Primeiro século do Cristianismo

 

A PLENITUDE DOS TEMPOS

 

Em Gálatas 4:4, Paulo chama a atenção para a era histórica da preparação providencial que antecedeu a vinda de Cristo a terra em forma humana: "Vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho..." Marcos também indica que a vinda de Cristo aconteceu quando estava tudo já preparado na terra (Mc 1:15). O estudo dos eventos que antecederam o aparecimento de Cristo sobre esta terra faz com que o estudante equilibrado reconheça a verdade das afirmações de Paulo e Marcos.

 

Na maioria das discussões sobre este assunto, esquece-se que não apenas os judeus, mas os gregos e os romanos também, contribuíram para a preparação religiosa para a aparição de Cristo. A contribuição grega e romana foi, na realidade, negativa, mas em muito contribuiu para levar o desenvolvimento histórico até o ponto em que Cristo pudesse exercer o impacto máximo sobre a história de uma forma até então impossível.

 

I. O AMBIENTE

 

A. Contribuições Políticas dos Romanos.

 

A contribuição política anterior à vinda de Cristo foi basicamente obra dos romanos. Este povo, seguidor do caminho da idolatria, dos cultos de mistérios e do culto ao imperador, foi então usado por Deus, a quem ignoravam, para cumprir a sua vontade.

 

1. Os romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um sentido da unidade da espécie sob uma lei universal. Este sentido da solidariedade do homem no Império criou um ambiente favorável à aceitação do Evangelho que proclamava a unidade de raça humana, baseada no fato de que todos os homens estavam sob a pena do pecado e no fato de que a todos era oferecida a salvação que os integra num organismo universal, a Igreja Cristã, o Corpo de Cristo.

 

Nenhum império do antigo Oriento Próximo, nem mesmo o império de Alexan­dre, tinha conseguido dar aos homens um sentido de unidade numa organização política. A unidade política seria a contribuição particular de Roma. A aplicação da lei romana aos cidadãos de todo o Império era imposta diariamente a todos os cidadãos e súditos do Império pela justiça imparcial das cortes romanas. Esta lei romana se originava da lei consuetudinária da antiga monarquia. Durante a primeira república, no quinto século, antes de Cristo, esta lei foi codificada nas Doze Tábuas, que eram parte essencial na educação de toda criança romana. A compreensão de que os grandes princípios da lei romana eram também parte das leis de todas as nações sob o domínio dos romanos como praetor peregrineis, que era encarregado da tarefa de tratar com as cortes em que estrangeiros estivessem sendo julgados, tornou-se realidade para todos os sistemas jurídicos desses estrangeiros. Assim, o código das Doze Tábuas, baseado no costume romano, foi enriquecido pelas leis de outras nações. Os romanos de inclinação filosófica explicavam essas semelhanças pelo uso do conceito grego de uma lei universal cujos princípios foram escritos na natureza do homem e seriam descobertos por um processo racional.

 

Um passo adicional no estabelecimento da ideia de unidade foi a garantia de cidadania romana aos não romanos. Este processo foi principiado no período ante­rior ao nascimento de Cristo e foi completado quando Caracala concedeu, em 212, a todos os homens livres do Império Romano a cidadania romana. O Império Romano reunia todo o mundo mediterrâneo que contava na história de então; desse modo para todos os propósitos práticos, todos os homens estavam debaixo de um sistema jurídico, como cidadãos de um só reino.

A lei romana, com sua ênfase sobre a dignidade do indivíduo, e no direito deste à justiça e à cidadania romana, além de sua tendência a agrupar homens de raças diferentes numa só organização política, antecipou um Evangelho que proclamava a unidade da raça ao anunciar a pena do pecado e o Salvador do pecado. Paulo lembrou aos da igreja filipense que eles eram membros de uma comunidade celestial (Fp 3:20).

 

2. A movimentação livre em torno do mundo mediterrâneo teria sido mais difícil para os mensageiros do Evangelho antes de César Augusto (27 a.C. - 14 d.C). A divisão do mundo antigo em grupos, cidades-estados ou tribos, pequenos e enciuma­dos um do outro, impedia a circulação e a propagação de ideias. Com o aumento do poderio imperial romano no período da expansão imperial, uma era de desenvolvi­mento pacífico ocorreu nos países ao redor do Mediterrâneo. Pompeu tinha varrido os piratas do Mediterrâneo e os soldados romanos mantinham a paz nas estradas da Ásia, África e Europa. Este mundo relativamente pacífico tornou mais fácil a movi­mentação dos primeiros cristãos nas cidades onde pregavam o Evangelho a todos os homens.

 

3. Os romanos criaram um ótimo sistema de estradas que iam do marco áureo no fórum a todas as regiões do Império. As estradas principais eram de concreto e duraram séculos. Elas passavam por montes e vales até chegarem aos pontos mais distantes do Império; algumas delas são usadas até hoje. Um estudo das viagens de Paulo indica que ele se serviu muito deste ótimo sistema viário para atingir os centros estratégicos do Império Romano. As estradas romanas e as cidades estrategicamente localizadas às margens dessas estradas foram uma ajuda indispensável na concreti­zação da missão de Paulo.

 

4. O papel do exército romano no desenvolvimento do ideal de uma organização universal e na propagação do Evangelho não pode ser ignorado. Os romanos adota­vam a prática de usar habitantes das províncias no exército como forma de suprir a falta de cidadãos romanos atingidos pelas guerras e pelo conforto da vida. Os provincianos entravam em contato com a cultura romana e ajudavam a divulgar suas Ideias através do mundo antigo. Em muitos casos, alguns destes homens converteram-se ao cristianismo e levaram o Evangelho às regiões para onde eram designados. É provável que a introdução do cristianismo na Bretanha seja um resulta­do dos esforços de soldados cristãos que acantonaram por lá.

 

5. As conquistas romanas levaram muitos povos à falta de fé em seus deuses, uma vez que eles não foram capazes de protegê-los dos romanos. Tais povos foram deixados num vácuo espiritual que não estava sendo satisfeito pelas religiões de então.

 

Além disso, os substitutos que Roma tinha a oferecer em lugar das religiões perdidas nada mais podiam fazer além de levar os povos a compreenderem sua necessidade de uma religião mais espiritual. O culto ao imperador romano, que surgiu cedo na Era Cristã, fazia um apelo ao povo somente como um meio de tornar tangível o conceito de Império romano.

 

As várias religiões de mistério pareciam oferecer muito mais que isso como um meio de auxílio espiritual e emocional, e nelas o Cristianismo achou seu maior rival. A adoração de Cibele, a grande mãe terra, foi trazida da Frigia para Roma. A adoração des­ta deusa da fertilidade tinha ritos tais como o drama da morte e ressurreição do consorte de Cibele, Átis, o que parecia suprir as necessidades emocionais dos homens. Oculto à (Isis, importado do Egito, era semelhante ao de Cibele, com sua ênfase sobre a morte e ressurreição. O Mitraísmo, importado da Pérsia, teve aceitação especial entre os soldados romanos. Tinha um festival em dezembro, um Maligno, um Salvador nascido miraculosamente - Mitra, um deus-salvador - além de capelas e cultos de adoração.

 

Todas essas religiões enfatizam o deus-salvador. O culto de Cibele conclamava seus adoradores ao sacrifício de um touro e o batismo de seus seguidores com o sangue desse touro. O mitraísmo possuía, além de outras coisas, refeições sacrifi­ciais. Por causa da influência dessas religiões, elas pareciam algo esquisitas frente ao Cristianismo e suas demandas sobre o indivíduo. Quando muitos descobriram que os sacrifícios de sangue dessas religiões nada podiam fazer por eles, foram guiados pelo Espírito Santo a aceitar a realidade oferecida a eles no Cristianismo.

 

A consideração destes fatores permite concluir que o Império Romano criou um ambiente político favorável para a propagação do cristianismo nos primórdios de sua existência. Mesmo a Igreja da Idade Média não conseguiu se desfazer da glória da Roma imperial, acabando por perpetuar seus ideais num sistema eclesiástico.

 

B. Contribuições Intelectuais dos Gregos

 

Embora importante para a preparação para a vinda de Cristo, a contribuição romana foi ofuscada pelo ambiente intelectual criado pela mente grega. A cidade de Roma pode ser identificada com o ambiente político do cristianismo, mas foi Atenas que ajudou a criar um ambiente intelectual propício à propagação do Evangelho. Os romanos podem ter sido os conquistadores dos gregos, mas como indicou Horácio (65 a.C. - 8 d.C.) em sua poesia, os gregos conquistaram os romanos culturalmente. A mente prática dos romanos pode ter construído boas estradas, pontes fortes e belos edifícios, mas a grega erigiu os grandiosos edifícios da mente. Foi graças à influência grega que a cultura basicamente rural da antiga República deu lugar à cultura intelectual do Império.

 

1. O Evangelho universal precisava de uma língua universal para poder exercer um impacto real sobre o mundo. Os homens têm procurado desde a Torre de Babel criar uma língua universal para que possam comunicar suas ideias uns aos outros sem problemas. Assim como o inglês no mundo moderno e o latim no mundo medieval erudito, o grego tornou-se no mundo antigo, ao tempo em que o Império Romano apareceu, a língua universal. Os romanos mais ilustres sabiam grego e latim.

 

O processo pelo qual o grego se tornou o vernáculo do mundo é interessante. O dialeto ático usado pelos atenienses começou a ser usado amplamente no quinto século antes de Cristo com a solidificação do Império Ateniense. Mesmo depois de o Império ser destruído ao final do quinto século, o dialeto de Atenas, que se originara da literatura grega clássica, tornou-se a língua que Alexandre, seus soldados e os comerciantes do mundo helenístico, entre 338 e 146 a.C, modificaram, enriqueceram e espalharam através do mundo mediterrâneo.

 

Foi através deste dialeto do homem comum, conhecido como Koinê e diferente do grego clássico, que os cristãos foram capazes de se comunicar com os povos do mundo antigo, usando-o inclusive para escrever o seu Novo Testamento, o mesmo fazendo os judeus de Alexandria para escrever seu Velho Testamento, a Septuaginta. Só recentemente se soube que o grego do Novo Testamento era o grego do homem comum dos dias de Jesus Cristo, o que o diferencia do grego dos clássicos. Um teólogo alemão chegou mesmo a dizer que o grego do Novo Testamento era um grego especial criado pelo Espírito Santo para a produção do Novo Testamento.

