A cura de um coxo e a explicação de Pedro para o incidente (At 3)

 

A cura de um coxo (3:1-10)

 

A história de um milagre é seguida por um discurso explicativo de Pedro (comparar o padrão semelhante que se acha várias vezes no Evangelho segundo João, e.g., Jo 6:1-24; 25-59), e depois pela história da prisão dos apóstolos.

 

A história da cura, em si, é semelhante àquelas que se relatam nos Evangelhos, mas relata-se com uma boa quantidade de detalhes. Pedro con­seguiu fazer o tipo de coisa que Jesus fazia, por meio de agir em nome de Jesus: expressa-se assim a continuidade entre o ministério de Jesus e o tes­temunho da igreja. Pode-se notar, outrossim, como este incidente, e outros na carreira de Pedro, têm seus equivalentes na carreira de Paulo (14:8-10). O ponto principal desta história, porém, é que o nome de Jesus continua com poder para operar os mesmos graciosos milagres de cura que, nos Evangelhos, eram sinais da chegada do reino ou domínio de Deus.

 

1. A história fornece um exemplo das maravilhas e sinais mencio­nados em 2:43, e ocorre no contexto das visitas ao templo mencionadas em 2:46. A hora nona, 15 horas, era o momento do sacrifício da tarde, que era acompanhado por orações pela congregação (2:46). A menção de João lado a lado com Pedro tem causado estranheza a alguns comentaris­tas, visto que ele não desempenha papel significante na história, o que levou à suspeita de que seu nome é um acréscimo à história (cf. v. 4, onde ocorre quase como explicação posterior), talvez para fornecer duas testemunhas pa­ra defenderem a causa cristã diante do Sinédrio, mais tarde na história. Po­de ser igualmente possível, porém, que a presença de João fosse fato histó­rico, tendo em vista o hábito cristão antigo de trabalharem em pares, e con­siderando a associação que já havia entre João (filho de Zebedeu, Lc 5:10) e Pedro (1:13); visto não ter sido dada qualquer razão convincente para o acréscimo do nome, provavelmente provém da própria tradição.

 

2. A ocasião para o milagre da cura surgiu com a presença de um homem que estava sendo carregado naquela hora pelos seus amigos, a fim de ser deixado deitado à entrada do templo, para esmolar. Visto que dar esmola era um ato especialmente meritório na religião judaica, seria apro­priado colocar um mendigo num lugar por onde as pessoas piedosas passa­riam no seu caminho para o culto. O fato de o homem ser coxo de nascença sublinha a maravilha do milagre que estava para ser operado. Há alguma in­certeza a respeito da Porta Formosa do templo. Há três possibilidades:

 

(1) A Porta "Susã" que ficava no lado oriental do muro que cercava a totalidade do templo; dava acesso de fora do templo para o Átrio dos Gentios.

 

(2) Dentro do Átrio dos Gentios havia o Átrio das Mulheres, ao qual havia acesso no lado oriental; somente homens e mulheres israelitas tinham o direito de entrar dentro deste átrio. Josefo nos fala da Porta de "Nicanor" (também conhecido como a Porta Coríntia, e feita de bronze) que aqui se situava, e a maioria dos estudiosos consideram que é ela a Porta Formosa.

 

(3) Saindo do Átrio das Mulheres, encontrava-se outra porta que levava ao Átrio de Israel, no qual eram admitidos somente homens judeus. As fontes rabínicas a chamam de Porta de Nicanor, mas existe evidência que demons­tra que o retrato que davam do templo é confuso. A maioria dos estudiosos adota a teoria (2). A tradição cristã a partir do século V favorece a teoria (1) mas já foi indicado que a porta oriental deve ter sido um péssimo lugar para a coleta de esmolas; uma quantidade bem maior de pessoas entraria no templo pelo lado ocidental, diretamente da cidade.

