio em Roma. E em Antioquia João Crisóstomo pregava seus poderosíssimos sermões, tendo escrito os seus notáveis comentários naquela cidade. Antioquia, pois, se tornou famosa dentro da tradição cristã, tendo servido de capital do movimento cristão quando se apagou a estrela de Jerusalém.

 

Como curiosidade histórica, é possível que muitos pagãos tenham chamado os crentes de «crestãos», e não de «cristãos», não estando bem familiarizados com o conceito hebreu de «Cristo» ou «Messias», mas antes, confundindo essa palavra com termo similar, «chrestus», que é nome próprio até hoje bastante comum na Grécia e significa «bom». Alguns pagãos provavelmente pensavam que os discípulos eram os «bons» chrestianos») e não «cristãos» ou «seguidores de Cristo». Esse parece ter sido o ponto de vista de Suetônio (historiador romano), quando disse que os judeus haviam feito perturbações em Roma, sob a «instigação de Cresto» (ver Cláudio, 25). Ver também Tertuliano, Apologia, cap. 3, que exibe esse uso do termo).

 

«Cristão, por conseguinte, é a mais elevada designação que um ser humano qualquer pode ter à face da terra; e recebê-la da parte de Deus, como prece que sucedeu, torna-a um título gloriosíssimo!» (Adam Clarke, in loc).

 

Nos escritos dos pais da igreja cristã há diversos usos primitivos desse vocábulo, o que mostra como tal título veio a tornar-se, desde quase o princípio, uma designação honrosa, ainda que originalmente tivesse sido palavra cunhada pelos pagãos de Antioquia. (Ver Inácio, Epístolas, Rm 3:3; Mgn. iv; Ef 11:2; Mart. Plvc. x e xii: 1,2). Nos escritos de Gregório (Naz. Orat. iv (sobre Jul. 1 86, par. 114), ficamos sabendo que os judeus costumavam fazer objeção a esse nome como designação para indicar os seguidores de Jesus, e preferiam chamá-los «galileus».

 

«...Cristo deixou surgir esse nome... como um pendão, mediante o que se viesse a conhecer, por todo o mundo, que havia um povo cujo capitão era Cristo, o qual glorificava ao seu nome». (Calvino, in loc).

 

11:27  Naqueles dias desceram profetas de Jerusalém para Antioquia;

 

11:27 - Vss. 27-30 - A visita a Jerusalém, ao tempo da fome.

 

Esta breve seção tem produzido toda sorte de problemas históricos e de interpretação. Parece-nos que se por essa altura a igreja cristã de Antioquia enviava bens materiais a Jerusalém, a fim de ajudar a aliviar a situação de pobreza a de fome que ali imperava, que já se dera a mudança de poder, de Jerusalém para Antioquia, ou, pelo menos, que estava ocorrendo então essa transferência do poder central de Jerusalém para aquela cidade. Alguns eruditos, entretanto, têm duvidado da autenticidade de toda essa seção, com base nos seguintes argumentos:

 

1. Nenhuma profecia, segundo lemos aqui, teria sido feita, tudo não passando de uma reiteração da narrativa de At 21:10,11, onde encontramos o mesmo profeta, Ágabo, em operação. Essa narrativa, pois, no presente texto, teria sido criação do autor sagrado, que simplesmente duplicou eventos com relação a Ágabo. Observe-se que naquela seção há certa similaridade de conteúdo, o que tem dado origem a esta sugestão.

 

2. Alguns estudiosos duvidam da autenticidade histórica desta seção, visto que evidentemente ela não é aludida na epístola aos Gálatas, e nem em qualquer das demais epístolas paulinas, como parte das atividades de Paulo. A visita descrita por esse apóstolo, no trecho de Gl 1:18-24, corresponde ao que se lê em At 9:26-29, ao passo que o informe de Gl 2:1-10 corresponde ao que está registrado em At 15:2-29, visita essa que, ordinariamente, e chamada de «visita ao concilio».