 

Adolf Deissman (1866-1937) descobriu, no final do século passado, que o grego do Novo Testamento era o mesmo usado pelo homem comum do primeiro século nos relatos deixados em papiros sobre seus negócios e em documentos fundamentais de sua vida diária. Desde então, eruditos como James Hope Moulton (1863-1917) e George Milligan (1860-1934) deram uma base científica à descoberta de Deissman ao estudarem comparativamente o vocabulário dos papiros e o do Novo Testamento. Esta descoberta deu origem ao surgimento de inúmeras traduções modernas. Se o Evangelho foi escrito na língua do povo comum à época de sua produção, raciocinam os tradutores, deve ser colocado então na língua do homem comum de nossos dias.

 

2. A filosofia grega preparou o caminho para a vinda do Cristianismo por ter levado à destruição as antigas religiões. Qualquer um que chegasse a conhecer seus princípios, fosse grego ou romano, logo perceberia que sua disciplina intelectual tornou a religião tão ininteligível que a acabava abandonando em favor da filosofia. A filosofia falhou, porém, na satisfação das necessidades espirituais do homem, que se via obriga­do então a tornar-se um cético ou a procurar conforto nas religiões de mistério do Império Romano. À época do advento de Cristo, a filosofia descera do ponto elevado que alcançara com Platão para um sistema de pensamento individualista egoísta, como no caso do Estoicismo ou do Epicurismo. Na maioria dos casos, a filosofia apenas aspirava por Deus, fazendo dEle uma abstração; jamais revelava um Deus pessoal de amor. Este fracasso da filosofia do tempo da vinda de Cristo tornou as mentes humanas prontas para entender uma apresentação mais espiritual da vida. Só o cristianismo pode preencher o vazio na vida espiritual de então.

 

A outra forma pela qual os grandes filósofos gregos ajudaram o cristianismo está ligada ao fato de chamarem a atenção dos gregos para uma realidade que transcen­dia o mundo temporal e visível em que viviam. Tanto Sócrates quanto Platão ensina­ram, cinco séculos antes de Cristo, que este presente mundo temporal dos sentidos é apenas uma sombra do mundo real em que os ideais supremos são ao mesmo tempo abstrações intelectuais, o bem, a beleza e a verdade. Insistiam que a realidade não era temporal e material, mas espiritual e eterna. Sua busca da verdade jamais lhes conduziram a um Deus pessoal, mas evidenciou que o melhor que o homem deve fazer é buscar a Deus através do intelecto. O cristianismo ofereceu a este povo que aceitava a filosofia de Sócrates e Platão, a revelação histórica do Bem, da Beleza e da Verdade na pessoa do Deus-homem, Cristo. Os gregos aceitavam a imortalidade da alma, mas não tinham lugar para a ressurreição do corpo.

 

A literatura e história grega evidenciam claramente que os gregos estavam preocupados com os problemas do certo e do errado e com o futuro eterno do homem. Ésquilo (525-456 a.C.) em sua peça Agamenon, aproxima-se da afirmação bíblica ("Estai certos de que o vosso pecado vos há de atingir" — Nm. 32:23), ao propor que os problemas de Agamenon eram consequência de seu mau procedimen­to. Os gregos, entretanto, viam o pecado como um problema mecânico e contratual; não o viam como um problema pessoal que afrontava a Deus e prejudicava os homens.

 

À época da vinda de Cristo, os homens tinham compreendido finalmente a insuficiência da razão humana e do politeísmo. As filosofias individualistas de Epicu­ro (341-270 a.C.) e Zenão e as religiões de mistério testemunham do desejo humano por um relacionamento mais pessoal com Deus. O cristianismo, com sua oferta de um relacionamento pessoal, forneceu aquilo para o que a cultura grega, em função de sua própria inadequação, tinha produzido muitos corações famintos.

 

3. O povo grego também contribuiu no campo da religião para preparar o mundo a aceitar a nova religião cristã quando ela surgisse. O advento da filosofia grega materialista no sexto século antes de Cristo destruiu a fé das pessoas no velho culto politeísta como descrito na Ilíada e na Odisséia de Homero. Embora os elementos deste culto se baseassem no culto mecânico oficial, logo perderiam a sua vitalidade.

 

O povo voltou, então, à filosofia. Esta também, entretanto, perdeu o seu vigor. A filosofia tornou-se um sistema de individualismo pragmático, dirigido pelos sucesso­res dos sofistas ou um sistema de individualismo subjetivista, como se apresentava nos escritos de Zenão, o estóico, e Epicuro. Lucrécio (I século a.C), o expoente poético da filosofia epicurista, fundamentava seus ensinos de recusa ao sobrenatural numa metafísica materialista que considerava até o espírito do homem um tipo desenvolvido de átomo. O estoicismo ainda considerava o sobrenatural, mas seu deus era de tal modo identificado com a criação que acabava caindo num panteísmo. Embora ensinasse a paternidade de Deus e a fraternidade do homem e sustentasse um elevado código de ética, o estoicismo deixava que o homem, por um processo racional, praticasse sua própria obediência às leis naturais que deveriam ser desco­bertas apenas pela razão.

 

Desse modo, os sistemas gregos e romanos de filosofia e religião contribuíram negativamente para a vinda do cristianismo, ao destruírem as velhas religiões politeís­tas e demonstrarem a incapacidade da razão para alcançar Deus. As religiões de mistério, para onde muitos foram, familiarizaram o povo a pensar em termos de pecado e redenção. Então, quando o cristianismo apareceu, as pessoas do Império Romano estavam bem receptivas a uma religião que parecia oferecer uma perspecti­va espiritual para a vida.

 

II. CONTRIBUIÇÕES RELIGIOSAS DOS JUDEUS

 

As contribuições religiosas para a "plenitude do tempo" incluem tanto a dos gregos e romanos como a dos judeus. Todavia, por mais importantes que as contri­buições de Atenas e Roma, como pano-de-fundo histórico, tenham sido para o cristianismo, as contribuições dos judeus formam a Herança do Cristianismo. O cristianismo pode ter se desenvolvido no sistema político de Roma e pode ter encon­trado o ambiente intelectual criado pela mente grega, mas seu relacionamento com o Judaísmo foi muito mais íntimo. O Judaísmo pode ser considerado como o botão do qual a rosa do cristianismo abriu-se em flor.

 

Ao contrário dos gregos, os judeus não intentavam encontrar a Deus pelos processos da razão humana. Eles pressupunham Sua existência e lhe prestavam o culto que sentiam lhe dever. O povo judeu foi muito influenciado a estas atitudes pelo fato de que Deus o procurou e Se revelou a ele na história por Suas aparições a Abraão e a outros grandes líderes da raça. Jerusalém tornou-se o símbolo de uma preparação religiosa positiva para a vinda do cristianismo. A salvação viria, pois "dos judeus", como Cristo diria à mulher no poço (Jo 4:22). Desta pequenina nação cativa, situada no caminho da Ásia, África e Europa, viria um Salvador. O judaísmo tornou-se o berço do cristianismo e, ao mesmo tempo, forneceu o abrigo inicial da nova religião.

 

A. Monoteísmo

 

O Judaísmo contrastava flagrantemente com a maioria das religiões pagãs, ao fundamentar-se num sólido monoteísmo espiritual. Nunca, depois da sua volta do cativeiro babilónico, os judeus caíram em idolatria. A mensagem de Deus para eles através de Moisés ligava-os ao único Deus verdadeiro de toda a terra. Os deuses dos pagãos eram apenas ídolos que os profetas judeus condenavam em termos muito claros. Este sublime monoteísmo foi espalhado por numerosas sinagogas localizadas em volta da área mediterrânea durante os três últimos séculos anteriores à vinda de Cristo.

 

B. Esperança Messiânica

 

Os judeus ofereceram ao mundo a esperança de um Messias que estabeleceria a justiça na Terra. Esta esperança messiânica estava em claro antagonismo com as aspirações nacionalistas pintadas por Horácio (65-8 a.C.) no poema em que descre­via um rei romano ideal que haveria de vir — o filho que nasceria a Augusto. A esperança de um Messias tinha sido popularizada no mundo romano a partir desta firme proclamação pelos judeus. Até mesmo os discípulos depois da morte e ressur­reição de Cristo ainda esperavam por um reino messiânico sobre a terra (At 1:6). Certamente, os homens instruídos que viveram em Jerusalém na época imediatamen­te anterior ao nascimento de Cristo tiveram contato com esta esperança. A expectati­va de muitos cristãos hoje em torno da vinda de Cristo ajuda-nos a compreender a atmosfera da expectação no mundo judeu acerca da vinda do Messias.

 

C. Sistema Ético

 

Na parte moral da lei judaica, o judaísmo também ofereceu ao mundo o mais puro sistema ético de então. O elevado padrão proposto nos Dez Mandamento se chocava com os sistemas éticos prevalecentes e com as práticas por demais corrup­tas dos sistemas morais pelos quais se pautavam. Para os judeus, o pecado não era o fracasso externo, mecânico e contratual dos gregos e romanos, mas era uma violação da vontade de Deus, violação esta que se expressava num coração impuro e, mais ainda, em atos pecaminosos, externos e visíveis. Esta perspectiva moral e espiritual do Velho Testamento favoreceu uma doutrina de pecado e redenção que realmente resolvesse o problema do pecado. A salvação vinha de Deus e não seria encontrada em sistemas racionalistas de ética ou nas subjetivas religiões de mistério.

 

D. O Antigo Testamento

 

O povo judeu, ademais, preparou o caminho para a vinda do cristianismo ao legar à Igreja em formação um livro sagrado, o Velho Testamento. Mesmo um estudo superficial do Novo Testamento revela a profunda dívida de Cristo e dos apóstolos para com o Velho Testamento e sua reverência por ele como a palavra de Deus para o homem. Muitos gentios também o leram e se familiarizaram com os fundamentos da fé judaica. Este fato é indicado pelos relatos de vários prosélitos judeus. Muitos desses prosélitos foram capazes de passar do judaísmo ao cristianismo por causa do Velho Testamento, o livro sagrado da nova Igreja. Muitas religiões, o Islamismo por exemplo, confiam em seu fundador por causa do seu Livro sagrado, mas Cristo não deixou textos sagrados para a Igreja. Os livros do Velho Testamento e os do Novo Testamento, produzidos sob a inspiração do Espírito Santo, seriam a literatura viva da Igreja.