 

3-5. O mendigo começou a clamar por esmolas da parte das pessoas que entravam no templo, e estas incluíam Pedro e João. Responderam, dando a entender que teriam alguma coisa para lhe oferecer, e o homem passou a dirigir a eles a sua atenção. A descrição talvez pareça algo pedântica à primeira vista, mas Stahlin, pág. 59, comenta com razão que a narra­tiva demonstra como os sentimentos usuais do mendigo, da incerteza que se expressa numa combinação de imploração insistente e da indiferença que resulta de frequentes decepções, cedem lugar a uma expectativa ge­nuína de receber alguma coisa. O que poderia ter sido uma ocasião da caridade mecânica transforma-se em encontro pessoal, na medida em que o coxo e os apóstolos se entreolham atentamente.

 

6. A resposta de Pedro, com sua deliberada ordem das palavras "Prata e ouro não tenho eu" (lit.), decepcionaria, de início, a esperança que fora despertada, mas logo se seguiu a oferta dalguma coisa melhor. O que Pedro podia oferecer era a cura, e esta ele deu, ao ordenar ao homem que andasse. "Em nome de Jesus" (2:38) significa aqui: "pela autori­dade de Jesus". Fórmulas semelhantes se empregavam na magia antiga, mas este fato não transforma a frase de Pedro em fórmula mágica. Aqui, pensa-se no poder contínuo de Jesus que fora outorgado aos apóstolos; o próprio Jesus não tinha necessidade de apelar a uma autoridade mais alta, tal como o nome de Deus (ver mais 3:16; 4:10). Devemos notar que Pedro poderia ter acesso a prata e ouro (2:45); o importante era que, neste caso, podia oferecer uma coisa melhor que ia à raiz do problema do homem. A histó­ria não é, de modo algum, uma proibição contra a contribuição de ajuda material aos pobres e necessitados, nem deve ser usada para sugerir que a igreja deve oferecer a salvação espiritual — é, afinal das contas, a cura fí­sica mais do que a salvação espiritual que é dada aqui! Mesmo assim, há aqui uma boa lição acerca das prioridades da igreja.

 

7-8. O convite de Pedro foi acompanhado por sua mão que se esten­dia para levantar o mendigo à posição ereta, e o milagre ocorreu na medi­da em que as juntas do homem foram curadas e se tornaram ativas. Conseguiu não somente ficar de pé, mas também andar e pular de alegria, e a sua primeira ação, depois de ser curado, foi acompanhar os apóstolos para dentro do templo, louvando a Deus em gratidão por aquilo que lhe aconte­cera. Assim como acontecia durante a vida terrestre de Jesus, assim também agora estava sendo cumprida a Escritura: "Então ... os coxos saltarão como cervos" (Is 35:6).

 

9-10.  A vista daquele que antes fora coxo, saltando e louvando a Deus, era prova suficiente, diante da multidão, de que verdadeiramente tinha sido curado. Era pessoa tão bem conhecida depois de tantos anos de mendicância, que não poderia haver dúvida acerca da sua identidade e, portanto, acerca da realidade da cura. Embora a descrição da admiração e assombro seja um aspecto estereotipado no fim da história de um mila­gre (e.g. Lc 4:36; 5:9, 26; 7:16), é precisamente esta a reação que se espe­raria. Mesmo assim, semelhante reação não é necessariamente a mesma coi­sa que a fé nAquele que operou o milagre; uma pessoa pode impressionar-se com o espetacular sem corresponder àquilo que significa: o poder e a graça de Deus.

 

Pedro explica o incidente (3:11-26).

