Gideão e os midianitas

 

Gideão e Sansão recebem tratamento mais minucioso do que qual­quer outro juiz. Três capítulos (100 versículos) são devotados a Gideão e quatro capítulos (96 versículos) a Sansão. A maior parte dos eru­ditos aceita a idéia de que a narrativa de Gideão é composta de dois extratos, embora se admita, em geral, que é impossível distinguir um do outro. Não pode haver objeção fundamental contra isto, visto que a composição e editoração estão sob a égide da inspiração, tanto quan­to a autoria. Se o editor de Juízes tinha duas narrativas dos mesmos eventos, ele provavelmente colocaria os elementos complementares lado a lado, e dificilmente seria tão falto de discernimento a ponto de admitir contradição. Entretanto, não devemos aceitar com menosprezo uma narrativa duplicada, simplesmente porque há diferenças marcan­tes, de acordo com as convenções literárias que aceitamos. No poema de Débora, chamamos atenção para a tendência à elaboração, que é conseqüência do artifício do paralelismo: faz-se uma declaração, que é repetida em linguagem semelhante, ou com adições significativas, antes de o pensamento prosseguir. A atitude básica mental expressa desta forma, na poesia, inevitavelmente se revelaria na prosa, o que poderia explicar algumas duplicações. É entristecedor verificar que grande parte da crítica investigadora da estrutura do Velho Testamento desenvolveu-se no vácuo, limitando-se exclusivamente às Escrituras, ao invés de incluir em seu escopo a literatura contemporânea de outros povos adjacentes, a fim de verificar-se se fenômenos semelhan­tes ocorrem neles também.

 

6:1-6. A opressão midianita. A vitória sobre Sísera e sobre as hostes cananéias, tão manifestamente obra do Senhor, conduziria, sem dúvida alguma, a nova fé, em Israel. Contudo, o passar dos anos apagou a memória do grande livramento, e a próxima geração reverteu a uma religião sincretista, indolente, que mais uma vez ameaçou obliterar a religião distintiva de Israel. O historiador viu a mão punitiva do Senhor em nova e formidável opressão, chefiada pelos midianitas, tradicionalmente relacionados aos israelitas (Gn 25:2). Midiã estava localizada ao sul de Edom, na extremidade norte do golfo de Aqaba. Sendo um grupo seminômade, tiveram como aliados em suas invasões de Israel aos amalequitas, que ocupavam a área ao sul de Judá, e os povos do Oriente, um grupo nômade do deserto sírio. Nesses saques foi empre­gada uma "arma secreta": o camelo. Neste capítulo está a primeira documentação do uso em larga escala deste animal, numa campanha militar. Tal arma deu aos midianitas e seus aliados uma imensa vantagem: uma força de combate rápida, de longo alcance que, certamen­te, encheu de terror o coração dos israelitas. A extensão destes ataques pode ser observada com a ajuda de um atlas: a tribo de Manasses era a mais afetada; contudo, os territórios de Aser, Zebulom, Naftali e Efraim estiveram envolvidos, também (6:33; 8:1); a penetração che­gou até Gaza, na extremidade sul da Filístia. A batalha final foi travada no vale de Jezreel (6:33). É surpreendente a ausência de Issacar, visto que seu território deve ter sido afetado. Esta invasão parece ter sido um evento anual, durante os sete anos da opressão midianita e, num estilo tipicamente nômade, os invasores chegaram com seus gados e tendas (5), morando na periferia. O símile como gafanhotos é apropriado, pois indica a devastação total produzida por estas hor­das ávidas, que se moviam de uma área para outra. Seria bastante considerável o efeito acumulativo destas invasões: toda a agricultura era afetada. O roubo dos rebanhos, colheitas e frutos de Israel repre­sentava invernos longos e sofridos. Além disso, não era seguro habitar em cidades abertas, que eram o alvo natural dos atacantes à procura de suprimentos. Assim, os israelitas foram forçados a viver existências primitivas, nas regiões montanhosas, inacessíveis (2).

