GIDEÃO

 

Esboço:

 

I.             Nome e Pano de Fundo Bíblico

II.           Caracterização Geral

III.          Eventos Significativos e Lições da Vida de Gideão

IV.         Gideão no Novo Testamento

 

I. Nome e Pano de Fundo Bíblico

 

Essa palavra vem do hebraico e significa «lenhador» ou «guerreiro». Ele era filho de Joá, o abiezrita, da tribo de Manasses, que residia em Ofra, em Gileade do outro lado do rio Jordão. Ele foi o quinto juiz de Israel, segundo os registros bíblicos. Em Jz 7:32 e 7:1, ele também é chamado Jerubaal, que significa «queBaal se esforce» ou então «que Baal pleiteie». E o nome Jerubesete aparece em II Sm 11:21, um nome que significa «que a vergonha se esforce». Esses nomes eram sobrenomes.

 

II. Caracterização Geral

 

Gideão foi quem libertou os israelitas dos midianitas. O relato aparece no livro de Juízes, capítulos sexto a oitavo. Os midianitas, que eram nômades árabes dos desertos da Síria e da Arábia, tinham invadido a porção central da Palestina. Em um de seus muitos súbitos ataques, eles mataram os irmãos de Gideão, em Tabor. Foi então que Gideão recebeu uma experiência mística, na qual o Anjo do Senhor chamou-o, com o intuito de fazer dele o libertador de Israel. E foi-lhe dito que derrubasse o altar de Baal e erigisse, no lugar do mesmo, um altar dedicado a Yahweh. Por causa desse feito, ele obteve o apodo de Jerubaal (ver III.2). Gideão reuniu uma pequena força (muito menor do que seria necessária para a tarefa), e surpreendeu os midianitas sob a escuridão da noite. E foi capaz de empurrá-los na direção do rio Jordão, capturando e matando a dois dos príncipes midianitas, Orebe e Zeebe. Gideão continuou a perseguição, até às margens do rio Jordão, e ali alcançou aos reis midianitas Zeba e Zalmuna, aos quais prontamente executou.

 

Visto que agora Gideão era um herói militar e realizara um importante serviço, Israel quis fazer dele um rei. Os reis eram úteis especialmente para fins de organização e proteção. Quando Israel exigiu um rei, o propósito deles era, essencialmente, esse. Mas, para surpresa geral, Gideão não estava interessado em tornar-se rei. Só queria os brincos de ouro que havia tomado como parte dos despojos de guerra. Isso lhe foi concedido, e, com esse material, ele fez uma estola sacerdotal, a fim de honrar a Yahweh. A estola era uma espécie de veste sacerdotal. Ver Jz 8:27. Essa estola, provavelmente, foi pendurada em algum lugar conspícuo da cidade de Ofra. Era apenas um memorial; mas os israelitas transformaram-na em um ídolo. Em outras palavras, tornou-se o centro de atração de um santuário religioso, sendo provável que petições e promessas fossem feitas ali, conforme se vê nos modernos santuários idólatras. O texto bíblico denomina isso de «prostituição», conforme podemos ler em Jz 8:27, visto que toda idolatria desvia os homens para longe da adoração ao Senhor, sendo uma infidelidade espiritual. A questão inteira, pois, tornou-se prejudicial para Gideão e seus familiares. Mas, seja como for, o serviço prestado por Gideão, livrando Israel de seus adversários, foi um dos pontos altos na história de Israel, antes da monarquia. Por isso é que, nos livros proféticos, encontramos a expressão «dia dos midianitas», para indicar um evento significativo. Ver Is 9:4. Esse evento tornou-se ainda mais significativo porque aquele foi um acontecimento provocado por Deus, sem a ajuda humana.

 

III. Eventos Significativos e Lições da Vida de Gideão

 

1. Gideão surgiu em cena em um período necessário da história de Israel. Os midianitas e amalequitas, além de outras tribos nômades, tinham invadido e saqueado Israel. Israel ainda não havia centralizado o governo. As tribos eram desunidas e desorganizadas. Cada indivíduo fazia aquilo que melhor lhe agradasse (Jz 21:25). A idolatria era comum. As plantações dos israelitas eram regularmente saquea­das e destruídas, deixando-os passar fome. Em meio a toda essa tribulação, os israelitas clamaram ao Senhor. Gideão, pois, foi a resposta dada por Deus. Ele era o homem da hora e do momento. Cada um de nós tem alguma missão significativa a cumprir, alguma singularidade que pode ser útil para o propósito divino. Ver Ap 2:17.