 

E. Filosofia da História

 

Os judeus tornaram possível uma filosofia da história por insistirem que a história tem significado. Eles se opuseram a toda e qualquer visão que deixasse a história sem significado, como uma série de círculos ou como um processo de evolução linear. Eles sustentavam uma visão linear e cataclísmica da história, na qual o Deus sobera­no, que criou a história, iria triunfar sobre a falha do homem na história para trazer uma era dourada.

 

F. A Sinagoga

 

Os judeus também forneceram uma instituição da qual muitos cristãos esque­cem a utilidade, no surgimento e desenvolvimento do cristianismo primitivo. Esta instituição era a sinagoga judia. Nascida da necessidade decorrente da ausência dos judeus do templo de Jerusalém durante o cativeiro babilónico, a sinagoga se tornou parte integrante da vida judaica. Através dela, os judeus e também muitos gentios se familiarizaram com uma forma superior de viver. Foi também o lugar em que Paulo primeiro pregou em todas as cidades por onde passou no itinerário de suas viagens missionárias. Foi ela a casa de pregação do cristianismo primitivo. Há algo de convincente na ideia de que o sistema de governo praticado na Igreja primitiva tenha sido apropriado de antecedentes judaicos na sinagoga. O judaísmo foi, pois, o paidagogos para conduzir os homens a Cristo (Gl 3: 23-25).

 

Os assuntos que têm sido discutidos demonstram o quão beneficiado foi o cristianismo, tanto quanto à época como quanto à região, no período de sua forma­ção. Em nenhum outro lugar na história do mundo antes da vinda de Cristo houve uma região tão grande sob uma mesma lei e um mesmo governo. O mundo mediterrâ­neo tinha seu centro cultural em Roma. Uma língua comum tornou possível levar o Evangelho à maioria das pessoas do Império numa língua comum a elas e ao pregador. A Palestina, o berço da nova religião, estava estrategicamente neste mundo. Paulo estava certo ao mostrar que o cristianismo "não se fez em qualquer canto" (At 26:26), porque a Palestina era um importante cruzamento que ligava os continentes da Ásia e da África com a Europa por via terrestre. Muitas das batalhas importantes da história antiga foram travadas por causa da posse desta estratégica região. Nunca nas épocas antiga e medieval, as condições para a propagação do cristianismo através do mundo mediterrâneo foram tão favoráveis como no período de sua formação e durante os seus três primeiros séculos de existência. Esta é também a opinião do principal erudito do mundo em missões.

 

Negativamente, através da contribuição do mundo grego e romano, e positiva­mente, através do judaísmo, o mundo foi preparado para a "plenitude dos tempos" quando Deus enviou Seu Filho para levar a redenção a uma humanidade partida pelas guerras e fatigada pelo pecado. É significativo que, de todas as religiões praticadas no Império Romano ao tempo do nascimento de Cristo, apenas o judaís­mo e o cristianismo tenham conseguido sobreviver ao curso dinâmico da história humana.

 

SOBRE ESTA PEDRA

 

Cristo é a Pedra sobre a qual a Igreja se funda. Através dEle vem a fé em Deus para a salvação do pecado. Dele vem o amor ao coração humano, que faz com que os homens vejam a pessoa como santa, uma vez que Deus é o Criador do ser físico e espiritual do homem e o fundamento de toda a esperança futura.

 

I. A HISTORICIDADE DE CRISTO

 

Os fundamentos do cristianismo têm seus primórdios, do ponto de vista subjeti­vo humano, na história temporal. É preciso atentar-se para o fato da existência histórica de Cristo, já que estes fundamentos estão inextrincavelmente ligados à pessoa, vida e morte de Cristo. Muitos negam o fato de que Cristo se manifestou na história humana (Jo 1.14). Felizmente, porém, há evidências extra bíblicas que provam a existência de Cristo.

 

A. O Testemunho Pagão (55-117)

 

Tácito (C.60-C.120) o decano dos historiadores romanos, liga o nome e a origem dos cristãos a "Christus", que no reinado de Tibério (42 a.C.-42 a.D.) "sofreu a morte por sentença do Procurador, Pôncio Pilatos".

 

Plínio (62-C.113) que era propretor da Bitínia e de Ponto na Ásia Menor, escreveu ao Imperador Trajano, (53-117) por volta do ano 112, para se aconselhar sobre o modo de tratar os cristãos. Sua carta dá uma valiosa informação extra bíblica sobre Cristo. Ele elogiou a elevada integridade moral dos cristãos, comentando sua recusa em cometer roubo ou adultério, a testemunhar falsamente ou a trair a confiança depositada neles. Plínio chegou a dizer que eles "entoavam uma canção a Cristo como para um Deus". Suetônio, em sua obra Vidas dos Doze Césares: Vida Claudius (25:4), mencionou que os judeus foram expulsos de Roma por causa de distúrbios a respeito de Chrestos (Cristo).

 

Outro escritor satírico, e, por esta razão, de testemunho importante, é Luciano (c. 125 - C. 190), que escreveu uma sátira sobre os cristãos e sua fé, por volta de 170. Luciano pintou Cristo como alguém "que foi crucificado na Palestina" por ter iniciado "este novo culto". Escreveu que Cristo tinha ensinado os cristãos a crerem que eles eram irmãos e que deviam observar seus mandamentos. Ridicularizou-os por "adora­rem este sofista crucificado".

 

Estes testemunhos são evidências históricas de grande valor, especialmente por virem de romanos instruídos que desdenhavam e hostilizavam os cristãos. À base destes testemunhos, além da Bíblia, que é também uma obra histórica, pode-se concluir que há evidência suficiente para se afirmar a existência histórica de Cristo.

 

B. O Testemunho Judeu.

 

Josefo, (37-100), o rico judeu que procurou justificar o judaísmo para os roma­nos instruídos com seus escritos, também menciona Cristo. Ele falou de Tiago, "o irmão de Jesus, assim chamado Cristo". Em outra passagem, geralmente condenada como uma interpolação por cristãos mas que para muitos é autêntica, Josefo falou de Cristo como um "homem sábio" sentenciado à morte na Cruz por Pilatos. Embora aceitando algumas interpolações por cristãos, a maioria dos eruditos concorda que esta informação básica com quase toda a certeza integra o texto original. Como Josefo não era um amigo do cristianismo, sua menção a Cristo tem grande valor histórico.

 

C. Testemunho Cristão fora da Bíblia.

 

Muitos evangelhos, Atos, cartas e apocalipses apócrifos devem ser levados em consideração nesta questão da historicidade de Cristo. Eles estão reunidos na obra de Montague R. James, The Apocryphal New Testament (Nova Iorque. Oxford University Press, 1924). Inscrições e figuras da pomba, do peixe, da âncora e de outros símbolos cristãos nas catacumbas dão testemunho da crença no Cristo histórico, além da existência do calendário cristão, do domingo, e da igreja.

 

Desafortunadamente, ao escolher uma data para o início do calendário cristão, o abade cita, Dionísio Exiguus (morto por volta de 550) em seu Cyclus Paschalis escolheu 754 A.U.C, (da fundação de Roma) ao invés de 749 A.U.C., uma data mais acurada para o nascimento de Cristo.

 

Mateus, em seu evangelho (2:1), declarou que Jesus nasceu "nos dias de Herodes, o rei". Josefo, em suas Antiguidades (18.6.4), mencionou um eclipse do ano 750 A.U.C, antes da morte de Herodes. Por causa do assassinato dos bebês israelitas e a fuga para o Egito terem precedido a morte de Herodes, isto nos traz a uma data possível de 749 A.U.C., ou cerca de 5 a.C, para a data do nascimento de Cristo.

 

Os judeus, em João 2:20, disseram que o templo levou 46 anos para ser edificado. Josefo e o historiador romano Dio Cassius colocaram 779 A.U.C. como a data em que a construção do Templo começou. Jesus tinha "cerca de trinta anos" de acordo com Lucas 3:23, que, subtraídos de 779 dá 749, ou 5 a.C. como a data mais aceitável para Seu nascimento, ou seja, cerca de cinco anos mais cedo do que a nossa datação da era cristã.

 

II. O CARÁTER DE CRISTO

 

A Bíblia dá algumas indicações sobre a personalidade e o caráter de Cristo. Até mesmo uma leitura superficial dos Evangelhos evidencia o poder de Sua originalida­de. Enquanto os judeus e as autoridades de hoje citam outros como autoridades para suas várias afirmações, Cristo simplesmente dizia: "Eu digo". O que vinha após esta frase ou outras semelhantes a esta nos Evangelhos indica a criatividade e originalida­de do pensamento de Cristo, que maravilhou as pessoas do Seu tempo (Mc 1:22; Lc 4:32).

 

A sinceridade de Cristo também está registrada nos relatos bíblicos. Ele foi o único ser humano que não tinha nada para esconder, uma vez que era completamen­te Ele mesmo (Jo 8:46).

 

Os Evangelhos deixam também o registro do equilíbrio de seu caráter. Coragem é geralmente associada a Pedro, amor, com João, e humildade, com André. Nada disto falta a Cristo; ao contrário, os relatos revelam equilíbrio e unidade de personali­dade. Este equilíbrio, esta originalidade e esta transparência podem ser adequada­mente explicados pelo registro histórico do Nascimento Virginal de Cristo.

 

III. A OBRA DE CRISTO

 

A importância transcendental da personalidade de Cristo jamais poderá ser desassociada de Sua obra, obra esta que era ativa e passiva. Durante seu ministério de três anos, Cristo deu atenção à justiça exigida pela lei que era um acréscimo à Sua justiça intrínseca como Filho de Deus. Esta justiça extrínseca qualificou-O a morrer pelos homens que nunca mereceram tal justiça e que precisavam de um Substituto justo para que seus pecados fossem perdoados por Deus. Esta obra ativa tem sua contraparte em Sua obra passiva, Sua morte voluntária na Cruz (Fp 2:5-8). Estas duas fases históricas da obra de Cristo estão sintetizadas em Sua afirmativa sobre Sua missão de serviço e sofrimento (Mc 10:45).

 

A. O Ministério de Cristo.

 

Com exceção da narrativa da visita de Cristo a Jerusalém junto com Seus pais aos 12 anos de idade (Lc 2:41-50) e algumas referências isoladas a Sua mãe e irmãos, pouco se sabe acerca dos muitos anos de Cristo em Nazaré.