 

3. A visita aqui historiada —At 11:27-30 —aparentemente teria ocorrido entre as duas outras visitas ali mencionadas; mas quanto a isso não contamos com qualquer registro nas epístolas paulinas. Os intérpretes que assim dizem pensam que é fatal, para esta seção que ora comentamos, a observação de que a epístola aos Gálatas certamente teria algum registro sobre essa visita, se realmente ela houvesse ocorrido, posto que o apóstolo Paulo ansiava por registrar todas as suas atividades relacionadas a Jerusalém, porquanto queria demonstrar que recebera o evangelho independentemente dos outros apóstolos, e, sim, diretamente da parte do Senhor Jesus, o que o qualificava a ser um apóstolo, tal como aqueles outros, devido ao fato de que o Senhor tratara diretamente com ele, aparecendo-lhe pessoalmente, do mesmo modo que fizera com os demais apóstolos. Ora, dizem ainda os mesmos intérpretes, que se tivesse havido alguma outra visita a Jerusalém, que não foi mencionada, poder-se-ia imaginar que, nessa oportunidade, Paulo poderia ter-se consultado com os apóstolos, e que o seu evangelho era uma mensagem emprestada de outros.

 

Certo número de soluções tem sido oferecido para dar solução a essas dificuldades, a saber:

 

1. Alguns estudiosos supõem que o incidente aqui registrado é historicamente autêntico, mas que tenha chegado ao conhecimento de Lucas como vaga reminiscência, tendo sido escrito fora de sua devida posição cronológica, pois sua posição certa seria após a narrativa do décimo quinto capítulo de Atos. Isso faria do registro uma reiteração histórica de sua ultima visita, posta ali por antecipação. Poderia ter sido uma visita posterior ao tempo que parece ser sugerido pela sua posição dentro do livro de Atos, e como resultado da admoestação feita pelos apóstolos, quando do concilio de Jerusalém, para que Paulo e seus colegas de ministério entre os gentios, segundo ele mesmo diz, «...nos lembrássemos dos pobres...» (Gl 2:10).

 

2. Alguns outros estudiosos pensam que essa anterior viagem e missão realmente teria ocorrido, e que Paulo tivera a intenção de ir também. Mas, por alguma razão, para nós desconhecida, somente Barnabé pôde fazê-lo. Lucas, tendo encontrado em seu material informativo, a ideia de que Paulo também fora escolhido para fazer essa viagem, mui naturalmente teria concluído que Paulo também participara da viagem, e assim escreveu, embora esse apóstolo, realmente, não tenha feito a citada viagem.

 

3. A narração sobre essa visita da fome e a narração sobre a «visita ao concilio», na realidade, seriam uma reiteração, isto é, descrições sobre o mesmo acontecimento, embora baseadas em fontes informativas diferentes, narradas de diferentes pontos de vista. Uma dessas fontes informativas salientaria a generosidade da igreja de Antioquia (a que está por detrás da «visita da fome», ao passo que a outra frisaria o debate havido, em Jerusalém, sobre a legitimidade do cristianismo gentílico, o qual, incidentalmente, incluiu eventos similares àqueles aqui historiados. A primeira fonte informativa estaria na igreja de Antioquia, e a localidade da segunda (ver o décimo quinto capítulo do livro de Atos) seria a igreja de Jerusalém. Um bom número de críticos modernos aceita essa explicação para o problema, mas as explicações seguintes podem ter também alguma dose de verdade, contrárias ao ponto de vista aqui exposto.

 

Essa posição acima faz o trecho de Gl 2:1-10 e o décimo quinto capítulo do livro de Atos exporem a mesma questão, e, portanto, deixa sem explicação as sérias discrepâncias existentes entre esses dois textos. Por isso mesmo tem sido oferecida ainda uma outra solução: A passagem de Gl 2:1-10 deveria ser identificada com a «visita da fome», e não com a visita ao concilio. As duas ocorrências, portanto, seriam distintas, tal como Lucas registrou. Deve-se observar, na epístola aos Gálatas, que Paulo assevera que subiu a Jerusalém por revelação (ver Gl 2:2), e isso poderia ser uma referência à inspirada advertência dada ao profeta Ágabo, em At 11:28, concernente à fome que haveria de prevalecer. As ações de Paulo e Barnabé, por conseguinte, também estariam conforme a injunção que lhes recomendava se lembrarem dos pobres (ver Gl 2:10). A visita da fome, feita por Paulo, pois, teria sido feita em antecipação à posterior e maior «coleta para os santos», o que, pelo menos em parte, resultou das decisões tomadas pelo concilio de Jerusalém. Outrossim, a conduta duvidosa de Pedro em Antioquia, ao recusar-se a comer em companhia de gentios, por causa das pressões que sofria da parte dos judaizantes, torna-se muito mais compreensível, se isso teve lugar antes do concilio formal de Jerusalém, que tratou exatamente da posição dos irmãos gentios. (Ver G 2:11 e s.). Assim, pois, fica uma vez mais comprovado que o trecho de Gl 2:1-10 mais provavelmente descreve a «visita da fome», e não a «visita ao concilio».