 

6:7-10. A condenação profética. Os filhos de Israel parecem ter-se voltado ao Senhor, em sua angústia, e como último recurso, o que dificilmente indica fé religiosa vital. A razão de seu infortúnio lhes foi trazida de forma adequada através de um profeta anônimo, cujas palavras foram semelhantes às do anjo do Senhor em Boquim (2:lss.). O fracasso fundamental dos israelitas era seu esquecimento das implicações do relacionamento com a aliança, com o Deus que havia feito grandes coisas para eles, o que exigia obediência leal, algo que Israel definitivamente não tinha. A referência aos deuses dos amorreus (10) pode confirmar que o local desta perseguição é a área montanhosa central.

 

6:11-24. A chamada de Gideão. A alternância do uso de frases para descrever o visitante divino de Gideão indica que o anjo do Senhor era sinônimo do próprio Senhor. A teofania foi em forma humana, como era usual na parte anterior, mais primitiva, do período véterotestamentário; a linguagem era fortemente antropomórfica, permitindo personalidade total à deidade. O local de Ofra (11) não é definitiva­mente conhecido, contudo, os detalhes fornecidos servem para distin­gui-la da Ofra benjamita (Js 18:23; 1 Sm 13:17). O carvalho, ou árvore sagrada, era o local em que os oráculos de Deus eram tradi­cionalmente dados (c/. 4:5). O pai do Gideão, Joás, era descendente de Abiézer, filho de Manasses, cuja porção tribal ficava ao oeste do Jordão (Js 17:2). Podemos obter uma idéia da extensão da influência exercida pelos midianitas e suas incursões, pela referência a Gideão malhando o trigo no lagar, que era, normalmente, uma concavidade escavada numa rocha, havendo um canal ligando-a a uma tina, mais abaixo. As uvas eram colocadas nesta depressão e pisadas, para esma­gamento, escorrendo o suco até a tina. A malhação do trigo usualmen­te era feita por um trenó debulhador, puxado por bois, em área exposta, de maneira que o vento carregasse a palha; contudo, Gideão estava improvisando no lagar, longe das vistas dos bandos de assaltantes. Esta referência indica, também, a pequenez da colheita. Podia ser batida com uma vara, num lugar confinado.

 

O diálogo de Gideão com o anjo do Senhor não deixa de apre­sentar seus tons humorísticos, visto que Gideão, descrito como homem valente (12), e como candidato a libertador de seu povo, apresenta, em contraste, sua total inadequação e fraqueza. Entretanto, é exata­mente quando o homem se torna cônscio de sua própria fraqueza e das dificuldades da situação que o Senhor o toma e o usa. O homem que confia em sua força inata provavelmente não pedirá a graça de Deus, nem Lhe dará glória por qualquer coisa que atinja. É verdade, também, que o Senhor não viu apenas o homem como era — fraco e medroso — mas, o mesmo homem como poderia ser — forte, reso­luto e corajoso.

 

13-16. A queixa de Gideão sem dúvida era compartilhada pela maio­ria de seus contemporâneos: o Senhor os havia abandonado. Seus feitos maravilhosos eram do passado, não do presente. Gideão tam­pouco convenceu-se pela resposta cheia de segurança, da parte de Deus (14), de que o livramento estava a caminho. Ao invés, descre­veu-se a si mesmo como a pessoa menos qualificada para tal função. Suas palavras podem indicar sua humildade natural, mas podem tam­bém basear-se nos duros fatos da experiência. Gideão sabia quão em­pobrecido estava seu pai, nessa época de crise. A segunda certeza da parte do Senhor (16) parece ter tido maior efeito sobre Gideão. Diga-se, de passagem, que há certezas sem fim, nos versículos 14 e 16, para todos quantos forem chamados para o trabalho do Senhor. Há poder na certeza do chamado do Senhor (14); há poder maior ainda na certeza da comunhão com Deus (16). Porventura não te enviei eu? e Já que eu estou contigo têm seu paralelo, no Novo Testamento, em Mateus 28:19, 20, palavras estas que têm sido fonte de poder e inspiração para muitos que, como Gideão, têm sido chamados para o serviço de Deus.