 

Em geral se concorda que ele recebeu educação bíblica no lar e na escola sinagogal para crianças. Aprendeu também o ofício de Seu pai, porque toda criança judia recebia instrução em alguma profissão manual. Em Nazaré, importante rota comercial, Cristo pode observar a vida do mundo exterior que passava por Nazaré. Suas parábolas seus sermões mostram que Ele era um atento observador das coisas. Ele conhecia Deus a partir da revelação de Deus na natureza e através do Velho Testamento. Durante estes anos formativos, desenvolveu-se física, social, mental e espiritualmente (Lc 2:52) na preparação para a grande obra que tinha pela frente.

 

O ministério de Cristo foi precedido pelo breve ministério de seu precursor, João Batista. Sua primeira aparição pública no começo do Seu ministério está ligada ao seu batismo por João. O estudante atento do ministério de Jesus notará que, após este acontecimento, ele desenvolveu. Seu ministério em centros judaicos. Sua estraté­gia era manter-se de acordo com sua própria afirmativa de que foi enviado às "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15:24).

 

Depois de sua tentação no deserto, Cristo escolheu alguns dos discípulos que continuaram Sua obra sob a liderança do Espírito Santo após sua ressurreição e ascensão. Uma visita a Caná marcou o Seu primeiro milagre, a transformação de água em vinho. Seguiu-se uma breve visita a Jerusalém, durante a qual ele purificou o templo e teve uma momentosa entrevista com Nicodemos. Esta entrevista revelou a natureza espiritual de Seu ministério (Jo. 3:3,5,7,). Voltando à Galileia pela Samaria encontrou-se com a mulher samaritana (Jo. 4), onde ficou evidenciado que Seu ministério não era limitado por barreiras nacionais ou sexuais, embora primariamente sua missão fosse para com os judeus.

 

Rejeitado em Nazaré, Cristo fez de Cafarnaum o centro de Seu ministério galileu, que se constitui na maior parte do Seu serviço terreno aos homens. Daí fez Ele três viagens. A primeira, principalmente no oriente da Galileia, foi marcada pela cura do paralítico, do homem coxo e de muitos outros, bem como pela ressurreição do filho da viúva de Naim e pela conclusão da escolha dos Seus discípulos. Os milagres eram caracterizados pela introdução eloquente dos princípios que Ele entendia deviam governar o comportamento humano. Estes princípios estão contidos no Sermão da Montanha (Mt. 5-7; Lc. 6: 17-49). O assunto do Sermão é que a verdadeira religião é espiritual e não é feita de atos externos exigidos pela lei.

 

O ponto alto da segunda viagem de Cristo ao sul da Galileia foi seu ensino parabólico sobre Seu Reino (Mt 13). Outros milagres, como a cura do endemoninha­do gadareno e da filha de Jairo, testificam Seu poder para endossar suas palavras com atos. A terceira viagem foi uma continuação desta obra de ensino, pregação e cura.

 

As três viagens da Galileia foram seguidas por pequenos períodos de retiro, durante os quais a principal ênfase de Cristo parecia ser a instrução dos Seus discípulos. Ele sempre encontrava tempo para atender às necessidades daqueles que vinham a Ele, razão porque alimentou cinco mil pessoas por ocasião do seu primeiro retiro. Ele demonstrou também Seu senhorio sobre a natureza ao andar sobre o Mar da Galileia, milagre que fez com que Seus discípulos compreendessem a realidade de Sua pessoa como Filho de Deus. Durante a sua segunda retirada, ele curou a filha da mulher siro-fenícia que demonstrara uma notável fé em Cristo (Mc 7:26). O terceiro intuo foi mais uma revelação do Seu poder de curar e abençoar.

 

O ministério da Galileia foi seguido por um pequeno ministério em Jerusalém por ocasião da Festa dos Tabernáculos, durante o qual Cristo enfrentou corajosamente a oposição emergente dos líderes religiosos: os fariseus e os saduceus. Por causa desta Oposição, Cristo retirou-se para Peréia, ao oriente do rio Jordão, onde ensinou e pregou. Este ministério pereano foi seguido pelo pequeno ministério da última sema­na em Jerusalém, durante o qual publicamente enfrentou o antagonismo dos líderes judeus políticos e eclesiásticos. Ele reforçou a crítica à religião mecânica e externa como fizera no ensino das parábolas. O triste fim-de-semana, durante o qual entre­gou Sua vida na Cruz, marcou o fim de Seu ministério ativo no mundo. Depois de Sua gloriosa ressurreição — um fato histórico estabelecido pelas evidências documentais no Novo Testamento (At 1:3; 1 Co 15:4-8) Ele apareceu somente a Seus próprios seguidores. A culminação do Seu ministério veio com Sua ascensão aos céus na presença dos Seus discípulos. Esta ascensão foi antecipada por suas promessas de enviar o Espírito Santo em seu lugar e de retornar novamente a esta terra.

 

A Igreja Cristã felizmente tem quatro registros deste ministério de Cristo sobre a torra. Cada um dos autores apresenta seu relato a partir de diferentes pontos de vista. Mateus salienta a atividade do reinado de Cristo como Messias prometido que cumpriu as promessas do Velho Testamento, por isto, faz constante uso da frase: "isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas". Marcos, que escreveu tendo em mente os romanos, destacou o lado prático do ministério de Cristo, o senti­do de ação e poder é fortalecido pelo uso constante que faz da palavra grega geralmen­te traduzida como "imediatamente". Lucas, o historiador (Lc 1:1-4), reporta-nos o lado humano do ministério de Cristo. João apresenta Cristo como o Filho de Deus com poder de levar bênção a todos quantos O aceitassem pela fé (Jo 1:12, 20:30-31).

 

B. A Missão de Cristo.

 

A fase ativa do ministério de Cristo que durou pouco mais de três anos, foi mais uma preparação para a fase passiva da Sua obra, Seu sofrimento na Cruz. Seu sofri­mento na Cruz e Sua Morte foram os grandes eventos preditos pelos profetas (Is 53) que acabariam destruindo todas as forças do mal e libertando todos quantos O aceitassem com todo o poder espiritual da Sua obra da Cruz (Ef 1:19-23; 3:20). Foi para este propósito temporal e eterno que Ele veio ao mundo. Os Evangelhos destacam este fato que chega ao clímax em referências como Mateus 16:21, Marcos 8:31 e Lucas 9:44.

 

C. A Mensagem de Cristo

 

Embora a Cruz fosse a missão primeira de Cristo sobre a terra, ela não foi Sua mensagem principal e nem foi considerada como um fim em si mesmo. Um estudo detido dos Evangelhos revelará que o reino de Deus era a mensagem principal do ensino de Cristo. Duas frases eram usadas por Cristo: "O reino de Deus" "o reino dos céus". A última foi mais usada por Mateus. O significado destes termos tem provoca­do muita controvérsia na Igreja Cristã.

 

As duas grandes interpretações destas frases aceitam o fato de que reino de Deus se refere ao governo de Deus sobre todos os seres no universo que com Ele voluntariamente fazem concerto. Este reino, que é espiritual e abarca o tempo e a eternidade, é penetrado pelos seres humanos após um renascimento espiritual (Jo 3:3, 5, 7; Mt 6:33). Nada se fala sobre o mal neste reino, em que Cristo mesmo finalmente se sujeitará ao Pai (I Co 15: 24-28). Os dois grupos creem que, no presente, este reino é ético e espiritual e que a Igreja é uma parte dele. Entendem também que sua plena realização escatológica acontecerá só no futuro.

 

A discussão do sentido da frase "reino dos céus" dividiu as opiniões. Alguns entendem que as duas frases são sinônimas entre si. Outros acham que elas se referem a dois reinos distintos, embora haja um ponto de encontro. A razão principal para se fazer a distinção entre os dois surge do fato de que Cristo usou e interpretou as parábolas do joio (Mt 13: 36-43) e da rede (Mt 13: 47-48) para descrever o reino dos céus, embora jamais as usasse para descrever o reino de Deus. Já que nestas duas parábolas se faz uma mistura de homens bons e maus no reino dos céus e já que todas as referências ao reino de Deus falam apenas da obediência voluntária à vontade de Deus, muitos intérpretes pensam, que deve haver alguma distinção entre os dois termos, não devendo, portanto, ser usados como sinônimo. Eles notam que "reino de Deus" é relacionado a Deus, marcado pela bondade, e é cósmico e eterno, bem como está no tempo, de outro lado, a frase "reino dos céus" é relacionado ao domínio de Cristo no tempo e sobre a Terra, e tem tanto bons como maus nele (Mt 8:11-13).

 

Alguns pré-milenistas, que entendem não serem idênticos os dois termos, creem que o reino dos céus está associado ao governo de Cristo nesta terra e identificam o rei­no de Deus com o governo eterno de Deus, o pai. No atual período da Igreja, o reino dos céus equivale à Cristandade, que consiste numa mistura de cristãos, cristãos profes­sos, incrédulos e judeus. Na volta de Cristo o reino dos céus será purgado dos judeus e dos gentios incrédulos e será dirigido durante mil anos por Cristo e Sua Igreja. Este será o reino predito pelos profetas, segundo os quais Israel seria abençoado na terra da Palestina. Após uma pequena rebelião, liderada por Satã, seguindo sua libertação desta prisão de mil anos durante o milênio, Cristo afirmará Sua autoridade diante de Deus e a parte pura do reino dos céus finalmente se fundirá com o Reino de Deus.

 

Aqueles que sustentam serem os dois sinônimos e equacionáveis à Igreja pen­sam que o reino será realizado por um processo histórico em que a Igreja faz a obra de preparar o caminho para um reino que Cristo receberá quando voltar. A ação social para criar um melhor ambiente para os homens é uma parte importante deste plano. O cristianismo é, então, interpretado em termos éticos independentemente da obra redentora de Cristo na Cruz. Este é o pós-milenismo liberal.

 

Alguns pensadores, especialmente do século XIX, como Charles Finney, os Hodges, B. B. Warfield e A. H. Strong também afirmaram uma escatologia pós-milenista, mas de uma variedade conservadora, ortodoxa. Eles criam que a igreja, de pessoas regeneradas sob a direção do Espírito Santo, poderia fazer um impacto tal na sociedade que emergiria uma perfeita ordem milenista entre os povos. Quando Cristo retornasse, ao fim do milênio, haveria uma sociedade piedosa. A equação do milênio com a igreja, feita por Agostinho, tem dado muito apoio a este ponto-de-vista.