 

Essa posição é assumida por Turner, em Chronology of the New Testament, (Dictionary of the Bible), James Hastings, Nova Iorque, 1900; e por Sir William M. Ramsay (evidentemente o primeiro erudito de fama a sugerir essa ideia), como também por C. W. Emmet, em um ensaio intitulado The Beginnings of Christianity, II, págs. 277 e s. Assim sendo, o segundo capítulo da epístola aos Gálatas descreveria, se essa posição está certa, um debate de natureza particular e informal, e não um debate publico, que teria a natureza da ocorrência descrita no décimo quinto capítulo do livro de Atos.

 

Mas ainda existem outros problemas de cronologia, a saber:

 

Josefo (ver Antig. xx.5,2) informa-nos que houve uma fome em cerca de 46 d.C. Isso dataria a «visita da fome», feita por Paulo a Jerusalém. A visita a Jerusalém, conforme aparece mencionada no trecho de Gl 2:1, teria ocorrido «catorze anos» antes, de acordo com o cômputo inclusivo, que era o método antigo de contar uma série qualquer, situaria a data em 33 d.C. E a conversão de Paulo teria sido três anos antes (ver Gl 1:18), ou seja, em 31 d.C., segundo ainda o mesmo método de cômputo inclusivo. A crucificação teria ocorrido em cerca de 29 d.C. Talvez, entretanto, os «catorze anos» aludidos em Gl 2:1 sejam «quatro anos», segundo alguns estudiosos conjecturam, em que um erro primitivo teria sido preservado em todos os manuscritos bem conhecidos da epístola aos Gálatas, em qual caso a cronologia seria a seguinte:

 

1. A crucificação 29 D.C.

2. A conversão de Saulo 31 ou 39 D.C.

3. Primeira visita, após três anos 33 ou 42 D.C.

4. «Visita da fome», após catorze anos 46(?) D.C.

5. «Visita ao concilio» 49 D.C.

 

A primeira viagem missionária de Paulo (em cerca de 47 ou 48 d.C), que é descrita no décimo terceiro capítulo do livro de Atos, mui provavelmente teria ocorrido entre a segunda e a terceira visitas. Foi durante esse mesmo tempo que, mui provavelmente, foi escrita a epístola aos Gálatas. Posto que nem Lucas e nem Paulo resolveram dar uma narrativa cronológica completa, e posto que talvez haja alguma deslocação de material, isto é, que nem sempre tenha sido seguida uma ordem estritamente cronológica na apresentação das narrativas, a nós foi dado conhecer apenas alguns dentre muitos acontecimentos. Questões como sequências exatas permanecem em dúvida, não havendo forma totalmente adequada e Isenta de dúvidas para examinarmos essas questões agora, passados mais de mil e novecentos anos.

 

Levando-se em conta todas as considerações, entretanto, parece melhor identificarmos a «visita da fome» com a narrativa do segundo capítulo da epístola aos Gálatas, ao passo que a visita ao concilio como algo realizado em data posterior. A «visita da fome», pois, é assim corretamente distinguida por Lucas da visita de Paulo ao concilio de Jerusalém, registrado no décimo quinto capítulo do livro de Atos. A «visita da fome», por conseguinte, assinalou uma crise real na carreira de Paulo como apóstolo, visto que foi então que tiveram lugar as acerbas disputas, com os irmãos de tendências legalistas, em Jerusalém. Mas a ação de Paulo foi posteriormente justificada, quando do concilio de Jerusalém, conforme o registro do décimo quinto capítulo do livro de Atos. Nessa oportunidade, contudo, Paulo se tornou realmente bem conhecido, e o seu ministério entre os gentios foi amplamente reconhecido por todos, como merecedor de aprovação.

