A Cura de um Coxo

 

O livro de Atos descreve o início da Igreja no dia de Pentecoste como vimos na aula anterior; nesta, passaremos a considerar o primeiro milagre apostólico.

 

As Circunstâncias

 

1. A ocasião. "E Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona". Os primeiros cristãos eram de nacionalidade judaica. Eles se reuniam para o culto num dos pórticos do Templo, privilégio concedido aos vários grupos religiosos entre os judeus. Eles se reuniam para o estudo das Escrituras.

 

No princípio, ninguém os molestava. Consideravam os cristãos mais uma seita dentro do judaísmo, por mais faná­tica que lhes parecesse. Mais tarde, os líderes tiveram de abandonar esta ideia.

 

É provável que os primeiros cristãos tivessem três reu­niões diárias. Isto devido ao costume judaico das três horas do culto divino no Templo (Sl 55.17; Dn 6.10): à terceira hora, do sacrifício da manhã, equivalente às nove horas atuais; ao meio-dia, provavelmente um culto de ações de graças; e, finalmente, a reunião de oração que coincidia com o sacrifício da tarde, à hora nona, ou as atuais 15 horas. Foi neste último horário que Pedro e João entraram no Templo para um período de culto cristão.

 

2. O lugar. Foi na porta Formosa que os apóstolos vi­ram o coxo. O Templo era cercado por três átrios de már­more. Cada um num nível mais alto, subindo por lanços de degraus, a partir da entrada exterior no nível da cidade. O átrio mais baixo era o único ao qual os gentios tinham acesso. Subindo os degraus, chegava-se ao segundo átrio, o central, além do qual nenhuma mulher tinha o direito de subir. Então, mediante outro lanço de degraus, subia-se ao átrio superior onde estavam o altar e o santuário. Em cima do lanço de degraus, no nível do Templo e dando acesso a ele, estava a porta Formosa. Era feita de latão de Corinto e ricamente ornada e coberta de ouro e prata que, com a luz do sol, brilhavam com glória reluzente.

 

3. O sofredor. "E era trazido um varão que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do Templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam". Que contraste! Uma porta forte, bela, desper­tando a admiração de todos, e um pobre mendigo, vestido em trapos, procurando continuar sua existência à base de esmolas. Tais contrastes existem pelo mundo afora. E as­sim continuam, até que alguém, dotado do poder de Deus, pronuncie a palavra que faz os fracos e débeis ficarem moral, física e espiritualmente tão belos quanto o Universo.

 

Dia após dia, o homem era levado para o Templo. Es­perava que os adoradores estivessem mais inclinados à caridade do que outras pessoas. Muitos aflitos esperam algo do calor da religião no meio da fria indiferença do mundo.

 

A Cura

 

1. O pedido. "O qual, vendo a Pedro e a João, que iam entrando no Templo, pediu que lhe dessem uma esmola". Mecanicamente, começou a fazer suas lamúrias. Talvez não olhasse para os apóstolos, nem esperasse receber coisa al­guma.

 

2. A ordem que chamou a atenção. "E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós". O mendigo tinha de ser despertado da sua letargia. Necessitava prepa­rar a mente e o coração para receber uma bênção espiritu­al: "E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa". As palavras de Pedro despertaram expectativa e receptividade no mendigo. Foi arrancado do seu estado de desespero, e alguma esperança começou a surgir na sua mente. Ninguém havia falado assim com ele antes. Os adoradores, geralmente, lançavam lhe uma moeda quase sem olhar para ele. Aqui, no entanto, estavam dois homens que lhe dedicavam total atenção, como se tivessem verda­deira preocupação com a situação dele. Certamente era este o prelúdio de um presente fora do comum.

 

3. O presente inesperado. "E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro" - Podemos imaginar a decepção do men­digo! Pedro, no entanto, ainda não acabara de falar: "... mas o que tenho isso te dou: Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda". Tinha algo melhor do que dinheiro para oferecer àquele homem necessitado (cf. 1 Pe 1.18,19). Pedro estava cumprindo o mandamento de Cristo que, após ter concedido poder milagroso aos apóstolos, disse: "De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10.8,9). Desta forma, o apóstolo tipifica a verdadeira Igreja de Deus, que apesar de pobre quanto aos bens deste mundo, tem poder para realizar milagres. E, muitas vezes, quando uma igreja já não pode dizer: "Não tenho prata nem ouro", também perde o poder de dizer: "Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda".

 

4. A cura milagrosa. "Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direi­ta, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram". Notam-se três fatos com respeito à cura:

 

4.1. Foi em nome de Jesus Cristo. A palavra "nome", conforme o emprego bíblico, está vinculada à personalida­de e influência da pessoa. Quando o Antigo Testamento fala acerca do "nome de Deus", está tratando da manifes­tação daquilo que Deus realmente é. E, quando Pedro le­vantou o coxo em nome de Jesus, estava invocando o po­der e a virtude que estão contidos na personalidade de Jesus. O nome de Jesus é um nome salvador porque representa a pessoa do Salvador. Este nome só pode ser invocado por aqueles que têm verdadeira fé nele (cf. At 19.13-16). "E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome... e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão" (Mc 16.17,18).

