TRINTA ANOS QUE MUDARAM O MUNDO!

 

Foram três décadas-chave na história do mundo. Bastaram aproximadamente trinta anos (entre 33 e 64 d.C.) para que um novo movimento crescesse tanto que chegou a ganhar suficiente credibilidade para tornar-se a maior religião, transformando centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Essas décadas provocaram um tremendo impacto em todos os setores da sociedade de então. Tudo começou com um grupo de doze homens, algumas mulheres... e logo o Espírito desceu.

 

O livro que mais fala desse fenômeno do crescimento da fé cristã é Atos dos Apóstolos. Tem havido muita discussão a respeito do nome correto do livro. Não são os atos de todos os apóstolos, porque só alguns apóstolos são destacados, especialmente, Pedro, Paulo e Tiago, meio-irmão de Jesus. Talvez o nome mais exato, embora extenso, seria Atos do Espírito Santo, através dos Apóstolos.

 

O versículo-chave do livro é Atos 1:8 - "Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra". Assim, Lucas mostra o propósito do livro: "trata-se de uma história especial sobre o estabelecimento e a extensão da igreja entre judeus e gentios pela localização gradual de centros de influência em pontos salientes do Império Romano, desde Jerusalém até Roma" (Bíblia Vida Nova). Dr. Lucas mostra que com a descida do Espírito Santo no Dia de Pentecostes os discípulos receberam o poder para testemunhar, começando em Jerusalém, depois em Judéia e Samaria... e até aos confins da terra.

 

Nesta primeira lição, vamos considerar a situação histórica do livro, autor, personagens, sua relevância para hoje, como também seu prefácio.

 

A SITUAÇÃO HISTÓRICA DOS ATOS

 

Para compreendermos a grandeza do sucesso dos primeiros crentes, precisamos entender as forças que os ajudavam e as forças que agiam contra eles na cultura em que estavam.

 

1. Três vantagens para os primeiros crentes

 

a. Paz romana - Durante quase 100 anos, o império romano foi rasgado por sucessivas guerras civis até a ascensão de Augusto César, em 31 a.C. Paz reinou pelo império, e isso trouxe estabilidade e boas comunicações, através das grandes estradas romanas, que facilitaram muito a disseminação do Evangelho. Lucas relata viagens que antes teriam sido impossíveis. Viajar era seguro e rápido.

 

b. Língua grega - Outro fator que ajudou no avanço da Igreja de Cristo foi a cultura grega. Embora o latim fosse a língua oficial, a maioria falava grego. É importante notar que Paulo discursou aos oficiais romanos em grego. Esse foi o motivo por que o Novo Testamento foi escrito em grego, o que assegurou uma comunicação universal.

 

c. Fé judaica - Os romanos nunca entenderam os judeus, mas muitos os respeitaram e foram atraídos ao judaísmo, especialmente por causa do seu monoteísmo, do seu livro sagrado (o Antigo Testamento foi traduzido para o grego no segundo século a.C.) e do seu tipo de culto.

 

2. Duas barreiras para os primeiros crentes

 

É tão comum pensar que era fácil para os primeiros crentes evangelizar. Não! Era uma tarefa árdua. Para os gregos, a mensagem do Evangelho era louca, para os romanos, fraca e para os judeus, escandalosa. Crentes em toda parte enfrentaram oposição como sendo antissociais, ateístas e esquisitos.

 

a. O Evangelho era escandaloso para os judeus - Não era fácil, e não é até hoje, para um judeu seguir a Cristo.

 

• Os mensageiros eram leigos iletrados e incultos (At 4:13). Os judeus eram acostumados com os eruditos rabis.

• A mensagem parecia uma afronta ao judaísmo. A proclamação de Jesus, o carpinteiro de Nazaré, como o Messias foi algo incompreensível. Pior ainda, o livro da lei dizia que "o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus" (Dt 21:23). Então, Jesus, pela Sua morte na cruz, falhou e foi maldito. Era ridículo e ofensivo sugerir que Ele era o Messias prometido.

•A eclesiologia da igreja parecia algo blasfemo. Os crentes não observavam o antigo sistema sacrificial, não praticavam circuncisão e não frequentavam o templo. Não é para ficar surpreendido com a reação violenta dos judeus contra a defesa de Estêvão (At 7:54). Aonde os crentes iam, havia tumultos, instigados pelos judeus (At 13:50; 14:1-5,19; 17:5-9).

 

b. O Evangelho era loucura para os gentios

 

• Por causa da sua posição religiosa que provocou oposição, e mesmo perseguição. Os romanos tinham muitos deuses, que formavam parte do culto do Estado, enquanto os crentes pregavam que havia um só Deus, e mais: "Não terás outros deuses diante de mim" e "Não farás para ti imagem de escultura... e nem as adorarás". Se você não se envolvia nas observâncias religiosas dos velhos deuses, você era uma ameaça ao Estado. Também os romanos não entendiam os crentes que tinham um rito de "comer o corpo de Jesus" - isso falava de canibalismo.

•Por causa da sua vida social nada atraente. Não frequentavam o teatro e não gostavam das histórias dos deuses.

• Por causa da tensão na família, que surgia, por exemplo, quando a esposa era crente e o marido não. Era muito difícil um casamento misto funcionar.

 

Em cada área da vida, o crente daquele tempo enfrentava muitos obstáculos. Se você acha que é difícil ganhar pessoas para Cristo hoje, deve ser grato por não ter vivido nos dias da igreja primitiva, quando a tarefa era imensamente mais difícil.