 

Os «...profetas...», na igreja cristã primitiva, evidentemente eram homens dotados de considerável aptidão psíquica, conhecidos por suas declarações inspiradas, pelo que também eram distinguidos dos pregadores ordinários das igrejas. Eram reputados, quanto à categoria espiritual, imediatamente depois dos apóstolos, no exercício dos dons espirituais, segundo se depreende de trechos como I Co 12:28; Ef 2:20; 3:5; 4:11 e Ap 22:9, No livro de Atos os profetas são aludidos em At 13:1; 15:32; 21:9,10 e nesta seção. Os profetas exerciam os seu ofício mais em virtude de seus dons carismáticos do que por qualquer sanção oficial ou nomeação por parte da igreja, porquanto não há evidências de que a posição deles existia através de qualquer forma de ato consagratório.

 

O trecho de I Co 14:29-39 mostra-nos, todavia, que algumas vezes os profetas se deixavam arrebatar em seu entusiasmo, ao ponto de haver desordem nos cultos das igrejas; e isso Paulo censurou severamente. É óbvio que até mesmo naqueles primeiros dias surgiram dúvidas sobre a autenticidade dos dons de alguns desses «profetas», o que se depreende pelo fato de que alguns deles eram suspeitos de receberem o seu poder da parte maligna, e não de alguma fonte boa. (Ver I Jo 4:1 e I Ts 5:20,21). Os poderes que chegam de fontes sobrenaturais, que manifestamente estão acima do que se poderia esperar da capacidade humana normal, sempre serão difíceis de aquilatar quanto à sua origem; e, nesses casos, podemos tão-somente aplicar o que disse o Senhor Jesus: «Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis» (Mt 7:20). Infelizmente, o moderno critério para julgar tais pessoas tem degenerado ao teste que diz: «Por suas denominações os conhecereis». Mas essa atitude resulta do sectarismo, e certamente não agrada a Deus.

 

Judas e Silas eram profetas, conforme são chamados (ver At 14:4 e 15:32). Tinham uma inspiração superior àquela dos que falavam em línguas (ver I Co 14:3). João Batista também foi chamado de profeta (ver Lc 7:26). Profetas autênticos são extremamente necessários na igreja cristã moderna; mas o quadro geralmente é tão confuso e contraditório que é dificílimo distinguirmos o falso do verdadeiro.

 

É bem provável que certo número desses «profetas» primitivos fizesse parte original dos setenta discípulos, cuja missão é descrita no décimo capítulo do evangelho de Lucas; mas não há razão para limitá-los à esfera dos profetas. O dom da profecia com frequência incluía a predição de acontecimentos; mas era mais especificamente caracterizado por um exaltado e sobre-humano ensino. Isso novamente, enfatiza a importância do ensino, posto que essa função era favorecida pela dispensação de um dom espiritual todo especial.

 

11:28 e levantando-se um deles, de nome Ágabo, dava a entender pelo Espirito, que haveria uma grande fome por todo o mundo, a qual ocorreu no tempo de Cláudio.

 

A derivação do nome «...Âgabo...» é incerta; mas é possível que seja idêntico ao apelativo Hagabe ou Hagabá, que aparece no A.T. Sabemos pouquíssimo sobre esse homem, porquanto há tão-somente duas referências a ele em todo o N.T., isto é, aquela que encontramos aqui, onde ele predisse a fome que realmente ocorreu quando do reinado de Cláudio, e a sua predição sobre a sorte que esperava Paulo em Jerusalém, em profecia feita em Cesaréia. (Ver At 21:10,11). Segundo as tradições posteriores, Ágabo aparece como um dos «setenta» discípulos (descritos no décimo capítulo do evangelho de Lucas), até que, finalmente, foi martirizado por sua fé. Embora, em alguns escritos antigos, seja dito que ele era nativo de Antioquia, parece antes, por este texto, que ele era da Judéia, talvez de Jerusalém. Diz-se que ele morreu em Antioquia, e o martirológio romano o venera a 3 de fevereiro.