 

17-24. Gideão não estava totalmente consciente da identidade dAque-le que o estava convocando, mas percebeu que havia algo singular a Seu respeito; daí, seu pedido de um sinal, e seu oferecimento de uma dádiva (oferta, no heb. minha), palavra freqüentemente usada para as ofertas alçadas, espontâneas, no sistema sacrificial israelita; era, também, usada para caracterizar o tributo trazido a um rei, ou superior (cf. nota sobre 3:15). O lazer do oriente se reflete no tempo que deve ter sido tomado para preparar uma refeição (cf. Gn 18:6ss.). A efa de farinha (19) pesava entre 14 e 18 quilos; numa época de escassez, por si só era uma dádiva considerável. A refeição foi dis­posta de acordo com as instruções do anjo do Senhor (20); a rocha sobre a qual o alimento foi colocado seria, provavelmente, parte do próprio lagar. Tem-se sugerido que se tratava de um velho altar de pedra, com escavações em forma de vaso para recepção de libações; contudo, tais altares, embora bem conhecidos na antigüidade, não são necessariamente indicados aqui. Somente quando a refeição foi consu­mida pelo fogo, ao toque do cajado do anjo, após o que o próprio anjo desapareceu (21) é que Gideão percebeu, com terror, a natureza do visitante celestial (22). Acreditava-se em todo o Israel que nenhum homem poderia ver Deus, face a face, e continuar vivendo (Gn 16:13; 32:30; Êx 20:19; 33:20; Jz 13:22; Is 6:5). Gideão, tendo rece­bido certeza de que nenhum mal lhe sobreviria, imediatamente erigiu um altar, cujo nome, o Senhor é paz, reflete as palavras iniciais da promessa divina. Este altar que, sem dúvida, tornou-se um centro de interesse e de adoração, em seguida à retumbante vitória de Gideão, existia, ainda, nos dias do editor, o que indica um lapso de tempo considerável, porque do contrário não haveria razão para a obser­vação.

 

6:25-32. A primeira missão de Gideão. Não houve um longo período de tempo entre a chamada de Gideão e a atribuição de sua primeira missão, a qual estava, significativamente, bem à mão. Aquele homem, que deveria remover o jugo dos midianitas, e levar seu povo de volta à verdadeira fé no Senhor, precisava acertar as coisas primeiro, em sua própria casa. Existem inconsistências estranhas, na narrativa, que refletem as tendências sincretistas da época, sugerindo fortemente que, para Joás, Javé era considerado como sendo um dos deuses Baal. Seu próprio nome é composto com o nome de Javé (lit. "Javé deu"); con­tudo, um dos nomes de seu filho, Jerubaal (que significa "que Baal possa acrescentar"), incorpora o nome de Baal. Mais tarde, o nome foi deliberadamente mudado para Jerubesete (2 Sm 11:21), significan­do a palavra hebraica bosheth "vergonha", a qual substituiu Baal, o deus cananita por causa de quem Israel desencaminhou-se, adorando-o. Outros exemplos desta tendência podem ser vistos nos nomes de Isbaal = Isbosete; Meribaal = Mefibosete). O carvalho sagrado con­trasta com o poste-ídolo (Aserote na ARC), um pilar de madeira que representava a árvore sagrada, a qual estava regularmente associada ao culto cananita. O altar que Gideão cons­truiu faz contraste com o altar a Baal, de seu pai. Até mesmo a refe­rência ao boi que Gideão usou, e depois sacrificou, pode adaptar-se a este padrão, visto que o boi era o animal sagrado dos cultos de fertilidade. O próprio "El", chefe do panteão cananita, freqüentemente era chamado pelo epíteto de "Boi". Este animal específico poderia ter sido designado para os sacrifícios a Baal.

 