 

O AUTOR DO LIVRO DOS ATOS

 

1. O que o NT diz a respeito de Lucas, o autor

 

a. Escritos de Paulo (Cl 4:10,14; Fm 24; 2 Tm 4:11) - Lucas era médico, crente gentílico, companheiro de Paulo e associado com João Marcos. Lucas esteve na prisão com Paulo, mas parece que não foi compulsória.

 

b. Prefácio a Lucas e Atos (Lc 1:1-4) - Geralmente é aceito que Lucas 1:1-4 é o prefácio, tanto do Evangelho como também de Atos. Lucas delineia cinco passos na composição do seu trabalho:

 

• eventos históricos - "uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram" (v.1);

• testemunhas contemporâneas - "foram deles testemunhas oculares" (v.2);

• pesquisa pessoal - "acurada investigação de tudo desde sua origem" (v.3);

• escrita - Lucas já tinha comentado que "muitos houve que empreenderam uma narração coordenada" (v.1) (Marcos estava incluído aqui). Desta feita é a vez de Lucas - "me pareceu bem dar-te por escrito" (v.3);

• o primeiro leitor -"excelentíssimo Teófilo" (v.3).

 

Assim os eventos realizados foram testemunhados, investigados e escritos para que sejam a base da nossa fé e dão "plena certeza das verdades" (v.4).

 

c. As passagens "Nós" (At 16:10-17; 20:5-15; 21:1-18; 27:1-28:16) - Lucas foi testemunha ocular e participante de certos eventos. Várias vezes, Lucas muda da terceira pessoa do plural - "eles" para a primeira pessoa do plural - "nós". Estude essas passagens bíblicas.

 

2. Sua igreja em Antioquia da Síria

 

A tradição diz que Lucas era da igreja da Antioquia da Síria. É bom notar as qualidades desta igreja que influenciaram muito a vida de Lucas (At 11:19-30; 13:1-4). Foi uma igreja fundada por Barnabé e Paulo, que cresceu rapidamente e tinha uma liderança forte. Era uma igreja de oração, sem distinção social; uma igreja que contribuía e tinha uma paixão por evangelismo. Foi em Antioquia que os crentes, pela primeira vez, foram chamados cristãos, provavelmente porque sempre estavam falando de Cristo! A vida de Lucas foi influenciada pela sua igreja.

 

OS PERSONAGENS DO LIVRO DOS ATOS

 

É interessante notar algo sobre os primeiros evangelizadores, que causaram um impacto impressionante no mundo.

 

1. Eram leigos sem nenhuma qualificação (At 4:13)

 

"Eram homens iletrados e incultos". Não havia nenhum rabi entre eles. É a mesma coisa hoje - os leigos são os mais responsáveis pelo crescimento da igreja.

 

2. Eram leigos sem nenhuma organização

 

Não tinham nenhuma sede, secretárias, telefones, rádio ou TV; nem se imaginava que algum dia teríamos algo como a internet; enfim, nenhuma das coisas que consideramos indispensáveis, hoje, para um grande impacto na evangelização. Não tinham templos, nem prédios próprios nem finanças. De fato, tinham de levantar às 4 horas da madrugada para fazer tendas (At 18:3) ou o equivalente, antes de pregar nas ruas.

 

3. Eram crentes transculturais (At 2:9-11)

 

Na igreja primitiva encontramos pessoas de diversas classes: judeus e gentios, gregos e romanos, samaritanos e africanos, homens e mulheres, todos trabalhando juntos.

 

4. Eram crentes bem unidos (At 2:44-46; 4:32-35)

 

"Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum"... "ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das cousas que possuía; tudo, porém, lhes era comum". Praticavam hospitalidade.

 

5. Tinham uma mobilidade incrível

 

Veja o exemplo da família de Áqüila e Priscila: num momento estão em Corinto (At 18:2), noutro em Éfeso (At 18:24) e outro em Roma (Rm 16:3). Graças a Deus por aqueles que em nossos dias estão prontos a mudar de cidade, a fim de plantar igrejas onde ainda não existe testemunho do Evangelho.

 

6. O contexto deles e sua relevância para nós hoje

 

E fácil pensar que os primeiros crentes eram totalmente diferentes de

nós. Mas há algumas semelhanças notáveis.

 

a. Seu contexto era os centros urbanos - O alvo dos primeiros crentes era as grandes cidades - Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Filipos, Roma, Corinto-cidades-chave. A influência das cidades grandes é muito importante para a evangelização.

 

b. Seu contexto era de muitas religiões - Eles não dialogavam com as outras ideologias, nem as denunciavam, simplesmente proclamavam Cristo com todo o poder de persuasão ao seu dispor. Mas havia diferenças na maneira de apresentar o Evangelho - por exemplo, no meio do paganismo de Listra (At 14:11 -18) e no contexto filosófico de Atenas (At 17:16-31). Essa é uma lição importante para nós.

 

c. Seu contexto era de rejeição - Nem sempre expressada da mesma maneira. Às vezes, havia apatia, como em Atenas, outras vezes era oposição total. Mas o que provocou conversões foi o testemunho de vidas totalmente transformadas pelo evangelho, vidas cristãs autênticas.

 

CONCLUSÃO

 

Esta lição é o início do desafio para a igreja de nossos dias. Vamos empreender uma nova visão para a obra do Senhor e um novo compromisso com a Igreja de Cristo!

 

Bibliografia J. R. W. Stott