 

«...grande fome...» Não há razão para supormos que homens, ajudados ou não pelo Espírito Santo, possam com frequência predizer eventos futuros, pois, afinal de contas, o homem é um ser espiritual, que temporariamente está cativo a um corpo físico. A predição do futuro não é, necessariamente, uma característica «divina» ou demoníaca. Os estudos feitos quanto ao fenômeno dos sonhos mostram que todos os seres humanos, no estágio do sono, combinam acontecimentos passados, presentes e futuros no conteúdo de seus sonhos, na tentativa de encontrar solução para os seus problemas. Todos os homens, simplesmente por serem homens, até certo ponto são «profetas», se limitarmos o sentido desse vocábulo para que indique somente a predição do futuro. Naturalmente um profeta, no sentido bíblico, é muito mais do que um indivíduo que prediz o futuro; é igualmente um homem espiritualmente dotado, que exerce um dom de ensino; e quando prediz o futuro, fá-lo por alguma razão espiritual, e não meramente como curiosidade de informação. Naturalmente aqueles que são dotados de algum dom espiritual são pessoas capazes de predizer o futuro com muito maior significação do que os homens ordinários podem fazê-lo.

 

Cada indivíduo é um instrumento sem-par. É interessante observarmos que Ágabo evidentemente se especializou em conhecer o futuro e em maior extensão até mesmo que alguns dos apóstolos. Pois aqui estava alguém que fez tal predição, enquanto que Paulo, apesar de apóstolo, nada sabia a respeito. Além disso, no vigésimo primeiro capítulo do livro de Atos, quando Ágabo adverte sobre as consequências da visita de Paulo a Jerusalém, porquanto ali seria feito prisioneiro, novamente foi ele quem reconheceu o futuro, e não Paulo ou qualquer outro ministro da igreja. Trata-se de um fenômeno assaz interessante, pois, considerando-se o quadro total, Paulo e os demais apóstolos supostamente eram mais bem-dotados na diversidade dos dons inspirados pelo Espírito Santo do que Ágabo; mas o seu dom era especialmente adaptado para predizer o futuro. Assim, pois, cada indivíduo recebe o seu próprio dom, e, sendo isso dirigido para propósitos específicos, torna cada crente individual uma criatura sem igual. Por conseguinte, apesar de todos os remidos estarem sendo transformados segundo a imagem moral e metafísica de Cristo, compartilhando de sua santidade e de suas perfeições, cada indivíduo é um instrumento especial para a glória de Deus.

 

A «...fome...» predita por Ágabo também ficou registrada na história. Tácito (Anais xii.43) e Suetônio (Claudio, 18) se referem a diversos períodos de fome durante o reinado de Cláudio (41 - 54 D.C.). Josefo menciona uma fome especialmente severa na Judéia, que ocorreu em 46 D.C., a qual, sem a menor sombra de dúvida, é a escassez aqui referida por Lucas. Diom Cássio (lib. lx) menciona severa fome, que ocorreu no primeiro e no segundo anos do reinado de Cláudio, a qual foi sentida pesadamente até mesmo na longínqua Roma. Essa fome foi que evidentemente induziu o imperador Cláudio a construir um porto marítimo em Óstia, para que a cidade de Roma pudesse ser mais regularmente suprida de víveres, que geralmente lhe chegavam por via marítima.

 

Um segundo período de fome ocorreu no quarto ano de seu reinado, escassez essa que prosseguiu por diversos anos e afligiu grandemente a Judéia. (Ver Josefo, Antiq. xx.5, seção 2). Mui provavelmente essa é a fome mencionada no vigésimo oitavo capítulo do livro de Atos, quando ela foi predita.

 

Uma terceira fome foi mencionada por Eusébio (An. Abrahami), que teve começo em outubro de 48 D.C. que atingiu severamente grande parte do mundo civilizado de então.

 

Um quarto período de fome teve lugar no décimo primeiro ano do reinado de Cláudio, fome essa mencionada por Tácito (ver Anais, xii., seção 43). Essa fome foi tão severa, nessa ocasião, que se pensou ser um julgamento divino. Tácito revela que em todas as vendas de Roma não havia provisões para mais de quinze dias, e que se o inverno não tivesse vindo extraordinariamente suave, teria havido aflição e miséria espantosas.

 

É muito provável que a fome, mencionada neste livro de Atos, no segundo ano do reinado do imperador Cláudio, tenha perdurado por diversos anos, de conformidade com as fontes históricas de que dispomos, ou seja, de 45 a 47 D.C. Quando a predição da fome foi feita por Ágabo, deveria estar a apenas meses de distância, ou talvez já estivesse em seus estágios iniciais.