 

O padrão dos incidentes no dia de Pentecoste repete-se quando o evento incomum é seguido por um discurso de Pedro ao povo atônito, que começa com uma explicação do acontecido. Neste caso, Pedro, logo de início, soluciona um possível mal-entendido da situação, e depois passa a explicar que o poder de Jesus, ressurreto dentre os mortos, curou o ho­mem. Lança mão da oportunidade para inculcar a lição de que foi o mesmo Jesus que os judeus mataram, que depois foi glorificado por Deus e agora continuava a Sua atuação. O discurso poderia ter terminado neste ponto, tendo cumprido o seu propósito imediato, mas Pedro era um evangelista por demais zeloso para deixar passar uma oportunidade valiosa. Depois de começar a convencer os seus ouvintes de que eles mesmos tinha parte em levar Jesus à morte, passou a argumentar que agiram com ignorância. Na realidade, Deus estava levando a efeito o Seu plano para o Messias, e, assim, agora era possível aos judeus o arrependimento e a esperança das bênçãos futuras associadas com a volta de Jesus. Este apelo foi reforçado por uma citação das profecia: Jesus era o Profeta cuja vinda Moisés pre­disse. A desobediência a Ele levaria ao julgamento. Ao mesmo tempo, porém, aqueles que ouviam a Pedro eram os herdeiros da aliança com Deus e tinham, por assim dizer, o primeiro direito às bênçãos trazidas por Jesus. Devem, portanto, renunciar a sua maldade e aceitar Jesus co­mo o Messias. Embora nada se diga explicitamente, há a provável impli­cação de que, se os judeus não prestarem ouvidos, as bênçãos do evange­lho seriam oferecidos a outras pessoas.

 

O interesse especial deste sermão se acha na maneira de ele oferecer mais ensinamentos acerca da Pessoa de Jesus, pois o descreve como Servo de Deus, o Santo e Justo, o Autor da vida e o Profeta como Moisés. Indi­ca-se, assim, que estava ocorrendo bastante meditação acerca de Jesus, pensamentos estes que se baseavam no estudo do Antigo Testamento. Em­bora alguns estudiosos atribuíssem ao próprio Lucas esta maturidade no pensamento, há bons motivos para acreditar que pertence à igreja primitiva, pois durante os primeiros anos da existência dela houve um desenvol­vimento incomparável de pensamento teológico. O outro elemento teoló­gico principal no discurso, que é a associação entre as bênçãos e a parusia, está sem paralelo, o que é sinal adicional de que aqui temos a tradição primitiva.

 

11. O homem curado ficou bem perto dos seus benfeitores, e o po­vo se aproximou deles em grandes números quando chegaram à colunata de Salomão que acompanhava o lado oriental do Átrio dos Gentios. Se foi à Porta de Susã que o homem foi curado, então este pórtico seria imediata­mente adjacente. Se foi à entrada do Átrio das mulheres que ocorreu a cura, então devemos supor que, até esta altura, Pedro e os seus companheiros já estavam de saída. Esta hipótese é perfeitamente natural, pois o Átrio das Mulheres seria um lugar menos apropriado para uma reunião pública, e Lucas não via necessidade alguma de detalhar todos os movimentos dos protagonistas.

 

12. Pedro lançou mão da oportunidade para explicar o significado do acontecido. Se o discurso que se segue representa aquilo que Lucas con­siderava provável nas circunstâncias, e não um resumo das suas observa­ções, certamente capta o espírito da ocasião. Pedro toma como ponto de partida a maneira do povo naturalmente estar fitando a João e a ele, maravilhado, como detentores do poder extraordinário que curara o homem. O povo ou considerava que tinham poderes próprios dos mais no­táveis, ou que eram tão devotos que Deus respondia às orações deles com si­nais milagrosos. Seja qual for o pensamento do povo, Pedro quis desviar a sua atenção, dos apóstolos, para a origem do milagre.