 

2. A Intervenção Divina. O Anjo do Senhor anunciou a chamada divina a Gideão (Jz 6:11 ss). Gideão pediu um sinal confirmatório de que tivera uma genuína visitação da providência divina, e o Anjo fez com que o alimento posto sobre uma pedra fosse instantaneamente consumido, quando tocou no mesmo com a ponta de seu cajado. Diante disso, Gideão reconheceu que seu visitante era o próprio Anjo do Senhor, e exclamou: «Ai de mim, Senhor Deus, pois vi o Anjo do Senhor face a face» (Jz 6:22). Naturalmente, essa é uma grande lição, e a nossa fé religiosa deveria levar-nos na direção das realidades espirituais, para encará-las de frente. A mera ortodoxia doutrinária jamais satisfaz à alma humana. Precisamos, igualmente, do toque místico em nossas vidas, para que seja criada e mantida uma fé vital.

 

Atendendo à comissão divina, Gideão teve a coragem de derrubar o altar de Baal, derrubando também o bosque que era usado como lugar de adoração a essa divindade pagã. Em lugar de Baal, Gideão levantou um altar a Yahweh, e ali fez oferendas ao Senhor. Foi então que Gideão foi apelidado de Jerubaal, «que Baal pleiteie», isto é, em seu próprio favor, visto que seu altar fora derrubado. O povo queria executar a Gideão pelo que ele tinha feito; mas Joás conseguiu persuadir o povo de que se Baal fosse realmente um deus, ele poderia defender-se sem ajuda humana.

 

3. A Famosa Porção da Eira. O Espírito do Senhor estava com Gideão, mas, a despeito disso, ele não tinha muita certeza. Por isso, requereu um sinal da parte de Deus, para mostrar que, realmente, era intenção de Deus livrar Israel por intermédio dele. Ele era apenas um agricultor, sem qualquer treinamento para a guerra; e, além disso, era temível a tarefa que lhe fora dada, que facilmente poderia custar-lhe a própria vida. Assim, solicitou um sinal divino. E isso nos fornece a história das duas porções de lã que ele deixou ao relento (Jz 6:37 ss). Uma só porção de lã não lhe pareceu suficiente. Apesar da primeira prova ter-lhe sido atendida, ele continuou na dúvida. Mas, quando o sinal lhe foi concedido pela segunda vez, a porção de lã ficou seca e o terreno ao redor ficou úmido com o orvalho, então ele reconheceu que, de fato, Deus estava com ele. Esse relato é familiar para qualquer criança da Escola Dominical; e continua a encantar-nos. Quem de nós já não expôs a sua porção de lã para submeter a teste a vontade de Deus? Algumas vezes, funciona; de outras vezes, não. Mas, seja como for, a providência divina cuida de todos nós, se buscarmos honestamente a vontade de Deus.

 

4. Trabalhando com Pouca Coisa. Gideão ansiava por reunir uma força armada para medir forças com os midianitas. Deus, porém, não precisava dos planos e nem das forças de Gideão. Pelo contrário, diminuiu o Senhor o número dos homens e armas. Todos aqueles que não tivessem coragem de lutar, podiam retirar-se. Portanto, nada menos de vinte e dois mil homens o fizeram, e somente dez mil restaram. Mas isso ainda era mais do que Deus precisava, embora Gideão precisasse deles desesperadamente. Mas um teste, para ver quem beberia água à beira do rio sem desviar a vista para a frente, permitiu que somente trezentos homens armados continuassem. Todos os que beberam água como cães, lambendo-a com a língua, foram enviados para casa. No entanto, os midianitas e os amalequitas formavam um grande exército, como se fossem uma praga de gafanhotos, e os seus camelos não tinham número. Eram como a areia do mar, por causa de sua grande multidão (Jz 7:12). Gideão, em meio aos preparativos para a batalha, foi encorajado por uma experiência mística, uma visita noturna do Anjo do Senhor (Jz 7:9 ss). Nessa visão, foram dadas a Gideão instruções vitais. Em seguida, Gideão conseguiu ouvir um sonho que um dos soldados inimigos tivera, e que predizia a

vitória dos israelitas (Jz 7:13,14). Gideão acreditou no sonho, pois compreendeu que se tratava de um sinal que Deus permitira que lhe fosse dado. E isso tudo muito o encorajou.