 

«...Cláudio...» Cláudio foi imperador romano de 41 a 54 D.C. Suetônio (ver Cláudio, 29), um dos historiadores romanos, diz-nos que esse imperador expulsou os judeus da cidade de Roma, por haverem feito levantes instigados por Cresto (presumivelmente o incidente registrado em At 18:2). Se isso é verdade, então «chrestus» (nome esse que se deriva de um substantivo próprio que, no grego, significa bom) mui provavelmente foi confundido por Suetônio com a palavra «christos» (no grego, ungido). E, assim sendo, a causa da agitação entre os judeus teria sido sua oposição e conflito contra os cristãos.

 

Um decreto, provavelmente baixado por Cláudio, punia um furto feito em um túmulo, e têm sido encontradas evidências arqueológicas em confirmação a isso, na Galiléia. Alguns estudiosos têm suposto que essa ação foi parcialmente provocada pela história da «ressurreição» de Jesus; porém, se esse decreto foi baixado por Cláudio, parece ter sido muito posterior para que tivesse qualquer coisa a ver com a ressurreição do Senhor. A menos, naturalmente, que tenha dito respeito à pregação da igreja cristã primitiva, predica essa que incluía a ressurreição de Cristo (em vinculação à acusação, assacada pelos judeus, de que o corpo de Jesus fora furtado pelos seus discípulos, e não que ele realmente ressuscitara). Ora, a agitação que isso facilmente poderia ter provocado, bem poderia ter sido o motivo do decreto imperial, até mesmo nos tempos posteriores de Cláudio. Essa particularidade, entretanto, até hoje não pôde ser determinada com exatidão, e, no presente, não há como dar solução ao problema. Cláudio morreu envenenado pela sua quarta esposa, Agripina, mãe de Nero (54 D.C), após ter feito um reinado fraco, durante o qual, no dizer de Suetônio, ele «...mostrou-se não um príncipe, mas um servo», pois se deixava guiar pelos outros.

 

Variante Textual_Os versículos vinte e seis e vinte e oito são expandidos

no chamado texto «ocidental», para que digam: «...e naqueles dias vieram profetas de Jerusalém a Antioquia, e houve muita alegria. E quando estávamos reunidos, um deles, de nome Ágabo, falou, querendo dizer...» Assim diz o códex D, bem como as versões latinas p e w. O texto ocidental (manuscritos que nos vieram das igrejas cristãs do ocidente, isto é, da Itália e de certas regiões do norte da África) conta com tão numerosas variantes que sugere que o livro de Atos circulou, na igreja cristã primitiva, em duas edições separadas. A maior parte dessas variantes consiste em expansões e ornamentações feitas no texto; porém, os trechos que dizem respeito à Ásia Menor encerram interessantes e significativas variantes, do ponto de vista histórico e geográfico. Esse texto mais longo, o «ocidental» não é reputado, todavia, como texto original do livro de Atos.

 

Trechos do livro de Atos chamados de seções nós. A variante particular, que hora consideramos, não teria grande importância, não fora o fato de que se trata da primeira das chamadas «seções nós» deste livro. Supõe-se que, nessas passagens, Lucas ter-se-ia reunido a Paulo e aos outros obreiros cristãos mencionados, nas quais o livro se torna uma espécie de autobiografia, como também uma narrativa histórica. Ordinariamente, as «seções nós» são consideradas como as seguintes: At 16:10-17; 20:5-15; 21:1-18 e 27:1-28:16. Assim sendo, o ponto em que Lucas se juntou ao grupo evangelístico em viagem teria sido na altura do décimo sexto capítulo. Mui provavelmente isso é correto, do ponto de vista histórico, pois o versículo que ora consideramos, fazendo parte apenas do chamado texto «ocidental», não deve ser reputado representante do livro original de Atos.

 

11:29  E os discípulos resolveram mondar, cada um conforme suas posses, socorro aos irmãos que habitavam na Judéia;

 

Podemos apreciar aqui a generosidade da igreja cristã de Antioquia. Havia muitos irmãos de tendências legalistas, em Jerusalém, que dificilmente teriam prestado socorro semelhante, se a situação fosse inversa, isto é, se em Antioquia é que os cristãos estivessem sofrendo. Os preconceitos aleijam e tolhem os instintos humanitários naturais, mas aqueles cristãos gentios primitivos não se preocupavam com fronteiras nacionais.

