ATOS 3

 

Lucas, muitas vezes, apresenta uma declaração geral e a seguir dá um exemplo específico. At 2:43 afirma que muitos prodígios e sinais foram feitos pelos apóstolos. Agora Lucas passa a dar um exemplo para ilustrar o fato e, ao mesmo tempo, mostrar como isso resultou em posterior crescimento da Igreja.

 

Nessa ocasião Pedro e João subiam a colina do templo, rumo ao templo, a fim de se reunirem aos outros para a hora da oração da tarde, a hora nona (cerca de três da tarde). Sacrifício e incenso estavam sendo oferecidos, na mesma ocasião, pelos sacerdotes.

 

Uma dádiva de cura (3:1-10)

 

Entre o átrio dos gentios e o átrio das mulheres havia uma bela porta de bronze cinzelado, estilo corinto, com incrustações de ouro e prata. Era mais valiosa do que se tivesse sido feita de ouro maciço (O átrio dos gentios limitava até onde os gentios podiam ir. O átrio das mulheres limitava até onde as mulheres podiam ir. Os homens poderiam ir até o átrio de Israel e podiam participar na oferta dos sacrifícios (Lv 1:2-5).).

 

Na Porta Formosa, Pedro e João se defrontaram com um homem coxo de nascença que diariamente era para ali carregado e deixado fora para pedir esmola (uma dádiva de caridade). Lemos, depois, que o homem tinha mais de 40 anos de idade. Jesus passou muitas vezes por esse caminho, mas, evidentemente o homem nunca lhe pediu que o curasse. É possível, também, que Jesus, na divina providência e previsão do tempo, deixasse este homem assim de modo que pudesse tornar-se uma testemunha mais importante quando, mais tarde, fosse curado.

 

Ao pedir que lhe dessem uma esmola, Pedro e João fitaram os olhos nele. Como isto contrasta com o ciúme que os discípulos mostraram, de uma feita, um para com o outro (Mt 20:24). Agora eles atuam juntos em completa unidade de fé e propósito. Então Pedro, como o porta-voz, disse: "Olha para nós." Isto concentrou a inteira atenção do homem neles e suscitou a expectativa de que receberia alguma coisa.

 

Pedro, entretanto, não agiu de acordo com o esperado. Dinheiro que tivesse possuído provavelmente ele já havia dado a crentes necessitados. Mas ele tinha alguma coisa melhor para dar. Sua declaração — "Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, isso te dou" — exigia fé por parte de Pedro. Ele, sem dúvida, disse isso por inspiração do Espírito Santo que lhe confiara uma dádiva de cura para este homem (1 Co 12:9, 11).

 

Como uma ordem positiva, Pedro então disse: "em nome de Jesus Cristo, o nazareno, anda." Ao mesmo tempo Pedro pôs sua própria fé em ação tomando-o pela mão direita e levantando-o. Imediatamente os ossos dos pés e dos tornozelos do homem receberam forças (se firmaram). É muito possível, também, que a fé desse homem fosse avivada à menção de Jesus Messias de Nazaré. Talvez alguns dos 3.000 salvos no Pentecoste já tivessem dado a ele seu testemunho. Com certeza ele já ouvira de outros curados por Jesus.

 

Quando a força penetrou nos pés e artelhos(Pododáctilo - Dedo de pé) do homem, Pedro nem precisou levantá-lo. O homem deu um salto, ficou em pé por um momento, e começou a andar. Visto que era coxo de nascença, nunca aprendera a andar. Psicologia nenhuma poderia ter realizado isso.

 

Agora que o homem estava curado, podia entrar no templo. Uma vez que aos aleijados não era permitida a entrada, esta seria a primeira vez em sua vida. Ele entrou, caminhando normalmente, com Pedro e João, e, após alguns passos, saltando de pura alegria, bradando louvores a Deus continuamente. Ele havia sido tocado por Deus e não podia reprimir a alegria e o louvor.

 

O versículo 11 indica que ele ainda segurava na mão de Pedro, bem como pegou a de João. Que cena deve ter sido essa em que o homem andava e saltava no átrio do templo, arrastando consigo Pedro e João.