 

Outros que não subscrevem esta interpretação, mas que acham serem os dois termos sinônimos, creem que a realização final do reino é futura e que ele será consumado sobrenatural e cataclismicamente na volta de Cristo. Eles não aceitam a Interpretação evolutiva dos pós-milenistas liberais. Geralmente são conhecidos co­mo a-milenistas; não aceitam a ideia de um reino milenar de Cristo e geralmente não relacionam os judeus ao reino de Cristo.

 

Se se crê que as duas frases são sinônimas ou não, não é tão importante diante da concordância dos evangélicos acerca de certos pontos em que não há discordân­cia se a Bíblia é interpretada corretamente.

 

O fato de que o pecado é hereditário e pessoal e não ambiental ou corporativo, exclui a visão pós-milenista liberal do Reino. Desse modo, a Igreja tem como tarefa básica não a conversão mundial pela pregação ou pela ação social, mas a evangeliza­ção do mundo pela proclamação do Evangelho, a fim de que aqueles que se unem à verdadeira Igreja possam ter uma oportunidade para responder a esta mensagem quando o Espírito Santo convence os seus corações. Esta é a tarefa específica da Igreja neste período da história humana, o que não isenta o cristianismo de se tornar algo relevante e prático na vida diária da sociedade pela ação dos cristãos como cidadãos.

 

Cristo ensinou que o reino não se realizará por um processo histórico evolutivo em que a Igreja preparará, pela ação social, o mundo para a Sua vinda. A Bíblia ensina fundamentalmente que o futuro escatológico, distinto da atual fase ética e espiritual do reino, se realizará sobrenatural e cataclismicamente na vinda de Cristo, não irrompendo, pois, como resultado da obra da Igreja.

 

D. Os Milagres de Cristo

 

Os milagres de Cristo foram numerosos e constituem parte integrante do Seu ministério. Eles revelam a glória de Deus e mostram que Cristo era o Filho de Deus (Jo 3:2), a fim de que a fé pudesse se seguir. Estes milagres são chamados de poder, obras, maravilhas e sinais. Os racionalistas e empiristas negam sua possibilidade e procuram explicá-los pelas leis naturais ou interpretá-los como mitos; esta segunda negação implica também em negar as narrativas bíblicas como históricas. Os mila­gres podem ser definidos como fenômenos não explicáveis pela lei natural conhecida o que são feitos por uma intervenção especial da Divindade para propósitos morais.

 

A possibilidade e probabilidade dos milagres são demonstradas pela existência de registros históricos que dão conta destes milagres como fatos históricos. A pessoa e obra de Cristo receberam autenticação de muitos contemporâneos Seus por causa dos milagres que Ele realizou.

 

E. O Significado de Cristo

 

Tem havido diferentes interpretações desta maravilhosa Pessoa, Cristo, que nos é descrita literariamente nos Evangelhos. Durante os grandes períodos de controvérsia teológica, entre 325 e 451 e entre 1517 e 1648, os homens procuraram interpretar Cristo em termos de credos. Os místicos o veem como o Cristo da experiência pessoal Imediata. Outros, nos séculos XVIII e XIX, falaram dEle como o Cristo da história e procuraram despi-lo do sobrenatural a fim de poderem ver nEle apenas uma pessoa humana. O verdadeiro cristão o vê sempre como o Cristo de Deus.

 

A significância histórica de Cristo se revela no desenvolvimento de um novo fundamento da personalidade humana. Os gregos insistiram sobre a dignidade da personalidade humana porque o homem era um ser racional, mas a Igreja insiste que a personalidade humana tem dignidade porque o homem é um filho em potencial ou em realidade de Deus, através da fé em Cristo. A concepção cristã tem como consequência a humanização da vida. As fronteiras de classe e de raça são abolidas na Igreja e a reforma social dá melhores condições de vida para todos os homens. Os evangélicos foram os líderes da reforma social na Inglaterra do século XIX. Acima de tudo, a ênfase sobre um código de ética interior para a conduta, colocado muito acima de regras exteriores, é uma consequência do contato da personalidade huma­na com o Cristo do Calvário. O impacto de Cristo nas artes e literatura é imenso.

 

A personalidade, a obra e os ensinos de Cristo e, sobretudo, Sua morte e ressurreição marcam o começo do Cristianismo. Muitas religiões poderiam subsistir sem fundadores humanos, mas tirar Cristo do cristianismo faria dele uma casca vazia sem vida. Cristo deu a Igreja suas duas ordenanças, os apóstolos, sua mensagem fundamental do reino de Deus, sua moral básica (Mt 16:16-19; 18:15-20) e o Espírito Santo para ser Aquele a cooperar com a Igreja na evangelização do mundo. Ele não deixou qualquer organização nem nenhum sistema doutrinário bem articulado. Isto foi obra dos apóstolos, Paulo inclusive, guiados pelo Espírito Santo que Cristo enviou ao mundo para ministrar em Sua ausência. A verdadeira Igreja, que tem Cristo como o Fundamento e o Espírito Santo como o Fundador, marchará triunfalmente, exaltando o Senhor crucificado, ressuscitado e glorificado, desde o Pentecoste até o presente.

 

PRIMEIRO AOS JUDEUS

 

Cristo é mais o Fundamento do que o Fundador da Igreja. Isto fica evidente pelo uso do tempo futuro que faz em Mateus 16:18, ao dizer: "Sobre esta pedra edificarei a minha igreja. Lucas destaca isto ao nos informar em seu Evangelho "acerca de tudo quanto Jesus começou a fazer e ensinar" (At. 1:1). Em Atos ele relatou a fundação e a divulgação da Igreja cristã pelos apóstolos sob a direção do Espírito Santo.

 

Até mesmo os discípulos compreenderam mal a natureza espiritual da missão de Cristo por quererem saber, após Sua ressureição, quem restauraria o reino messiâ­nico (At. 1:6). Cristo mesmo já lhes tinha dito que, depois de fortalecidos pelo Espírito Santo, a sua tarefa seria testemunhar dEle "em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra" (At. 1:8).

 

Note-se que Cristo deu prioridade à proclamação aos judeus. Mesmo um estudo superficial dos Atos dos Apóstolos revelará que esta é a ordem seguida pela Igreja primitiva. O Evangelho foi primeiro proclamado em Jerusalém por Pedro no dia de Pentecoste; depois, foi levado pelos cristãos judeus a outras cidades da Judeia e da Samaria. Desse modo, a Igreja foi primeiramente judia e existiu dentro do judaísmo. O desenvolvimento do cristianismo aí e sua chegada a Antioquia é descrito por Lucas nos primeiros 12 capítulos do Atos, que estudaremos neste trimestre.

 

I. A FUNDAÇÃO DA IGREJA EM JERUSALÉM

 

Parece paradoxal que o principal centro de inimizade contra Cristo tenha sido a cidade onde a religião cristã começou. Mas esta é a realidade. Do ano 30 a aproxima­damente 44, a igreja em Jerusalém manteve uma posição de liderança na comunida­de cristã primitiva.

 

O Espírito Santo teve o papel de proeminência na fundação da Igreja Cristã. E isto estava de acordo com a promessa de Cristo, nas últimas semanas de Sua vida, de que enviaria "um Consolador" que lideraria a Igreja após Sua ascensão. Um estudo meticuloso de Jo 14:16-18; 15:26-27 e 16:7-15 mostrará a função do Espírito Santo na Igreja primitiva. Realmente, os focos do livro de Atos são a ressurreição de Cristo, como o assunto da pregação apostólica, e o Espírito Santo, como Capacitador e Guia da comunidade cristã a partir do Pentecoste. O Espírito Santo se tornou o Agente da Trindade na mediação da obra de redenção dos homens. Judeus de todas as partes do mundo mediterrâneo estavam presentes em Jerusalém para ver a Festa do Pente­coste por ocasião da fundação da Igreja (At 2:5-11). A manifestação sobrenatural do poder divino no falar em línguas, claramente relacionada à origem da Igreja, e a vinda do Espírito Santo levaram os judeus presentes a declararem a maravilha das obras de Deus em sua própria língua (At 2:11). Pedro aproveitou a oportunidade para proferir o primeiro e possivelmente o mais fecundo sermão já pregado, e proclamar a messianidade de Cristo e a graça salvadora. Por fim, três mil pessoas aceitaram a sua palavra e foram batizados (At 2:41). Foi desta maneira que a entidade ou organismo espiritual, a Igreja invisível, o Corpo do Cristo ressuscitado, começou a existir.

 

O crescimento foi rápido. Outros eram acrescidos diariamente ao número dos três mil até chegarem logo a cinco mil (At 4:4). Há menção de multidões se integran­do à Igreja (At 5:14). É interessante que muitos eram judeus helenistas (At 6:1) da dispersão e que estavam em Jerusalém para celebrar as grandes festas relacionadas com a Páscoa e o Pentecoste. Nem mesmo os sacerdotes ficaram imunes ao contágio da nova fé. "Muitos sacerdotes" (At 6:7) são mencionados como estando entre os membros da igreja primitiva em Jerusalém. Talvez alguns deles tivessem visto a abertura do grande véu do templo, logo depois da morte de Cristo, e isto, junto com a pregação dos apóstolos, levou-os a se comprometerem com Cristo.

 

Este crescimento tão rápido não se fez sem a oposição da parte de judeus. As autoridades eclesiásticas logo perceberam que o cristianismo representava uma ameaça a suas prerrogativas como intérpretes e sacerdotes da lei; por isto, reuniram suas forças para combater o cristianismo. A perseguição veio primeiro de um organismo político-eclesiástico, o Sinédrio, que, com permissão romana, supervisio­nava a vida civil e religiosa do estado. Pedro e João tiveram que comparecer perante este egrégio órgão duas vezes e foram proibidos de pregar o Evangelho, mas eles se recusaram a cumprir a ordem. Mais tarde a perseguição tomou cunho mais político. Herodes matou Tiago e prendeu Pedro (At 12) nesta fase de perseguição. Daí por diante a perseguição tem seguido esse padrão eclesiástico ou político.