 

13. A explicação imediata só é dada no v. 16; antes, Pedro precisava colocar o cenário. Em última análise, aquilo que aconteceu devia-se à ação de Deus, o mesmíssimo Deus que Se revelara aos patriarcas e que Se cons­tituíra em Deus do povo de Israel; a razão por ressaltar este fato se tornará aparente nos vv. 25-26. Este Deus glorificou a Seu Servo, frase esta que se acha em Is 52:13, o primeiro versículo da última passagem, e a mais importante entre elas, que trata do Servo de Javé. Noutras palavras, a pro­fecia estava sendo cumprida, pois Pedro declarou que o que aconteceu a Jesus foi a glorificação divina do Servo de Deus. A identificação de Jesus como o Servo se acha em 3:26; 4:27, 30. São estes os únicos lugares no Novo Testamento onde o nome é aplicado a Ele, mas as profecias acer­ca do sofrimento do Servo são citadas ou aludidas em Mc 10:45; 14:24; Lc 22:37; Jo 12:38; At 8:32-33; 1 Pe 2:22-24; e noutros trechos. Esta com­binação de referências sugere um modo primitivo de entender Jesus que es­tá notavelmente ausente das Epístolas e dos escritos posteriores.

 

Talvez pareça estranha a declaração de que Jesus fora glorificado co­mo Servo de Deus. Morrera, afinal, na cruz da execução. Pedro, porém, insistiu que isso aconteceu por causa da atuação dos próprios judeus que O negaram quando estava sendo processado diante de Pilatos, embora este o considerasse inocente de qualquer crime capital e quisesse soltá-Lo (cf. 13:28).

 

14-15. Pedro reforça seu libelo contra os judeus. Já tratou da enormidade do crime dos judeus ao condenaram à morte um homem inocente. Agora passa a ressaltar que Aquele que os judeus negaram era Santo e Justo. Não fica claro se os judeus pudessem ter considerado que estes atributos pertenciam a uma pessoa ou oficial específico. A frase inteira, "o santo de Deus" emprega-se para Eliseu (2 Rs 4:9) e Arão (Sl 106:16), e se emprega com referência a Jesus, de modo inigualado, como confissão por parte dos demônios (Mc 1:24) e dos homens (Jo 6:39); ocorre de novo, como designação de Jesus, em 1 Jo 2:20 e Ap 3:7, o que sugere que os cristãos a considerassem um título para o Messias. Aqui, porém, a razão de ser da expressão talvez seja simplesmente sublinhar que Jesus pertencia a Deus de modo especial (cf. Lc 1:35; At 4:25, 27). De modo semelhante, o emprego da palavra Justo ressalta a retidão moral de Jesus (7:52; 22:14; 1 Jo 2:1); é bem possível que haja ligação com a descrição do Servo de Deus em Is 53:11. Por contraste, o povo queria soltar um homicida, Barra­bás, por ordem de Pilatos (Lc 23:25). Então, mais uma vez, o contraste é feito com Jesus que é chamado o Autor da vida. A palavra archègos ocor­re de novo em 5:31 (cf. Hb 12:2) onde tem mais o significado de "líder", mas aqui (cf. Hb 2:10), parece significar "fonte" ou "originador". O pensamento da salvação como vida (as duas palavras representam a mesma pa­lavra aramaica) se acha aqui e em 5:20; 11:18; 13:46, 48; aqui é provável que haja uma antítese deliberada com matastes. Deus, porém, O ressusci­tou dentre os mortos - foi esta a Sua "glorificação" (v. 13) - conforme podiam testificar os apóstolos.

 

16. Dentro deste pano de fundo, a cura do coxo agora podia ser entendida. A construção grega é obscura e a frase é repeticiosa. Duas lições básicas se ressaltam, no entanto. Em primeiro lugar, o milagre que teve como resultado a perfeita cura física de um homem bem conhecido, diante dos próprios olhos da multidão, dependia do poder que se associava com o nome deste Jesus. Em segundo lugar, este poder se tornou eficaz mediante a no nome de Jesus. Semelhante fé se tornava possível por meio de Jesus: a proclamação do Seu poder tornou possível ao povo crer. É verdade que não se conta na história que o homem revelou fé, mas a ma­neira de ele louvar a Deus depois da sua cura provavelmente subentenda tal fé; alternativamente, a fé pode ser aquela de Pedro. De qualquer manei­ra, qualquer sugestão de que havia alguma coisa mágica no milagre é deli­beradamente excluída.