 

Todas as pessoas o viam e o reconheciam como o homem que nascera coxo e estava sempre sentado pedindo esmola junto à Porta Formosa. Sua cura, portanto, enchia-as de pasmo (não a palavra comum, mas uma que se relaciona com espanto) e assombro (implica também em perplexidade). Estavam atônitos e dominados pela emoção.

 

O Autor da vida (3:11-21)

 

Por esse tempo o coxo curado, ainda segurando as mãos de Pedro e João, estava no Pórtico de Salomão, um pórtico recoberto num lado do átrio do templo. De todos os lados do templo as pessoas, juntas, acorriam para vê-los ali. Poderia muito bem haver cerca de 10.000 pessoas no templo na hora da oração.

 

Essa era a oportunidade de Pedro, e ele foi expedito em responder às perguntas silenciosas que se estampavam naqueles rostos espanta­dos. Sua mensagem segue o mesmo padrão geral dado pelo Espírito no dia de Pentecoste, embora adaptado à nova situação.

 

Dirigindo-se a eles como varões israelitas (esse era o costume, ainda que houvesse mulheres na multidão), perguntou-lhes por que esta­vam maravilhados pelo acontecimento e por que fitavam eles os olhos nele e João, como se a capacidade de andar do homem tivesse sua fonte no poder ou na piedade (divindade) dos dois.

 

Pedro, continuamente, dava testemunho de Jesus. Aquele que as Escrituras descrevem como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de seus pais (Êx 3:6, 15), tinha glorificado seu Filho (Servo) Jesus (A palavra grega aqui (paida) não é a palavra comum para filho e não é usada em relação a Jesus quando se enfatiza sua filiação divina. A palavra pode significar servo ou filho. Aqui, Pedro, sem dúvida alguma, tem em mente a identificação de Jesus com o Servo sofredor de Is 52:13 a 53:12. O Servo do Senhor é aquele que faz a obra do Senhor. Esta cura era o resultado do cumprimento da profecia de Isaías. Essa profecia falava dos sofrimentos de Jesus por nossa causa.).

 

De novo lembra-lhes que eles eram os únicos responsáveis pela prisão de Jesus e negação dele diante de Pilatos, mesmo quando Pilatos decidira libertá-lo. Aquele que eles negaram era o Santo e o Justo (reto). É, de novo, uma referência ao Servo sofredor em Isaías (Is 53:11; cf. Zc 9:9). Mas, de tal forma lhe haviam voltado as costas, que, em lugar dele, pediram que fosse libertado um assassino. (Ver Lc 28:18, 19, 25.)

 

Eles eram culpados da morte do Autor da vida. Que contraste! Eles davam a morte ao Único que lhes dava a vida. Autor (no grego, archegon) é uma palavra que geralmente significa originador, funda­dor. Em Hb 2:10 é traduzida como capitão; em Hb 12:2 é traduzida como autor. Ela fala da participação de Jesus na criação. Como Jo 1:3 diz de Jesus, a Palavra viva: 'Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.' Em outras palavras, o Jesus pré-encarnado era a Palavra viva que ordenava que os mundos passassem a existir, e, através dele, Deus soprou a vida no homem que tinha formado (Gn 2:7). Este Jesus, a própria fonte da vida, e, portanto, da cura, eles tinham matado. Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos. Pedro e João eram disso testemunhas. A cura do homem era também testemunho de que Jesus estava vivo.

 

Notemos a repetição do Nome no versículo 16. Pela fé (em razão da fé, com base na fé) em seu Nome, este homem que vedes e conheceis, seu Nome fortaleceu. E a fé que vem por (através de) ele (Jesus) deu-lhe a libertação do defeito físico na presença de vós todos.

 

O Nome, naturalmente, refere-se ao caráter e à natureza de Jesus como o que cura, o grande Médico. A cura veio em razão da fé em Jesus pelo que ele é. Mas não foi sua fé, como tal, que produziu a cura. Foi o Nome, isto é, o fato de que Jesus é fiel à sua natureza e ao seu caráter. Ele é o que cura. A fé, sem dúvida, deu uma grande contribuição, mas a fé que operou através de Jesus. A fé que Jesus mesmo havia comunicado (não somente a Pedro e João, mas ao homem) garantiu completa liberdade do defeito deste coxo ante seus próprios olhos ("Sanidade perfeita" é a mesma expressão usada com referência à isenção de defeito necessária nos animais usados nos sacrifícios.). Jesus tinha curado o coxo; ele estava ainda curando o coxo através de seus discípulos.