 

4.2. A cura foi realizada mediante a fé. "E pela fé no seu nome fez o seu nome fortalecer a este que vedes e conheceis; e a fé que é por ele deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde" (At 3.16). O coxo exerceu um pouco de fé, ou foi Pedro que exerceu toda a fé? O Senhor sempre requer fé, quando possível, da parte daque­les a quem cura. Portanto, temos a certeza de que este homem deu alguma resposta de fé (cf. At 14.8-10). Será que o coxo ouvira o Evangelho, de forma que sua fé pôde ser despertada mediante a Palavra de Deus? (Rm 10.17). É provável que o homem já tivesse visto Jesus passar por aquela porta, e que tivesse ouvido acerca dos seus ensinos, crucificação e ressurreição. As pessoas, certamente, tinham comentado perto dele os eventos do Pentecoste e o poder de Jesus para salvar os pecadores. Guiados pelo Espírito, Pedro e João pararam e discerniram a semente de fé no coração do homem. Falaram palavras que ajudaram à fé expressar-se mais plenamente. Imediatamente à fé frutifi­cou de tal maneira que a folha, a espiga e o grão maduro cresceram de uma só vez.

 

Por outro lado, pode ser que a autoridade da ordem dada por Pedro, em nome de Jesus, tivesse bastante influência para produzir a fé salvadora. O mendigo pode ter sido suficientemente singelo para crer em tudo quanto Pedro disse.

 

4.3. A cura foi levada a efeito mediante poder sobrena­tural. "E logo os seus pés e artelhos se firmaram". Este homem não foi curado pelas sugestões da sua própria mente, vivificando suas energias. Foi, no entanto, pelo poder so­brenatural da parte de Deus que lhe sobreveio de cima e de fora dele.

 

5. A sequela feliz. Pedro e João continuaram seu cami­nho para o culto, tendo agora um acompanhante feliz: "E, saltando ele, pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no Templo, andando, e saltando, e louvando a Deus". Esta maneira pouco clássica de entrar no Templo deve ter causado surpresa e até repúdio a alguns dos frios frequentadores do culto. Quando, porém, um coxo de nascença recebe a cura milagrosa e instantânea mediante o poder de Deus, manter a aparência é de pouca importância. O simples andar não parecia suficiente ao homem que achava tão maravi­lhosas suas novas capacidades.

 

"E todo o povo o viu andar e louvar a Deus; e conhe­ciam-no, pois era ele o que se assentava a pedir esmola à porta Formosa do Templo; e ficaram cheios de pasmo e assombro, pelo que lhe acontecera. E, apegando-se o coxo, que fora curado, a Pedro e João, todo o povo correu atônito para junto deles..." Este milagre tinha um propósito muito prático - exaltava o nome de Jesus e dava publicidade aos pregadores do Evangelho. Com isso uma grande multidão se dispôs a escutar a mensagem. Pedro diz que Jesus é a fonte do poder milagroso. Não por ter ele operado milagres na terra, mas por estar agora assentado à destra de Deus.

 

Estas palavras exigiam muita coragem, para serem fala­das no Templo. Elas colocavam Pedro sob o risco de ser levado à prisão. No entanto, Pedro possuía o heroísmo que um Cristo morto nunca poderia ter concedido. Sua própria atitude, e não somente as palavras que falava, se constituía em evidência de que Cristo realmente estava vivo.

 

Ensinamentos Práticos

 

1. "Cooperando com eles o Senhor" (Mc 16.20). Os que negam o sobrenatural precisam explicar uma coisa. Os primeiros missionários eram membros sem influência, de uma nação desprezada. Como, então, conseguiram fazer progredir a religião de Cristo, face à cultura da Grécia e de Roma? e ao ponto de obter a supremacia, apesar das suas doutrinas de abnegação. O segredo do triunfo do Cristia­nismo não se achava na qualidade dos homens que o pre­gavam. Estava sim, na pessoa de Cristo, por eles pregado e de quem recebiam o poder.

 

O general inglês Wellington calculava que a presença de Napoleão no campo da batalha valia por 40.000 solda­dos. Não somente por sua perícia como comandante, mas também porque sua presença inspirava coragem e confian­ça na vitória. A presença de Cristo no campo de batalha espiritual vale muitíssimo mais: "E eis que eu estou convosco todos os dias..."

 

2. A mão que ajuda. "E, tomando-o pela mão direita, o levantou". Certo criminoso deixou seus maus caminhos e dedicou-se à vida cristã. Tudo porque o conde de Shaftesbury, famoso político cristão que lutava por refor­mas sociais, o tomou pela mão e amorosamente lhe disse: "Você ainda virá a ser um homem de verdade!”.