 

17. Agora passa-se a tratar da razão imediata do discurso. Depois de Pedro já ter falado da culpa dos judeus nesta seção, não podia deixar o assunto parar ali, e agora passa para a parte especificamente evangelística do discurso. Para começar, reconheceu que aquilo que os judeus e seus lí­deres fizeram a Jesus brotara da ignorância (13:27; cf. 1 Co 2:8) e, portan­to (segundo se subentende), podia ser perdoado (Lc 23:34; 1 Tm 1:13). O pensamento não pronunciado audivelmente é que, se os judeus agora dei­xam de reconhecer o seu pecado, cometido na ignorância, e se não se ar­rependerem dele, este pecado ficará sendo deliberado e muito mais culpá­vel (a Lei mosaica não fazia nenhuma disposição explícita para a expiação de tais pecados).

 

18. Apesar disto, aquilo que os judeus fizeram na ignorância tinha, na realidade, promovido o plano de Deus, previsto pelos profetas, no sentido de o Messias haver de padecer (2:23; 17:3; 26:22-23). Lucas tem pre­dileção pela frase todos os profetas (3:24; 10:43); embora talvez pergun­temos como se pode achar referências ao sofrimento do Messias em literal­mente todos os profetas. Sem dúvida, a frase melhor se entende como hipérbole. Visto que o Antigo Testamento não fala, em lugar algum, de um Messias sofredor (até mesmo o termo "Messias" nem sequer ocorre como título do Antigo Testamento) devemos pensar, principalmente, nos ensinamentos acerca do sofrimento do Servo de Deus (Is cap. 53), e tam­bém das demais passagens nos profetas e nos Salmos que têm sido enten­didas como tipológicas ou proféticas dos sofrimentos do Messias (Jr 11:19; Dn 9:26; Zc 13:7; Sl 22, 69); assim, teríamos matéria de três dos quatro Livros dos "profetas posteriores" (Isaías, Jeremias, e o Livro dos Doze Profetas; omitindo Ezequiel), bem como dos Salmos.

 

19. A ação de Deus agora criou as condições mediante as quais os judeus podem arrepender-se e serem perdoados pelos seus pecados. O sig­nificado de Arrependei-vos (2:38) é esclarecido pelo acréscimo de convertei-vos ou, melhor, "voltai-vos (sc. a Deus)", como nalgumas versões mo­dernas. Este verbo significa o ato de voltar-se do modo de vida antigo, especialmente da adoração dos ídolos, para um novo modo de vida, basea­do na fé e na obediência a Deus (9:35; 11:21, 14:15; 15:19; 26:18, 20; 28:27; cf. Is 6:10; Jl 2:12-14). O resultado imediato será "o cancelamento dos pecados"; a lista de acusações contra eles será obliterada (cf. Cl 2:14), que é outro modo de dizer que são perdoados os seus pecados (2:38).

 

Seguir-se-ão dois resultados adicionais. O primeiro (v. 19b em ARC, v. 20a em ARA), é que virão da parte do Senhor tempos de refrigério. Es­ta é uma frase sem paralelo, que os comentários geralmente entendem como sendo uma referência à era final da salvação. Se for esta a interpretação cer­ta, o plural tempos talvez indique a duração do respectivo período (cf. tal­vez os "tempos dos gentios", Lc 21:24). Talvez haja uma conexão com os "tempos" em 1:7, que se associam com a restauração do domínio de Deus para Israel.