 

Pedro acrescenta que ele sabia que por ignorância eles e suas autoridades mataram Jesus. Paulo, posteriormente, confessava que perseguiu a Igreja por causa de ignorância e incredulidade (1 Tm 1:13). Isto implica que eles, na realidade, não reconheceram que Jesus era o Messias, nem perceberam que ele era o Filho de Deus. Essa ignorância não lhes diminuiu a culpa. Todavia, mesmo no Antigo Testamento havia sempre perdão viável para os pecados cometidos por ignorância. O próprio Jesus pediu: "Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem" (Lc 23:34) {Alguns, hoje, sustentam que, quando os judeus crucificaram Jesus, Deus os cortou para sempre. Mas a Bíblia diz: "Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu" (Rm 11:2)}.

 

O sofrimento e a morte de Jesus também foram o cumprimento das profecias que Deus tinha revelado pela boca de todos os seus profetas, isto é, pelo corpo dos profetas como um todo. Sua mensagem, tomada como um todo, tinha por ponto focal a morte de Cristo. Ainda que seja assim, isso tampouco diminui a culpa dos jerosolimitanos.

 

Como no dia de Pentecoste, Pedro convidou-os a arrependerem-se, a mudarem de opinião e de atitude acerca de Jesus. Convertam-se (voltem para Deus) para que seus pecados (incluindo o pecado de rejeitar e matar Jesus) sejam apagados (retirados, cancelados), para que venham tempos (épocas, ocasiões) de refrigério, da presença (face) do Senhor. E, a vós que vos arrependerdes, ele enviará o que vos foi antes indicado, o Messias Jesus, a quem os céus receberão até os tempos da restauração (restabelecimento) de todas as coisas que foram faladas por Deus pela boca de seus santos profetas desde o princípio da era (ou dos tempos antigos). "Desde o princípio" é uma paráfrase que poderia significar "desde a eternidade" ou "desde o princípio dos tempos". O sentido é "todos os profetas desde que houve profetas".

 

Desta passagem verificamos que arrependimento e volta para Deus não somente trazem o cancelamento dos pecados, mas tempos de refrigério do Senhor. Nem temos de esperar até que Jesus volte para que se nos enseje gozar esses tempos. O que é claro, especialmente no grego, é que podemos tê-los agora e até ao tempo em que Jesus vier.

 

Muitos põem toda a ênfase nas advertências de que tempos perigosos estão para vir, e na declaração de que ocorrerá uma dissolução (2 Tm 3:1, 2; 2 Ts 2:3). Essas coisas acontecerão. A dissolução, naturalmente, pode significar dissolução espiritual, embora a palavra grega comumente signifique revolta ou revolução e guerra. Embora as advertências sejam necessárias, o cristão não precisa fazer disso o foco de sua atenção. O arrependi­mento (mudança de ideia e de atitude) e volta para Deus ainda trarão tempos de refrigério da presença de Deus. O dia da bênção espiritual, o dia dos milagres, o dia do reavivamento ainda não passou. No meio dos tempos perigosos ainda podemos fitar os olhos no Senhor e receber poderosos e revigorantes derramamentos de seu Espírito.

 

Os tempos da restauração referem-se à era futura, o Milênio. Então Deus restaurará e renovará e Jesus reinará pessoalmente na terra. A restauração profetizada inclui um futuro derramamento do Espírito sobre o reino restaurado.

 

Alguns tomam a restauração de todas as coisas fora do contexto e procuram incluir até mesmo a salvação de Satanás. Mas "todas as coisas" deve ser tomada em conjunto com "das quais Deus falou". Somente as coisas profetizadas para serem restauradas serão restauradas.

