PAULO (APÓSTOLO)

 

A Importância de Paulo

 

Esboço:

 

I.             Vida

 

1.      Fontes de Informação

2.      Passado

3.      Primeira Viagem Missionária

4.      O Concilio Apostólico

5.      Segunda Viagem Missionária

6.      Terceira Viagem Missionária

7.      Aprisionamento e Encarceramento em Roma

8.      Paulo, de Novo Livre, Vai à Espanha

9.      Segundo Encarceramento e Morte

10.    Cronologia da Vida de Paulo

 

II.           Significação de Paulo

 

1.      As Escolas Críticas e Paulo

2.      As Epístolas Paulinas

3.      O Servo de Cristo

4.      O Apóstolo dos Gentios

5.      A Doutrina de Paulo

6.      Paulo e Jesus

7.      Como Paulo Comprovou seu Apostolado

 

I. Vida

 

1. Fontes de Informação

 

Sabe-se muito mais acerca de Paulo do que acerca de qualquer outro personagem apostólico. Nosso conhecimento sobre esse apóstolo e a sua carreira é praticamente tudo quanto se sabe acerca do desenvolvimento do cristianismo, durante aqueles dias. Fora de suas próprias epístolas e do livro de Atos dos Apóstolos, no N.T., temos apenas uma referência adicional a ele, a saber, em II Pe 3:15, onde se lê: «...o nosso amado irmão Paulo...» A fonte primária de informação, portanto, é o livro de Atos; a fonte secundária de informação são as suas epístolas e as alusões incidentais que ele faz a si mesmo e às suas viagens. Entretanto, alguns têm ensinado que apesar de fornecerem menos informações sobre ele, as epístolas são mais valiosas para o estabelecimento da cronologia — pelo menos uma cronologia que é mais extensa e que inclui os últimos poucos anos de sua vida, acerca dos quais o livro de Atos nada nos diz. Isso incluiria o seu período de liberdade entre os dois encarceramentos a que foi sujeito em Roma, e seu martírio final.

 

Fora do N.T. há algum material informativo, mas normalmente esse não é reputado como digno de muita confiança. Por exemplo, temos o livro apócrifo «Atos de Paulo», que só foi escrito na segunda metade do século II D.C. Essa obra contém alguns incidentes e viagens de Paulo que não se encontram nas páginas do N.T., mas parecem ser quase totalmente lendários. A arqueologia em nada tem podido contribuir para comprovar esse material e atualmente não há modo como afirmarmos a validade de qualquer informação adicional, sobre a vida de Paulo, contida nesse livro apócrifo. Há muitas declarações sobre Paulo nos escritos dos pais da igreja, mas quase todos esses se derivam, de algum modo, do livro de Atos ou das epístolas de Paulo, e outra parte se deve, provavel­mente, ao material legendário que foi se avolumando em torno da pessoa de Paulo. A comunidade cristã, em sua maior parte, compunha-se de pessoas vindas das classes humildes, pelo que também os historia­dores antigos ignoraram-na quase completamente; e é por esse motivo que temos tão escassa informação acerca do desenvolvimento inicial do cristianismo, nos escritos desses autores seculares. A arqueologia nos fornece alguma informação sobre os muitos lugares que foram visitados por Paulo, bem como acerca de sua cidade natal, Tarso; porém, excetuan­do-se as influências culturais que tais localidades devem ter exercido sobre Paulo, não se pode extrair, dessas informações, qualquer elemento adicional sobre a pessoa do próprio Paulo. Por conseguinte, resta-nos analisar o livro de Atos dos Apóstolos e as epístolas paulinas; e toda outra informação deve ser aceita apenas experimentalmente.

 

2. Passado

 

Neste ponto, estamos mais limitados do que acerca dos anos posteriores de Paulo. Do nascimento de Paulo até o seu aparecimento em Jerusalém, como perseguidor dos crentes, temos apenas informações muito esparsas. Sabemos que ele nasceu em Tarso, «cidade não insignificante» (ver At 21:39), descrição essa que tem sido confirmada pelas escavações arqueológicas de Sir William Ramsay. Naquele tempo Tarso (na Cilícia) foi incorporada à província da Síria. Tarso, por essa época, já tinha história antiga, e fora cidade importante por muitos séculos antes da era cristã. Tarso chegou a ser a cidade mais importante da Cilícia. Essa cidade se tornou uma região de síntese entre o Oriente e o Ocidente, entre a cultura grega, a cultura oriental e, finalmente, a cultura romana. Também se sabe que era um centro cultural, e que ali era muito forte a variedade do estoicismo romano.

 

Paulo nasceu como cidadão romano, provavelmen­te porque o seu pai também já era cidadão romano. Ao nascer, o menino recebeu o nome de Saulo, provavelmente devido ao rei Saul, mas é provável que também fosse chamado Paulo como cognome latino. Paulo significa pequeno e isso pode ter-se dado devido ao fato de que seus pais o chamavam de «pequerrucho»; mas também é possível que ele tenha recebido o nome de Paulo, simplesmente por ter som semelhante ao nome de «Saulo». Também é possível que o apóstolo tivesse um nome romano; mas, nesse caso, não deve tê-lo usado com frequência, porquanto não temos nenhuma informação sobre qual seria esse nome. A alteração posterior de seu nome, de Saulo para Paulo, mui provavelmente foi apenas a adoção de seu apelido como nome próprio. Não se sabe qual o ano de seu nascimento; porém, quando do apedrejamento de Estêvão (que ocorreu em cerca de 32 D.C), lemos que Saulo era um jovem. É razoável supor, por conseguinte, que ele tenha nascido na primeira década do século I D.C., sendo, assim, um contemporâneo mais jovem de Jesus, embora não haja qualquer evidência de que ele tenha visto alguma vez ao Senhor. E não é mesmo provável que o tenha visto, pois Paulo jamais se refere ao fato.

 

As passagens de I Co 2:3 e II Co 10:10 indicam que a aparência física de Paulo não era impressionan­te, e a descrição que há sobre ele, no livro apócrifo Atos de Paulo e Tecla, concorda com esse ponto de vista: «E ele viu Paulo que se aproximava, um homem de baixa estatura, quase calvo, pernas tortas, de corpo volumoso, sobrancelhas unidas, um nariz um tanto adunco, cheio de graça: pois algumas vezes parecia um homem, e outras vezes tinha a fisionomia de um anjo».

 

Os genitores de Paulo eram judeus muito religiosos, pertencentes à seita dos fariseus, ou, pelo menos, fortemente influenciados por esse grupo; e pertenciam à tribo de Benjamim. Nada se sabe acerca da ocupação do pai de Paulo, e nem mesmo sabemos —qual era o seu nome. Jerônimo cita uma tradição que assevera que a família de Paulo viera originalmente da Galiléia, e que dali migrara para Tarso. Se essa tradição expressa a verdade, então o fato de que eram cidadãos romanos mostra que essa imigração tivera lugar em tempo considerável antes do nascimento de Paulo. De conformidade com o livro de Atos, Paulo tinha uma irmã que vivia em Jerusalém (ver At 23:16), mas não há menção de qualquer irmão. O próprio Paulo aprendera uma profissão, provavel­mente em Tarso, a de fabricante de tendas (ver At 18:3), posto que era costume entre os judeus ensinar aos filhos alguma profissão. Não é improvável, pois, que o seu pai também tivesse sido fabricante de tendas, o qual teria ensinado essa arte ao seu filho. Paulo foi instruído no judaísmo estrito, e os seus principais interesses se centralizaram nas questões religiosas, éticas e metafísicas. Alguns acreditam que ele era bem instruído na cultura, na estética e na filosofia grega e romana (à base de textos como At 17). Mas outros, alicerçando-se em At 22:3 e 26:4, procuram mostrar que a permanência de Paulo em Tarso, quando menino, deve ter sido muito breve, porquanto ele mesmo diz que se criara em Jerusalém. Quanto a esses detalhes não podemos ter certeza, mas o exame detido das epístolas de Paulo mostra que ele deve ter estudado a filosofia estóica (por causa da grande similaridade aos escritos de Sêneca, o estóico romano); e o seu grego é uma excelente variedade do grego helenista, não dando evidências de ter sido uma linguagem «adquirida». Em Jerusalém, Paulo estudou sob orientação do grande Rabban Gamaliel, o Velho, que era altamente respeitado como mestre.

 

As Palavras de Paulo, em Gl 1:14, mostram-nos que ele era indivíduo intensamente religioso desde a juventude, tendo-se destacado nessas questões acima dos outros jovens de sua idade. Frequentava regularmente a sinagoga, e é muito provável que geralmente tomasse parte na adoração. Mais tarde seguiu sua tradição farisaica, tornando-se membro dessa seita. Sendo indivíduo religioso tão intenso, tinha alta consideração pelas Escrituras, e a sua conversão não alterou a sua atitude, embora talvez ele tenha compreendido que algumas passagens eram alegóricas e outras literais, conforme se vê em I Co 10:1-11 e Gl 4:22-31. Apesar dele reconhecer esse fato, as suas epístolas demonstram a influência de outros treinamentos. Os filósofos estóicos e cínicos de Tarso eram, geralmente, evangélicos em suas abordagens, porquanto, — pregavam nas esquinas das ruas, nos mercados e em outros lugares públicos. Por essa causa, Paulo deve tê-los conhecido; e mui provavelmente também estudou em suas escolas.

 

Sabemos mais acerca do apóstolo Paulo do que sobre qualquer outra das personagens apostólicas. No N.T., as nossas fontes informativas a seu respeito são o livro de Atos e as suas próprias epístolas. Fora disso só há mais uma alusão a ele, em II Pe 3:15, onde ele é chamado de nosso amado irmão.

 

A arqueologia nos fornece muitas informações quanto aos locais visitados por Paulo, embora não sobre a sua pessoa. Nossos conhecimentos sobre os primeiros anos de sua vida são escassos. Desde o seu nascimento até o seu aparecimento, em Jerusalém, como perseguidor dos cristãos, possuímos informa­ções meramente esparsas, parte das quais não passa de conjectura. Sabemos, contudo, que ele nasceu em Tarso, «...cidade não insignificante da Cilícia...» (At 21:39), descrição essa que as escavações arqueológicas de Sir William Ramsay confirmaram amplamente. Tarso da Cilícia foi incorporada à província da Síria e tivera história importante durante um período de muitos séculos. Era a principal cidade da Cilícia e como que sua região sintetizava o Oriente e o Ocidente, isto é, as culturas grega e oriental, incluindo, por igual modo, por fim, a cultura romana que representava o verdadeiro helenismo. Era centro da filosofia estóica da variedade romana, onde os filósofos pregavam as suas doutrinas nos mercados e nas praças públicas, mais ou menos como os missionários de Cristo têm feito tradicionalmente. As epístolas de Paulo, em suas ilustrações e em algumas de suas ideias básicas, por isso mesmo, refletem o que há de melhor no estoicismo. É ponto muito bem conhecido e amplamente discutido que Paulo deixa transparecer muito da mesma erudição refletida por Sêneca, o importante filósofo estóico romano, que foi igualmente martirizado por Nero, à semelhança de Paulo.

 

O Treinamento de Saulo, quanto à sabedoria profana, mui provavelmente incluiu a educação filosófica normal, a retórica e a matemática, sem falarmos em seus estudos sobre a religião judaica (ver At 22:3; 26:4 e diversas referências, em suas epístolas, a questões como coroas, jogos atléticos, lutas, etc, o que também servia de principais ilustrações entre os filósofos estóicos para ilustrar os princípios éticos). O fato é que o grego utilizado por Paulo, em suas epístolas, é uma excelente variedade do grego literário «koiné», o que nos mostra quão bem alicerçada fora a sua educação na linguagem, além de ficar demonstrado o fato de que ele falava o grego como seu idioma nativo, provavelmente do mesmo modo que o hebraico (isto é, o aramaico). Não se há de duvidar que esse apóstolo também conhecia o latim, e, antes do fim de suas viagens missionárias, já teria aprendido mais um idioma ou dois.

 

O Testemunho Pessoal de Paulo, em Gl 1:14, mostra que ele era indivíduo intensamente religioso, desde a juventude. Costumava frequentar regularmente as sinagogas judaicas, antes de sua conversão e quando já atingira idade suficiente, tornou-se seguidor fiel do farisaísmo. Esse versículo também indica que, mui provavelmente, ele era o jovem que mais se destacava em Jerusalém, sendo grande a sua fama como homem de grande zelo religioso. Sabemos também que ele estudou com o famosíssimo rabino fariseu, Gamaliel (ver At 5:34 e 22:3). A erudição maior de Paulo fora adquirida em Jerusalém, naquela escola de fariseus, o que também contribui com algo para explicar o caráter geral de sua vida e de suas crenças, alicerçadas firmemente no judaísmo tradi­cional.