 

20-21. O segundo resultado será a vinda de Jesus do céu. Ele é des­crito como "o Cristo, que já vos foi designado", i. é, para os judeus; alguns estudiosos entenderam que o significado é que Jesus foi predestinado a tornar-Se o Messias na parusia, subentendendo que se trata de um trecho de cristologia primitiva que pensava que Jesus não ficaria sendo o Messias até à parusia futura. É falha, porém, esta maneira de entender o texto. Declara, pelo contrário, que o Jesus que voltará na parusia é Aquele que já fora determinado para ser o Messias para os judeus. Quer dizer, portanto, que a vinda da "era messiânica" ou reino futuro de Deus, pela qual ansia­vam os judeus, dependia da sua aceitação de Jesus como o Messias. Mesmo assim, a parusia não ocorreria imediatamente. De qualquer maneira, não podia acontecer antes dos tempos do cumprimento de tudo quanto Deus falara mediante os profetas, desde o início. A palavra restauração vem do verbo "restaurar" em 1:6; devemos entender, portanto, que a frase significa a perfeita realização da parte de Deus das coisas que prometera através dos profetas, sendo que a principal entre elas era o estabelecimento do Seu domínio ou reino. Os "tempos", portanto, se referem, não ao período antes da parusia, durante o qual os vários eventos profeticamente previstos para precedê-lo devem acontecer, mas, sim, ao período do cumprimento das profecias que dizem respeito à própria parusia. É problemático definir se este período deve ser chamada uma "demora"; isto subentenderia que a igre­ja primitiva originalmente esperava para imediatamente a parusia, e que somente depois de nada ter acontecido no decurso de vários anos é que começou a reformular as suas esperanças (e os textos que as expressavam) para levar em conta um período de espera muito mais longo do que tinha sido previsto logo de início. É bem provável, porém, que houvesse algumas pessoas que esperavam a rápida consumação da parusia, e a igreja teve que lembrar-lhes que, segundo Jesus ensinara, a parusia não ocorreria imedia­tamente. Houve uma sugestão no sentido de esta passagem também dar a impressão de Jesus ficar inativo no céu entre a ascensão e a Sua volta; é muito improvável, tendo em vista outras evidências em Atos que demons­tram que Jesus estava, na realidade, muito ativo ao derramar o Espírito e ao operar sinais e maravilhas através dos apóstolos.

 

22-23. O discurso passa a abordar um novo ângulo, e Pedro ressalta outra lição. Emprega uma citação que se baseia em matéria tirada de Dt 18:15-19 e Lv 23:29. Nesta passagem, Moisés advertia o povo de Israel contra o emprego das praxes mágicas para descobrir a vontade do Senhor. Deus haveria de suscitar entre eles um profeta com a mesma capa­cidade que Moisés para conhecer e declarar a vontade de Deus, e o povo deveria obedecer àquilo que o profeta dizia; se qualquer pessoa se recusas­se a obedecer, Deus exigiria dela uma prestação de contas, e a extermina­ria do meio do povo. O sentido original da passagem pode ter sido que Deus levantaria profetas em diferentes ocasiões conforme a necessidade. A formulação da passagem no singular levou os judeus, segundo parece, a esperar um só profeta, embora seja parca a evidência (cf. Jo 1:21, 25; 7:40); ao mesmo tempo, havia uma expectativa no sentido de o Messias vir a ser um segundo Moisés. A seita de Cunrã, em especial, antecipa a vinda de um profeta no tempo do fim (1QS 9:10-11), e um dos documen­tos deles cita este texto (4QTest 5-7). É certo que nos círculos samarita­nos a passagem era interpretada com referência a um só sucessor de Moi­sés. Pedro implicitamente supõe que Jesus é o respectivo profeta (cf. 7:37). Moisés, portanto, é um profeta da vinda de Jesus, e dá seu apoio à advertência contra a desobediência a Jesus.