 

3. Mais precioso do que ouro. "Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou". Nos períodos históri­cos em que a Igreja tem tido quantidades de ouro e prata, não tem havido poder espiritual. A tradição judaica diz que no Templo de Jerusalém havia uma flauta feita de taquaras. Remontando aos tempos de Moisés, ela possuía um som maravilhoso que encantava os adoradores. Quando, porém, os sacerdotes resolveram revestir a preciosidade com ca­madas de ouro, o som ficou metálico e antipático, até gros­seiro. O ouro estragara suas notas doces e claras. A Igreja de Jesus Cristo começou com uma nota celestial e gloriosa. O institucionalismo e o mundanismo, no entanto, muitas vezes chegaram a estragar a pura mensagem do Evange­lho. Fiquemos firmes na simplicidade que há em Cristo.

 

4. Mordomos de Deus. "... mas o que tenho isso te dou". Toda pessoa que está em comunhão com o Senhor Jesus tem algo, ou pelo menos deve ter, para oferecer aos espi­ritualmente necessitados. Mesmo os que não possuem bens materiais podem oferecer o que têm: uma palavra de teste­munho ou encorajamento, uma oração. Algo que seja como uma mão auxiliadora para tirá-lo de sua incapacidade espi­ritual. Certo reformador e novelista disse a um mendigo, magro e com frio, que lhe implorara uma esmola: "Não fique zangado comigo, irmão, não tenho nada para dar". O rosto pálido iluminou-se, e os lábios roxos de frio forma­ram um sorriso. "Chamou-me de irmão, afinal, e este foi um presente muito grande". Passando por lá uma hora mais tarde, o reformador ainda viu o sorriso nos lábios do men­digo. Deu-lhe algo melhor do que ouro e prata.

 

Borrow, autor inglês, disse que certa vez um grupo de ciganos vinha atrás dele, clamando: "Dá-nos Deus!" "Eu não sou nem sacerdote nem ministro", respondeu ele. "E só posso lhes dizer: Deus tenha misericórdia de vocês". Jogou algumas moedas às crianças e afastou-se. Uma das mulheres gritou para ele: "Não queremos dinheiro! Temos bastante. Dá-nos Deus!" Se você estivesse lá, quanto de Deus poderia ter oferecido àquela mulher?

 

5. Deixando o caminho livre para Deus. Pedro e João viram a admiração do povo crescendo, a ponto de se trans­formar em idolatria. Então, desviaram deles a atenção a fim de concentrá-la exclusivamente no Mestre. Quando a adoração manifestou-se nos corações, os dois se afastaram e apresentaram a pessoa de Jesus. O Senhor recebeu, as­sim, todo o louvor e glória.

 

Quando Leonardo da Vinci completou seu célebre qua­dro da Última Ceia, convidou um amigo para apreciá-lo. "O quadro é primoroso", exclamou o amigo. "Aquela taça de vinho se ressalta da mesa em prata maciça e brilhante". Sem esperar mais nada, o artista tomou um pincel e apa­gou a pintura da taça, dizendo: "Minha intenção era que a pessoa de Cristo atraísse em primeiro lugar o olhar das pessoas, e qualquer coisa que desvia dele a atenção precisa ser apagada".

 

Bem-aventurado é o obreiro cristão que, tendo desper­tado o interesse das multidões, saiba levá-las a Cristo.

 

6. Ferindo a fim de sarar. Whitefield pregava a grandes auditórios de mineiros de carvão. Havia tanta gente que era difícil ler as emoções nos rostos. Todos cobertos por cama­das de pó. Vendo as marcas brancas, feitas pelas lágrimas no meio do carvão, sabia que a Palavra já tinha alcançado os corações. Então, deixava os aspectos da lei e de condenação e anunciava a graça e a consolação.

 

Pedro amava de todo coração seus compatriotas. Con­tudo, não deixou de lhes fazer profundo corte nas consci­ências (vv. 12-19). Como um cirurgião capaz, que corta para curar.

 

As pessoas só valorizam o Salvador quando percebem quão grande é o seu pecado e que estão perdidas. Spurgeon dizia que, para se levar um homem à salvação, é preciso primeiro levá-lo a reconhecer que está perdido.

 

7. Uma escolha fatal. "Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos desse um homem homicida". Jesus tinha a reputação de bondade e pureza entre o povo. Barrabás era revoltoso e assassino. Provavelmente lançava mão de um falso patriotismo como pretexto para roubar. A multidão, surgindo a possibilidade da escolha, rejeitou Jesus. Ele não tinha satisfeito suas expectativas nacionalistas. O espírito demonstrado na escolha de Barrabás frutificou de modo lógico na revolta de 68 d.C. Iniciando então a mais terrível calamidade sofrida pela nação em toda a sua história.

 

A natureza humana não mudou. Poucos negariam as virtudes de Jesus. Porém, nas escolhas práticas da vida o rejeitam em favor das riquezas, da fama, dos prazeres ou poder. Quem faz estas escolhas nunca acha paz e felicida­de sólidas e permanentes. Estas são propriedades exclusivas dos que escolhem o Galileu.

 

Bibliografia M. Pearlman