 

Os profetas também mostram que o reino deve ser submetido a julgamento. Dn 2:35, 44, 45 descreve a imagem da Babilônia que representa o sistema mundial total desde os dias da Babilônia até o fim dos tempos. Enquanto não for ela ferida nos pés (nos últimos dias desta era) o presente sistema mundial não será destruído e triturado até o pó. Mesmo o bem no presente sistema mundial terá de ser destruído a fim de abrir espaço para as coisas melhores do reino futuro que ocupará inteiramente a terra depois que Jesus vier.

 

Não sabemos quando isso ocorrerá. Mas, o importante é que não temos de esperar que o Reino venha antes que experimentemos a bênção e o poder de Deus. O Espírito Santo traz-nos um antegozo, uma antecipação das coisas futuras. E nós podemos ter estes prometidos tempos de refrigério mesmo agora se atendermos às condições de arrependimento e de volta para Deus.

 

Um profeta semelhante a Moisés (3:22-26)

 

Pedro, continuando, volta a Moisés e cita Dt 18:18, 19 onde Deus promete suscitar um profeta como Moisés. (Ver também Lv 26:12; Dt 18:15; At 7:37.) Esta era a promessa que as pessoas também tinham em mente quando perguntaram a João Batista se ele era "o profeta" (Jo 1:21, 25). Alguns acham que Deuteronômio indica um cumprimento parcial em Josué (um homem em quem está o Espírito; Nm 27:18), Samuel e a linha dos profetas do Antigo Testamento. Mas teve um cumprimento completo em Jesus.

 

De que modo foi Jesus semelhante a Moisés? Deus usou Moisés para apresentar o Antigo Pacto; Jesus apresentou o Novo Pacto. Moisés guiou a nação de Israel para fora do Egito e conduziu os israelitas ao Sinai onde Deus os chamou a si mesmo (para uma relação de pacto consigo mesmo). (Ver Êx 19:4.) Jesus tornou-se no novo e vivo caminho pelo qual entramos na santíssima presença de Deus. Moisés deu ordem a Israel para sacrificar um cordeiro; Jesus é o Cordeiro de Deus. Moisés foi usado por Deus para operar grandes milagres e sinais; Jesus operou muitos milagres e sinais, mas os sinais de amor eram muito mais do que os de julgamento. (Ver Hb 3:3-6 que proclama a superioridade de Cristo sobre Moisés.)

 

Moisés advertiu as pessoas de que seriam excluídas se não recebessem e obedecessem a este Profeta. Assim, embora Deus seja bom, há uma penalidade para os que não se arrependem. Pedro enfatizou o significado da advertência de Moisés. Serão destruídos dentre o povo. Isto é, Deus não destruirá seu povo como um todo, mas indivíduos podem perder-se.

 

Samuel foi o grande profeta que veio logo depois de Moisés (1 Sm 3:20). Daquele tempo em diante, todos os profetas predisse­ram acerca destes dias, que são os dias da obra de Deus através de Cristo. Alguns podem não ter apresentado profecias específicas em seus escritos, mas todos eles apresentaram profecias que conduziram ou prepararam para estes dias.

 

Os judeus aos quais Pedro estava falando eram os descendentes legítimos dos profetas, também herdeiros do pacto abraâmico com sua promessa de que na semente de Abraão (Cristo) todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 22:18; Gl 3:16).

 

Essa bênção prometida a todas as famílias da terra veio primeiro aos judeus de Jerusalém. Que privilégio! Todavia, isto não era um favoritismo da parte de Deus. Era a oportunidade dada a eles de receber a bênção pelo arrependimento e pela renúncia de seus pecados (mal ou atos maus). Era, também, uma oportunidade para serviço.

 

Na realidade, alguém tinha de ser o primeiro a levar a mensagem (Compare Romanos 1:16; 2:9, 10; 3:1, 2.) Paulo sempre procurou os judeus em primeiro lugar porque eles tinham as Escrituras e as tradições e estavam ao par da promessa. Mas eles não podiam levar a mensagem e a bênção a outros sem primeiro se arrependerem e experimentarem a bênção em si mesmos. Deus havia preparado os judeus para isso. Todos os primeiros evangelistas (propagadores das Boas-novas) eram judeus.

 

Bibliografia S. M. Horton