 

24. Mesmo assim, idêntica coisa pode ser dita de todos os profetas. Eles, também, anteviam os dias que agora se revelaram ser os dias do cum­primento. Destarte, a totalidade do Antigo Testamento podia ser vista como testemunha a Jesus e ao estabelecimento da igreja. Todos os profetas, pois, ocupavam-se com eventos escatológicos e não meramente com aqui­lo que acontecia nos seus próprios tempos. Era assim que normalmente se interpretava os profetas nos tempos do Novo Testamento; podemos citar, como comparação, a maneira de a seita em Cunrã ver os pormenores das suas próprias experiências previstos nas Escrituras, embora fosse às cus­tas de uma exegese que nem sempre convence. Será, porém, que havia me­lhor base para a exegese cristã? A erudição moderna tem enfatizado que os profetas se ocupavam primariamente com eventos no seu próprio tempo e no futuro iminente. Em que sentido seria possível que Samuel, em especial, de quem registra-se tão poucas declarações (1 Sm 3:19-4:1), fosse considera­do profeta de Jesus? De modo geral, é necessário responder que, em muitas profecias, há um elemento de esperança futura que não foi cumprida na oca­sião, ou que foi só parcialmente cumprida, e que a esperança profética da intervenção final de Deus e o estabelecimento do Seu domínio certamente não foi cumprida; aguarda uma realização que ainda está no futuro. Reco­nhece-se que é difícil a referência a Samuel; o máximo que se pode dizer é que talvez os cristãos considerassem suas profecias do reino de Davi sendo cumpridas no domínio do Filho de Davi (Bruce, Livro, p. 93).

 

25. Estas promessas proféticas foram feitas para os judeus. Foram eles os filhos dos profetas e, portanto, podiam esperar que veriam o cumprimento das promessas feitas ao povo de Israel e que receberiam delas o benefício. Este assunto recebia o reforço da lembrança de que os judeus também eram os herdeiros da aliança ainda mais antiga que Deus fizera com Abraão. Nesta aliança, Deus prometera bênçãos aos descendentes deste, mas também afirmara que, através da sua descendência seriam aben­çoadas todas as famílias da terra (Gn 12:3; 18:18; 22:18; 26:4; Gl 3:8). Esta é uma citação interessante. A versão original (a LXX) tem "nações", palavra esta que pode ser interpretada para significar os gentios; a citação feita por Pedro emprega uma palavra de significado semelhante, mas que deixa em aberto a possibilidade de haver referência aos gentios (Hanson, p. 76). Mesmo assim, tendo em vista o versículo seguinte ("primeiramen­te a vós outros"), é provável que a palavra "famílias" (ARC) deliberada­mente se refira tanto aos judeus quanto aos gentios, embora a referência aos gentios, nesta etapa, não passe de uma leve sugestão (contrastar 13:46). Mais uma vez, a declaração original se refere à "semente" (descendência) de Abraão. A tradução "posteridade" (RSV) deixa incerto se "semente" deve ser interpretada como substantivo coletivo, com referência aos des­cendentes de Abraão, ou no singular. Em Gl 3:16, Paulo torna claro que o "descendente" deve ser interpretado como substantivo no singular, com referência a Jesus: Ele é o descendente de Abraão, e através dEle vi­rão bênçãos a todas as nações. Pedro tinha em mente a mesma ideia nesta altura.

 

26. Esta ideia se ressalta claramente quando Pedro passa a declarar que Deus ressuscitou Seu Servo para abençoar os ouvintes, por meio de apartá-los do seu pecado. A bênção outorgada na aliança com Abraão por meio de Jesus consiste, porém, em capacitar os homens a deixar o caminho do pecado e, assim, ter a condição de receber os demais dons espirituais associados com o Messias. Ressuscitar provavelmente se emprega na mesma maneira como no v. 22, de trazer alguém para o palco da história; pode ha­ver, também, o sentido de ressuscitar dentre os mortos (cf. 13:33-34). A palavra primeiramente não deve ser olvidada; aqui temos a primeira decla­ração explícita em Atos de que, historicamente, o evangelho chegou pri­meiramente aos judeus. A promessa no versículo anterior, porém, sugere que o pensamento "e também para os gentios" está implícito, e é bem possível que haja a advertência de que, se os judeus deixarem de corresponder, a missão cristã se voltará aos gentios.

 

Bibliografia I. H. Marshall