 

Conversão de Saulo. Intensa discussão se tem centralizado em redor das razões psicológicas por detrás de sua conversão a Cristo. Saulo se tornara um intenso perseguidor de cristãos, tendo chegado ao assassínio, não poupando nem as mulheres. E, no entanto, repentinamente, tornou-se igualmente zeloso defensor e propagador do evangelho de Cristo. Que ocorrência teria sido suficientemente drástica e decisiva para produzir tão notável modificação em suas atitudes? As respostas dadas por certos indivíduos são repugnantes para a fé e a sensibilidade cristãs. Porquanto alguns querem fazer-nos crer que Paulo era um esquizofrênico, ou que de outra maneira sofrerá um desequilíbrio mental qualquer, e que teriam sido essas aberrações mentais que criaram as condições necessárias para suas experiências místicas. No entanto, não nos devemos admirar ante essa opinião adversa sobre Paulo, porque até mesmo pessoas moderadamente dotadas de dons psíquicos são consideradas um tanto estranhas. Quanto mais poderosos são esses dons e quanto mais elas reivindicam possuir experiências místicas, mais são consideradas fracas da cabeça. Todavia, a verdade é que tais pessoas geralmente não são subnormais, e sim, supranormais. Por isso mesmo é que santos e homens piedosos, bem como os operadores de milagres, geralmente servem de escândalo para o mundo. Isso continuará nesse pé, até que o mundo seja suficientemente espiritualizado para compreen­der (se é que isso algum dia se tornará realidade) que assim deve ser a «normalidade» para a humanidade, embora, normalmente, os homens não passem de feras um pouco mais inteligentes do que os animais irracionais.

 

Outros críticos supõem que o senso de culpa, reprimido durante anos, em face de suas perseguições e assassínios contra os cristãos, teria subitamente explodido em experiências pseudomísticas, o que resultou em vir a ser ele justamente o contrário do que vinha sendo, ou seja, a sua conversão. Assim sendo, ainda segundo esse ponto de vista, a experiência de Saulo poderia ter sido meramente «psicológica», e não verdadeiramente mística. Ora, nesse caso, Lucas, o autor do livro de Atos, teria exagerado em suas narrativas, adornando com um colorido mais vivo a realidade da vida de Paulo.

 

É perfeitamente possível, entretanto, que o próprio Paulo soubesse muito bem que aquilo que lhe ocorrera era uma experiência mística da mais elevada ordem, ou seja, um encontro pessoal com o próprio Senhor Jesus. Nada existe no campo do bom senso ou da experiência religiosa sã que contradiga tal coisa. De fato, a maioria das doutrinas e das práticas religiosas, originalmente, se alicerçam em alguma forma de experiência mística. Os modernos estudos da parapsicologia tendem a confirmar a realidade das experiências místicas válidas, embora algumas dessas experiências, como é normal, não passem de ilusões psicológicas. O fato de que a personalidade de Paulo foi transformada tão radical e permanentemente é um ponto positivo em favor da validade de sua experiência e em prol da realidade de sua origem, porquanto o Senhor Jesus está vivo, e não se há de duvidar que teve contatos pessoais, após a sua morte, ressurreição e ascensão aos céus, com Paulo, desde o momento de sua conversão, na estrada de Damasco.

 

A história da conversão de Saulo de Tarso é narrada em três lugares do livro de Atos (ver At 9:3-19; 22:6-21 e 26:12-18), havendo algumas variações quanto às minúcias, o que nenhuma pessoa sensata pode negar, ante a simples leitura dessas passagens. É possível que o próprio Paulo, ao narrar a história, inconscientemente tenha variado um tanto o seu conteúdo. No entanto, muitos eruditos, até mesmo da escola liberal, concordam que há uma harmonia essencial entre essas várias narrativas bíblicas, além de certas coincidências verbais que confirmam o fato de que há uma fonte informativa única para todas elas. Dessa maneira, essas narrativas são interdependentes entre si, e não narrativas independentes umas das outras. As histórias narradas por Lucas, mui provavelmente, — se basearam em narrativas pessoais, apresentadas pelo próprio Paulo. A história nos mostra que Lucas foi quase constante companheiro de viagens daquele apóstolo, em suas jornadas missionárias. Os sentimentos de temor, a luz brilhante, a purificação psicológica, a sua renovação, a sua conversão, são todos sinais de uma experiência mística genuína; e são exatamente esses os elementos que reaparecem em todas as narrativas sobre o evento da conversão de Saulo. Em sua vida posterior, Paulo recebeu outras grandes e importantes visões, e a sua doutrina repousa essencialmente sobre essas diversas revelações. Por que pensarmos ser estranho que Deus se revele a, alguém? De fato, o cristianismo, como revelação distintiva de Deus, se alicerça em tais revelações, sobretudo sobre as revelações outorgadas ao apóstolo Paulo, porquanto nelas é que encontramos as grandes distinções que separam o cristianismo do judaísmo.

 

A condição original para alguém entrar no apostolado, entre outras, era que o candidato tivesse visto ao Senhor (ver At 1:21). Ora, essa exigência teve cumprimento na experiência de Saulo. Quando já apóstolo, refere-se Paulo por quatro vezes, em suas epístolas, à sua experiência de conversão; essas passagens mostram que ele estava convicto da realidade objetiva da mesma, considerando-a como equivalente a «ver» a Cristo, o que o qualificava ao ofício apostólico (ver Gl 1:15,16; I Co 9:1; 15:8 e II Co 4:6). Paulo não estabeleceu distinção alguma entre essa forma de ver e aquelas que os demais apóstolos experimentaram, antes da ascensão de Cristo, porquanto todas essas aparições foram do «Senhor ressurrecto».

 

As duas grandes pedras fundamentais, que servem de características distintivas do cristianismo, são a ressurreição do Senhor Jesus e a conversão de Saulo, bem como as proposições que se seguem, coerentemente, desses dois fatos históricos.

 

Naturalmente, essa não foi a única experiência mística de Paulo, pois ele também menciona algumas outras (tal como a visita ao terceiro céu, em II Co 12). Parece que ele recebeu nada menos que sete grandes visões e a sua doutrina repousa sobre a informação transmitida por meio delas. O cristianis­mo repousa sobre o aparecimento do Cristo ressurrecto aos vários apóstolos e sobre a mensagem que ele lhes trouxe quando voltou dentre os mortos. Se esse fundamento for removido, restar-nos-á um judaísmo reformado (que também repousa em experiências místicas, como as de Moisés). Removendo-se essas formas de experiência, quando muito, nos restará uma forma de filosofia religiosa, e não a religião revelada que certamente o cristianismo é. Mas, por que se pensaria ser impossível que Deus se revelasse aos homens? E por que se pensaria ser impossível, neste mundo admirável, que Jesus, o Cristo, um personagem metafísico altamente exaltado não pudesse revelar-se aos homens?

 

A conversão de Paulo talvez tenha ocorrido por volta de 35 D.C. Após sua conversão, Paulo passou alguns poucos dias com os discípulos de Damasco. Pregou ali, por algumas vezes, ensinando, particu­larmente, que Jesus era o Messias. Depois disso, retirou-se para a Arábia, possivelmente para a região de Haurã, uma bacia fértil, que fica cerca de oitenta quilômetros ao sul da cidade de Damasco, diretamen­te a leste do extremo sul do mar da Galiléia. Outros creem que a área aludida era o país dos nabateus e a península do Sinai. Aquele era mais acessível para quem partisse de Damasco, mas este último lugar revestia-se de grande significação religiosa, por causa de sua conexão com a transmissão da lei, sendo possível que Paulo tivesse preferido essa atmosfera. Passou algum tempo em seu retiro, e dali, como é provável, esteve por diversas vezes em Damasco e voltou. A sua mensagem era essencialmente a mesma — desde o princípio — mas por essa altura, Paulo «...mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo» (At 9:22).

 

Pouco depois disso, Paulo visitou Jerusalém pela primeira vez, após a sua conversão, tendo ficado com Pedro por quinze dias, para consulta e consolo mútuo (ver Gl 1:18). Dali partiu para as regiões da Síria e da Cilícia (ver Gl 1:21). É provável que teria visitado sua cidade natal — Tarso, tendo permanecido naquela região por algum tempo, embora não tenhamos qualquer informação acerca disso. Enquanto Paulo pregava em Tarso, Barnabé e outros líderes cristãos se encontravam em Antioquia, onde se ia desenvolvendo uma poderosa comunidade cristã. A passagem de At 11:25 nos diz que Barnabé foi a Tarso, à procura de Paulo, sem dúvida para obter a sua ajuda na igreja em Antioquia, que precisava de uma liderança maior e mais forte. Isso foi um movimento provocado pela providência divina, pois armou o palco para a longa carreira de Paulo como apóstolo-missionário.

 

3. Primeira Viagem Missionária

 

Em cerca de 46 D.C., Paulo e Barnabé foram comissionados pela igreja em Antioquia a se atirarem numa excursão evangelística. Essa viagem fê-los atravessar a ilha de Chipre (onde Barnabé nascera), tendo passado pelo «sul da Galácia» (ver At 13 e 14). Na companhia de Paulo e Barnabé ia também João Marcos, autor do chamado evangelho de Marcos. Este era primo de Barnabé. Ao chegarem a Perge, capital da Panfília, por razões para nós desconheci­das, Marcos preferiu interromper a expedição e regressou a Jerusalém, sua terra. Talvez Marcos não estivesse disposto a dar prosseguimento a uma viagem tão difícil. — Paulo ressentiu a sua partida, julgando-a como ato de deserção, e mais tarde não consentiu que ele o acompanhasse em outra excursão missionária (ver At 15:38). Isso tornou-se motivo de acirrado debate entre Paulo e Barnabé, pois também eram humanos e também estavam sujeitos a errar. De Perge viajaram a Pisídia, um distrito em uma ilha, onde realmente teve começo a evangelização da Ásia Menor. Em Antioquia da Pisídia, em um dia de sábado, os dois missionários expuseram a sua importante mensagem messiânica, e foram bem acolhidos. No sábado seguinte, entretanto, já fora criada uma amarga oposição por parte de alguns judeus radicais. E os missionários cristãos foram obrigados a abandonar a cidade.

 

Dali partiram para Icônio, importante cidade Comercial da Licaônia. Seguindo seu costume original, pregaram na sinagoga dos judeus, e obviamente tiveram êxito, pois ficaram ali por tempo considerável. Mas eis que os radicais novamente provocaram um levante, que forçou Paulo e Barnabé a fugirem, finalmente. Dali foram para Listra e Derbe, nenhuma das quais era considerada cidade de grande importância. Essas cidades ficavam localiza­das na parte oriental da Licaônia. As superstições locais levaram as multidões a identificarem os missionários com Zeus (Barnabé) e com Hermes (Paulo). Um culto improvisado na hora, por alguns sacerdotes locais, em honra aos dois «deuses», teve de ser interrompido pelos missionários, porque sabiam que tal título não era merecido. Mas não demorou que os judeus radicais atacassem novamente, e em Listra (At 14) Paulo foi apedrejado.

 

Alguns intérpretes acreditam que foi nessa ocasião que Paulo teve a sua visão do terceiro céu (II Co 12), e que ele realmente esteve morto, mas reviveu. É possível que sua alma tenha sido momentaneamente liberta de seu corpo dormente e à beira da morte, o que algumas vezes ocorre, conforme também se tem aprendido em estudos parapsicológicos. O certo é que os enviados, tendo partido de Listra, foram pregar em Derbe. Começaram a voltar desse ponto, a fim de confirmarem na fé os novos convertidos, e assim passaram sucessivamente por Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia. Oficiais foram eleitos para as congregações. — Dali, eles partiram para Perge, e, finalmente, para Atalia, — importante porto marítimo da Panfília. Ali chegando, embarcaram em um navio a fim de irem para Antioquia da Síria, de onde tinham partido dois anos antes. Essa primeira viagem os levara às áreas de Chipre, Panfília, Pisídia e Licaônia e nesses lugares novas igrejas cristãs foram estabelecidas.

 

4. O Concilio Apostólico

 

O grande influxo de gentios na Igreja cristã que se ia formando, criava grandes problemas entre os elementos judaicos, especialmente no tocante às expe­riências da lei mosaica, e particularmente no que dizia respeito à lei cerimonial e à questão da circuncisão. A fim de dar solução a esses problemas e com o fito de fornecer uma resposta universal e autoritária às mesmas, Paulo e Barnabé subiram a Jerusalém, a fim de conferenciarem ali com os apóstolos (ver At 15). Corria o ano de 49 D.C., calculadamente. O concilio determinou que os gentios não eram obrigados a cumprir as exigências da lei, e que não deveria haver maior «carga» do que se absterem de alimentos oferecidos a ídolos, do sangue, da carne de animais sufocados e da falta de castidade, isto é, de todas as formas de pecados sexuais. As restrições visavam uma aplicação essencialmente local, e não como padrão universal para todos os gentios, embora talvez tenham servido de precedentes para a solução de problemas que surgissem posteriormente. Tudo foi feito (isto é, as decisões de proibir certas coisas, esboçadas na lei cerimonial) a fim de ajudar os membros judeus e gentios da igreja a se darem bem uns com os outros com mais facilidade.