 

Esta perseguição deu ao cristianismo seu primeiro mártir, Estevão. Fora ele um dos mais destacados dos sete homens escolhidos para administrar os fundos de caridade na Igreja de Jerusalém. Testemunhos falsos, que não podiam resistir ao espírito e à lógica com que ele falou, obrigaram-no a comparecer diante do Sinédrio. Após um emocionante discurso em que denunciou líderes judeus por sua rejeição de Cristo, foi retirado e apedrejado até a morte. Sua morte, como o primeiro mártir da fé cristã, foi um fator importante na divulgação e crescimento do cristianismo. Saulo, depois Paulo o apóstolo, guardou as capas daqueles que apedrejaram Estevão. É claro que a coragem e o espírito perdoador de Estevão diante de uma morte tão trágica marcaram bem fundo no coração de Saulo. Aquilo que Cristo lhe disse, em At 9:5, "Duro será para ti recalcitrar contra os aguilhões", parecia indicar esta realidade. A perseguição que se seguiu foi mais dura e acabou sendo o meio usado pela igreja nascente para que sua mensagem fosse levada a outras partes do mundo (At 8:4).

 

Nem todos os convertidos ao cristianismo tinham, entretanto, um coração puro. Ananias e Safira constituíram-se nos primeiros objetos da disciplina da igreja em Jerusalém por causa da cobiça. Pronta e terrível, esta disciplina foi ministrada através dos apóstolos que eram os líderes da organização.

 

O relato da aplicação da disciplina sobre este casal culpado suscita o problema se a igreja em Jerusalém praticou ou não o comunismo. Um jovem comunista se empenhou muito para demonstrar a este autor que os cristãos praticavam o comunismo. Realmente passagens como Atos 2:44-45 e 4:32 parecem sugerir a prática de um tipo utópico de socialismo baseado no princípio máximo do socialismo: "a cada um segundo a sua capacidade, de acordo com a sua necessidade". Deve-se notar, todavia, em primeiro lugar que esta era uma forma temporária, possivelmente concebida para satisfazer as necessidades de muitos de Jerusalém, que estavam ansiosos por doutrina na nova fé, antes de voltarem para suas casas. O fato que tudo era feito voluntariamente é Importante. Pedro afirmou claramente em At 5:3-4 que Ananias e Safira tinham liberdade para reter ou vender sua propriedade. O ter tudo em comum era uma decisão de caráter fundamentalmente livre. A Bíblia não pode ser usada como Escritura autorizativa para o Capitalismo estatal.

 

Agora, sem dúvida, o cristianismo primitivo promoveu uma grande mudança social em certas regiões. A igreja de Jerusalém insistiu sobre a igualdade espiritual dos sexos e deu muita importância às mulheres na igreja. A liderança de Dorcas na promoção do trabalho de caridade foi registrada por Lucas (At 9:36). A criação de um grupo de homens para tomar conta das necessidades foi outro acontecimento de relevância social ocorrido ainda nos primeiros anos do nascimento da Igreja. A caridade deveria ser administrada por um corpo organizado, os precursores dos diáconos. Com isto, os apóstolos ficaram completamente livres para o exercício de sua liderança espiritual. A necessidade, devido ao rápido crescimento e possivelmen­te à imitação das práticas da sinagoga judaica, levou à multiplicação de ofícios e oficiais bem cedo na história da Igreja. Algum tempo depois, os presbíteros (anciãos) passaram a integrar o corpo de oficiais, finalmente formado de apóstolos, presbíteros e diáconos, que dividiam a responsabilidade de liderar a Igreja de Jerusalém.

 

A natureza da pregação dos líderes dessa igreja primitiva desponta logo no relato do surgimento do cristianismo. O sermão de Pedro (At 2:14-36) é o primeiro sermão de um apóstolo; nele, recorde-se, Pedro apelou aos profetas do Velho Testamento que haviam pré-anunciado o Messias sofredor. Ele propôs, então, que Cristo era este Messias, porque Ele tinha sido levantado dentre os mortos por Deus. Logo, Ele era capaz de trazer a salvação para aqueles que O aceitassem pela fé. Os principais argumentos destes primeiros sermões estão em At 17:2-3. A necessidade da morte de Cristo pelo pecado foi também predita pelos profetas e a ressureição de Cristo era prova de que ele era o Messias que salvaria os homens. Paulo também bateu nesta mesma tecla (I Co 15:3-4). O Cristo crucificado e ressurreto era o conteúdo de sua pregação tanto a judeus como a gentios (Jo 5:22,27; At 10:42; 17:31).

 

A igreja judaica em Jerusalém, cuja história foi descrita, logo perdeu seu lugar de líder do cristianismo para outras igrejas. A decisão tomada no Concílio em Jerusalém, de que os gentios não eram obrigados a obedecer a lei, abriu o caminho para a emancipação espiritual das igrejas gentílicas do controle judaico. Durante o cerco de Jerusalém em 70 por Tito, os membros da Igreja foram forçados a fugir para Pela, do outro lado do Jordão. Depois da destruição do templo e da fuga da Igreja judaica, Jerusalém deixou de ser vista como o centro do cristianismo; a liderança espiritual da Igreja Cristã se centralizou, então, em outras cidades, especialmente em Antioquia. Isto evitou o perigo de que o cristianismo jamais se libertasse dos quadros do judaísmo.

 

II. A IGREJA NA PALESTINA

 

O interesse nas atividades da igreja em Jerusalém ocupa a atenção dos leitores da história da Igreja primitiva que Lucas relata nos primeiros sete capítulos de Atos. O centro de interesse amplia-se para incluir a Judéia e a Samaria nos capítulos 8 a 12. O cristianismo foi levado aos povos de outras raças. O verdadeiro cristianismo sempre tem sido de orientação missionária.

 

A visita de Filipe a Samaria (At 8:5-25) levou o Evangelho a um povo que não era de sangue judeu puro. Os samaritanos eram os descendentes daquelas dez tribos que não foram levadas para a Assíria depois da queda da Samaria e dos colonos que os assírios trouxeram de outras partes do seu império em 721 a.C. Os judeus e os samaritanos fizeram-se inimigos ferrenhos desde então. Pedro e João foram chamados a Samaria para ajudar Filipe, pois o trabalho crescera tão rapidamente que ele estava sem condições de atender a todas as necessidades. Este reavivamento foi a primeira brecha na barreira racial à divulgação do Evangelho. Filipe foi compelido pelo Espírito Santo, após completar seu trabalho em Samaria, a pregar o Evangelho a um eunuco etíope, alto oficial do governo da Etiópia.

 

Pedro, o primeiro a pregar o Evangelho aos judeus, foi também o primeiro a levar oficialmente o Evangelho aos gentios. Depois de uma visão, que deixou claro para ele que os gentios também tinham direito ao Evangelho, Pedro foi à casa de Cornélio, o centurião romano, e se assombrou quando as mesmas manifestações ocorridas no dia de Pentecoste voltavam a se verificar na casa de Cornélio (At 10-11). A partir daí, ele se dispôs a levar aos gentios o Evangelho da graça. O eunuco etíope e Cornélio foram os primeiros gentios a ter o privilégio de receber a mensagem da graça salvadora de Cristo.

 

Embora aqueles que tinham sido obrigados a sair de Jerusalém pregassem somente aos judeus (At 11:19), não demorou para que surgisse uma grande igreja gentia que brotou em Antioquia. Aí o termo "cristão", inicialmente empregado com sentido pejorativo por mordazes antioquienses, tornou-se a designação de honra dos seguidores de Cristo. Foi em Antioquia que Paulo começou seu ministério público ativo entre os gentios e foi daí que ele partiu para suas viagens missionárias cujo objetivo final era chegar a Roma. A igreja em Antioquia era tão grande que foi capaz de socorrer as igrejas judaicas quando elas passaram fome. Ela foi o principal centro do cristianismo de 44-68 d.C.

 

A tarefa de levar o Evangelho aos gentios nos "confins" estava apenas começan­do. Começada por Paulo, esta tarefa continua ainda hoje como a missão inacabada da Igreja de Cristo.

 

TAMBÉM AOS GREGOS

 

A Igreja judaico-cristã primitiva demorava a compreender o sentido universal do cristianismo embora Pedro tivesse sido o instrumento na comunicação do Evangelho aos primeiros convertidos judeus. Foi Paulo, capacitado pela revelação de Deus, que teve a visão das necessidades do mundo gentio, dedicando sua vida à pregação do Evangelho a este mundo. Como nenhum outro na Igreja primitiva, Paulo entendeu o caráter universal do cristianismo e entregou-se à sua pregação aos confins do Império Romano (Rm 11:13:15:16). Poder-se-ia até dizer que ele tinha em sua mente o slogan "O Império Romano para Cristo" pelo tanto que ele fez no ocidente com a mensagem da Cruz (Rm 15:15, 16, 18-28; At 9:15, 22:21). Embora não poupasse esforços na consecução deste ministério, ele não negligenciou seu próprio povo, os judeus. Isto se evidencia por sua procura das sinagogas judaicas logo que chegava a uma cidade e pela proclamação do Evangelho a todos os prosélitos judeus e gentios que pudessem ouvi-lo.

 

I. O AMBIENTE DE PAULO

 

Paulo estava consciente de que devia três lealdades temporais. Como jovem judeu, ele recebera educação ministrada apenas aos jovens judeus de futuro e foi educado aos pés do grande mestre judeu, Gamaliel. Poucos podiam se orgulhar de ter mais instrução do que Paulo no que dizia respeito à educação religiosa judaica e poucos se aproveitaram tanto quanto ele da educação que recebeu (Fp 3: 4-6). Era ele também cidadão de Tarso, a principal cidade da Cicília, "cidade não insignificante" (At 21:39). Era também cidadão romano livre (At 22:28) e não tinha dúvidas em usar os privilégios de sua cidadania romana quando estes privilégios podiam ajudá-lo em sua missão por Cristo (At 16:37; 25:11).

 

O judaísmo foi seu ambiente religioso anterior a sua conversão; Tarso foi sua grande universidade e sua atmosfera intelectual, o palco dos primeiros anos de sua vida; e o Império romano foi o espaço político em que viveu e agiu.