 

Foi criado o notável estratagema dos cântaros e das tochas. Cada um dos trezentos homens de Gideão re­cebeu uma trombeta, cântaros vazios e tochas dentro dos cântaros. Aproximando-se do acampamento do inimigo no escuro, quando os soldados midianitas estavam dormindo, primeiramente partiram os cân­taros, produzindo grande ruído. Então gritaram juntos: «Pelo Senhor e por Gideão!» As tochas acesas davam a impressão que, por detrás dos trezentos homens, havia um grande exército pronto para atacar. O resultado do estratagema é que o terror apossou-se dos soldados midianitas. Muitos fugiram em desabalada confusão; e outros, em estado de pânico, lançaram-se contra as gargantas de seus colegas. O resultado disso foi uma grande matança entre os midianitas, com completa derrota do inimigo. E vários dos líderes principais estavam entre os mortos.

 

A lição é óbvia; e, para nós, vital, em muitos casos. Deus pode fazer muita coisa contando com bem pouco, podendo obter vitórias inesperadas. O relato inteiro representa uma intervenção divina, em que o homem fez a sua pequena parte, parte essa que, por si mesma, teria sido insuficiente. Notemos que todo o ocorrido foi preparado por sinais e comunicações espirituais. O sétimo capitulo do livro de Juízes conta a história em sua inteireza.

 

5. A Estola: Sinal e Idolatria. Temos comentado a esse respeito na segunda seção, intitulada Caracteri­zação Geral. Vemos ali como uma coisa boa pode ser distorcida ao ponto de levar um homem piedoso a cair numa armadilha, através da astúcia e distorção mental de outras pessoas.

 

6. Gideão Rejeita a Glória Terrena. Muitos militares tornaram-se os grandes líderes de seus países. As pessoas admiram o poder, a decisão e as glórias obtidas em campo de batalha. Gideão, entretanto, foi uma exceção a isso, tendo rejeitado a idéia de tornar-se rei de Israel. O povo de Israel precisava de organização e de proteção (Saul, finalmente, foi escolhido como rei, a fim de prover essas coisas à nação), mas Gideão sabia que o trono não era o lugar que lhe competia. Na determinação da vontade de Deus, algumas vezes é importante sabermos o que precisa deixar de ser feito, mesmo quando pareça lógico realizar isto ou aquilo. Ver Jz 8:22 ss.

 

7. Um Período de Paz. A vitória sobre os midianitas trouxe um período de paz e tranqüilidade para Israel. Gideão nunca mais precisou fazer o papel de guerreiro. Antes, encontramos Gideão vivendo entre seus muitos filhos, nada menos de setenta, visto que, conforme dizem as Escrituras, ele «...tinha muitas mulheres» (Jz 8:30). O notório Abimeleque, foi um desses filhos de Gideão; e acabou entrando pelo mau caminho. Por ocasião da morte de Gideão, Abimeleque assassinou a todos os seus irmãos, com a única exceção do mais jovem, Jotão, que conseguira ocultar-se. Ver Jz 8:28-32 e cap. 9. Gideão, entretanto, viveu até avançada idade; e, quando faleceu, foi sepultado no sepulcro de Joás, seu pai, em Ofra, sua cidade natal.

 

IV. Gideão no Novo Testamento

 

No Novo Testamento, Gideão obtém um lugar de honra na lista dos heróis, no décimo primeiro capítulo da epístola aos Hebreus (vs. 32). Ele foi um dos que subjugaram um reino por meio da fé. A expressão «dia dos midianitas» parece ter-se tornado proverbial para indicar alguma libertação divina, sem a ajuda humana (ver Is 9:4). Isso é algo que precisamos relembrar. Todos nós podemos ter o nosso próprio «dia dos midianitas», quando o poder de Deus faz alguma coisa acontecer que está acima de nossas forças. Desse modo, tal como no caso de Gideão, Deus obtém para si mesmo toda a glória, e nós temos a oportunidade de nos maravilharmos diante de sua graça.

 

Bibliografia AM G IB YAD Z