 

5. Segunda Viagem Missionária

 

Paulo, então já dono de maior experiência em viagens missionárias, ansiava por partir novamente. Mas, devido às divergências com Barnabé, por causa de João Marcos, dessa vez Paulo preferiu levar a Silas (ver At 15:40 — 18:22). Partindo de Antioquia, seguiram por terra para as igrejas do «sul da Galácia», e em Listra o grupo foi engrossado com a adesão do jovem Timóteo. Ali chegando, o Espírito Santo desviou-os da direção ocidental, e passaram a viajar na direção norte, atravessando o norte da Galácia. Em Trôade, uma visão indicou que a Macedônia (no continente europeu) era um dos alvos dessa viagem. Assim sendo, começou a evangelização da Grécia. Foram visitadas as cidades de Filipos, Tessalônica e Beréia. Na Acaia (sul da Grécia), foram visitadas as cidades de Atenas e Corinto. Paulo demorou-se em Corinto por quase dois anos. Em Trôade, Lucas se reunira ao grupo missionário, e parece certo que nesse tempo começou ele a escrever a sua importantíssima narrativa da igreja primitiva, chamada de Atos dos Apóstolos, obra da qual se obtém quase todo o conhecimento de que dispomos acerca de Paulo e suas viagens, bem como do desenvolvimento da igreja primitiva em geral.

 

Durante as suas viagens, Paulo se mantinha em contato com as congregações cristãs anteriormente organizadas por meio de epístolas, certo número das quais têm chegado até nós, tendo-se tornado parte de nosso N.T. As epístolas de I e II Tessalonicenses devem ter sido escritas nesse tempo. De Corinto, Paulo partiu para Éfeso, onde ficou durante pouco tempo. Dali, em viagem apressada, passou por Jerusalém e chegou a Antioquia da Síria. Dessa maneira se encerrou a sua segunda viagem missioná­ria. Essa segunda viagem missionária evidentemente ocupou de ano e meio a dois anos, e provavelmente terminou em cerca de 51 D.C. Depois disso Paulo passou mais algum tempo (quanto, exatamente, não sabemos), em Antioquia da Síria.

 

6. Terceira Viagem Missionária

 

Foi a época do ministério em volta do mar Egeu (ver At 18:23 — 20:38). Sob diversos aspectos, esse foi o período mais importante da vida de Paulo. A província da Ásia foi evangelizada, e postos avançados do cristianismo foram lançados na Grécia. Durante esses anos, Paulo escreveu I e II Coríntios, Romanos, e talvez (ainda que não todas) algumas das chamadas epístolas da prisão I e II Timóteo e Tito. De Antioquia, Paulo partiu para Éfeso. Ali passou cerca de três anos, tendo estabelecido um dos centros mais importantes do cristianismo, a despeito da feroz oposição, movida tanto pelos judeus como pelos aderentes da adoração à deusa Ártemisa (Diana). Desse ponto, provavelmente, Paulo visitou diversas outras áreas ao redor, mas seu trabalho principal se concentrou em Éfeso. Também tornou a visitar as congregações cristãs ao redor do mar Egeu, que haviam sido anteriormente fundadas. Atravessando Trôade, Paulo chegou à Macedônia, onde escreveu a epístola chamada II Coríntios, e dali partiu para Corinto. Nessa cidade ele passou o inverno e escreveu a epístola aos Romanos, antes de continuar viagem até Mileto, um porto próximo de Éfeso.

 

Por essa altura, Paulo desejou subir a Jerusalém, a fim de levar auxílios aos crentes pobres dali (empobrecidos pela perseguição e pela fome), enviados pelos crentes gentílicos. A princípio ele queria ir à Síria por via marítima, mas, devido a uma armadilha que lhe fizeram para tirar-lhe a vida, preferiu viajar por terra, tendo atravessado a Macedônia. Dali, ele e seus companheiros de viagem tomaram um navio e velejaram ao longo das costas ocidentais da Ásia Menor. Breves paradas foram efetuadas em diversos lugares, incluindo Mileto, cidade portuária de Éfeso, o que forneceu a Paulo a oportunidade de se despedir finalmente, dos crentes que ali habitavam. Finalmente, desembarcaram em Tiro, na costa da Síria. A despeito das várias advertências sobre os perigos que ele teria de enfrentar em Jerusalém, Paulo prosseguiu viagem. Paulo chegou em Jerusalém no Pentecoste, provavel­mente em cerca de 56 D.C. Sua terceira viagem missionária, por conseguinte, terminou após um pouco mais de três anos de atividades.

 

7. Aprisionamento e Encarceramento em Roma

 

Paulo se movimentara com admirável liberdade, embora nunca o tivesse feito sem teste, tribulação e perseguição. Jerusalém rejeitara muitos homens piedosos, muitos profetas, e o próprio Jesus; e Paulo não estava destinado a conseguir maior êxito ali. O trecho de At 21:17 — 28:16 conta a história. Os judeus radicais, nessa ocasião, não tiveram de perseguir a Paulo, mas ele caiu direto na armadilha que lhe armaram. — O mais estranho é que a confusão foi provocada por alguns judeus que vinham da província da Ásia, que por acaso estavam no templo e reconheceram Paulo; foram eles que agitaram as multidões e fizeram-nas atacar o apóstolo. As autoridades romanas aprisionaram Paulo por estar perturbando a ordem. A essa altura, Paulo fez um discurso na escadaria do templo, contando com pormenores como ele fora perseguidor dos crentes, como ele se convertera, e como pregara a Jesus como Messias de Israel. Paulo foi ameaçado de açoites pelas autoridades romanas, mas, informando-as de que era cidadão romano, o tribuno militar o soltou. Mas essa ação causou tal protesto, por parte dos judeus que, para sua própria proteção, Paulo foi levado de volta às barracas militares. Os judeus, ato contínuo, conspiraram em matá-lo, e por isso Paulo foi removido para Cesaréia, com um grupo armado. Ali Paulo foi conduzido à residência de Félix, procurador romano. Paulo foi guardado sob sentinela, no palácio de Herodes. Aparentemente, esteve em Cesaréia pelo espaço de dois anos, e alguns creem que ali ele escreveu a sua epístola aos Colossenses, aos Efésios e a Filemom; mas uma data posterior para essas epístolas é mais provável.

 

Após dois anos de administração malsucedida, Félix foi chamado de volta a Roma, e Pórcio Festo tomou o seu lugar. Este era homem de caráter amargo. (Isso aconteceu em cerca de 58 D.C.). Quando o novo procurador se recusou a ouvir o caso de Paulo, em Jerusalém, os judeus desceram a Cesaréia, a fim de acusarem a Paulo ali. Assacaram graves acusações contra ele, mas que Paulo negou categoricamente. Foi então que Paulo apelou para César, que era direito de todos os cidadãos romanos, e dessa maneira se criou o motivo de sua viagem a Roma. Antes de partir para Roma, Paulo falou perante o rei Agripa II e sua irmã, Berenice. Esse Herodes era o bisneto de Herodes, o Grande. Nessa oportunidade, Paulo repetiu a história de sua conversão, e é óbvio que impressionou favoravelmente os que o ouviram.

 

Dali, viajando pelo mar, Paulo partiu para Roma, juntamente com muitos outros prisioneiros. Fez diversas paradas ao longo do caminho, incluindo uma permanência de três meses em Malta. Paulo chegou a Roma em 59 D.C, não como homem livre, mas, não obstante, como poderosa testemunha do cristianismo. Chegando a Roma, Paulo não foi tratado como prisioneiro no sentido ordinário, e nem como criminoso. Ali ele desfrutou do que se denominava «libera custodia», isto é, podia viver em sua própria casa, desfrutando de muitos privilégios de liberdade de ação, mas sempre acompanhado de um guarda. Paulo pregava àqueles que o visitavam, explicando-lhes as razões de seu aprisionamento; e também enviava epístolas a lugares distantes. Foi nesse período que, provavelmente, foram escritas as epístolas aos Colossenses, a Filemom, aos Filipenses (e, provavelmente, aos Efésios).

 

O livro de Atos dos Apóstolos encerra-se brusca­mente, não como um livro inacabado, e, sim, dando a ideia de que o autor tencionava escrever outra seção ou livro a fim de suplementá-lo. Lucas escrevera um evangelho, e então essa história, e não é de modo algum impossível que ele tivesse planejado ainda um outro volume. De conformidade com a tradição cristã primitiva, Lucas continuou sendo fiel auxiliar de Paulo até o martírio deste, e então deu continuação ao seu ministério, no evangelho, por mais vinte anos (até 84 D.C), até que, finalmente, faleceu em Beócia, na Grécia, com a idade de oitenta e quatro anos. Se podemos confiar nessa tradição, ficamos completa­mente atônitos, por não sabermos por que não foi completada a história de Paulo, em um escrito subsequente, juntamente com outros importantes acontecimentos que estariam ocorrendo na igreja, após o falecimento de Paulo.

 

8. Paulo, de Novo Livre, Vai à Espanha

 

Nenhum relato bíblico nos diz que Paulo foi libertado novamente a fim de ministrar outra vez; mas existem algumas evidências que dão essa indicação. É possível que Paulo tenha sido libertado em cerca de 63 D.C, e que tenha visitado tanto a Espanha como a área do mar Egeu, uma vez mais. A epístola de Clemente (em vss. 5-7, 95 D.C), — o cânon muratoriano (170 D.C) e o livro apócrifo Atos de Pedro (1:3 — 200 D.C.) falam de uma visita de Paulo à Espanha. As epístolas pastorais, ou pelo menos II Timóteo, parecem envolver um ministério posterior à história narrada no livro de Atos, desenvolvido no Oriente, pelo que também parece que Paulo pôde cumprir o seu desejo de visitar a Espanha, conforme expressou em Rm 15:24.

 

9. Segundo Encarceramento e Morte

 

Não se sabe quais as circunstâncias do segundo encarceramento de Paulo, embora a tradição indique que ele foi aprisionado pela segunda vez, levado de volta a Roma e lançado na prisão. Sabe-se que Nero odiava os cristãos e que chegou mesmo a usar os seus jardins pessoais como local de torturas cruéis, nos quais os cristãos eram obrigados a enfrentar animais ferozes. Essa perseguição rebentou em cerca de 64 D.C. Provavelmente, Paulo foi aprisionado, com muitos outros cristãos, em cerca de 64 D.C. Na qualidade de cidadão romano, é provável que tenha sido julgado por um tribunal, mas, quais tenham sido as acusações contra ele ou quais as condições do julgamento, não temos meios de saber. Paulo sofreu o martírio em Roma, provavelmente no ano de 65 D.C. De acordo com certa tradição, foi decapitado. É possí­vel que nesse período final de sua vida tenha sido escritas as chamadas epístolas pastorais I e II Timóteo, e Tito — e, igualmente, a epístola aos Efésios. Assim terminou a carreira do maior e mais influente exponente do cristianismo em toda a sua história, após ter combatido o bom combate, ter terminado a carreira e ter conservado a fé. Não há que duvidar que o esperam as coroas prometidas (ver II Tm 4:7).

 

10. Cronologia da Vida de Paulo

 

I. Vida de Paulo antes do contato com os segui­dores de Jesus

1. Provável nascimento e infância em Tarso

(judeu da dispersão) (At 22:3; Gl 1:21) 5 D.C.

2. Vida como judeu zeloso, da seita dos fariseus

(Gl 1:13,14; Fp 3:3-6; At 26:4,5) 20-26 D.C.

 

II. Vida como perseguidor dos seguidores de Jesus

(Gl 1:13; I Co 15:9; At 8:3; 9:1) 32 D.C.

 

III. Conversão de Paulo

(Gl 1:15; I Co 9:1; talvez II Co 12:1-4; At 9:1-19; 22:4-16; 26:9-18). Cerca de 35 D.C?

 

IV. Carreira de Paulo como apóstolo

1. Três anos na Arábia e em Damasco (e outras áreas)

(Gl 1:17) 32-39 D.C. Problema: Sobre o que ele meditava, ou quais suas

atividades?

2. Quinze dias de visita a Jerusalém — Paulo viu a Pedro e a Tiago, irmão de Jesus

(Gl 1:27).

3. Sua obra na Síria, Cilícia e Galácia, e talvez nas regiões ocidentais — Macedônia e Grécia (14 anos)

(Gl 1:21) 35—93 D.C.

A. Escreveu a maioria de suas epístolas:

I e II Tessalonicenses (II Co 6:14 — 7:1)

B. Possível aprisionamento em Éfeso

Colossenses, Filipenses e Filemom

C. Visita a Jerusalém — Visita de conferên­cia

(Gl 2:1; At 15) 49 D.C.