 

Este ambiente político não parecia ser tão favorável a alguém para a proclama­ção do Evangelho. César Augusto provocou a decadência da República, exceto para a política, quando estabeleceu em 27 a.C. uma diarquia em que dividiu nominalmente o controle do estado com o senado. Infelizmente, seus sucessores não tiveram a habilidade nem a moral de Augusto e governaram mal. Calígula (37-41) esteve louco durante parte do seu governo; Nero (54-68), sob quem Paulo foi martirizado e a Igreja enfrentou sua primeira perseguição, era um homem cruel e sanguinário que não titubeou em matar membros de sua própria família. Entretanto, Cláudio (41-54) foi um excelente administrador e o Império conseguiu se estabilizar em seu governo. Foi em sua administração que Paulo fez a maioria de suas viagens missionárias.

 

A situação social e moral era mais assustadora do que a política. A pilhagem do Império criou uma classe alta rica de novos aristocratas que tinham escravos e dinheiro para satisfazer seus muitos desejos legítimos e ilegítimos. Esta classe desde­nhava de certo modo a nova religião e viam seu apelo às classes pobres como uma ameaça à sua posição elevada na sociedade. Assim mesmo, alguns desta classe se converteram com a pregação do Evangelho feita por Paulo na prisão em Roma (Fp 1:13).

 

Paulo enfrentou também a rivalidade de outros sistemas de religião. Os romanos eram de certo modo ecléticos em sua vida religiosa e se dispunham a tolerar toda religião desde que esta não proibisse seus seguidores de participar no culto do Estado, que misturava o culto ao imperador com o velho culto do estado republicano e exigia a obediência de todos os povos do Império exceto aos judeus, que por lei eram isentos destes rituais. Aos cristãos não se concedeu tal privilégio e eles tiveram que enfrentar o problema da oposição do Estado. As religiões de mistério subjetivistas de Mitra, Cibele e Isis pediam a associação de muitos outros no Império. O judaísmo, de quem o cristianismo foi distinto como seita separada, enfrentou uma oposição cada vez maior.

 

Os intelectuais romanos aceitavam os sistemas filosóficos, como o Estoicismo, o Epicurismo e o Neo-pitagorismo, que sugeriam a contemplação filosófica como o caminho da salvação. O estoicismo, com sua interpretação panteística de Deus, sua concepção de leis éticas naturais descobríveis pela razão e sua doutrina da paternida­de de Deus e fraternidade do homem, parecia dar um fundamento filosófico para o Império Romano. Alguns imperadores, como Marco Aurélio (161-180), aceitaram suas formulações éticas.

 

Paulo teve que enfrentar este confuso cenário religioso com o simples Evangelho redentor da morte de Cristo. A Arqueologia nos ajuda a datar pontos-chaves na vida e obra de Paulo. Paulo esteve em Corinto 18 meses quando Gálio tornou-se procônsul (At 18:12-13). Uma inscrição em pedra, descoberta em Delfos, menciona que Gálio começou seu trabalho na Ásia no 26.° ano de Cláudio, que foi 51 ou 52 d.C. Assim, a visita de Paulo teria começado 18 meses antes, em 50 d.C. Outras datas em sua vida podem ser calculadas a partir desta com relativa acuracidade.

 

A conversão de Paulo foi também um evento histórico objetivo. Ele falou dela como tal em I Co 9:1 e 15:8 e em Gl 1:11-18. Ela aconteceu no seu encontro com Cristo na estrada para Damasco (At 9:22;26). Esta experiência foi vital para seu trabalho missionário, seu ensino, escritos e teologia.

 

II. A OBRA DE PAULO

 

A índole de Paulo era tão múltipla que é preciso considerar a sua obra sob diferentes aspectos. Cada um dos tópicos seguintes destacará a grandiosidade da tarefa que Deus lhe deu e a aplicação que devotou à realização desta tarefa.

 

A. O Propagador do Evangelho

 

Paulo era ao mesmo tempo sábio e dedicado missionário. Sua vida ilustra o uso de princípios que têm servido muito bem à Igreja no cumprimento da grande comis­são. Uma consulta aos mapas de suas viagens indica o avanço do Evangelho através de sua pregação ao longo do semicírculo que vai de Antioquia a Roma. Paulo adotou como princípio básico a expansão do Evangelho para o Ocidente e é encantador o fato de ter alcançado seu objetivo, Roma, embora, fosse, então, prisioneiro do gover­no romano.

 

Paulo pensava também em termos de áreas que poderiam ser alcançadas a partir de centros estratégicos. Ele sempre começava seu trabalho numa nova área na cidade mais estrategicamente localizada e usava os convertidos para levar a mensa­gem às cidades e regiões adjacentes. É por causa desta prática que ele provavelmente não tenha visitado Colossos (Cl 2:1), uma vez que a forte igreja desta cidade tinha sido fundada por aqueles que ele mesmo enviou de Éfeso.

 

Ele iniciava seu trabalho nos centros romanos estratégicos indo primeiro às sinagogas, onde pregava sua mensagem enquanto fosse bem recebido. Quando surgia a oposição, ele partia para uma proclamação direta do Evangelho aos gentios em qualquer lugar que julgasse adequado. Seu princípio era pregar aos gentios depois de ter pregado aos judeus. Pelo menos é o que se depreende do estudo da história das viagens segundo Atos (Rm 1:16).

 

Depois de fundar uma Igreja, Paulo a organizava com presbíteros e diáconos, a fim de que o trabalho continuasse após sua partida. Ele procurava colocar fundamen­tos sólidos.

 

Ele não queria ser um ônus para as igrejas nascentes que dirigia, as quais deviam assumir a responsabilidade de se sustentarem enquanto pregava em uma nova área. Ele trabalhou em sua profissão de construtor de tendas enquanto pregava ao povo de Corinto (At 18:1-4: cf I Ts 2:9). Ele não fez disto uma regra para os outros, mas sentiu que era necessário para o seu ministério. A igreja deveria também se auto sustentar.

 

Sua dependência da orientação do Espírito Santo em sua obra se evidencia claramente tanto nos Atos como em suas Epístolas (At 13:2,4; 16:6-7). Ele não desejava ir a um lugar sem estar absolutamente certo de que aquele era o campo que Deus tinha para o seu trabalho. Procurava alcançar regiões não alcançadas por outros, a fim de que fosse sempre um pioneiro do Evangelho (Rm 15:20). Este espírito de pioneirismo foi muito produtivo, resultando na chegada do Evangelho de Anti­oquia a Roma e, possivelmente, à Espanha, no curto tempo de sua vida.

 

Estes princípios seguidos pelo apóstolo serviram-lhe no desenvolvimento das igrejas como centros organizados para continuação da pregação do Evangelho. Ele não as deixou sem ajuda constante, pois usava revisitar as igrejas que fundava, a fim de encorajá-las e fortalecê-las (At 15:36). Não é de admirar o rápido crescimento do cristianismo sob esta liderança sadia e inspirada. A igreja também deveria ser auto propagadora.

 

B. As Publicações de Paulo

 

Paulo adotava a prática de se manter em contato com a situação local em cada igreja através de visitadores dessas igrejas (I Co 1:11) ou através de relatos de agen­tes que enviava a visitar as igrejas (I Ts 3:6). Quando a situação local parecia exigir, ele escrevia cartas sob a inspiração do Espírito Santo para tratar dos problemas parti­culares. Ele escreveu duas vezes à igreja tessalonicense para esclarecer uma má interpretação da doutrina da segunda vinda de Cristo. A igreja coríntia enfrentava o problema de uma igreja situada numa grande cidade pagã e Paulo escreveu uma primeira carta para resolver estes problemas, problemas referentes à sabedoria hu­mana e espiritual, próprios de uma igreja localizada numa cidade de cultura grega (I Co 1-4), o problema da moralidade num ambiente pagão (Capítulo 5), os processos entre cristãos nas cortes pagãs (6), problemas matrimoniais (7) e o problema do relacionamento social com os idólatras pagãos (8-10) foram alguns dos assuntos de que tratou em sua correspondência. Sua Segunda Epístola aos Coríntios decorreu da necessidade de afirmar seu apostolado, a fim de que sua autoridade afirmada na primeira carta fosse confirmada. A carta aos gálatas se fez necessária por causa do problema da relação da lei judaica com o cristianismo, para que a fé, e não a lei, fosse vista como o princípio atuante do cristianismo. A carta aos romanos é uma exposição e explicação sistemática de seu Evangelho. As quatro epístolas escritas durante sua prisão em Roma surgiram devido aos problemas especiais nas igrejas de Éfeso, Colossos e Filipos. A epístola pessoal a Filemom trata do problema do senhor e do escravo que se tornam cristãos. As três epistolas pastorais a Timóteo e a Tito tratam dos problemas próprios de um jovem pastor.

 

Deve-se atentar para o fato de que todas estas cartas surgiram de uma crise histórica definida em alguma das amadas igrejas de Paulo. A grandiosidade destes "tópicos do momento" reside no fato de que os princípios que Paulo propôs para resolver os problemas das igrejas do primeiro século ainda são relevantes para a Igreja nos tempos modernos. Os seres humanos enfrentam problemas semelhantes e semelhantes princípios são úteis embora o ambiente temporal e espacial seja diferen­te. As epístolas são sempre de valor para qualquer igreja na solução de seus proble­mas. Paulo sempre equilibrou fórmulas teológicas com aplicação prática.

 

C. Os Princípios da Teologia de Paulo

 

Nenhuma discussão histórica sobre Paulo pode se permitir ignorar as doutrinas básicas desenvolvidas em suas cartas, particularmente na carta à igreja romana. Cristo não deixou nenhum corpo de doutrinas definido. Esta formulação coube ao trabalho de Paulo, conduzido pelo Espírito Santo. Este corpo de doutrinas não estava, entretanto, em contraste com os ensinos de Cristo mas, antes, partia dos ensinos e morte de Cristo.

 

A educação de Paulo no lar, na sinagoga e sob Gamaliel; sua observação da natureza (Rm 1:19-20), sua experiência de conversão; sua mente criativa e, acima de tudo, a revelação divina, foram importantes no desenvolvimento de sua teologia.