O altar que Gideão havia construído, no lugar onde se dera a teofania (24), de maneira alguma tinha relação com o altar que deve­ria erigir agora, por ordem do Senhor: "edifica ao Senhor teu Deus um altar, no cume deste baluarte" (26). A pedra não era a do lagar, mas um baluarte, ou fortaleza, talvez um lugar de refúgio, como um penhasco íngreme, inacessível, que formava um lugar para esconder-se, usado por Joás e seus vizinhos, quando os midianitas estivessem nas cercanias. A referência ao boi e, especialmente, aos dez servos, sugere que a família de Gideão não era tão insignificante como ele havia dado a entender no vers. 15. Na verdade, Joás aparece como o guarda do santuário de Baal, que servia a toda a comunidade. Gideão cumpriu as ordens ao pé da letra, contudo, não à plena luz do dia, porque era tal o respeito devido a Baal que Gideão temia, não apenas os demais habitantes da cidade, mas até os membros de sua própria família (27). A prova de que seus temores eram baseados na realidade está na reação do povo ao ver a devastação ocorrida em seu santuário (28). As investigações feitas logo indiciaram a Gideão (um segredo conhecido por dez homens não é segredo); isto levou ao pedido de pena de morte para ele, pedido este que Joás rejeitou com sólido bom senso. Se Baal fosse verdadeiramente um deus, intervir a seu favor seria um insulto digno de morte (31); um deus que fosse verdadeiramente Deus poderia vingar-se a Si mesmo, sem necessidade de interferência humana. Fosse este conselho seguido pelos devotos das religiões do mundo, não se excetuando nem mesmo muitos que a si mesmos se chamam de cristãos, o mundo teria sido poupado de muita tortura, de muito derramamento de sangue, de muita miséria indescritível. A defesa que Joás fez de seu próprio filho foi, possivel­mente, o primeiro passo na direção de sua própria reabilitação.

 

6:33-35. A resposta de Gideão à invasão midianita. Indica-se, aqui, invasão anual dos midianitas e seus aliados. Pelo oitavo ano consecutivo eles atravessaram o Jordão e acamparam no vale de Jezreel, na extremidade leste de Esdrelon, a qual era não apenas uma área particularmente fértil, mas proporcionava, também, um ponto conve­niente para ataques nas áreas circunvizinhas. Sabemos que os irmãos de Gideão foram mortos no Tabor, nesta área (8:18), não sendo abso­lutamente certo, contudo, que isto aconteceu nesta época em foco. Gideão tornou-se um juiz carismático, típico, quando o Espírito do Senhor revestiu este jovem (34). O verbo é sugestivo, significando "bem vestido com", dando a entender possessão completa (cf. 1 Cr 12:18; 2 Cr 24:20, em que o mesmo verbo ocorre). Jacob M. Myers observa: "O Espírito do Senhor tornou-se encarnado em Gideão, o qual, então, tornou-se uma extensão do Senhor." Assim equipado, Gideão estava pronto para a imensa ta­refa que o aguardava. As tribos foram, então, conclamadas (35). O fato de que Abiézer, cidade natal de Gideão, foi a primeira a respon­der, deve ter sido um encorajamento para ele, e sinal de que sua resoluta ação anterior não causara mágoa duradoura. Manasses, sua própria tribo, da mesma forma atendeu à sua convocação, rapidamente seguida de representantes de Aser, Zebulom e Naftali (veja-se nota sobre 6:1-6), embora os contingentes totais destas tribos poderiam não ter participado da batalha senão após o sucesso inicial (cf. 7:23). A omissão de Efraim, a mais poderosa das tribos, pode revelar a timi­dez de Gideão, até mesmo neste estágio. Talvez ele temesse a reação dos dirigentes efraimitas se ele, membro de uma tribo menos pode­rosa, fosse tão presunçoso a ponto de eleger-se como líder. Em vista dos acontecimentos posteriores (7:24; cf. 8:lss.), o erro de não convocar os efraimitas foi significativo.

 

6:36-40. O sinal da lã. A fé de Gideão não era constante. Conhecia momentos de incerteza tanto quanto grandes alturas. Demonstra-se, aqui, de modo extraordinário, a paciência do Senhor: Gideão procurou duas vezes uma confirmação do desafio que lhe fora apresentado. Graciosamente o Senhor acomodou-se ao pedido de Gideão, por compreender completamente a fragilidade da natureza humana (cf. Sl 103:14). A razão para a mudança nos detalhes do sinal foi, provavelmente, a percepção de Gideão de que a lã absorveria orvalho pesado muito mais do que a pedra da eira e, assim, secar-se-ia muito menos rapidamente quando o sol se erguesse. O contrário seria um milagre muito maior, e isto mesmo Gideão pediu, consciente de que estaria pertíssimo de provocar a ira de Deus com sua falta de confiança, procurando, entretanto, desesperadamente uma confirmação da promessa divina. Isto foi atendido prontamente, porque o Senhor trata Seus filhos mais ternamente e com maior graça do que qualquer pai terreno.

 

Bibliografia Arthur E. Cundall