D. Volta à Ásia (província romana)

I e II Co 10 – 13

Período de crise com os cristãos judaizantes —

(Gálatas inteiro; II Co 10—13; Fp 3:2 - 4:7)

4. Solução da Crise

A. Termina a coleta para os pobres de Jerusalém 55 D.C.

(II Co 1—9 exceto 6:14-7:1 - I Co 16:1-4; II Co 9:1-15; Rm 15:14-32)

B. Planos de visitar a Espanha e Roma

(Rm 15:24,28) 56 D.C.

II Co 1-9; Romanos 16 (Pedro e Febe)

5. Viagem a Jerusalém, levando a oferta — Não há referências diretas, exceto as que anteci­pam o evento. 57 D.C.

6. Aprisionamento em Roma — Conforme a tradição cristã (At 20). 59 D.C.

7. Novamente livre, talvez com um ministério na Espanha — cerca de um ano. (Só tradição cristã, sem qualquer alusão bíblica).

8. Segundo aprisionamento e morte. (Só tradição cristã, sem qualquer alusão bíblica). 65 D.C.

 

II. Significação de Paulo

 

1. As Escolas Criticas e Paulo

 

Albert Schweitzer (Paul and His Interpretefs, 1912) salientou o fato de que com frequência as Escrituras têm sido usadas por pessoas comuns e por intérpretes tão somente como uma mina de textos de prova, sem qualquer consideração histórica ou exegética. Esses dizem que qualquer argumento pode ser solucionado simplesmente abrindo-se a Bíblia em certa passagem que, alegadamente, traz a resposta. Os opositores, em qualquer debate, pareciam igualmente habilidosos em apelar para «textos de prova», empregando esse método. O século XVIII testemunhou uma revolta contra tais princípios, pelos pietistas e racionalistas, os quais, por razões diferentes entre si, procuravam distinguir a exegese das conclusões providas pelas considerações dos credos e pelo simples exame de «textos de prova»:

 

a. O trabalho de J.S. Semler (1725-91) e J.D. Michaelis. Esses homens tentaram aplicar métodos de critica histórica-literária às Escrituras, tendo esboça­do normas hermenêuticas, na esperança de mostra­rem que o N.T. não se desenvolveu em um vácuo, mas que se devem aplicar indagações históricas e literárias, se quisermos entender apropriadamente a sua mensagem. A filologia foi introduzida como parte da abordagem histórica na interpretação e na solução dos problemas. À base desses estudos, mostrou-se que em I e II Coríntios temos uma correspondência do apóstolo com os crentes em Corinto, e não meramente duas epístolas, incluindo, talvez, um grupo de quatro epístolas, que, finalmente, foram reunidas em duas divisões principais. E outras sugestões semelhantes foram feitas, no tocante às epístolas de Paulo.

 

b. A escola de Tubingen. No século XIX, na Alemanha, surgiram formas mais radicais de escolas críticas da Bíbia. Obras de autores tais como G.W. Bramiley (Biblical Criticism) e J.E. Schmidt, Schleiermacher e F.C. Baur (de Tubingen), levantaram dúvidas sobre a autenticidade de I e II Timóteo e de II Tessalonicenses, à base de considerações literárias, linguísticas e de vocabulário. Baur só deixou intactos cinco dos vinte e sete livros do N.T., como testemunhos incontestáveis do período apostólico e escritos pelos próprios apóstolos. — Ele tentou distinguir a verdadeira literatura apostólica mediante o princípio interpretativo da «tendência». As duas grandes tendências que teriam dado colorido à literatura apostólica eram o conflito entre Paulo (e o cristianismo gentílico), de um lado, e o cristianismo judaico estrito e a ameaça do gnosticismo, do outro; tendência, sob a qual teriam sido escritas as chamadas epístolas gerais. De conformidade com essa teoria da «tendência», toda literatura que tentasse reconciliar a controvérsia judaico-paulina, ou tentasse reconciliar em parte o gnosticismo, foi classificada como não-apostólica, e isso extirpava a maior parte dos livros existentes do N.T., tornando-os não apostólicos. Baur também ensinava que Paulo foi o helenizador do cristianismo.

 

Em resultado disso, essa escola convenceu a bem poucos, além de a si mesma. Não é lógico supormos que um homem só, e em tão pouco tempo, pudesse ter helenizado o cristianismo (e assim tivesse alterado seu caráter original). Também é verdade que esse elemento helenístico, apesar de presente, tem sido altamente exagerado; e Paulo, sendo judeu criado em Jerusalém e ali criado como fariseu, certamente não foi quem helenizara a si mesmo. A citação de Paulo, feita em I Clemente (95 D.C.) e nos escritos de Inácio (110 D.C), onde não se vê qualquer reflexo de um suposto conflito entre Paulo e uma tendência judaizante, nesse período, são argumentos fatais às teorias da Escola de Tubingen. Baur ficou na mira de vários conservadores, principalmente J.C.K. Hofman e os seguidores de Schleiermacher. Mas o golpe mais devastador foi dado por um ex-discípulo de Baur, A. Ritschl, o qual abandonou a ideia da alegada hostilidade entre Paulo e os discípulos originais de Cristo. Ele salientou a unidade dos discípulos e a unidade essencial da mensagem cristã. Os discípulos posteriores dessa escola de Tubingen começaram a aceitar como paulinas quase todas as epístolas atribuídas a Paulo (exceto II Tessalonicenses, as epístolas pastorais e Efésios, cuja aceitação, em muitos lugares, não era mais considerada essencial à ortodoxia).

 

As controvérsias sobre a autoria revolvem em torno de Efésios, Colossenses e as epístolas pastorais, sobretudo essas últimas; e as discussões podem ser vistas in loc. Os «clássicos paulinos» (que poucos duvidam ser de autoria paulina) são Romanos, Gálatas, I e II Coríntios. A essas quatro, outras cinco são adicionadas pela maioria dos estudiosos, com pouca hesitação, a saber, I e II Tessalonicenses, Filipenses, Colossenses e Filemom.

 

Somos forçados a reconhecer, entretanto, que algum bem surgiu dessa controvérsia, pois os intérpretes foram alertados para a necessidade de levar-se em conta as considerações históricas e literárias, para que se faça bom juízo do N.T. Baur trouxe à luz uma abordagem indutiva histórica ao cristianismo primitivo, e libertou as pesquisas da ideia de que nada havia a ser aprendido, posto que todas as conclusões já haviam sido formadas.

 

c. Os eruditos britânicos e norte-americanos examinaram a reconstrução apresentada por Baur, mas, na maioria dos casos, não se deixaram persuadir. O conjunto de escritos paulinos (com exceção de Hebreus, que poucos eruditos têm atribuído a Paulo, porquanto o próprio livro não reivindica tal autoria) permaneceu de pé. Sólida exegese histórica saiu da pena de Lightfoot e de Ramsay. Este último só escreveu após intensa pesquisa arqueológica. Tais autores confirmaram a autoria lucana do livro de Atos; e isso aumentou a credibilidade e esclareceu a cronologia desse livro, no que se relaciona a Paulo.

 

d. Outros eruditos têm produzido teorias sobre o conjunto paulino de escritos. E. J. Goodspeed conjecturou que em cerca de 90 D.C, algum admirador de Paulo (talvez Onésimo, conforme J. Knox sugeriu mais tarde) tenha publicado as epístolas de Paulo, tendo escrito pessoalmente a epístola aos Efésios como epístola generalizadora ou como tratado introdutório.

 

De conformidade com a tradição, Onésimo, ex-escravo, finalmente, veio a tornar-se superinten­dente da igreja de Éfeso, pelo que estaria em posição de fazer isso. Toda essa ideia, todavia, se esvai em fumaça, quando consideramos que nada há, na própria epístola aos Efésios, que indique que ela tenha encabeçado ou terminado um conjunto de epístolas paulinas; e nem se pode provar que essa epístola contenha um sumário não escrito por Paulo acerca do pensamento desse apóstolo.

 

e. A crítica literária do século atual tem procurado discutir e desenvolver os seguintes temas:

a. Esforço contínuo para obter uma construção histórica geral das epístolas de Paulo e de seu pensamento,

b. Determinação exata de quais epístolas Paulo teria escrito ou não.

c. Determinação da origem e das datas das epístolas pastorais, que alguns supõem terem sido escritas por algum discípulo de Paulo, que procurava expressar as atitudes desse apóstolo,

d. Determinação das epístolas paulinas e não-paulinas.

e. Solução para várias questões relativas a unidade, a autoria e a interpretação das epístolas paulinas individuais.

 

Outras implicações dessas pesquisas se encontram no parágrafo abaixo acerca das epístolas paulinas.

 

2. As Epístolas Paulinas

 

Embora, ao longo dos séculos, toda correspondência que tem chegado até nós com o epíteto de paulina, isto é, escrita por Paulo, tenha sido posta em dúvida, por alguns, como autêntica. Existem quatro escritos paulinos clássicos que nem mesmo os eruditos modernos põem em dúvida, mesmo entre os mais liberais. Trata-se das epístolas aos Romanos, aos Gálatas e I e II Coríntios. Lutero dizia que se pudéssemos ao menos preservar o evangelho de João e a epístola aos Romanos, o cristianismo não poderia ser extinto. Entretanto, mais geralmente aceitam-se os nove livros seguintes como saídos realmente da pena de Paulo: Romanos, I e II Coríntios, Gálatas, Filipenses, Colossenses, I e II Tessalonicenses e Filemom. Para muitos, as epístolas de I e II Timóteo e Tito (as epístolas pastorais), além de Efésios, são consideradas obras dos discípulos de Paulo (escritas em seu nome). E a epístola aos Hebreus (apesar de não ter sido rejeitada do cânon do N.T.) é quase universalmente rejeitada como epístola escrita por Paulo. De modo geral, nas pesquisas mais recentes, a atenção se tem desviado da autoria das epístolas para outras questões. Por exemplo, costuma-se discutir sobre a forma original das epístolas ou a sua unidade essencial. Teria sido escrita realmente aos crentes de Roma a chamada epístola aos Romanos? Nesse caso, por que alguns manuscritos omitem as palavras «A todos... que estais em Roma», em 1:7, e «...em Roma», em 1:15? Qual teria sido a forma original dessa epístola, porque alguns mss contêm mais de uma doxologia finalizadora. Por exemplo, a doxologia em Rm 16:25-27 se encontra em L, 1175 e no Sy(n), em 14:23, ao passo que os mss A, P, 5 e 33, além de algumas traduções armênias, têm-na em ambos os lugares. O antigo ms P(46) tem-na somente após o cap. 15. Teriam sido escritas duas epístolas — uma mais longa e outra mais breve, que finalmente foram combinadas para formar uma só, deixando incerto o local exato da doxologia?. Nas epístolas aos Coríntios, alguns eruditos distinguem nada menos de quatro epístolas diversas, que finalmente foram combinadas para formar somente duas. Os melhores mss de Efésios não trazem as palavras «em Éfeso», em 1:1 dessa epístola. Foi essa epístola realmente escrita aos crentes de Éfeso, ou teria ela sido, originalmente uma circular enviada às igrejas da Ásia Menor, sem qualquer designação específica quanto ao destino? Como as palavras em Éfeso vieram a fazer parte do texto?. Essas questões são expostas aqui a fim de dar exemplos, ao leitor, sobre os tipos de problemas que são discutidos nos artigos sobre as epístolas, bem como na exposição geral.

 

3. O Servo de Cristo

 

As epístolas de Paulo frequentemente apresentam-no como servo «escravo» de Cristo. No original o termo usado é doulos, e geralmente, tem sido mal traduzido por «servo», e não pela sua tradução mais exata, «escravo». Paulo usou um termo forte a fim de indicar que ele fora comprado por bom preço, porquanto, tendo sido antes um homem indigno, por ter perseguido e morto aos cristãos, a sua dívida era imensa e insolúvel. Sua vida toda, da conversão por diante, foi um esforço por contrabalançar suas más ações, e disso se originou uma dedicação que tem inspirado o mundo inteiro durante séculos, e que tem sido eternamente usada, em sermões, como ilustração do discipulado cristão. Todo aquele que é chamado para perto do Senhor, o Mestre, torna-se um — escravo — como Paulo (conforme é indicado em I Co 3:23 e 7:22,23), e isso forma a ideia básica do discipulado totalmente dedicado que Paulo requer dos seguidores de Cristo. O Senhor (tal como os senhores de escravos) exerce direitos absolutos sobre todo pensamento, ambição, palavra, ação e alvo das vidas de seus escravos. Outro tanto se aplica à liberdade de ação dos escravos; mas, segundo a concepção paulina, estar verdadeiramente livre é ser escravo completo de Jesus, pois é então que o crente encontra a verdadeira liberdade de alma, além de completo livramento do pecado e de seus efeitos, sem falar na completa transformação segundo a imagem de Cristo. Paulo descreve o pecado como uma carência da glória de Deus (Rm 3:23), e com isso ele revela a sua correta atitude para com o pecado. O pecado é a degradação da personalidade humana. Os homens foram criados para coisas exaltadas, para serem exaltados acima dos próprios anjos, porque, ao serem transformados segundo a imagem de Cristo (ver Ef 1 e Rm 8), tornam-se, realmente, superiores aos anjos. O pecado é a marca da humanidade envilecida, não transformada segundo o modelo divino. O verdadeiro escravo de Jesus progride muito mais rapidamente no caminho da absoluta transformação segundo a imagem de Cristo, e isso contribui para a verdadeira glória de Deus. Aqueles que persistem no pecado, portanto, «carecem» dessa glória. O verdadei­ro escravo do Senhor, por conseguinte, é, realmente, um homem liberto, pois somente no cumprimento de seu destino é que o homem é libertado de seu estado inferiorizado pelo pecado.