 

A essência do evangelho paulino pode ser sintetizada facilmente. Paulo entendia que a felicidade e a utilidade eram os objetivos básicos a que aspiram todos os homens. Felicidade e utilidade nesta vida e na futura dependem da conquista do beneplácito de Deus. O favor de Deus pode ser assegurado ao homem que faz a vontade de Deus. Paulo e seus compatriotas judeus criam que a observância da lei de Moisés, que era uma expressão da santidade de Deus, garantiria uma vida feliz e útil. Paulo, porém, descobriu a tristeza de que as obras da lei somente resultavam no conhecimento do pecado e deixavam o homem sem esperança de executar a vontade de Deus como expressa nesta lei (Rm 7). A experiência na estrada de Damasco revelou a Paulo que não é a Lei mas a Cruz de Cristo o ponto de partida para a vida espiritual. Cristo, que guardara perfeitamente a lei judaica, como homem perfeito e Deus, ofereceu-se na Cruz em lugar do homem pecador e assumiu o fardo do pecado humano (Gl 3:10,13). Os homens precisam aceitar pela fé (Rm 5:1) a obra que Cristo já fez por eles.

 

O sistema ético de Paulo desenvolve-se a partir desta união pessoal do crente com Cristo pela fé. Esta relação vertical deve ser completada com uma relação horizontal na qual o crente se une aos irmãos pelo amor cristão expresso numa vida moral (I Jo 3:23: Ef 1:15). Nem o legalismo do judaísmo, nem o racionalismo do estoicismo, mas o amor cristão deve ser a fonte da conduta cristã. A união mística do crente com o Senhor deve ser o fundamento do amor. Esta vida de amor envolve separação da corrupção pessoal que vem da adoração de ídolos, da impureza sexual ou da embriaguez — os grandes pecados do paganismo. O que se deve buscar, então, positivamente, é o serviço do amor para com os outros e a firmeza quanto à integridade pessoal.

 

Um sistema de ética assim não significava repúdio da lei moral judaica mas, antes, representava o cumprimento do elevado nível do amor na família, na comunida­de e na sociedade em geral. Os padrões éticos elevados dos cristãos impressionavam seus vizinhos pagãos com a grandeza da fé cristã. A própria vida de Paulo de serviço dedicado era uma indicação tanto a judeus quanto a gentios do que Deus faria na formação de uma personalidade cristã dedicada ao serviço para glória de Deus e para o bem do homem.

 

A filosofia paulina da história está intimamente ligada às suas posições éticas e teológicas. Ele rejeitava a teoria cíclica da história, que caracterizava o mundo antigo, e a teoria moderna de progresso evolutivo indefinido, adotando uma interpretação sobrenatural cataclísmica da história que se funda no fracasso do homem não-regenerado e no poder de Deus para executar seu plano divino. Esta doutrina não se limita a nações mas engloba a raça humana. Segundo ela, o progresso pode vir apenas através do conflito espiritual em que ao homem é dado força através da graça de Deus. Derradeiramente, Deus será o Vencedor sobre todas as forças do mal que foram provisoriamente derrotadas na Cruz do Calvário por Cristo (Rm 11:36; Ef 1:10).

 

D. Paulo como polemista

 

Paulo jamais se contentava em simplesmente apresentar o cristianismo. Amea­ças à pureza da doutrina cristã levavam-no à luta contra o inimigo. Pela voz e pela pena, ele lutou pela pureza da doutrina cristã de seu tempo. Nenhuma interpretação falha da pessoa ou da obra de Cristo escaparam à sua condenação, nem deixou de tentar convencer os errados a voltarem à fé.

 

O problema do significado e dos meios da salvação foi a primeira dificuldade que Paulo enfrentou durante o Concílio de Jerusalém ao final de sua primeira viagem missionária. A Igreja, nascida nos quadros do judaísmo, desenvolvera dois grupos. Um grupo reacionário de cristãos judeus de formação farisaica cria que tanto os gentios como os judeus deviam observar a lei de Moisés para a salvação. Eles queriam tornar o cristianismo uma seita particular do judaísmo. O outro grupo entendia que a salvação vinha pela fé em Cristo somente e que a oferta da salvação era para todos, e não por meio de obras.

 

A visita dos judaizantes a Antioquia, ostensivamente com autoridade de Tiago para pregar à moda antiga (At 15:24), provocou o encontro de Jerusalém, em 49 ou 50, a fim de discutir o problema. Comissionados pela Igreja em Antioquia (At 15:2) e confirmados por revelação (Gl 2:2), Paulo e Barnabé dirigiram-se para Jerusalém para o primeiro e possivelmente mais importante concílio da Igreja em sua história.

 

Eles narraram as suas atividades numa reunião geral pública da igreja (At 15:4-5), após o que se encontraram com os apóstolos e presbíteros num encontro especial de cunho reservado para discutir o problema com profundidade e procurar uma solução (At 15: 6; Gl 2:2-10). Este encontro reservado parece ter sido seguido por outro encontro da igreja toda no qual a decisão tomada foi referendada por todos os presentes (At 15:7-29). O elogio da obra de Paulo entre os gentios (At 15:25-26; Gl 2:9) e a não-obrigatoriedade dos gentios de guardarem a lei judaica (At 15:19) foram os resultados imediatos da conferência. Exigências menores para satisfazer os cren­tes judeus, como a abstenção de sangue ou coisas sufocadas, foram estabelecidas. Os gentios convertidos foram aconselhados também a evitar os pecados da idolatria e da imoralidade — pecados que poderiam ser uma tentação especial para os converti­dos de um ambiente pagão devasso (At 15:20-21). Fica logo claro que estas solicita­ções em nada feriam os princípios básicos de como o homem é justificado. Elas foram criadas apenas para facilitar as boas relações entre convertidos judeus e gentios.

 

Os acontecimentos do Concílio de Jerusalém, revelaram a tenacidade de Paulo quando uma questão fundamental estava em jogo. Em nenhum momento ele fala da circuncisão de Tito no Concílio (Gl 2:3), mas no começo de sua segunda viagem, quando Timóteo tornou-se seu auxiliar, circuncidou Timóteo (At 16:1-3), para que a falta deste ritual não fosse um obstáculo na comunicação do Evangelho. Paulo estava pronto para fazer concessões secundárias, desde que isto facilitasse seu trabalho; mas ele não permitiu a circuncisão de Tito em Jerusalém porque a liberdade gentílica quanto à observância da lei ritual judaica era o princípio pelo qual lutava.

 

A liberação do cristianismo da observância da lei cerimonial judaica foi o resulta­do de maior alcance do Concílio. A partir daí, a fé permanece como o único meio pelo qual o homem alcança a salvação. Como esta fé é universal, o cristianismo está isento de perigo de tornar-se uma simples seita do judaísmo. A nova lei do amor, que conduz à observância da lei moral judaica a partir do amor a Deus e não de um sentido de obrigatoriedade, torna-se, então, a base da ética cristã. É interessante notar a feição democrática com que a Igreja resolveu seu grande problema. A decisão foi tomada pela Igreja e seus líderes sob a direção do Espírito Santo. Os cristãos judeus, que tinham sido salvos pela fé, ficaram livres para observar a lei de Moisés como uma tarefa voluntária caso quisessem.

 

O cristianismo não pode esquecer a lição do Concílio de Jerusalém. Se isto acontecer, ele perderá a sua vitalidade. O mesmo problema foi enfrentado pelos Reformadores, que viram que a igreja romana estava exigindo obras humanas em acréscimo à fé como condição para a salvação. Os liberais modernos com sua ênfase sobre um Deus alcançável pelas realizações éticas incorreram no mesmo erro. O problema do Concílio de Jerusalém é perene e os princípios que triunfaram são os princípios que se mostraram relevantes através da história da Igreja.

 

Paulo enfrentou também o desafio do racionalismo grego quando lutou contra um gnosticismo incipiente na Igreja. Alguns homens procuravam intelectualizar os meios da salvação assim como os cristãos judeus tinham tentado legalizá-los. O gnosticismo tornou-se um perigo especial na igreja colossense.

 

Os gnósticos sustentavam uma filosofia dualística que fazia uma clara distinção entre o espírito como bem e a matéria como mal. De acordo com eles, o elo entre o espírito puro e a matéria má é uma hierarquia de seres celestiais. Cristo é visto como um membro desta hierarquia. Os anjos devem receber culto por serem parte desta hierarquia (Cl 2:8, 18-19). A salvação deve ser alcançada principalmente por atos ascéticos de negação dos desejos do corpo material e mau (Cl 2:14-17, 20-23) e por uma gnosis especial ou conhecimento acessível somente à elite entre os cristãos. A fé é relegada a uma posição secundária neste sistema que serve aos interesses do orgulho humano.

 

Paulo respondeu a esta heresia pela afirmação irrestrita da total suficiência de Cristo como Criador e Redentor (Cl 1:13-20). Cristo é a plena manifestação de Deus e não é de forma alguma inferior a Deus (Cl 1:19; 2:9). Somente nesta doutrina sentia Paulo que o homem podia ter a segurança de um Salvador capaz de resolver o problema do pecado.

 

O gnosticismo foi a primeira heresia enfrentada pela Igreja, mas não seria a última. O erro é perene e geralmente surge pelos mesmos motivos em várias oca­siões. O orgulho da razão humana e sua tendência racionalista podem levar à heresia, como foi o caso da igreja em Colossos. A permanência da herança religiosa do período pré-cristão na vida individual pode levar a uma mistura de verdade e erro com terríveis consequências para a salvação. Foi este o erro dos judaizantes. Mau uso ou ênfases exagerados de alguma passagem bíblica podem provocar o erro. Às vezes o líder equivocadamente entusiasmado, na tentativa de proteger a verdade, pode subvertê-la; foi este o caso de Montano no segundo século.

 

Não surpreende que Paulo, com esta fé, com esta coragem e com uma sólida perspectiva de sua tarefa, tenha sido capaz de levar a mensagem da salvação às nações gentílicas do Império Romano e fincar a cultura cristã na sua triunfante caminhada ocidental pela Europa.

 

Ele foi o intérprete singular do significado da vida e da morte de Cristo em termos de salvação para o homem pecador. Ele deixou a fé livre da intromissão do legalismo e do racionalismo. Ele cuidou dos detalhes da organização das igrejas cristãs e se manteve em constante correspondência com elas a fim de resolver seus problemas segundo uma perspectiva cristã. Como ninguém, Paulo compreendeu o significado cósmico de Cristo no tempo e na eternidade. Foi ele que, como o "Apóstolo dos Gentios" (Rm 11:13; 15:16), interpretou Cristo ao mundo gentio.

 

Que esse texto do contexto do primeiro século ajude a compreender o livro de Atos e que posamos tirar o máximo proveito desse trimestre na EBD.

 

Bibliografia E. Cairns