 

Importância da caridade.

 

«Um homem pode ser famoso, bem-sucedido, rico, realizador de grandes feitos, mas, se não cultivou e nem refinou esse instinto natural para ajudar aos outros, que sofrem aflição, até que esse instinto se eleve acima de todos os outros e os domine, qual soberano, então esse homem, como homem, é um fracasso. Essa é a escola onde nós, os crentes, estamos sendo treinados; e embora reconheçamos o fato de que, com frequência, temos falhado no teste, permitindo que outros instintos, inferiores e mais aviltados, dominem sobre aquele sentimento supremo, não obstante existem sinais de que temos feito algum progresso, tendo crescido em nossa capacidade de amar.» (Theodore P. Ferris, in loc).

 

De acordo com a filosofia extremamente pessimista do filósofo alemão Schopenhauer, em que a própria existência é considerada como um mal e em que o maior pecado de um homem consiste no fato de que «nasceu», a simpatia, entretanto, é aceita como uma das virtudes e emoções positivas, que são possíveis e permissíveis. Portanto, até mesmo no ambiente melancólico daquela posição filosófica, a simpatia humana natural se eleva como uma qualidade digna e necessária, porque todos estamos juntos nesse batel da miséria humana, e, de alguma forma ou de outra, precisamos ser guardadores de nossos irmãos. Jesus Cristo foi o supremo exemplo de como alguém deve cuidar de seus irmãos. O livro de Tiago toca no âmago dessa verdade quando declara: «A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo» (Tg 1:27).

 

Essa visita aos órfãos e às viúvas significa procurar aliviar as suas necessidades, contribuindo para o seu bem-estar, e não apenas fazer-lhes visitas ou servir-lhes de companhia, embora isso também seja um aspecto importante.

 

No que concerne à situação específica descrita por este texto, salienta Calvino (in loc): «E essa gratidão não merecia pequeno louvor, pois os crentes de Antioquia pensavam que deveriam ajudar a irmãos necessitados, de quem haviam recebido o evangelho. Porquanto nada existe de mais acertado do que aqueles que têm semeado as realidades espirituais, colham também coisas terrenas. Visto que qualquer um de nós se inclina demasiadamente por prover para as suas próprias necessidades, todos aqueles homens poderiam ter objetado: Por que não cuido antes de mim mesmo? Porém, ao relembrarem-se eles de quão grandemente estavam endividados para com os irmãos (da Judéia), omitindo essa preocupação pessoal, voltaram-se para ajudá-los».

 

Há necessidade de dar, para que alguém seja liberal. «Foi prometido, àqueles que consideram as necessidades dos pobres, que Deus os preservaria em vida, e que seriam bem-aventurados na terra (ver Sl 41:1,2). Muitos dão aos pobres pela razão de que têm muito, de sobra; mas as Escrituras nos fornecem uma razão pela qual deveríamos ser liberais, (é bom dar) a sete e a oito, porquanto não sabemos que mal sobrevirá à terra. (Ver Ec 11:2)». (Matthew Henry, in loc).

 

Como deveriam ser feitas as contribuições aos pobres? Assim lemos nas Escrituras: «...cada um conforme as suas posses...» Essa instrução segue-se à injunção de Paulo, em I Co 16:2, que determina que cada um deve contribuir «...conforme qualquer um deles houver prosperado...» O verbo «prosperar» é tradução de uma palavra grega, «euporos», que indica o sentido de «passar facilmente». Assim é transmitida a ideia de prosperidade, mediante a figura simbólica de uma jornada fácil e favorável. Aqueles, pois, que estão passando por uma viagem fácil e favorável, nesta vida, deveriam interessar-se por tornar um pouco mais fácil essa jornada, para outros, especialmente no caso de serem irmãos na fé.