 

Aos seus escravos é que Cristo ensina o seu amor, e é então que aprendemos a mansidão, a graça e a gentileza de Cristo (ver II Co 10:1; Rm 12:1 e I Co 1:10). Aos seus escravos é que Cristo transmite os pensamentos de sua mente (Fp 2:1-18), e isso fala de certa comunhão mística com o Senhor ressurreto e assento ao céu. Para Paulo, esse companheirismo era muito real, e ele procurou transmitir o sentido dessa experiência aos discípulos de Jesus. Com grande frequência, expressões tais como «em Cristo» e «mente de Cristo», são termos vazios para a igreja moderna, porque temos perdido de vista o sentido dessas coisas. E temo-lo perdido não nos nossos estudos de teologia, ou nos livros impressos, ou nos sermões falados, e, sim, na experiência e na realidade diárias.

 

Paulo ensinava a obediência da fé, porquanto a fé em Cristo era vista pelo apóstolo como uma realidade vital, como uma transmissão da própria vida de Deus, através da pessoa real, viva, ativa e comunicadora chamada Espírito Santo. O apóstolo Paulo compara­va-se a uma ama que cuidava ternamente de infantes, ajustando a dieta dos mesmos às suas necessidades e capacidades (ver I Co 3:1-3 e I Ts 2:7). Também comparou-se àquele que apresenta uma noiva ao seu noivo (ver II Co 11:2,3). Paulo, igualmente — comparou a igreja — ao campo de Deus, onde ele trabalhava a fim de produzir frutos. Dessas e de outras maneiras, Paulo demonstrou quanta dedicação se exige desse serviço absoluto a Cristo. Acima de tudo, o apóstolo esclareceu que o amor de Deus exige tais sacrifícios (ver Rm 5:5; II Co 5:14). Mostrou, ainda, que antes de sua conversão traçara uma trilha de violência, ódio e homicídio, e justamente contra aqueles que menos mereciam tal tratamento, isto é, os cristãos. Mas eis que o amor de Deus, através de Cristo, modificara tudo isso, e foi justamente esse amor que o tornara escravo de Cristo, posição na qual Paulo se sentia verdadeiramente livre. Desde que fora conquistado por esse amor, ele é que passara a receber os golpes violentos da parte de homens ímpios e desarrazoados. Por conseguinte, quando contem­plamos ainda que superficialmente a vida desse homem, compreendemos por que motivo os traduto­res não têm sido capazes de traduzir o termo doulos por «escravo», preferindo um vocábulo mais suave, como «servo». Infelizmente, nossas vidas também refletem essa substituição. Nesse exemplo de total consagração à causa do Senhor, encontramos uma das significações da vida de Paulo.

 

4. O Apóstolo aos Gentios

 

Outra das grandes significações da vida de Paulo é o fato de que ele representava aquele princípio dá nova religião revelada que não somente aceitava os pecadores, os publicanos e os desprezados, mas que também lhes prometia um destino mais elevado do que qualquer coisa exposta pelo judaísmo. Em seu caráter essencial (pelo menos até os tempos helenistas) o judaísmo tem sido uma religião terrena, com alvos e promessas terrenos. O cristianismo, porém, volta-se para as coisas da outra vida, e é essa atitude, em seu ensino acerca da total transformação do crente segundo a imagem de Jesus, o Messias, o Senhor eterno, que, aos olhos dos judeus, inspirava aos gentios «pretensões» e «ambições» jamais ouvidas. Paulo tornou-se o porta-voz mais proeminente dessa nova mensagem, sendo bem reconhecido o fato de que somente Paulo expõe, com clareza e pormenores, a mensagem central da posição e do destino da «igreja», que declaradamente, e na realidade, viria a ser essencialmente uma igreja gentílica.

 

Paulo se opusera amargamente a essa mensagem, até mesmo quando ela ainda estava em sua forma primitiva, nas mãos dos outros apóstolos, antes das grandes revelações que encontramos em Romanos, em Efésios e em Colossenses, as quais, verdadeira­mente, deram à igreja cristã a sua definição final. Paulo não podia aceitar antes da sua conversão, e até mesmo abominava, uma mensagem que falava de um Messias que fora crucificado e que ressuscitara. Aquele filho de Benjamim, o fariseu, era por demais astuto para não ser capaz de discriminar o possível impacto que esse Messias crucificado e ressurreto haveria de impor à comunidade judaica. Outrossim, certos porta-vozes da nova religião tinham anunciado publicamente, que Deus ab-rogara as exigências da lei antiga, tais como a circuncisão, a justiça mediante a observância da lei, e os sacrifícios no templo, porque tudo isso eram símbolos que haviam sido cumpridos pelo Messias, o antítipo de todos esses tipos simbólicos. Além disso, também haviam anunciado que esse mesmo Messias era Senhor de todos, e que em breve estabeleceria o longamente esperado Reino de Deus, e que a nação judaica, como um todo, corria o perigo de perder a participação nesse reino. Sendo fariseu, Paulo sentia repugnância por tais ensinos, e, em seu zelo pela justiça que lhe parecia autêntica, que ele reputava estar exclusivamente na lei e nos ritos que saturavam o judaísmo, tornou-se o mais temível opositor do cristianismo. Não haveria de descansar enquanto não desaparecesse da face da terra o último vestígio dessa nova heresia. Sabia ao que fazia oposição, e por quais motivos.

 

Mas eis que, repentinamente, o próprio Jesus resolveu interferir na loucura do jovem, apanhando-o no ato de intensificar os seus violentos esforços de derrubar a igreja. A experiência mística de Paulo, pois, «purificou-o» e «modificou-o», mas deixou perfeitamente intacta a sua natureza ardente e zelosa. A princípio, Paulo podia pregar apenas a mensagem messiânica, pois até aquele ponto ainda não recebera maiores luzes sobre o sentido da morte de Cristo, as vastas implicações de sua ressurreição e ascensão. Por isso é que, em Damasco, ele pregou que Jesus era o Messias. É provável que em sua retirada para a «Arábia» tenha recebido as visões preliminares e as revelações que o equiparam para a tarefa de quarenta anos que tinha a sua frente. O trecho de Gl 1:14,15 indica que um dos ingredientes essenciais das revelações recebidas por Paulo é que o seu ministério seria entre os «gentios». Posteriormente, no concilio efetuado em Jerusalém (sobre o qual lemos no segundo capítulo da epístola aos Gálatas), vemos que a sua missão especial foi reconhecida e aprovada pelos demais apóstolos. Dessa forma, Paulo lançou-se ao cumprimento do grandioso desígnio de Deus, como nem mesmo os profetas da antiguidade haviam imaginado. Alguns deles tinham previsto a salvação dos gentios, mas as indicações acerca da igreja — a noiva de Cristo — são escassas no V.T., e mesmo assim foram expostas de forma velada, em tipos e sombras. O grande propósito do oitavo capítulo de Romanos e do primeiro capítulo de Efésios jamais havia sido exposto por lábios judeus antes de Paulo.

 

Paulo aprendeu qual o propósito da cruz, conforme ele explica no décimo quinto capitulo de I Coríntios, onde se vê que a expiação ali efetuada faz parte integral do plano geral do evangelho. Ele percebeu que o esforço humano jamais poderia realizar o que foi realizado na cruz do Calvário. E assim também os seus esforços anteriores, como fariseu, assumiram um novo significado, pois em seus frenéticos esforços para obter a justiça própria, mediante a observância da lei, Paulo recebeu uma lição perfeitamente objetiva da total necessidade da justiça que vem por meio de Cristo. Posteriormente, ele usou sua própria experiên­cia como lição objetiva (Fp cap. 3), pois ninguém podia vangloriar-se de mais obras na carne do que o jovem Paulo. «Mas foi exatamente esse jovem» que chegou a compreender que o destino do homem está nas mãos de Cristo. Viver corretamente não é o alvo principal do destino humano. Isso deve ser feito e será feito por todos os verdadeiros discípulos de Cristo, mas essa vida resulta da transformação do crente à imagem mesma de Jesus Cristo. Paulo passou da noção de que a vida é aquilo que um homem faz para a ideia muito mais elevada de que a vida é aquilo em que tornamos metafísica e moralmente transformados segundo a imagem do Caminho, que é ao mesmo tempo o pioneiro do caminho, e o próprio caminho que devemos palmilhar. Paulo começou a perceber que o destino humano é uma longa e grande busca, que finalmente conduz à própria presença de Deus, e aqueles que ali chegam são transformados em seres que serão a própria imagem de Deus impressa neles, e que, de fato, não serão menos santos do que o próprio Deus. Essa grandiosa e elevada mensagem tornou-se o grande poder impulsionador por detrás do zelo de Paulo, e ele foi por toda parte do mundo gentílico com o intuito de proclamá-la. Os capítulos 9 a 11 da epístola aos Romanos consistem de revelações concer­nentes ao destino de Israel e à base dessas revelações Paulo sabia que a nação de Israel seria posta de lado por algum tempo, que a época dos gentios deveria chegar ao término de seu curso, até que toda a igreja tivesse sido chamada. Por essa razão, passou a buscar ainda com maior determinação a salvação dos gentios, a fim de estabelecer a igreja, permitindo, assim, que Deus tornasse a chamar a nação de Israel, a qual, no fim, teria um destino um tanto diferente do da igreja.

 

A cruz também se revestia de significação simbólica na missão de Paulo como apóstolo aos gentios. Significava sacrifício, conformidade com a morte de Cristo (ver Rm 6), o que, por outro lado, significa não-conformação com o mundo. A cruz fala de dor, de sofrimento e de angústia em sua forma mais intensa, e Paulo aceitava essas coisas como sinais de seu ministério. Por toda parte era assediado pelos radicais, e sua longa lista de sofrimentos, em II Co 11:23-28, menciona espancamentos, muitos aprisionamentos (dos quais temos o registro de apenas alguns, talvez em número de três), apedrejamentos, açoites com flagelos e com varas, naufrágios, perigos de assaltantes e inundações, fome, exaustão física devido a trabalhos contínuos e árduos, frio e falta de vestes apropriadas. Acima de tudo, pesava-lhe nas costas o fardo psicológico do cuidado por todas as igrejas locais. Trazia em seu próprio corpo as marcas do Senhor Jesus, tal como Jesus levava, em suas mãos e em seus pés, os sinais dos cravos da cruz. Isso fazia parte da significação de Paulo como apóstolo dos gentios. Era um autêntico soldado da cruz, e exibia um discipulado de consagração sem-par, que o mundo jamais pôde esquecer, e que ficou para sempre gravado nas páginas das Santas Escrituras, para escrutínio de todos. Paulo anunciou uma mensagem distintiva, que falava do exaltado destino da humanidade, e foi um mensageiro distinto dessa mensagem, e é desses dois fatores que aprendemos um outro significado da vida de Paulo.

 

5. A Doutrina de Paulo

 

A descrição mais completa da doutrina de Paulo pode ser encontrada nas diversas centenas de páginas sobre suas epístolas nesta enciclopédia. Aqui temos apenas uma tentativa de salientar o caráter central dessa mensagem, em torno da qual tudo o mais é subserviente.

 

A Reforma protestante salientava a justiça ou justificação mediante a fé e nos séculos seguintes, esse continuou sendo o fator controlador de toda interpretação dos escritos de Paulo. Mui infelizmente, os intérpretes não sondaram ainda com mais profundidade o pensamento do apóstolo, pois apesar dele ter salientado a justiça e a justificação, essas ideias tão-somente são parte de uma mensagem maior, porções necessárias, para dizer a verdade, mas apenas partes componentes de um grande plano. É possível que se os reformadores e aqueles que os seguiram tivessem tido mais compreensão, a igreja atual talvez compreendesse melhor a descrição do grande evangelho de Paulo. Desafortunadamente, porém, a igreja tem estacado mais ou menos onde a reforma a deixou, e mui raramente o evangelho completo de Paulo é pregado na igreja comum. Não será isso um dos motivos para a intranquilidade? Muitos não se sentem desassossegados e, algumas vezes, até mesmo famintos de informações pertinentes à inquirição espiritual? Sim, parece que o povo evangélico anela por uma mensagem mais profunda, por uma tentativa mais profunda de compreender por que estamos aqui e para onde nos dirigimos. Paulo, nos dá essa informação, mas esta dificilmente é pregada. Certamente a salvação é mais do que o perdão dos pecados e a mudança de endereço para o «céu». Porém, com que frequência ouvimos prédicas que vão além disso? Seria declaração por demais ousada dizer que o evangelho de Paulo, na sua forma completa, raramente é pregado na igreja moderna?

 

Homens como L. Usteri (1824) e A.F. Daehne (1835) explicaram Paulo em termos da justiça imputada, segundo é ensinado na epístola aos Romanos. Em contraste com isso, H.E.G. Paulus salientou a «nova criação» e a «santificação» (conforme se vê em passagens como II Co 5:17 e Rm 6). Grande discernimento foi exposto por Paulus, o qual declarou que a fé em Jesus, significa, na análise final, a fé de Jesus. E que coisa admirável seria se pudéssemos aprender esse conceito, pois nos conduziria a uma compreensão mais profunda do apóstolo Paulo. Imaginemo-nos, por um momento, a exercer realmente a fé de Jesus, a mesma fé que ele exercia. Porém, isso é impossível, a menos que sejamos pessoas «como Jesus», moralmente transfor­madas para sermos como ele era. Não obstante, avançar da fé em Jesus para a fé de Jesus, foi um discernimento que a reforma não doou à igreja, e que a igreja atual só pode explicar e compreender da maneira mais nebulosa.

 

F. C. Baur, que interpretava à base do arcabouço do idealismo de Hegel (1845), procurou primeiramente compreender a Paulo em termos do Espírito, dado mediante a união com Cristo, através da fé — e talvez, um tanto inconscientemente, ele conseguiu notável avanço na interpretação, pois não resta a menor dúvida de que o Espírito é a grande chave para o cumprimento do tema central de Paulo. Por semelhante modo, a ideia da união com Cristo é importante, embora esse conceito místico tenha geralmente desaparecido dos sermões da igreja e da literatura da Escola Dominical. A despeito de Paulo ter sido um místico, parece que o misticismo tem caído no esquecimento, ou mesmo tenha sido geralmente rejeitado. Entretanto, Baur mais tarde retrocedeu e voltou ao padrão estabelecido pela reforma, dividindo as diversas doutrinas paulinas em compartimentos, sem qualquer tentativa de vê-las como um conceito unificado. Muitos outros escritores seguiram esse padrão, e ingenuamente pensaram que, ao descreverem individualmente as diversas doutri­nas, ao mesmo tempo, expunham o pensamento de Paulo.

 

R.A. Lipsius (1853) deu um grande passo à frente quando reconheceu a «redenção» como o grande princípio unificador na doutrina de Paulo, e definiu também dois pontos de vista: o jurídico (a justificação) e o ético (a nova criação). Seguindo essa orientação, Hermann Luedemann, em seu livro «The Anthropology of the Apostole Paul» (1872), concluiu que os dois lados da redenção realmente repousam sobre esses dois aspectos da natureza humana. Do ponto de vista «judaico» anterior de Paulo (Gálatas e Romanos 1—4), a redenção aparece como um veredicto judicial de inocência; mas, para o Paulo mais maduro (Rm 5—8 e Ef 1), a redenção surge como uma transformação ético-física da «carne» para o «espírito», mediante a comunhão com o Espírito Santo. A fonte da primeira ideia é a morte de Cristo e a nossa participação nessa morte. A fonte da segunda ideia é a ressurreição de Cristo e a nossa participação nessa ressurreição, com sua implicação de um tipo de vida nova e transformada. Richard Kabisch recuou ao supor que essa redenção visa unicamente a livrar a alma do julgamento vindouro. Pois o destino humano envolve muito mais do que isso, embora, ouvindo alguém os sermões que geralmente se pregam nas igrejas, talvez não chegue a conclusão mais elevada do que essa. Albert Schweitzer, seguindo as indicações de Luedemann e Kabisch, desenvolveu uma síntese com a qual ensinava que Paulo tencionava que sua «redenção» fosse principalmente escatológica, isto é, um fim dos acontecimentos mundiais. Mas o fato é que o segundo capítulo da epístola aos Filipenses contradiz essa posição, como também o quinto capítulo da segunda epístola aos Coríntios. E também errou ao pensar que posto que o mundo não terminou imediatamente, conforme Paulo pensava, passou o apóstolo a expor um «misticismo físico», no qual os sacramentos, através da mediação do Espírito Santo, servem de mediador da ressurrei­ção de Cristo e de seus efeitos sobre o crente. «Misticismo», sim; mas misticismo físico, através dos elementos físicos dos sacramentos, jamais. Nada poderia estar mais distante do pensamento de Paulo, porque ele sempre destacou o puramente espiritual em detrimento do físico. Tinha razão, todavia, ao supor que Paulo ensinou que a união com Cristo, nesta vida, através do Espírito, assegura ao crente a participação na ressurreição espiritual de Cristo, quando de sua «parousia».

 

O grande tema central de Paulo qual é ele? É a salvação. Mas um ponto de vista muito especial da salvação. O grande tema de Paulo é soteriológico, e, se o quisermos, bem podemos usar o termo «redenção», pois isso diz exatamente a mesma coisa. Que espécie de salvação Paulo ensinava? Permitamos que os versículos seguintes falem por si mesmos: «Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade... e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as cousas debaixo dos seus pés, e, para ser o cabeça sobre todas as cousas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas» (Ef 1:4,5, 19-23). «Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus... o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo: se com ele sofrermos, para que também com ele sejamos glorificados... a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus... gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo... Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou... nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 8:14,16,19,28,30,39).

 

A participação na Imagem metafísica de Cristo indica a participação na natureza divina, segundo Cl 2:9,10 mostra claramente (ver também Ef 3:19). Participamos da «natureza divina» quando participamos da «imagem de Cristo». Naturalmente, disso participamos de modo finito, pois Deus é «infinito». Todavia, trata-se do mesmo «tipo» de «forma de vida», da mesma «essência de ser» que o próprio Cristo tem, o que é infinitamente exemplificado em Deus Pai. Diferimos da natureza de Deus Pai na «extensão» da participação na essência divina, mas não quanto ao «tipo», ver Jo 5:25,26 e 6:57 sobre a vida «necessária» e «independente» de Deus, e como os homens, mediante a participação na ressurreição de Cristo, chegam a participar desse tipo de vida. Já que Deus é infinito, e será sempre o alvo da existência humana, terrena ou celestial, mortal ou imortal, sempre haverá um progresso infinito na direção desse alvo. Não pode haver estagnação na inquirição espiritual, pois seus horizontes são infinitos. Já que há uma infinitude com a qual seremos cheios, também haverá um preenchi­mento infinito. (Ver II Pe 1:4.

 

O plano é imenso e sua realização é além das capacidades humanas. Portanto, a salvação se realiza pela graça de Deus. Abaixo estão os pontos mais destacados desse evangelho:

 

a. Plano divino da redenção e transformação dos homens segundo a própria imagem de Cristo, a imagem absolutamente moral e metafísica de Cristo, que é um plano eterno, e que, em realidade, é a razão mesma da existência da criação. (Essa é, igualmente, a mensagem do primeiro capítulo do evangelho de João, porquanto a vida — a criação física — existe para prover material para a «luz» ou criação espiritual. — O primeiro capítulo da epístola aos Colossenses ensina a mesma verdade).

b. O alvo de Deus é a adoção de muitos filhos, que ainda serão iguais (sempre em potencial) e totalmente semelhantes (em essência de ser) a seu Filho, Jesus Cristo.

c. Deus enviou Jesus, não só para ser o Caminho, mas também para mostrá-lo. Em sua vida humana, Jesus viveu o tipo de experiência que devemos ter. Sua vida não foi somente um espetáculo para ser admirado, mas é um padrão que precisa ser duplicado em nós. Jesus, em sua vida humana, «...aprendeu a obediência pelas cousas que sofreu...», e, como homem, em sua existência humana, «...tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem» (Hb 5:8,9). Os que lhe obedecem são aqueles que agem como ele agiu e são o que ele foi, mediante uma obediência verdadeiramente completa e perfeita. Não obstante, esse é o alvo, e a transformação moral provoca a transformação metafísica, exatamente como ocorreu no caso de Jesus, o qual, devido à sua comunhão íntima com o Pai, mediante o Espírito (que é o agente transformador. II Co 3:18), foi capaz de multiplicar pães, andar sobre a água e até mesmo ressuscitar a mortos, incluindo a si mesmo, após a sua morte. Ele vivificou o seu próprio corpo, tão grande foi o seu poder espiritual.

 

Lembremo-nos da lição da encarnação: Jesus, manifestação do Verbo Eterno, veio participar literalmente da natureza humana. Ele não era um anjo que fazia um papel teatral. E assim como ele participou literalmente da natureza humana, fundin­do a natureza humana com a divina, assim também abriu tal caminho para todos os homens. Pois todos os remidos haverão de participar de sua «natureza glorificada», de sua divindade de modo real, tal como sua participação da natureza humana foi real. Essa é a grande lição mística da encarnação. Ele é divino a fim de ser «admirado»; mas também é divino a fim de ser «duplicado» em «outros filhos», pois os remidos são filhos do mesmo Pai. Naturalmente, o Filho participou infinitamente da divindade, mas nossa participação será sempre finita. Contudo, a essência dessa partici­pação é real; não é uma imitação. A eternidade inteira será passada enchendo o finito com o infinito, enchendo o que é secundário com o que é primário, havendo uma gradual e prodigiosa transformação da alma humana segundo a imagem e a natureza de Cristo (ver II Pe 1:4 e Cl 2:9-10).

 

Lembremo-nos das outras lições: a lição de sua vida, a lição de sua morte, a lição de sua ressurreição e ascensão, a lição de sua infinita e interminável glorificação. Em tudo isso temos símbolos místicos do progresso e da redenção humanos. Pois em todos os pontos seremos assemelhados a ele, tal como em todos os pontos ele se fez como nós.

 

«E todos nós com o rosto desvendado, contemplan­do como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito» (II Co 3:18).

 

d. Jesus cumpriu a sua missão, tendo vivido a admirável vida que teve, tendo morrido como expiação pelo pecado, tendo sido ressuscitado dentre os mortos, e, nesse processo, foi transformado de homem mortal em homem imortal, assento ao céu e glorificado — e tudo isso como homem — pois ele foi o primeiro homem imortal de Deus, o padrão para o resto da humanidade. Nessa glorificação ele foi ainda mais profundamente transformado, e continua esperando sua glorificação maior, quando receber a sua Noiva, a igreja. A última porção do primeiro capítulo de Efésios demonstra que foi o infinito poder de Deus que realizou tudo isso, o poder de Deus através do Espírito. Eis que esse mesmo Espírito está em nós, e tenciona realizar em nós a mesma obra. Morremos a morte de Cristo, compartilhamos, de sua ressurreição e de sua ascensão e participamos de sua glorificação. Ele é quem preenche tudo em todos, e que está acima de todos; a despeito do que, o completamos, pois somos a sua plenitude, e nada tão elevado tem sido jamais dito acerca dos anjos. (Ef 1:23).

 

O próprio espírito sussurra aos nossos ouvidos qual é nosso elevadíssimo destino, pois o destino de Cristo é o nosso e sabemos quão grande ele é, e quão vasto é o seu destino, como cabeça do universo inteiro. A criação física inteira se impacienta, esperando essa poderosíssima manifestação dos filhos de Deus, como homens imortais, transformados e espantosamente glorificados — pois eles serão — verdadeiramente filhos e irmãos de Cristo, e não menos perfeitos (potencialmente sempre) e exaltados, embora cabeça e corpo tenham ofícios distintos. Outro tanto se dá com Cristo e a igreja. E assim como a cabeça de um corpo tem certa ascendência sobre esse corpo, assim também Cristo tem proeminência sobre a igreja. Não seremos sub-herdeiros dele, e, sim, co-herdeiros. Não estamos seguindo uma estrada diferente da dele, nem um alvo diferente do seu — seguimos exatamente a mesma estrada que Cristo, e visamos ao mesmo alvo. A predestinação de Deus assegura a obtenção desse alvo, e é nas provisões dessa predestinação que seremos totalmente «transformados», e não apenas perdoados de nossos pecados, nem apenas nos aproximando do «céu», conforme há muito tempo, o «evangelho» vem sendo pregado por partes da igreja.