 

Neste ponto encontramos o começo da coleta para os «santos pobres de Jerusalém», o que, posteriormente, ocupou parte tão proeminente nos labores do apóstolo Paulo. (Ver At 24:17; Rm 15:25,26; I Co 16:1; II Co 9:1-15 e Gl 2:10). Essa prática Paulo reputou como um vínculo de união entre a seção judaica e a seção gentílica da igreja cristã. Muitos comentadores bíblicos acreditam que a generosidade demonstrada pela igreja cristã de Jerusalém, ou sua vida de tipo comunal, no princípio de sua história, segundo vemos no registro dos capítulos segundo, quarto e quinto do livro de Atos, deixou aquela igreja com uma estrutura econômica débil. Mui provavelmente isso expressa uma verdade, mas a principal razão para essa crise foi a perseguição movida contra os judeus crentes, porquanto muitos deles perderam suas propriedades e seus recursos pecuniários, quando não perderam a própria vida. Os reiterados períodos de escassez e fome vieram agravar enormemente a situação inteira, piorando a situação de uma igreja que já se achava empobrecida.

 

11:30  o que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos por mão de Barnabé e de Saulo.

 

Não se há de duvidar que Barnabé e Saulo desempenharam papel preponderante no levantamento de fundos para socorro aos irmãos pobres de Jerusalém, e providenciaram para que fosse atingida uma soma suficiente para ser de real ajuda aos crentes daquela cidade. Posteriormente Paulo expandiu grandemente essa obra de beneficência, conforme vemos nas referências bíblicas oferecidas no último parágrafo dos comentários sobre o versículo anterior. Tudo isso, pois, mostra-nos quão importante era, para o cristianismo primitivo, a prática das esmolas. Essa ideia fora importada diretamente do judaísmo.

 

«...presbíteros...» Em todo o N.T., esta é a primeira ocorrência desse vocábulo para indicar os líderes cristãos, como pregadores, pastores e oficiais. Originalmente esses líderes é que tomavam conta das igrejas de Jerusalém que se reuniam em casas particulares, conforme era costumeiro na igreja cristã primitiva, antes que se iniciasse a ereção de templos para o culto cristão. Na passagem de At 15:6,23, os «presbíteros» figuram, juntamente com os apóstolos, numa espécie de concilio eclesiástico. É bem possível que, a princípio, os presbíteros tivessem as mesmas funções que cabiam aos presidentes das sinagogas judaicas, os quais eram os principais elementos daquela estrutura eclesiástica antiga, embora, mui provavel­mente, não fossem originalmente consagrados por qualquer cerimônia específica para ocuparem suas funções. Entretanto, não tardou muito para que se generalizasse a ordenação ou consagração de tais ministros, porque até mesmo em At 14:23 vemos que já estava estabelecido o costume de consagrar tais ministros. Essa ordenação, outrossim, sem dúvida era efetuada através do rito da imposição de mãos, novamente em imitação à prática judaica, quando da consagração de seus oficiais eclesiásticos.

 

No trecho de At 20:17, os termos «anciãos» e «bispos» são usados alternadamente, o que também se pode verificar na passagem de Tt 1:5,7. Originalmente, sem dúvida alguma não havia qualquer ofício distinto entre os «anciãos» e os «diáconos». Mas gradualmente foi surgindo certa diferença, em que os «diáconos» passaram a ocupar uma posição um tanto ou quanto inferior à dos «anciãos» ou «pastores», e muito provavelmente ficaram encarregados de cuidar mais das necessidades materiais das igrejas locais, ao passo que os anciões se fizeram os principais líderes espirituais das mesmas. (Ver a totalidade do terceiro capítulo da primeira epístola a Timóteo).

 

Os diáconos do sexto capítulo do livro de Atos, apesar de terem sido um grupo distinto de homens e receberem distintas responsabilidades, não equivalentes aos deveres dos «anciãos», ou «bispos» e dos «diáconos» da organização eclesiástica cristã posterior, foram exemplos antecipatórios da existência de oficiais que não fossem apóstolos, dentro do organismo cristão. As qualificações para quaisquer oficiais eclesiásticos subordinados eram mais ou menos idênticas para todos, como também eram idênticas muitas de suas funções. Portanto, apesar do fato de que o ofício dos «diáconos», no sexto capítulo do livro de Atos, não ser tecnicamente igual à função dos «diáconos», na igreja cristã mais bem organizada, suas qualificações e funções eram similares. E o ofício mais antigo, assim sendo, antecipou o estabelecimento do ofício posterior, para todos os efeitos práticos.

 

Bibliografia R. N. Champlin

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