 

e. Por conseguinte, no que consiste a justificação? Consiste em um passo na direção do alvo, e que envolve o pecado que precisa ser eliminado, porque os filhos devem ser tão santos quanto o próprio Deus. E o que será a santificação? É apenas a estrada pela qual estamos caminhando, enquanto vamos sendo trans­formados moralmente à imagem de Cristo, o que também produz uma transformação metafísica, isto é, a transformação literal da natureza de nossos próprios seres. O nosso alvo, portanto, é a absoluta perfeição moral, não menos santa do que a santidade de Deus, que nos torna não (potencialmente) menos amorosos, não menos compassivos, não menos eficazes (em nossas respectivas esferas) na realização de sua obra e na expressão de sua natureza. Obteremos a imagem moral de Deus que os anjos não possuem e talvez jamais possuirão. O próprio Jesus ordenou que fôssemos perfeitos, tal como o Pai, nos céus, é perfeito (ver Mt 5:48). Esse é o nosso alvo eterno e a nossa transformação total tornar-se-á uma realidade. Possuiremos a natureza moral de Deus. Mais do que isso, possuiremos a imagem metafísica de Cristo, que está acima de todos, de todos os nomes, de todos os poderes, até mesmo dos poderes angelicais. Nossa participação nisso será total. Os termos «filhos de Deus» e «irmãos de Cristo» indicam algo tremendamente elevado e ainda que tivéssemos a perfeita descrição dessas verdades, do ponto de vista metafísico, não poderíamos compreender suas impli­cações. O nosso atual desenvolvimento não permitiria a completa apreensão dessas verdades profundíssi­mas. Portanto, que significa estar alguém em Cristo? Isso fala da atual comunhão mística com ele, por meio do Espírito. Já conhecemos algo da transformação à sua imagem, porque já estamos começando a viver a sua vida. A energia de sua vida, em sentido bem real, já transparece em nós, e o céu já desceu à terra, e ele

nos circunda através de seu Espírito. De maneiras ainda desconhecidas, ele está conosco, mas esse estar conosco, com toda a probabilidade, consiste de uma real transferência de alguma espécie de energia espiritualizada que o Espírito de Deus transmite, e essa energia, mui provavelmente, é a substância da própria vida. Essa é a «salvação» presente, e a participação nessa salvação é que produz os atuais padrões de «santificação». E a santificação presente provoca as transformações metafísicas de nossas naturezas. E tudo isso está prenhe de autêntica imortalidade. Daí o crente parte para a ressurreição, então para a ascensão e, finalmente, para a glorificação, que não se trata de um ato isolado, mas de um processo, o que continua acontecendo até mesmo com Cristo, nosso irmão mais velho. E o alvo final é a perfeição e a transformação absolutas. É a tudo isso que se denomina de salvação, e esse é o evangelho anunciado por Paulo. O leitor poderá julgar, por si mesmo, quanto dessa verdade é pregada atualmente nas igrejas evangélicas. A simplificação do evangelho como — se resumisse ao perdão dos pecados e a uma viagem ao céu — tem prejudicado — a todos nós. E tem deixado os crentes desassossegados, porque, interna ou externamente, perguntam se não há mais nada além disso? Os crentes, pois, ficam descontentes, pois o cristianismo tem perdido o seu fio cortante e desafiador. Precisamos pregar o evangelho de Paulo. Precisamos aprender o que isso significa na experiência diária. Precisamos conhecer, na realidade diária, o que significa estar alguém «em Cristo».

 

6. Paulo e Jesus

 

Os estudos sobre o pensamento paulino, neste século XX, se têm devotado, especialmente, a três perguntas: 1. Qual a relação entre Paulo e Jesus? 2. Quais as fontes do pensamento de Paulo? e 3. Qual o papel da escatologia na doutrina de Paulo? Dessas três, a primeira — Qual a relação entre Paulo e Jesus? é mais vexatória e problemática. A distinção entre os dois pensamentos básicos de Paulo — justiça jurídica (Rm 1—4) e justiça /ética/ (Rm 58), tem-se desenvolvido em um estudo muito importante, e a maioria dos escritores sobre o assunto se tem pronunciado a favor da ideia «ética» como mais básica ao pensamento paulino posterior, como mais repre­sentativa de Paulo em seus anos maduros. Pelo menos pode-se dizer que isso certamente se parece mais com o pensamento expresso nas epístolas de Efésios e Colossenses e com a mensagem geral da redenção ou «salvação» (conforme se explicou na seção anterior), e que certamente essa é a mensagem central do apóstolo Paulo. Por conseguinte, temos um certo tipo de «misticismo de Cristo», a saber, Cristo, o Deus-homem que do céu desce a este mundo rodeado pelo mal, incluindo uma espessa nuvem de poder demoníaco. A união com Cristo (isto é, a comunhão mística com ele) tornou-se o principal conceito acerca do sentido e da direção da atual experiência humana. E essa união assegura a «ressurreição» juntamente com ele, que é o passo inicial da glorificação da alma.

 

Esses pensamentos lançaram os fundamentos para uma série de estudos, e muitos intérpretes, ao lerem os evangelhos e as palavras de Jesus, segundo elas estão ali escritas, para em seguida lerem a Paulo, especialmente seus «escritos posteriores», como as epístolas aos Efésios e aos Colossenses, começaram a indagar se as duas mensagens ou «evangelhos» seriam realmente uma só. Alguns negaram isso em termos inequívocos. W. Wrede, em sua obra Paulus (1905), expôs a questão nos termos mais francos. Ali Paulo é visto não como verdadeiro discípulo do rabino Jesus, mas realmente um segundo fundador do cristianismo. A piedade individual e a salvação futura ensinadas por Jesus (ideias comuns ao judaísmo dos dias de Jesus) haviam sido transformadas, pelo teólogo Paulo, em uma redenção presente através da morte e da ressurreição do Cristo-Deus. Quem aceitar esse ponto de vista terá de escolher entre Jesus, e assim permanecer bem perto do judaísmo, ou terá de preferir a Paulo, entrando em uma esfera religiosa diferente. A tendência parecia permanecer com Jesus, e não levar muito a sério as ideias de Paulo.

 

A controvérsia acerca da suposta diferença entre Paulo e Jesus conduziu a uma investigação ainda mais detalhada sobre as origens do pensamento paulino. F. C. Baur explicava o pensamento de Paulo à base dá controvérsia eclesiástica, isto é, Paulo era contrário ao judaísmo antigo, e, sendo o «helenizador» do cristianismo, fez declarações diversas que visam a afastar o cristianismo o mais possível do judaísmo. Schweitzer explicava que a origem do pensamento de Paulo era o seu problema escatológico peculiar, que era uma adaptação quase exclusiva das ideias do judaísmo posterior. Mas as pesquisas na história judaica não têm contribuído para consubstanciar essa ideia.

 

Outros, como R. Reitzenstein e W. Bousset, pensavam que tinham encontrado o manancial do pensamento paulino, em uma espécie de mistura das religiões misteriosas orientais helenistas e de elemen­tos doutrinários do judaísmo. É verdade que os mistérios falavam de deuses que morriam e tornavam a viver, de «senhores» e de redenção por meio de sacramentos. Qualquer um que leia os clássicos, e suas adaptações religiosas posteriores, naturalmente verá os paralelos. Estudos poste­riormente feitos abrandaram o impacto dessa ideia, mostrando, acima de tudo, que tais ideias não eram totalmente estranhas ao pensamento judaico, espe­cialmente ao pensamento judaico posterior. Final­mente, observamos que a ideia da «religião misterio­sa» não conquistou muita aprovação, embora tenha continuado a exercer grande influência sobre os estudos acerca de Paulo.

 

Alguns também tentaram ligar o pensamento de Paulo com as ideias gnósticas, especialmente as ideias gnósticas acerca da natureza do mundo, seus muitos níveis de espíritos, autoridades, etc. (conforme alguns creem estar refletido em Efésios e no primeiro capítulo de Colossenses). Sabemos, todavia, que essas duas epístolas de fato são livros escritos contra as formas iniciais da heresia gnóstica, e não é provável que Paulo tivesse apoiado um acordo justamente com a heresia que atacava. Essas ideias sobre muitos níveis de espíritos, autoridades, etc, eram comuns ao judaísmo posterior, e Paulo não teria que tomar de empréstimo dos primitivos gnósticos essas ideias. Alguns têm argumentado que a menção de Paulo sobre «principados», «poderes», «potestades», e «do­mínios» não significa que ele tivesse aceito como verídicos os muitos níveis de poderes espirituais nos lugares celestiais, mas que meramente ao usar esses termos, dizia que, sem importar quais poderes existam, Cristo é o cabeça desses poderes, sendo Deus sobre todos. Mas isso equivale a subestimar o pensamento de Paulo, pois parece perfeitamente claro, na análise dessas passagens, que Paulo aceitava tais níveis de poder, embora não os tivesse descrito. Bultmann aproximou-se mais da verdade ao mostrar que Paulo estava alicerçado no judaísmo helenista e no cristianismo helenista, que tem seus conceitos básicos de dualismo ético em uma redenção sacramental; porém, dizer, como Bultmann asseve­rou, que essas ideias foram tingidas pelo gnosticismo, é um erro; porque, segundo elas aparecem nas epístolas de Paulo, dificilmente precisamos atribuí-las a quaisquer ideias gnósticas.

 

Paulo concordava essencialmente com a declaração gnóstica de que existem vários níveis de seres espirituais, que existem princípios bons e maus neste mundo, cada qual investido de sua própria autorida­de, tanto no céu como na terra. Porém, contrariamen­te aos gnósticos, o apóstolo ensinava que à testa de todos esses poderes avulta a pessoa de Cristo, que é o Deus e criador de tudo (ver Cl 2:8-16). Cristo não pode ser classificado em qualquer das categorias de espíritos. Os manuscritos do Mar Morto foram um embaraço para a identificação do gnosticismo com o pensamento paulino, segundo dizia Bultmann, posto que ali já se encontra expresso o dualismo ético que Paulo teria encontrado, supostamente, no gnosticis­mo, e que, subsequentemente, teria influenciado a sua doutrina. Portanto, essas ideias são anteriores ao gnosticismo. Contudo, não havia necessidade de esperar pelo descobrimento dos manuscritos do Mar Morto para sabermos isso, pois, a simples leitura da literatura antiga nos fornece essas ideias básicas. Para começar, o estudioso deve ler Platão, onde se encontram todas as ideias dualistas que alguém poderia desejar. Outrossim, no gnosticismo primitivo, não há a doutrina da «descida de um redentor» (esse foi um desenvolvimento posterior, no gnosticismo, sobre o qual o apóstolo não teve conhecimento), o que mostra que é impossível que a ideia paulina tivesse sido tomada de empréstimo do gnosticismo. E assim tem continuado a controvérsia, em que vários autores assumem diversas posições em torno da questão, como é o caso de Grant, que vê Paulo como homem cujo mundo espiritual se situa entre as ideias apocalípticas judaicas e o gnosticismo plenamente desenvolvido do segundo século da era cristã. Ele acha que a tendência de Paulo, ao interpretar a ressurreição, era, entre outras coisas, torná-la um triunfo sobre os poderes cósmicos. (De fato, Cl 2:15 diz exatamente isso). Mas Paulo não tinha de apelar para o gnosticismo para encontrar essa ideia, porque a necessidade de tal triunfo era comum ao judaísmo posterior e o próprio Jesus expressou a mesma ideia, ao declarar: «Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago», ver Lc 10:18 que contém detalhes sobre este assunto que concorda com a tese de Paulo que a obra redentora de Cristo, finalmente, triunfará sobre todos os poderes cósmicos malignos.

 

Naturalmente, o próprio gnosticismo era sistema altamente misturado, pois tomava elementos empres­tados da mitologia grega, da filosofia, das religiões misteriosas, de várias formas de misticismo oriental, e, diretamente, do próprio judaísmo, como também do cristianismo, depois que este entrou em cena. Portanto, é quase impossível dizer-se, «Isto Paulo tomou por empréstimo do gnosticismo», até mesmo nos casos que parecem «empréstimos» feitos daquele sistema. O mais provável é que ideias que Paulo e os gnósticos tinham em comum, eram simplesmente pontos de concordância, sem que houvesse qualquer empréstimo direto. A tendência, mais recentemente, tem sido negar, ignorar ou suavizar a suposta «Influência gnóstica sobre Paulo», à proporção que se vai entendendo melhor qual era o «meio ambiente de conceitos» do primeiro século. Não se pode negar, é claro, que muitas das ideias e expressões desse apóstolo refletem sua própria cultura, pelo que são «empréstimos» tirados das ideias correntes. Contudo, cremos que as grandes pedras fundamentais de sua doutrina se derivam de uma fonte superior, repousando sobre alicerce mais firme que a mera repetição de ideias comuns a todos. Levamos a sério sua reivindicação de haver recebido «muitas» revela­ções (ver II Co 12:1). Ele recebeu «visões e revelações», e fala de sua experiência no «terceiro céu», como ilustração desse fato. Ver Gl 1 e Ef 3:3 ss. Paulo era um místico de primeira ordem, e grande parte dos pontos distintivos do cristianismo repousa sobre suas visões, que se concretizaram nas Escritu­ras, preservadas para nós no Novo Testamento.

 

A discussão acima, sobre as origens do pensamento paulino, leva-nos à conclusão de que apesar de grande parte da doutrina de Paulo não ser geralmente ouvida dos lábios de Jesus, isto é, na exposição que os evangelhos fazem dos ensinos de Jesus, em coisa alguma estava em desacordo com os ensinos essenciais dele. Paulo não teve, por outro lado, de pedir emprestado as ideias do gnosticismo. Outrossim, pode-se observar que a discussão inteira sobre as «origens» conforme ela é apresentada pelos autores mencionados, ignora por completo a questão da inspiração, dando a entender que Paulo não era inspirado pelo Espírito Santo, segundo ele declarava que era, ou que ele não aprendeu o seu evangelho por revelação, conforme ele mesmo declarou (Gl 1:12). A leitura das epístolas de Paulo não nos pode deixar de convencer que, quer isso expresse a verdade, quer não, o apóstolo pensava que aquilo que ensinava chegara ao seu conhecimento por meio de visões e revelações e que ele alicerçava o seu evangelho sobre esses fundamentos.

 

Mais especificamente, acerca de Jesus e Paulo, podem-se fazer as seguintes observações. Os seus ensinamentos, descobre-se que Jesus era bom representante do judaísmo, em sua forma mais excelente; mas é um erro vê-lo apenas como tal. Pois ele se reputava divino, igual ao Pai, em uma posição metafísica altamente exaltada. Por exemplo, consideremos a sua declaração: «Eu o sou; entretanto, eu vos declaro que desde agora vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso, e vindo sobre as nuvens do céu» (Mt 26:64). O sumo sacerdote ficou extremamente perturbado ante essa declaração, e rasgou as próprias vestes, pois para ele tal declaração parecia uma grande blasfêmia. Outrossim, o capítulo vigésimo quarto de Mateus (o «pequeno apocalipse» como é chamado), ensina de maneira bem definida um Jesus metafísico altamente exaltado, e não meramente um rabino judeu que não tinha as credenciais fornecidas pelas escolas judaicas. Parece claro, pela narrativa dos dias finais de Jesus e sua crucificação, que a principal acusação contra ele foi de que blasfemava, ao declarar-se mais do que um mero homem. O ponto de vista de Jesus sobre sua missão messiânica não se limitava à de um mero homem que cumpria uma incumbência. Para ele, o Messias era um homem de origem celestial, dotado de um ministério celestial e terreno. Foi justamente esse o conceito que o levou à cruz, mas de fato ele não foi apenas um reformador. Sua declaração, em Mt 20:28, que diz: «...tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos», indica o conceito de Jesus acerca de sua vida e morte, cuja finalidade era oferecer expiação e vida espiritual, e não meramente servir de exemplo. A mesma verdade é destacada nos trechos de Mt 26:26-29; Mc 14:22-26 e Lc 22:14-20, onde Jesus instituiu a ceia memorial, á qual indica que Jesus contemplava sua missão como realizadora da expiação e de uma redenção sacramen­tal.

 

Não se pode dizer, por conseguinte, que Paulo tenha criado essa ideia, porquanto a sua passagem central sobre a questão I Co 11:23-26 é apenas uma compilação ou sumário do mesmo material de ensino que se reflete nos evangelhos. Portanto, a doutrina que alguns querem fazer-nos crer que foi tomada de empréstimo de alguma forma de gnosticismo ou de judaísmo helenizado, em realidade já estava presente nas palavras mesmas de Jesus.

 

A expiação subentende a ideia básica da justifica­ção pela fé. Essa doutrina não é claramente ensinada nos evangelhos; e poucos afirmam tal coisa. Mas a expiação é o alicerce dessa doutrina, e de fato, todo o sistema sacrificial dos judeus aponta para esse ensino. A expiação só se torna necessária quando o indivíduo não é capaz de fazer tudo por si mesmo, ou seja, quando a salvação, o «livramento» está fora de seus próprios recursos. O judaísmo inteiro, pois, salientava essa verdade. É verdade que a doutrina formal da justificação pela fé não é esboçada nos evangelhos, embora existam ali as condições básicas que requeiram a sua delineação final. É verdade que Paulo foi além do que se lê nas palavras de Jesus, nos evangelhos, mas isso não significa, necessariamente, que ele tenha contradito o Senhor. Ninguém procura ocultar o fato de que o cristianismo é um desenvolvimento dos pontos de vista preliminares dos evangelhos, e, realmente, esse fato é confiantemente proclamado, pois o próprio Paulo, ao mencionar as revelações que recebeu, declara que as doutrinas da igreja lhe tinham sido dadas para serem expostas por ele. Também ninguém afirma que os evangelhos fornecem uma clara apresentação da igreja. A Paulo foi dado o privilégio de fazê-lo. Mas Jesus antecipou e mesmo predisse que a sua igreja seria uma comunidade religiosa separada do judaísmo. Por conseguinte, dificilmente alguém pode pensar em Jesus tão-somente como um reformador do judaísmo. Há evidências de que Jesus se alienou da corrente principal do judaísmo desde quase o princípio de seu ministério. De fato, já no décimo sexto capítulo do evangelho de Mateus vê-se que uma nova comunidade estava se formando. No décimo oitavo capítulo do mesmo livro veem-se as regras básicas que os discípulos deveriam seguir em suas relações mútuas no seio da igreja. A partir do décimo sexto capítulo do evangelho de Mateus temos o arcabouço básico da «nova comunidade religiosa». Portanto, o que Paulo fez foi adicionar estatura a esse arcabouço, e, através das revelações que recebeu, indicou o destino da igreja, o qual, para sermos verazes, se encontra só nos escritos paulinos. Paulo nos fornece dimensões vastamente ampliadas acerca do destino do homem (que é descrito de modo breve sobre a seção «e» deste mesmo artigo). Ninguém afirma que Jesus, nos evangelhos, expôs qualquer coisa assim; mas as ideias não são contraditórias, e, sim, suplementares.

 

Devemos dar atenção à declaração de Paulo, em Gl 2:2,6-8, onde ele mostra que propositalmente visou aos demais apóstolos, a fim de verificar se o seu evangelho não estava de acordo em alguma coisa com o que pregavam. Assim, descobriu que não havia desacordo algum, e, além disso, que nada podiam acrescentar ao que ele ensinava. Verificou que o evangelho de Pedro era igual ao seu, embora as suas esferas de atividade fossem diferentes, pois Pedro fora enviado aos judeus, ao passo que Paulo fora enviado aos gentios. Pedro confirma o fato com suas próprias palavras, no segundo capítulo de Atos, ao falar sobre a expiação. E em At 15:10, lemos que Pedro disse: «E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé os corações. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós? Nessa oportunidade, como é claro, Pedro declarou a necessidade da «justificação mediante a fé». O ponto disso é que Paulo, quanto aos pontos básicos — sem pensarmos por enquanto sobre os grandes suplementos com que ele contribuiu para a mensagem cristã total, ou seja, as revelações especiais que recebeu — em coisa alguma estava em desacordo com os outros apóstolos quanto a essa doutrina.

 

Certamente os outros apóstolos, que andaram com Jesus durante três anos, conheciam perfeitamente a sua doutrina e as suas intenções, e não se teriam deixado enganar por Paulo, se seus ensinos estivessem equivocados. É verdade que os ensinamentos de Jesus, conforme os encontramos registrados, eram principal­mente éticos, mas essa ética não é contrária ao cristianismo paulino. Também é verdade que muitas das ideias de Paulo não se encontram nos registros sobre as palavras de Jesus, isto é, o silêncio reina nesses particulares; mas o próprio Paulo foi o primeiro a admitir tal fenômeno, ao dizer que as revelações lhe confiaram explicações novas quanto ao destino da humanidade. Nada mais se pode fazer, no sentido de pesquisar o Jesus histórico, do que aceitar o testemunho daqueles que foram seus íntimos, que o viram e que o imitaram. Os outros apóstolos também declaram-no Senhor da glória, personagem de elevadíssima estatura metafísica. O evangelho de João é uma declaração expandida dessa verdade. E um pequeno fragmento desse evangelho intitulado P(52), definidamente escrito em cerca de 100 D.C., mostra que esse evangelho provavelmente foi escrito antes do ano 100 D.C. Assim sendo, temos no evangelho de João uma das primeiras interpretações apostólicas da pessoa de Jesus. Pedro declarou, no primeiro capítulo de sua primeira epístola, que aguardamos do céu o SENHOR, o aparecimento de Jesus Cristo (ver I Pe 1:7), e que, através de sua morte e ressurreição, chega até nós a redenção e a expiação dos pecados (I Pe 1:18-20). A passagem de II Pe 1:17,18 menciona a glória da transfiguração que foi contemplada pelos apóstolos originais (conforme é descrita no décimo sétimo capítulo de Mateus), e isso faz parte da descrição de Jesus como personagem metafísico altamente exaltado, o Senhor da glória, conforme Paulo o denomina em I Co 2:8. No trecho de I Pe 4:11 nos é ensinado o domínio eterno de Jesus. Portanto, concluímos que o «Jesus teológico» se destaca com grande evidência nos escritos dos apóstolos primitivos de Jesus, como Pedro. Se Pedro não era capaz de interpretar corretamente a pessoa de Jesus, após tão longa e intensa associação que teve com ele (e o livro de Atos reflete o alto conceito que os apóstolos tinham de Jesus como personagem metafísi­co), então resta-nos conjecturar para descobrir quem era realmente Jesus. É importante notar que também nessa particularidade, Pedro e Paulo estavam de pleno acordo. Pode-se dizer, pois, que não pode ser comprovada qualquer contradição entre Jesus e Paulo. O que permanece de pé, e ninguém se aventuraria a negá-lo, é que estava reservado a Paulo revelar, através do Espírito Santo, as doutrinas mais profundas sobre a natureza do mundo dos espíritos, e o chamamento e o alto destino da igreja, conforme o judaísmo jamais pudera imaginar, e que Jesus meramente indicou de passagem.

 

7.  Como Paulo comprovou seu apostolado.

 

Uma multiplicidade de maneiras:

 

a. Ele foi diretamente comissionado por Cristo, o Senhor ressurreto, para esse elevado ofício, o que fica implícito na sua pergunta, «...não vi a Jesus, nosso Senhor?...» Essa mesma ideia é expandida em Gl 1:11 e ss.

 

b. Seu poderoso ministério é salientado como uma prova do caráter genuíno de seu ministério, prova de sua comissão divina. E isso é declarado através da seguinte pergunta: «...acaso não sois fruto do meu trabalho no Senhor?...» Essa ideia é desenvolvida em várias outras passagens, como no segundo capítulo da epístola aos Gálatas, embora o seja mais particular­mente ainda nos capítulos décimo a décimo segundo da segunda epístola aos Coríntios. Por essa razão é que Paulo pode asseverar: «...trabalhei muito mais do que todos eles...» (I Co 15:10). E isso não constitui uma reivindicação de pouca monta, proveniente como foi do contexto do cristianismo do primeiro século, quando foram realizados labores realmente extraor­dinários.

 

c. O trecho dos capítulos décimo a décimo segundo da segunda epístola aos Coríntios nos fornece outras provas do apostolado de Paulo, incluindo suas experiências místicas e visões, que foram dadas a Cristo para confirmar o seu ministério e autoridade, bem como para aumentar a sua eficácia. (Ver especialmente o décimo segundo capítulo da citada epístola).

 

d. Os sofrimentos especiais pelos quais Paulo passou também são apresentados como provas de seu ofício apostólico. (Ver II Cor. 11:23 e ss).

e. Operações miraculosas, levadas a efeito por meio de dons especiais do Espírito Santo, também tiveram por propósito servir de prova dos verdadeiros apóstolos de Cristo. Os trechos de II Co 12:12 e o nono capítulo do livro de Atos em diante fornecem provas tanto das grandes realizações como dos extraordinários sinais operados por Paulo, tudo o que fazia parte integrante de seu ministério apostólico. Grande porção do livro de Atos serve de demonstra­ção desses fatos, embora esse livro do N.T. não tenha sido escrito diretamente com essa finalidade, visto que, para Lucas, não havia necessidade alguma de apresentar defesa do apostolado de Paulo, que o próprio Espírito de Deus lhe autenticava o ministério.

 

f. O elevadíssimo conhecimento espiritual de Paulo, bem como o fato de que ele atuava como instrumento para revelar à igreja cristã o seu exaltado destino, no que Paulo se destacou acima de qualquer outro homem da história, também serve de prova de seu apostolado. Todas as suas epístolas, bem como os sublimes ensinamentos ali contidos, ilustram esse ponto (ver II Co 11:6 e Gl 2:2 e ss).

 

g. Paulo foi um instrumento especial no avanço do evangelho de Cristo, tendo sido escolhido para essa tarefa desde o berço, tendo sido preservado para a mesma, até mesmo durante seus anos de rebeldia (ver Gl 1:13-24). A leitura dos trechos dos capítulos primeiro e segundo da epístola aos Gálatas e dos capítulos décimo segundo da segunda epístola aos Coríntios, fornece-nos várias outras provas menos decisivas, como aquelas aqui mencionadas, em defesa do apostolado de Paulo.

 

Bibliografia AM DEIS (1926) EN IB ID ND NTI POR RID TI W WIK WR Z